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18 fevereiro 2012

Álbum de Estimação: Alan Price - "O Lucky Man!" (1973)


Começo por dizer-vos que este disco está há apenas pouco tempo na minha própria categoria de discos de estimação. Confesso que até há bem pouco tempo não conhecia o sujeito em questão nem tão pouco o filme que originou esta banda sonora. Mas tudo tem um princípio e este surge com a dica de um amigo, Toix da Silva de seu nome, fotógrafo de profissão, exilado em terras de ultra-mar mas que nunca descurou o bom gosto ao longo dos anos.
Foi-me, então, recomendado o visionamento de "um dos filmes mais marados que já vi na vida". "Tem uma banda sonora do caraças, parece-me que é dos Emerson, Lake and Palmer e é com o tipo do Laranja Mecânica". Bastou-me estas poucas palavras para me comprar.
De difícil achamento em lojas da especialidade, fui pelas vias menos legais e consegui tê-lo em minha posse. Visualizei-o há cerca de dois meses e posso dizer que é daqueles filmes que ainda hoje em dia faz a diferença. Um espécie de peça teatral surreal, intervalada aqui e ali com intervenções de sessões de estúdio de Alan Price como se fosse dele dependesse toda a verdade absoluta do mundo.
Ora e quem é este Alan Price? Bem, a sua carreira começou como teclista dos Animals, mas cedo abandonou essa ocupação e atirou-se numa carreira a solo, passando sempre meio despercebido até ter sido o mentor desta banda sonora. São apenas 25 minutos distribuídos por 10 músicas onde o piano e/ou orgão são a força dominante e cada uma, individualmente, relata as peripécias do nosso heroí, Malcom Mcdowell, antigo compinska, aqui um vendedor ambulante de café. Um tipo super motivado em ser o melhor vendedor de sempre, passando por provas verdadeiramente e literalmente surreais. Um filme que hoje em dia, provavelmente, não teria saído da mesa de rascunho dada a sua complexidade e absurdo. 
Para (re)descobrir, tanto o filme como a banda sonora. Por ora, podem começar com a última. Boa viagem...

PS: Toix, a banda sonora não era dos Emerson, Lake and Palmer como podes constatar mas, em tua defesa, fica a informação que a dita banda progressiva também tem uma música com esse nome.



O Lucky man by Frederico Figueiredo on Grooveshark

05 julho 2011

Álbum No Ouvido: Osibisa - "Osibisa" (1971)

Na minha senda de desbravar terreno em relação à música africana, especialmente nos ritmos jazzísticos mesclados com rock, funk ou soul, algo na onda do afro-beat, onde é rei Fela Kuti, descobri uma pérola escondida no Gana dos anos 70. Mais um agradecimento ao mundo internet de hoje por permitir descobrir discos que nem no mercado se encontram. Mas vamos ao que realmente nos trouxe aqui, os Osibisa.
Criados pela mente de Teddy Osei, saxofonista, baterista e compositor ganês, tendo estudado música em Londres e daí trouxe alguns instrumentos, ditos ocidentais, para criar um estilo muito próprio. Coisa que muitos africanos fizeram no final dos anos sessenta e inícios dos sessenta, incluindo Fela Kuti. O que parece incrível é o facto de os africanos pegarem em instrumentos ditos de "brancos" e quase instantaneamente criarem algo que parecia impossível. O Jazz é o exemplo disso. Aqui, o Jazz volta à terra onde as suas bases nasceram. Dá-se o circulo completo. Os sons tribais fundem-se com a anarquismo do jazz, pincelados aqui e ali com guitarradas ao bom estilo de Santana, pautados por uma batida só ao nível de quem tem o sangue bastante quente, seja o original africano ou o viajado caribenho. Este não é apenas um disco "estranho" ou world music, é, sim, música numa das suas melhores formas e expressões.

30 junho 2011

Álbum de Estimação: Badfinger - "No Dice" (1970)

A razão deste No Dice dos Badfinger estar aqui não é propriamente por este ser um dos meus discos preferidos. Nem sequer por a banda ser uma das que mais apraz. Nem por ser um disco que marcou a História da música. A verdadeira razão razão deste disco figurar desta rubrica prende-se pelo facto de ser o melhor disco desta banda, para muitos desconhecida, que teve um percurso de vida bastante acidentado, sendo trágico a palavra certa. Mas já lá vamos.  Tudo começou em 1963 em Swansea, País de Gales, liderados Pete Ham, vocalista e guitarrista principal. Por homenagem aos Hollies, passaram a chamar-se The Iveys, e começaram a abrir para bandas como Yardbirds, Spencer Davis Group ou Moody Blues. Porém, não obstante, serem considerados bons músicos, faltava-lhes qualquer coisa. Esse bocadinho a mais veio com a ajuda de um manager, Bill Collins, que os pôs em contacto com Ray Davies dos Kinks que puxou uns cordelinhos para abrir horizontes para a banda galesa. Collins puxou também pela banda, obrigando-os a criar músicas originais. É aqui que se começa a dar a mudança na banda e o início de uma história agri-doce. Em 1968, após terem sobrevivido milagrosamente a um acidente de viação, os Iveys como que agradeceram a benesse e começaram a escrever um largo número de canções, melhorando a sua qualidade a olhos vistos, sendo bem aceites pelo público em concertos. Esta boa onda coincidiu com alguns factores. Os Beatles tinham acabado de lançar a sua própria editora, "Apple", e queriam muito mostrar ao mundo que conseguiam encontrar as novas coqueluches, não só da música, mas da arte em geral. Acontece que Collins, o empresário, era amigo de Mal Evans, assistente da Apple e amigo pessoal dos Beatles. O "caldinho" foi feito e os Iveys gravaram um disco pela Apple. Ora, as expectativas eram altas mas o disco não teve aceitação nenhuma. Parecendo esquecidos na prateleira da Apple, os Iveys receberam com bastante surpresa a notícia que o próprio Paul Mccartney queria que eles fizessem a banda sonora para o filme "The Magic Christian" com Peter Sellers e Ringo Starr, e que gravassem um original de McCartney, "Come and Get It". A sorte batia à porta outra vez dos Iveys que, com a saída de um dos seus elementos, decidiam mudar o nome da banda para Badfinger. Acabaram por não fazer a banda sonora do filme propriamente dita, mas o disco, chamar-se-ia, ironicamente, Magic Christian Music e "Come and Get It" levou ao ponto mais alto da banda. Parecia que tinham chegado finalmente onde ambicionavam. Fizeram parte das gravações do primeiro disco de George Harrison, marcando presença, inclusive, nos concertos de ajuda para o Bangladesh, referidos como "uma banda Apple". Em 1970 lançam o seu "disco". Doze músicas tipicamente pop/rock. Abrindo a rasgar com "I Can't Take It", continuando em "Love Me Do" e "No Matter What", passando pelas baladas em "I Don't Mind", "Midnight Caller" ou a mítica "Without You", tornada famosa nos anos 90 por, imagine-se, Mariah Carey. É um disco que não envergonha ninguém, acertando na mouche em todos os pontos certos do pop/rock. A partir daqui foi sempre a descer. Os discos começaram a não vender, os Beatles separaram-se, deixando a Apple de pantanas, deixando os Badfinger, sempre vistos como uma banda "Apple", à deriva por sua conta e risco. A qualidade começou a baixar, os discos começaram a não vender, as lutas internas a aumentar. Isto bateu forte em Pete Ham, tanto que decidiu acabar com a sua vida em 1975. Os Badfinger tentaram continuar mas em vão. A magia inicial tinha-se ido. Restou o seu legado, aqui no seu mais alto pico com No Dice.

02 junho 2011

Álbum de Estimação: Television - "Marquee Moon" (1977)

Vou começar por uma referência a um filme - em "Juno", a dado momento, discute-se qual o melhor ano da música. Juno, a personagem principal, mostra como argumentos para defender 1977 os Stooges, a Patti Smith e os Runaways. Mas na minha opinião, se ela queria mesmo defender tanto esse ano era dos Television que tinha que ter falado. Dos Television e especialmente deste Marquee Moon, álbum que hoje, à distância de 34 anos sinto um pouco perdido no esquecimento. Injustamente no esquecimento, injustamente metido nas prateleiras de descontos numa qualquer grande loja de música. Recordemo-nos portanto do caminho desbravado por Tom Verlaine, mentor da banda, no que respeita ao movimento punk - foi ele que convenceu Hilly Kristal, dono dum então desconhecido clube de country, blue grass e blues (para bom entendedor meia palavra basta...) a aceitar bandas rock a tocarem no seu estabelecimento. Corria o ano de 1974. O resto é história da música, nível básico - grupos como Ramones, Blondie, Talking Heads, a própria Patti Smith, saíram desse antro cavernoso para o mundo.
Um aspecto que me intriga bastante é o facto de que, hoje, os Television são quase sempre rotulados como uma banda pós-punk. Agora expliquem-me, como pode uma banda que começou a dar concertos em 1974 e que lançou este álbum em 1977 ser pós-punk? Algo de estranho se passa no mundo dos rótulos (diria que sempre foi assim e a rotulagem de pouco ou nada serve, mas...). Agora uma coisa é certa - a música dos Television é de uma complexidade que em nada tem a ver com os 3 acordes, um refrão, 2 minutos e está feito. Basta pensar que "Marquee Moon", a música, teve de ser cortada para 9:58 minutos para caber no LP. Só com a re-edição em CD de 2003 nos chegou a versão completa com os seus 10:40. Basta pensar nas letras de um Tom Verlaine, que nascido Thomas Miller foi buscar o seu nome artístico ao poeta francês Paul Verlaine. Basta pensar nas variações de ritmo dentro das músicas, na utilização de algumas escalas jazzísticas, no contraste das guitarras ritmo e solo, força motora do álbum. E foi juntando todos estes ingredientes que se fez história.

18 novembro 2010

Álbum de Estimação: Jerry Garcia - "Garcia" (1972)

Estou a cozer caranguejos vivos, oiço-os a espernearem-se dentro da panela.
     “tenho que pôr música para não me sentir um selvagem”, penso.
ligo o ipod – sim, sou rico – e o destino ou a mão leva-me a um dos álbuns que mais tenho ouvido nos últimos dois anos. leva folk leva blues leva rock quase que leva jazz é antigo é contemporâneo é avant-garde é psicadélico é alegre e triste e doente e é o primeiro a solo.

lembram-se do roy? que vivia comigo e que espancava a namorada e que me apresentou ao warren zevon? foi a 87 concertos de grateful dead e conhece quem tenha ido a 200. era como uma espécie de modo de vida lá pela terra dos hamburgueres nos anos 70, 80, 90. um dia pus este álbum a tocar e ele saiu disparado da casa de banho, espero que com o assunto terminado. abraçou-me e começou a cantar

Since it costs a lot to win, and even more to lose,
You and me bound to spend some time wond'rin' what to choose.
Goes to show, you don't ever know,
Watch each card you play and play it slow,
Wait until that deal come round,
Don't you let that deal go down, no, no.

e então no dia em que me disse
      “never trust’em ico, never trust a single woman in this goddamn world”
e se foi embora com o balde dos pickles debaixo do braço, eu pus no ar esta música e ele novamente se riu e novamente me abraçou e novamente cantou.

conclusão:
até com pessoas asquerosas é possível criar uma ligação 
(desde que a música seja boa).


P.S.: grooveshark? morreu? partilha-se na mesma.

16 agosto 2010

Bill Cobham – Spectrum (1973)

Em meados de 1973, após a dissolução da “Mahavishnu Orchestra”, o baterista Billy Cobham lançava-se num desafio a solo. Para tal reuniu nos antigos estúdios de Hendrix “Electric Ladyland” em Nova Iorque uma equipa de “ases” onde pontificavam o seu antigo teclista na Mahvishnu e futuro autor do hit “Miami Vice Theme”, Jan Hammer; o reputado baixista de estúdio Lee Sklar e um então jovem e desconhecido guitarrista do Iowa: Mr. Tommy Bolin!
Juntos, formavam um quarteto imbatível. A química entre os músicos foi tão “especial” que apenas precisaram de dois dias em estúdio (de 14 a 16 de Maio) para gravar um dos ícones do Jazz e em particular do estilo: “Fusão”.
Inspirados pelos talentos de cada um, o grupo liderado por Cobham encaixava o seu “virtuosismo estratosférico” como “peças de um automóvel de alta cilindrada”. Um trabalho de elevado calibre demonstrado em peças como o ultra-rápido “Quadrant 4”. Um tema com uma troca impressionante de solos entre Hammer e Bolin, onde a cumplicidade musical é tanta que muitas vezes não se sabe: o que é a guitarra ou o que são os teclados!
Facto de interesse é que Bolin era o único que não sabia ler nas pautas. Mas o que “faltava em teoria musical”, era recompensado pelo facto de o jovem guitarrista saber tocar os seus harpejos e solos como um Jimi Hendrix disfarçado de John McLaughlin!
A desbunda ou insanidade sonora continua ao som de “Searching for the Right Door”, onde ao quarteto original são acrescentados os talentos da secção de metais composta por Joe Farrell e Jimmy Owens. Uma obra que não está distante das pegadas de Miles Davis de “In a Silent Way”.
Depois de um curto solo de bateria apelidado de “Anxiety”, “os quatro ases” são chamados para uma nova demonstração de força em “Taurian Matador”. Um tema que começa de um modo Funky, mas que depressa passa para (as capazes) mãos quentes de Bolin que entrega aqui alguns dos melhores e mais furiosos solos da sua curta carreira.
Lá mais para diante aparece o longo “Stratus”. O tema que todos os apreciadores de Massive Attack devem conhecer por servir de base (samplerzada) ao tema “Safe from Harm” pertencente ao disco clássico da banda de Bristol: “Blue Lines”. Uma curiosidade que deve ter rendido umas “boas coroas” a Cobham, assim como ressurgimento do tema no jogo de computador: “Grand Theft IV”! Mais uma vez, Bolin não deixa dos seus créditos por mãos alheias e faz deste tema uma autêntica: “festa de efeitos de pedaleira”!
A música mais fora o contexto acaba por ser o melancólico “To the Women of My Life / Le Lis”. A única em que os “ases” não tocam e onde Cobham prefere imprimir uma toada mais acústica e tradicional ao arranjo.
A terminar surge “Red Baron”. Um tema cool, descontraído ideal para se absorver nesta estação balnear. Uma espécie de “Steely Dan” sem os habituais vocais de Donald Fagen e que acaba por conquistar.
Em suma, se não fosse este disco, David Coverdale nunca teria andado desesperado por arranjar um guitarrista capaz de substituir Ritchie Blackmore nos Deep Purple. Se não fosse “Spectrum” talvez Jeff Beck nunca se teria aventurado por ambientes mais Jazz como nos clássicos “Blow by Blow” ou “Wired”. Sem ele, talvez gerações guitarristas e instrumentistas nunca se tivessem interessado pelo Jazz. Ou até mesmo os Massive Attack não fossem “chamados para este filme”.
O que interessa é que para quem gosta de música pela música: “Spectrum” é um tesouro precioso na escola do Rock puramente instrumental!

23 julho 2010

Stevie Wonder - Innervisions (1973)

Aos 22 anos de idade e depois da edição de “Talking Book” (em 1972), se o autor de “Superstition” não tivesse feito mais nada na vida, decerto que já mereceria o seu lugar na história! Nesta altura do campeonato…a Funk, a Soul, o Reggae, o Rock, a Pop e o Jazz não eram meros lugares comuns ou simples linguagens musicais, eles eram “a magia” de Stevie Wonder!
Artista com contrato discográfico desde os 12 anos, “Little Stevie” (como era conhecido) era a par dos Jacksons uma das caras mais famosas da lendária casa da soul, a “Motown”. Cedo se destacou como um prodígio quer da interpretação, quer da composição. Mas ao inicio da década de 70, Stevie deixava de ser o “little” e apostou “crescer” em toda a plenitude. Renegociou o seu contrato com a Motown (algo inédito e ousado à época) e passou ter 100% controlo criativo.

Os resultados não se fizeram por esperar e em 1971 editou “Musico of My Mind”, um disco que não foi um sucesso comercial fora do então denominado “Black Album Charts”, mas que dava algumas primeiras pistas (brilhantes) do que viria a seguir. Cada vez mais ambicioso, editou no ano seguinte o clássico: “Talking Book”. Aliado a uma digressão (a fazer as primeiras partes) dos Rolling Stones fez com que Wonder conquistasse pela primeira vez o público Rock. O que equivale a dizer: os brancos!

Wonder não só quebrava as barreiras raciais (algo que Jimi Hendrix tinha tentado, mas nunca tinha conseguido), como acabava com o mito de que os grupos da Motown, ou “R n B” nunca conseguiriam sair do tradicional circuito da comunidade negra.

Foi neste ambiente favorável que começaram os trabalhos em “Innervisions”. Um disco que levaria ainda mais longe o nome de Stevie Wonder. Uma obra ainda mais equilibrada que a sua predecessora e que se escuta do principio ao fim: sem mácula! Vê-se que Mr. Wonder continuava em plena progressão pela sua “montanha musical”. Há aqui uma relevância no controlo e “masterização” dos sintetizadores (“Too High”) e uma refinação apurada do som de estúdio (“Visions”). Inovações tecnológicas que nem aos olhos dele escapavam…

Mas é no capítulo das letras onde se nota mais a mudança de Wonder. É aqui os seus primeiros trabalhos sobre os problemas sociais da vida quotidiana (“Jesus Children of America”), sobretudo da descriminação racial (a mini-ópera Funk, “Living for the City”). Neste rol de críticas há também um ataque satírico a Richard Nixon , com o excelente “He's Misstra Know-It-All”.

Mas não se julgue que “Innervisions” é eminentemente político. Há aqui grandes canções descomprometedoras como o Funk-Rock de “Higher Ground”; a balda soul de “Golden Lady” ou o quase latino “Don´t You Worry ´bout a Thing”.

Editado a 3 de Agosto de 73, o disco ficou selado por enorme sucesso comercial. Pena foi que passados três dias, Stevie Wonder tivesse envolvido num aparatoso desastre de automóvel que quase lhe ia ceifando a vida. Além de ter ficado em coma mais de 10 dias, o músico perdeu parte do sentido do olfacto e temporariamente o paladar. Nada que o demovesse na sua cruzada musical. Após alguns (penosos) meses de recuperação voltou aos palcos e aos estúdios. Esta é uma verdadeira saga de resistência e espírito de sacrifício. Com ele vale tudo: pela música!

21 julho 2010

T. Rex – Electric Warrior (1971)

Em 1971, nada podia correr mal para o mercúrio Marc Bolan. Com a saída deste “Electric Warrior”, os T-Rex eram considerados o maior grupo do Reino Unido, pelo menos no que tocava ao número de presenças no top de singles. Tudo graças às suas mini-sinfonias pop talhadas à medida de sonhos adolescentes imberbes e a imagem decadente, própria das estrelas do então denominado: “Glam Rock”!


Depois de alguns anos na sombra com os Tyrannosaurus Rex, (uma banda simpática que praticava um Folk Psicadélico razoável, mas que não ia a lado nenhum), Bolan fartou-se de “dar música” aos hippies em álbuns experimentais como “My People Were Fair and Had Sky in Their Hair... But Now They're Content to Wear Stars on Their Brows” ou “Prophets, Seers & Sages: The Angels of the Ages”, para se dedicar em pleno ao Rock n Roll.

Juntamente com o percussionista Mickey Finn, Bolan “electrificou” a banda, acrescentou-lhe uma secção rítmica (Steve Currie e Bill Legend), encurtou-lhe o nome e fez à “estrada”!

Graças ao single “Ride a White Swan”, editado em meados de 70, os T-Rex passaram de uma mera banda underground para “algo” do qual os Beatles andaram a fugir durante toda a sua existência: da histeria das massas!

Ao contrário dos Fab, os T-Rex estenderam os braços e receberam de “peito aberto”a sua nova amiga:“Fama”! Ainda sem a concorrência de Bowie (o fenómeno Ziggy ainda estava a um ano de distãncia), Bolan não tinha praticamente concorrência quando saiu “Electric Warrior”.

Produzido pelo reputado Tony Visconti (que mais tarde também iria desempenhar um papel na carreira de Bowie), “Warrior” é acima de tudo uma colecção de singles com algumas ideias eficazes á mistura. Dele fazem parte uma boa quota dos grandes sucessos de Bolan. Cá estão: a etérea balada “Cosmic Dancer”; o boogie-woogie de “Jeepster” e o inescapável “Get it On (Bang a Gong)”. Este último, o único sucesso que Bolan teve no lado de lá do Atlântico. Ainda hoje quando se fala nos T-Rex, os americanos têm mais ou menos este tipo de reacção: “T-Rex não conheço? ahhh é o tipo do Bang a Gong!”

Para mal dos pecados de Bolan e com a sua Inglaterra “demasiado pequena para os seus tacões”, os T-Rex nunca passaram da “cepa torta” no apetecível mercado do Tio Sam. Facto que contribuiu (em muito) para o desgaste rápido dos T-Rex, que em poucos anos viram a sua carreira e os êxitos deslizarem água abaixo.

05 junho 2010

Fairfield Parlour - From Home To Home (1970)

Chamem-me saudosista, chamem-me nostálgico, chamem-me a merda que quiserem. Eu nunca hei de gostar dos Yuppies que começaram a aparecer a partir dos anos 80. Sinceramente, não há saco para os seus maneirismos musicais. Sim, maneirismos. Eles não gostam verdadeiramente de música. Eles apenas receberam o que lhes era dado sem sequer questionar. Era tudo bom? Não. Era tudo mais ou menos bom? Não. One Hit Wonders desde cedo sempre houve mas os anos 80 fizeram isso tão especial que até começou a ser respeitado. Para essa geração, claro. Por isso, hoje em dia temos rádios tipo M80 (O melhor dos anos 70, 80 e 90). Que risada... Mas eu nem sequer quero saber disso. Os 80 não foram maus mas hoje em dia são uma praga que parece não querer desaperecer. E fala-se dos 80s como se da melhor década se tratasse a nível musical... E, se alguém referir bandas dos anos 60, a reacção destes Yuppies é de estranheza. Como se o que fosse feito antes fosse de muito má qualidade. A verdade é só uma. Os anos 80, por muito bom que tivessem trazido, mataram o cinema e a música como artes mais ou menos puras. As fórmulas começaram a apoderar-se de todos. A inocência foi-se perdendo aos poucos...
Daí, ao ouvir discos como este dos Fairfield Parlour, renascidos das cinzas dos Kaleidoscope [UK], o que me vem à mente é: Eu tenho muito mais a ver com os meus pais do que tenho a ver com qualquer Yuppie dos anos 80. E que continuem a fazer as vossas festinhas dos anos 80 durante 50 anos. Pois serão sempre populares pois os acéfalos irão sempre acompanhar...

24 maio 2010

Black Sabbath - Black Sabbath (1970)

Tudo tem um inicio. E se o género Heavy (“Bloody”) Metal tem um “inicio”, a sua “Fonte” vem directamente daqui. Do aço, do fogo, da poluição, das fábricas, dos céus cinzentos, da falta de melhores oportunidades, da frustração, da raiva das ruas de Birmingham…
Quatro jovens “operários”, fizeram-se à luta e fundaram os Earth em 1968, mais tarde conhecidos como Black Sabbath, após o baixista Geezer Butler ter visto no cinema um poster do filme de terror “Black Sabbath” com Boris Karloff. A ideia era, se as pessoas pagavam para se assustarem com filmes de terror…porque não fazer uma banda de Rock que tocasse música assustadora.
Após algumas experiências mal (ou bem, depende o ponto de vista se gosta de ver sombras escuras a passarem junto à cama durante a noite) sucedidas com o “Oculto”, os Sabbath gravaram o disco de estreia em apenas dois dias. O suficiente para terem o seu nome escrito na história da popular do século XX! È certo que já havia o som Hard-Rock dos Led Zeppelin, os solos histriónicos de Jimi Hendrix e que os americanos Blue Cheer ou os ingleses Edgar Broughton Band se aventuravam a praticar um som pré-industrial e até mesmo “stoner”, mas foram os Black Sabbath (neste capitulo) os primeiros a por os pés na “Lua de Metal”!
O grupo ia mais longe não só pela música, mas também pelo ambiente que a rodeava. Nunca as bruxas, os feiticeiros, a Igreja de Satã (de Anton Lavey) e mais o “diabo a quatro” tinham tido “algo” que pusesse em notas de música o imaginário do Oculto e da Magia Negra. Aliás nota-se no tema homónimo que aquele “riff”, que ficou conhecido como “do Diabo” e inventado pelo genial Tony Iommi faria “assustar” muito boa gente.
Quanto aos outros Sabbath, temos aqui um grande baterista capaz de rivalizar com o Zeppelin, John Bonham: Bill Ward. E também um jovem Ozzy Osbourne, ainda sem a voz esganiçada e que cantava todos os temas que nem um “Exorcista” a tentar expurgar as almas do Inferno!
Alias, desde cedo que Ozzy avisava que o objectivo do grupo era alertar contra os males de Satã e não defende-los. No entanto, os media e uma boa parte da indústria não entendia assim. Nos E.U.A., cada actuação do grupo era rodeada de fortes medidas de segurança dada a perseguição de alguns grupos Cristãos (maioritariamente Sulistas) mais fundamentalistas. Uma toada que se iria repetir ao longo de toda a história do Heavy Metal, desde os Iron Maiden, passando pelos Kiss, Motley Crue, até aos Judas Priest. Numa América deprimida pelo Vietname e à espera de um “Watergate”, este estilo pesado vinha mesmo a calhar.
Quanto ao disco de origem à maioria dos 300 estilos reconhecidos como ” Metal”, há a destacar além do tema título, o bluesy “The Wizard” (com uma excelente harmónica de Ozzy); o pesado “NIB” (que não quer dizer “Nativity in Black” como muitos pensam, mas que se refere ao estilo de barba usada por Ward) e uma curiosa cover de um grupo americano desconhecido – Crow – chamada “Evil Woman”.
Destaque para a foto da capa da autoria do artista “Keef” de uma casa situada em Mapledurham, ao pé do Rio Tamisa no condado de Oxfordshire. Até hoje ninguém sabe que é a figura de negro que está na capa. Estranho, mas nada fora do normal no mundo do negro Heavy Metal. O que fica para a história é que tudo isto foi como o ”canto do galo” do “Monstro”. Que por muito que queiram abater, ainda é o maior género sobrevivente da música do Rock...

22 maio 2010

Caravan – In The Land of The Grey and Pink (1971)

Quem disse que o Rock Progressivo não era capaz de soar melodiosamente e com alguma sensibilidade Pop, de certeza que nunca ouviu “In the Land of the Grey and Pink” dos Caravan. Uma obra imaculada que misturou na perfeição as tendências vanguardistas da herança do Psicadelismo, com algumas das fórmulas Pop (surrealista) desenvolvidas na década anterior por “gurus” como John Lennon, Brian Wilson ou Syd Barrett.
Talvez por virem da mais sossegada e acolhedora Canterbury, no sudeste de Inglaterra, os Caravan eram muito menos espalhafatosos que muitos dos grupos que provinham de Londres (Yes, King Crimson ou Emerson, Lake & Palmer). Formados “das cinzas” dos extintos Wilde Flowers em 1968 (que a um certo ponto contaram com os serviços de Robert Wyatt na voz além de outros futuros membros dos Soft Machine), os Caravan eram constituídos por Pye Hastings (guitarra e voz), Richard Coughlan (bateria) e os primos Dave (teclas) e Richard Sinclair (baixo e voz).
Apesar de nunca deixarem de ser “Progressivos”, a sua postura “campestre” transparecia nos discos uma calmaria e um sentido de amenidade que ainda hoje se conseguem suportar facilmente. Ou seja, os Caravan bem podiam ser a banda de Rock Sinfónico mais suportável pelos anti-fãs deste género de música que é no fundo uma mistura do Rock, Jazz e Folk Inglesa regado com algumas sensibilidades Pop que fazem de “In the Land of the Grey and Pink” algo muito mágico, cósmico e especial.
Se tiverem paciência, façam a experiência: oiçam este disco três vezes seguidas. Acredito que se conseguirem fazer isso, é sinal que ele vai ocupar um lagar muito especial na vossa colecção.
E tirando a longa suite “Nine Feet Undewrground”, o resto é muito fácil de escutar. E haverá melhor “single” que “Golf Girl” para começar um disco? Um tema que mais parece que a Alice no País das Maravilhas se transformou em ”Hippie” e foi jogar golfe com os jornalistas da BBC. Tudo muito “very british”…
Segue-se “Winter Wine” uma canção gentil e muito ao estilo dos contemporâneos Genesis, em que se vislumbra uma pareceria entre as teclas de Dave Sinclair e os ambientes mais acústicos criados pela guitarra de Hastings. Mas os Caravan não se esgotavam em devaneios acústicos ou jazzísticos. “Love You to Love You (and Tonight Pigs Might Fly)” poderia ter sido um ”hit-single” se tivesse sido criado por outro tipo de banda.
Mas os Caravan nunca foram o género de querem o sucesso a qualquer preço, álbuns comerciais ou groupies a adula-los. Aliás objectivos muito em comuns a qualquer banda do período áureo do “Prog-Rock” (1969 a 1976).
O épico “Nine Feet Underground” é a prova disso mesmo. Ficava bem em qualquer disco da época ter uma suite de vinte e tal minutos, dividida em oito partes e com muitos solos e secções musicais diferentes. Mas afinal de contas em 1971 tudo era possível. Nem as editoras mandavam nos grupos, nem estes se submetias às regras do mercado. Era “música pela música”. Algo audacioso e corajoso e que hoje só muito poucos conseguem almejar.
“In the Land of the Grey and Poink” é não só o melhor disco de sempre dos Caravan, como um dos melhores discos de Rock Sinfónico. E um dos poucos (do período) que funciona sempre como um bom vinho de “reserva especial”…quanto mais velho melhor!

21 maio 2010

The Velvet Underground - Loaded (1970)

É ou não uma sensação óptima quando no meio de um bom filme, aparece como banda sonora uma daquelas músicas de um daqueles álbuns que já não se ouve há imenso tempo e que, do nada, voltamos a ficar completamente viciados nele? É, claro! Isso aconteceu-me hoje enquanto via o "Away We Go" do Sam Mendes. Filme meio indie com boas interpretações e com uma banda sonora impecável. De Dylan a Harrison, passando pelos Velvet Underground com "Oh! Sweet Nuthin'", a qual me deixou com um ligeiro arrepio ao ouvi-la... Pois bem, pôs-me a ouvir outra vez o Loaded, um daqueles discos que se ouve uma vez e parece que foi nosso sempre. Tem a alegre "Who Loves the Sun", a historieca em "Sweet Jane", o significado de "Rock and Roll" e ainda há espaço para o "mellow", como alguém lhe chamou hoje, em "New Age", "I Found A Reason" e "Oh! Sweet Nuthin'". Os Velvet tiveram um período muito curto de existência, porém nenhum disco seu foi em vão. Mesmo a simplicidade com que faziam música de nada tinha simples. Há uns dias li no ípsilon que o Rock nunca foi adulto até aos National. Pois bem, há gente que precisa de tomar lições de história de música...

06 maio 2010

Fleetwood Mac - Rumours (1977)

Após terem passado metade da década de 70 (musicalmente) à deriva com inúmeras mudanças de formação, discos menores e uma “pedra no sapato” chamada “Peter Green”, os Fleetwood Mac foram apanhados de surpresa pelo sucesso do seu álbum homónimo de 1975.
Já com a dupla formada por Stevie Nicks / Lindsay Buckingham, que não só tinham as canções como também emprestavam ao grupo uma imagem mais “americanizada” e de “cara lavada”, o grupo conquistava um monstruoso sucesso que tantos anos tinham levado a alcançar após a saída do genial guitarrista Peter Green.
O problema é que os próprios Fleetwood Mac não estavam à espera que esse “estrondoso colosso” lhes virasse as suas vidas pessoais ao contrário. Buckingham e Nicks terminavam o seu namoro de anos; o casamento de Christine e John Mcvie também ia pelo cano abaixo e Mick Fleetwood, que para além de ter alimentado brevemente um relacionamento secreto com Nicks, descobriu que a sua mulher o andava a enganar com o seu melhor amigo.
Com as suas próprias vidas emocionalmente desfeitas, mais parecia que o destino da banda iria se desmoronar após a digressão de 1975/76. No entanto a companhia discográfica não se apercebendo do mau ambiente exigiu que a banda voltasse ao estúdio para gravar o sucessor de “Fleetwood Mac”.
Ainda ninguém sabe (nem eles) onde foram arranjar forças para se “olharem nos olhos”, “cara a cara”. O que fica para história é que o material que a banda gravou durante quase um ano deu para ser um dos maiores monumentos da música californiana do século XX. Um clássico não só dos anos 70, como da história do Rock.
No entanto, a inspiração não veio sem o seu preço. Foram centenas de horas de gravação divididas entre Miami, Los Angeles e Sausalito em que os Mac berraram, choraram, fizeram a guerra e a paz, embebedaram-se, drogaram-se e levaram os dois produtores Ken Cailllat e Richard Dashut aos limites da sanidade. Inclusive há um episódio em que as “masters” foram apagadas e as gravações tiveram de começar do zero. Para grande tristeza (seguida de deboche) de todos…
Musicalmente falando o disco continua na linha do seu predecessor: um rock descontraído e tipicamente californiano, misturado com muita sensibilidade feminina (são sobretudo as vozes e as canções de Stevie e Christine quem mais brilham aqui) e alguma tendência para exorcizarem nas canções os retratos dos próprios fantasmas derivado do final das suas relações.
Os destaques vão sobretudo para a canção tipicamente encantadora ou sonhadora de Nicks (“Dreams”); o roqueiro “Go Your Own Way” com grande prestação de Lindsay Buckingham nas guitarras e o imparável “Don´t Stop” que foi o melhor remédio que eles tiveram para seguir em frente.
Depois há o misterioso, hipnótico “Gold Dust Woman” com Nicks a transformar-se de princesa em bruxa e que contém uma excelente produção de guitarras do seu “ex”. Mas curiosamente a melhor faixa do disco é assinada pelo grupo inteiro. “The Chain” é tal como eles cantam aquilo que os “mantêm unidos”. Ninguém sabe de onde vem essa “corrente”, o que é certo é que passados quase 35 anos os Fleetwood Mac não só continuam por aí (embora menos vezes), como produziram um disco quase “imortal” que soube capitalizar na perfeição o turbilhão de emoções e experiências vividos pelos músicos. Há males que vêm por bem…

24 abril 2010

Ramones - Ramones (1976)

Hey Ho! Let's Go! Obviamente que não poderia haver melhor maneira de começar este artigo. Nem outra coisa se poderia esperar até porque este mote acabaria por se tornar no espírito de vida desta banda norte americana. Sobejamente conhecidos e referidos por quase toda a gente que gosta de música, os Ramones, por vezes, são tidos como uma espécie de Guilty Pleasure dado a (muito) má qualidade musical dos seus membros. Três acordes básicos e sempre a abrir são o cartão de apresentação desta banda. Letras adolescentes e músicas que raramente passam os 2:30m não são propriamente sinais de uma banda de qualidade. Pois bem, a realidade é outra. Os Ramones são os Beach Boys do Punk-Rock. Em especial do período inicial da banda de Brian Wilson. Quem ouve este disco de 1976 de início ao fim, e é bastante fácil dado o seu curto tempo, não sai defraudado, bem pelo contrário. São 14 músicas sempre a rasgar, sempre na mesma onda, sempre com vontade de bater o pé direito e abanar a longa cabeleira (para quem a tiver, claro). Músicas como "Blitzkrieg Bop", "Beat on the Brat" ou "Judy is a Punk" dão sempre aquela energia seja em que momento for. Podiam ser péssimos músicos mas rockar era com eles!

19 março 2010

Eric Clapton – 461 Ocean Boulevard (1974)

Após a separação dos Derek and the Dominos em finais de 1970, Eric Clapton, o “Deus da Guitarra”, “Mr. Slowhand”, acabava de completar 25 anos, mas o seu historial parecia o de um homem de 40! Em cinco anos o jovem Clapton tinha um C/V inalcançável: primeiro com os “poppy”Yardbirds (64-65), depois com “os homens de barba rija” de John Mayall's Bluesbreakers (65-66) e mais tarde com os super-grupos Cream (66-69) e Blind Faith (69). Mas o auge é sem dúvida o disco Layla and Other Assorted Love Songs que gravou com os Dominos (sob a batuta do experiente Tom Dowd na produção) no lendários estúdios de Miami, Criteria Sound.
No entanto, o grupo acabou ao final de poucos meses e Clapton retirou-se da cena musical, tornando-se um perigoso heroinomano.
Durante 4 longos e penosos anos, Clapton apenas apareceu em palco duas vezes. A primeira foi no Madison Square Garden (1971), concerto organizado pelo amigo George Harrison a favor da vítimas do Bangladesh. A segunda, no “Rainbow”, Londres (1973), em jeito de “homenagem especial”, organizada por Pete Townshend, e a qual contou também com a presença de outros velhos comparsas como Ronnie Wood ou Steve Winwood.
Basicamente Clapton estava “feito em pedaços”, mal se aguentava em palco e estava todo “carcomido”. O destino fatal que tinha ceifado outras “Rock Stars” estava prestes a bater-lhe à porta. Até que aconteceu precisamente o contrário. Foi o próprio “Junky Clapton” a inscrever-se na clínica de reabilitação.
Meses passaram e o desejo de tocar e gravar voltaram espontaneamente. Chegou 1974, e com ele um “Slowhand” “renascido das cinzas”. Para começar a sua jornada musical voltou ao ponto de partida, ou seja aos estúdios Criteria juntamente com algumas caras familiares (o produtor Dowd e o ex-baixista dos “Dominos”, Carl Radle) e outras novas (a futura diva do “disco sound” Yvonne Elliman, o guitarrista George Terry, o teclista Abhy Galunten e o baterista dos roqueiros James Gang, Jim Fox).
Dai nasceu, “461 Ocean Boulevard”, considerados por muitos seu melhor disco a solo. Basta ouvir os primeiros acordes do enérgico “Motherless Children” para se perceber que a magia tinha voltado às mãos de Clapton. O guitarrista estava vivo e de boa saúde. O pior já tinha passado como mostram os temas sobre a dor e isolamento: as baladas “Give Me Strength” ou “Please Be With Me”. Mas no global, o som e o tom do disco são bastante positivos. Destaca-se aqui a vontade de explorar outras avenidas sónicas como o “reggae” (a versão de “I Shot the Sheriff” de Bob Marley ou “Get Ready”), o country (“Willie and the Hand Jive”) ou o Rock talhados para as estações FM, em plena ascensão nos E.U.A. e Europa (“Mainline Florida”).
No fundo, estão aqui todos os condimentos que seriam a sua “imagem marca” durante o resto das décadas de 70 e 80 e que o tornariam numa estrela global. Daqui para frente não faltariam certamente os discos de platina a adornar a sua sala nem os dólares a encher a sua carteira. No entanto, e tirando algumas raras excepções (algumas partes de “Journeyman de 1989 ou de “No Reason to Cry” de 1976), a carreira criativa de Eric Clapton (apesar do enorme sucesso comercial) não voltaria a chegar a este nível de concretização eficaz como em “461”. Um disco, que se escuta muito bem do início ao fim, sem grandes sobressaltos, cujo o som ainda se mantêm bastante “vigoroso” e “actual”. Uma verdadeira “obra de regeneração”.

25 fevereiro 2010

Simon & Garfunkel - Bridge Over Troubled Water (1970)

Há momentos em que certos discos nos atingem de uma maneira que até aí não tinham feito. Por vezes, por mais audições que tentemos fazer o álbum simplesmente não entra da forma adequada. Este Bridge Over Troubled Water é exemplo disso mesmo. Por várias vezes o tinha ouvido mas sem nunca ter tomado a devida atenção ao disco em si e às músicas que continha. Após uma audição com o cenário do Rio de Janeiro como pano de fundo e estando a dever umas largas horas à cama consegui, não sei como, ver-lhe todo o potencial.
O disco é simplesmente...Perfeito.Onze músicas de diferentes texturas e tons fazem um mosaico para todo o tipo de sensações e espíritos.
Seja na instrospectiva música que dá o título ao disco, seja nas alegres "Cecilia" ou "Keep the Costumer Satisfied",na "Baby Driver", inspirada nos Beach Boys, nas pujantes "The Boxer" ou "The Only Living Boy in New York" ou ainda nas adaptações em "El Condor Pasa (If I Could)" e "Bye Bye Love". Este disco contêm do que melhor que a dupla fez e, curiosamente, acabou por ser o seu último disco como parelha. A dedicação a este disco consumiu-os de tal forma que a separação de uma das melhores duplas de sempre do pop/rock acabou por se tornar inevitável. Os laços foram reatados poucos anos depois mas a dupla não mais voltou a gravar discos de originais. Com o fim da conturbada década de 60, a juventude, confusa, inquieta e sem saber que futuro a aguardaria, agarrou neste disco e encontrou um companheiro e confidente. Há uns dias, eu também...

17 fevereiro 2010

Miles Davis - A Tribute to Jack Johnson (1970)

Simplesmente porque hoje pus-me a ouvi-lo e apeteceu-me partilhar convosco, este para mim é um álbum na melhor fase de Miles Davis e os puristas do jazz que me crucifiquem não quero saber deles. Jack Johnson foi o primeiro pugilista negro a ganhar o título de campeão mundial de pesos-pesados, tornando-se uma das primeiras celebridades negras no mundo ocidental, isto bem no início do século numa altura em que os espectadores brancos iam aos combates com faixas que diziam coisas como "Não-sei-quantos, dá cabo do preto que preto não presta", bela aliteração. Claro que como todos os negros num mundo que dizem ser de brancos, Johnson foi injustiçado a vida toda e Miles Davis ter-lhe-á querido prestar homenagem talvez porque sem Johnson não haveria Davis e à parte de tudo isto é um álbum de dar cãibras nas pernas de tanto pezinho bater. Ah e os músicos... John McLaughlin, Herbie Hancock, Michael Henderson, Billy Cobham, Chick Corea, Jack DeJohnette, Sonny Sharrock, Steve Grossman, Dave Holland e meu deus eles deviam fazer fila à porta do senhor só para ter a oportunidade de tocar com ele.

27 janeiro 2010

Queen - A Day at the Races (1976)

Não foi à primeira, nem à segunda, nem à terceira. Só à quinta é que os Queen assumiram controlo total das operações de uma banda maior do que eles. E do que nós. E do que a própria vida. E que acabou com a morte do mais genial dos front man (já o disse antes) da história da música. Com A Day At the Races, o quinto álbum deles, o grupo perseguia o sucesso tremendo de A Night At the Opera e da "Bohemian Rapsody". E com este, mostraram que podiam comandar o seu próprio destino e que aquilo de ter um produtor só porque sim era coisa dispensável para eles. Que eram todos super talentosos – gostos à parte, ninguém põe em causa a capacidade deles para escrever e tocar e, fundamentalmente, dar espectáculo. Na era dos concertos em estádios, não havia pai para eles. Nem depois houve filhos. Legítimos. Bastardos claro que os houve, mas a colagem soou sempre a falso. (Bom, agora pus os headphones com o dito em rodagem, alto e bom som e vamos lá a escrever sobre ele).
E o dito começa com a “Tie Your Mother Down”, escrita por Brian May em Tenerife em 1975 (obrigado Wikipédia). E do que fala a “Tie Your Mother Down”? De sexo, pois. De sexo espalhafatoso, com grinaldas, lantejoulas, de uma miúda com medo do pai e da mãe e de um tipo que não tem medo de ninguém. “I’m a bad guy, your mommy and your daddy gonna plague till I die”. E é hard-rock, de Led Zeppelin, numa voz cuja versatilidade não tinha limites. Depois, porque eles não encaixavam em nenhum estilo, dançaram por uma valsa (“The Millionaire Waltz”), cantaram uma música com chave pop (“You and I”, de John Deacon) até chegarem ao clímax do álbum: “Somebody to Love”. Aqui, os Beatles cruzam-se com Elvis e com os Beach Boys, enfim, com tudo. Mas esse tudo são vários homens e personagens condensados num só corpo e numa só voz: Freddie Mercury. Uma música intemporal que sobreviveu a tudo. Inclusivamente a um senhor com manias estranhas (como a de visitar casas de banho públicas com amiguinhos) que pensa poder cantá-la como Mercury – valeu pelo esforço George. No A Day At the Races, há espaço também para a consciência política (“White Man”) que nunca tinha sido a praça dos Queen. Honestamente, a canção irrita-me. Mas a seguinte (“Good Old Fashioned Lover Boy”) diverte-me. E a “Drowser” mostra que nem sempre os bateristas são os tipos menos dotados de uma banda. Para o fim, uma espécie de épico dedicado a japoneses com a “Teo Torriatte”, com um coro enorme. E tudo fica bem quando acaba bem.

20 janeiro 2010

Elton John - Madman Across The Water (1971)

Sim, eu sei - é Elton John. Mas não é o Elton John da Nikita ou o do Lion King. Este é o Elton John da Tiny Dancer. Sim, eu sei – a música do Almost Famous. E, sim, também eu sei – é uma música fácil. Porque é orelhuda, porque segue o esquema clássico para um hit pop que nunca chegou a ser. Mas, digo eu, também é uma grande canção. E é esta Tiny Dancer que abre o Madman Across The Water de 1971, o quarto álbum de Elton John, o pior classificado do inglês à data. E, vá lá, para sermos justos, o Madman Across The Water não é grande coisa. Não fosse a Tiny Dancer e eu provavelmente nem me daria o trabalho de ouvir o que resta do álbum. Que me parece não saber para onde ir – do piano à guitarra acústica, das melodias “larger than life” a algumas piroseiras ao estilo Lionel Ritchie. Mas, ainda assim, safa-se bem: a Levon é uma boa música, tal como a Goodbye, que fecha o disco com o Elton ao seu melhor estilo: ele, com o piano dele, as progressões dele, com a voz dele e as letras do Taupin. Tem também a Holiday Inn, com um banjo a acompanhar o teclado e um refrão daqueles que ficam: “Slow Down John”. E a Madman Across The Water, que dá o título ao álbum e que não é nada má – o refrão, lá está, entra no ouvido e a orquestração ajuda-o a lá manter…
Bom, se calhar fui injusto quando disse que não era grande coisa. O Elton dos 70’s era um mestre na construção melódica, com uma voz e um instinto brutais e pouco dado às mariquices (sem ofensa) da diva que se viria a tornar. Para Axl Rose, Elton é a sua música clássica. Para mim, é um dos grandes compositores do século XX.

07 janeiro 2010

George Harrison - Living In The Material World (1973)

O que se diz quando um Beatle lança um disco? À partida está tudo ganho. É um Beatle, caramba... No entanto ainda estamos em 1973. Três anos após a despedida final da banda de Liverpool. Três após o seu primeiro disco a solo e dois após o concerto de Bangladesh. A vida para Harrison estava naquele momento certo. Agora ou nunca. Para Harrison foi nunca. A partir daqui ninguém mais quis saber do Quiet Beatle nem das suas músicas intimistas ou pessoais. Muitos sentiram-se ainda mais defraudados em Living in the Material World do que em All Things Must Pass. Será que Harrison deixara de querer ser um Beatle? Seria McCartney o único com juízo na cabeça? Não. Apesar de metade do mundo ainda estar a carpir mágoas com o fim dos Beatles, Lennon e Harrison estavam a fazer aquilo que gostavam. Living in the Material World é exemplo disso mesmo. Continuando na senda do primeiro disco, Harrison canta apenas aquilo que lhe vai na alma e, desta vez, quase tudo por si só, tirando a eterna ajuda de Ringo na bateria. "Give Me Love (Give Me Peace on Earth)" é puro Harrison nas letras e na melodia, até porque aquela slide guitar haveria de perdurar até ao fim dos seus dias. "Sue Me Sue You Blues", crítica às querelas financeiras entre Beatles, demonstra o humor e ironia que celebrizaram George, homenageado pelos próprios Monty Phyton. "The Light That Had Lighted the World", "Don't Let Me Wait Me Too Long","Who Can See It" e "The Lord Loves The One (That Loves The Lord)" demonstram o mais pacato dos Beatles completamente desligado das futilidades terrestres, sempre com algo a dizer sobre o mundo que realmente interessa. Algo que nada tinha a ver com o fase Disco ou Glam que começaria a surgir nesta década. "Be Here Now" é dos melhores exemplos da espiritualidade de Harrison, enquanto "Try Some Buy Some" fala-nos do problema emergente da altura, e, quiçá, hoje em dia, do abuso de cocaína. Enquanto o mundo inteiro na altura estava em êxtase e começava a entrar nas loucuras dos anos 70. Harrison começava a refugiar-se no seu pequeno mundo. A preferir o anonimato e a pacatez.
Enquanto a loucura da década acabaria por passar, "Living in the Material World" acabaria por se tornar num dos seus melhores discos com o passar dos anos...