Mostrar mensagens com a etiqueta Periferia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Periferia. Mostrar todas as mensagens
01 maio 2012
Periferia: Negativland
Em fevereiro de 1988, um rapaz de 16 anos do Minnesota, chamado David Brom, matou a família inteira (os pais, um irmão e uma irmã) com um machado. Nessa mesma altura, os Negativland viram-se forçados a cancelar uma tour para promoção do seu primeiro álbum "Escape From Noise" por razões financeiras. Aproveitando o trágico acontecimento, a banda emitiu um comunicado afirmando que haviam cancelado a tour por terem sido aconselhados pelo agente federal Dick Jordan a não sairem da cidade devido uma investigação sobre o assassinato dos Brom . Houve igualmente um comunicado de imprensa que insinuava que Brom tinha ouvido a música " Christianity is Stupid", dos Negativland, antes do ataque fatal aos seus pais extremamente religiosos (e consequentemente aos seus irmãos). Na realidade, não havia nenhum funcionário com o nome "Dick Jordan" e Brom não possuía qualquer música dos Negativland. A investigação do assassinato revelou mais tarde que ele só tinha o segundo álbum "Zen Arcade" dos Hüsker Dü, banda que pertencia curiosamente à mesma editora que os Negativland, a SST Records . No entanto, especialistas e jornalistas tomaram o comunicado de imprensa como válido, e o embuste recebeu alargada cobertura mediática. Após uma vasta disseminação da história, o agrupamento recusou-se firmemente a produzir mais comentários, a conselho de seu advogado "Hal Stakke", outra entidade fictícia inventada pela banda. Como resultado dessa cobertura mediática negativa, a casa de Richard Lyons em Oaklan, Califórnia, foi alvejada com pedras por um vândalo desconhecido. É possível escutar alguns samples extraídos desse frenesim mediático no álbum "Helter Stupid" de 1989. Is there any escape from noise?
01 abril 2012
Periferia: Virgin Prunes

Podia até tratar-se de uma asserção aristotélica acerca da lei da não-contradição. Mas não. É apenas o nome de mais um intemporal e incontornável álbum da história da música moderna. Só por si valeria mais que muitos títulos de ensaios filosóficos. É certo que 1+1 são 2. Mas os Virgin Prunes, ao optarem pela lógica da indução para baptizarem o primeiro trabalho das suas carreiras, desviaram-se da numerologia para se centraram num conceito metafísico: a morte e as incertezas que circundam em redor do princípio do fim.
"If I Die, I Die" é um reflexo intenso da diversidade de leituras que podem decorrer de um pensamento tão certo quanto imprevisível que é o fim da vida, tal como nós a conhecemos.
Produzido por Colin Wire Newman, estas 14 faixas são um epítome do pós-punk aventureiro. Tambores tribais e nervosos, guitarras desafinadas, didjeridus e bouzoukis cruzam-se e fundem-se com sintetizadores e drum machines básicas em ataques de criatividade fora de forma, onde todas as referências são chamadas à razão do que é perigoso, primitivo e excessivo. Liderados por dois vocalistas andróginos, Gavin Friday e Guggi, seres de sedutores poderes, os Virgin Prunes conseguem criar, neste disco, ambientes alternativos de deformada e doce poesia. E apesar do conjunto dos temas ser algo discrepante, esta obra está longe de estar fora de contexto. Na verdade, ela é claramente o esforço mais consistente e duradouro da banda.
01 março 2012
Periferia: King Krule

Não é carne nem peixe; é mais uma espécie de guizado cheio de personalidade. Antigo Zoo Kid, actual King Krule- nome inspirado no terrível vilão crocodilo antropomórfico do clássico jogo Donkey Kong, Archy Marshall é a cara de uma nova geração de interpretes idiossincráticos. Fechado num universo muito próprio e por vezes quase inatingível, este miúdo de 18 anos apropria-se com bastante leveza dos arrebiques de linguagem da cultura musical inglesa. Sim porque esta coisa de fazer boa música pode ser vista de duas perspectivas: intuitiva, logo menos conceptual, ou então mais programada, o que a torna mais política e ideológica. No caso de King Krule temos presentes duas ou três culturas em tudo distantes. A vaga cada vez mais emergente da escuridão opressiva do dub-step(no seu sentido mais lato), conjugada com a atitude bonacheirona e algo vaidosa do rockabilly das Triumph Bonneville e da brilhantina de cabeleireiro. Além disso, e como se isso já não bastasse, este adolescente eleva com propriedade a paisagem jazistica ao patamar mais acessível da música: o pop. Ainda periférico, nas vendas na promoção e no cachê, tenho o prazer de vos deixar com o novíssimo King Krule.
01 fevereiro 2012
Periferia: Autechre

Para quem anda nestas andanças da música electrónica (e dos seus infindáveis satélites), Autechre é seguramente um nome que não passou despercebido. Este duo inglês dos arredores de Manchester, formado em 1987, já produziu tantas viagens quantas possamos imaginar. Desde álbuns a EP's, entre singles, promos e remixes, Rob Brown e Sean Booth são dois rostos incontornáveis daquilo que foi possível fazer com as máquinas nas últimas décadas da nossa existência. Maioritariamente associados à IDM (intelligent dance music), não obstante, os Autechre têm vindo a posicionar-se cada vez mais no extremo experimentalista da música electrónica. Mas o tema que eu vos proponho data de 1995, ano em que foi lançado o terceiro álbum do grupo, entitulado de "Tri Repetea". Este disco (e não tem nada a ver com o facto de ser fanático pelo número três), apresenta-se talvez como a obra mais integrante do grupo. São 73 minutos de pura endurance psíquica. Poder-se-ía mesmo afirmar que se trata de um triângulo invertido que se começa a construir do vértice para a base. Sons mecânicos e repetitivos. Há até alguns críticos que dizem que este disco parece ter sido feito directamente por máquinas, sem intervenção humana. Há melodias, mas os sons incorporam uma austeridade implacável. Põe-se então a questão: será isto música feita por computadores, apenas audível por computadores? A resposta não podia ser mais tácita. Claro que não! Nem tudo pode ou precisa de ser falado ou expresso por palavras. Pois a dinâmica mecânica dos Autechre é sobretudo espontânea, intuitiva, experimental. E afinal os computadores não são uma invenção do Homem? Ou serão eles descendentes de seres alianigenas provenientes de outras galáxias? A austeridade presente neste trabalho, e especialmente neste tema, deve ser lida não como uma deficiência mas sim como um dote particular e sobre-desenvolvido. Soberbamente pensada e desenhada pelos The designer Republic, a capa do disco é o corolário de tudo o que antes de chegar a disco foi pensado. Um épico binário de proporções para-normais...
02 janeiro 2012
Periferia: Factory Floor

Passou mais um ano nas nossas vidas. Houve coisas que vimos e ouvimos e gostamos. Outras, nem por isso. Mas também houve muitas coisas que não experimentámos. E não vos falo apenas de música, claro. Sensações, pensamentos, descobertas de lugares e outras aquisições. Parece-me porém inevitável escrever-vos, nesta minha rubrica periférica, coisas acerca da música (escusado seja dizer que a música está relacionada com tudo o que nos rodeia).
Comecemos então mais um ciclo. Hoje trago um trio baseado em Londres que dá pelo nome de Factory Floor.
Formados em 2008, descendentes da era pós-punk-industrial encabeçada por génios como Joy Division ou Throbbing Gristle, estes ingleses desde o início deixaram bem claro, no lançamento do seu primeiro e limitado single "Bipolar", que não vinham apenas regurgitar material de sucesso do passado. Gabriel Gurnsey, Dominic Butler e Mark instalaram-se definitivamente no mercado da música alternativa com o EP Planning Application, que demorou seis semanas a ser gravado e conta com a participação da voz do ex-Katio UK, Nikki Colt, do qual extraí o tema "Francis Francis". Depois disso já lançaram mais um EP e um mini-álbum, ambos portadores de material diverso e com influências igualmente variadas. Para quem se lembra das primeiras edições da Mute Records de Daniel Miller, irá com certeza encontrar algumas semelhanças no trabalho dos Factory Floor. Mas nem só de bits carregados e cenários obscuros se faz a música deste projecto. O punk raivoso de uns Hüsker Du pode também ser detectado em alguns temas que, sem pudor nem educação, avançam para lá da fronteira e entram em território inimigo. Talvez por essa diversidade coerente fizerem já primeiras partes de The Horrors ou Liars.
Honestamente, prevejo um futuro especial para estes rapazes. Não são uma banda de estádios, não vão ser garantidamente uma fonte de riqueza astronómica para nenhuma editora. Mas são especiais, únicos. E tu Lux, se me estás a ouvir, por favor traz esta gente à tua tão generosa sala de espectáculos! Estes valem a hipoteca...
02 dezembro 2011
Periferia: Cabaret Voltaire

E assim começou o Dadaismo a cantar...
Juntos novamente, desta vez vamos recuar uns anos no tempo. Vamos até 79, cinco anos após o aparecimento oficial da formação inglesa Cabaret Voltaire. Falo-vos do segundo single, lançado logo após a peça de apresentação "Nag Nag Nag". Ao contrário do que seria de esperar, "Silent Comand" desprende-se dos tiques mais óbvios do pre-pós-punk e capitaliza o leque de instrumentação através de maneirismos esquisitos, especialmente nas teclas, e algumas inflexões vocais um tanto ou quanto teatrais. São duas vozes, ou talvez mais, a caminhar numa linha de cumeeira mental próxima da insensatez. E pelo meio uns samples de cinema francês(é possível reconhecermos as palavras de Michel Piccoli falando acerca de uma mulher iraniana chamada "Anita"). A guitarra é a única referência que nos mantém agarrados a uma ténue realidade.
O sentimento geral oscila algures entre a electricidade hipnotizante experimental de um punk-rock bizarro e uma paródia teatral afrancesada.
Trata-se claramente de um tema intemporal. Hipnótico estranho e cativante, aquando do seu lançamento, "Silent Command" é ainda hoje tão bizarro como sedutor. E será certamente amanhã, o que prova mais uma vez o extraordinário talento de Richard H. Kirk.
01 novembro 2011
Periferia: Suuns

Densa, profunda, visceral e por aí a fora. Mas "Pie IX" fala do quê? e sobre o quê, exactamente ? Será sobre a escuridão, a solidão? Ou apenas o prazer?: de tocar... Do Canadá pode chegar muita coisa, filmes, música, paisagens. Mas quando chega qualquer coisa e nós não sabemos o que é que essa coisa quer dizer, então "O Canadá" deixa de existir. Do Canadá podemos passar para o mundo; e do mundo para uma pessoa qualquer (ou um grupo de pessoas quaisquer). É um exemplar da música objecto de criatividade. O que as editoras já não controlam e têm que aceitar, porque no meio vêm outras músicas que essa mesma editora quer vender e ganhar tanto dinheiro quanto possível. "Pie IX" é garantidamente a mais marginal de "Zeroes QC"- e quiçá a mais perduradora. Porque será?..
01 outubro 2011
Periferia: The Soft Moon

Os Soft Moon, trio de São Francisco, impressionam pela densidade visual com que afundam os ouvintes. Depois do Ep homónimo de lançamento, nos finais de 2010, Luis Vasquez and the crew voltam a aparecer com outro Ep, "Total Decay". Menos pop e consideravelmente mais industrial, este novo registo perfura ainda mais o túnel. O tema título é aliás um exemplo gritante de quão escura e pós-apocalíptica pode ser a Música (isto claro sem entrarmos no universo lúgubre do death metal ou no niilismo gótico). Por estranho que pareça, a banda continua à margem das listas de melhores bandas alternativas. Comercialmente não é muito bom. Mas em termos de conceito pode querer dizer muita coisa: gestão de imagem cautelosa, edificação de trabalho repensado, criação de um movimento íntimo ou apenas liberdade de expressão criativa.
Tal como uma vez Frank Zappa disse, "mainstream comes to you, but you have to go to the underground." Não é difícil, mas tem que se procurar. Pois não se apoquentem, eu cá vou continuando a minha procura. Mais à esquerda ou mais à direita, eu hei de lá chegar...
01 setembro 2011
Periferia: BIG A little a
Quando deixa a música de ser som para passar a ser apenas ruído abstracto? A música, tal como qualquer outra área do desenvolvimento intelectual humano, não tem que ser nuclear. Aliás, o conceito de núcleo tem forçosamente que subentender a existência de arredores, sejam eles físicos, ideológicos ou quiçá meramente estéticos. Estar à margem, por opção ou por vulnerabilidade circunstancial, é igualmente uma forma racional de existência.
Mas se quisermos ser ligeiramente mais objectivos, tomemos como paradigma a Ciência (longe das crenças e dos teísmos). Os termos Ciência Central, Ciência Periférica e Ciência Marginal surgiram há relativamente pouco tempo na história da humanidade, e só fazem sentido quando se discute a ciência da Idade Moderna. Antes dos finais do século 15 não havia ciência central, ou hegemónica, no mundo. A ciência europeia, assim como a chinesa, a árabe, a indiana e outras, não encerravam entre si relações hierárquicas definidas. O aparecimento de uma ciência central, abrangente e excludente, é um fenómeno que coincide com a expansão colonial europeia decorrente das navegações dos séculos 15 e 16. A ciência e a técnica passaram então a ser instrumentos centrais nesse processo de luta pela hegemonia no mundo, a partir daí pela primeira vez globalizado. Uma vez instalado o paradigma de uma ciência central, o que dele não fizer parte será periférico ou marginal.
Assim funcionam as coisas na generalidade. Na moda, na alimentação, na linguagem e, obviamente, na música. Os cânones sobrevivem às mais diversas variações, sem perderem a vitalidade de uma regra indestrutível. E o que resta dessa empedernida segurança? Se não, nada nem ninguém avançaria para além das muralhas invisíveis das convenções formais. Há sempre quem se atreva. Quem queira percorrer longas caminhadas de isolamento: os peregrinos aventureiros. O resultado, esse pode ser tão disforme quanto a proveniência das inspirações. Do jazz à electrónica, através do vanguardismo e do rock, com passagem no ambiental ou na pop, a música periférica pode ser acessível ou por vezes difícil. Mas nunca deve perder o seu principal objectivo. Ser música.
"Periferia" é assim uma rubrica com caractér discursivo a longo prazo, com referências diversas e uma vontade insurgente de dissecar as "boas" marginalidades da música, enquanto manifestação artística-conceptual e/ou pragmática. É este o ponto de partida. O resto depois logo se ouve...
Subscrever:
Mensagens (Atom)
