Começo por pedir desculpa aos amantes de U2, por exemplo, pelo que se segue, mas é da minha intenção abanar os críticos de música amadores que pululam por todo a parte, e dos quais se referem os pivots dos noticiários quando dizem que o último álbum de Rolling Stones foi unanimemente aclamado pela crítica mundial, como se tal fosse possível, e se o fosse seria muito muito mau sinal. Ainda a propósito disso, a única crítica (séria, profissional, pelo João Lisboa) que li relativamente a esse álbum foi bastante devastadora, e perguntei-me logo pelo uníssono BRAVO que aqueles jornalistazecos bradiam.
Mas a questão é que me parece que hoje em dia o jornalismo que invade as casas das pessoas, o mass media, adora fanaticamente o consenso, sentindo orgulho em pertencer ao sábio grupo das pessoas que votaram no Revolver como o melhor álbum de sempre e pergunto-me também: qual a utilidade duma votação como essa? É que não duvidem da existência de uma obscura utilidade. E portanto, sem o saber, esse tipo de jornalismo vai toldando a visão das massas (e do próprio jornalismo em si, tornando-se, consciente ou inconscientemente, numa óptima ferramenta das empresas multinacionais).
É com pena que observo isto, as mordomias com que a imprensazinha trata determinados entertainers, como os artisticamente estagnados Rolling Stones, Oasis ou o Paul McCartney, e para onde caminham outros muito rapidamente, deixando-se cegar pelos inapropriados elogios.
Só se condenam aqueles cujas vidas pessoais tenham tido aspectos mórbidos, sangue para um público devorar, e de preferência que tenham enveredado por um caminho artístico diferente, independentes da pressão dos gigantes multinacionais que são as editoras. Não se fala dos que não se preocupam em evoluir ou dos que tenham ausência de intenção artística de todo.
Não admira que o Kurt Cobain se tenha suicidado.
17 setembro 2005
15 setembro 2005
A grande banda para o Milénio?
Que me desculpem os puristas do mundo “indie” que pululam neste blog, mas a verdade é que X&Y é o melhor trabalho de Chris Martin e companhia até à data. Reconheço, todavia, que o quarteto britânico assume, em cada álbum, um cunho (cada vez) mais “popular” e é por isso que este disco apresenta, de uma assentada só, a maior solução e problema para aquela que agora é considerada a maior banda do planeta. Mas já aí iremos.
Primeiro, a criação. Sob o signo dos cromossomas masculino e feminino, os Coldplay presenteiam-nos – nós, fãs, assumo – com uma autêntica compilação de hinos introspectivos, trauteados por uma voz depurada, com ecos do malogrado Jeff Buckley. A acompanhá-la, estão três músicos com outras armas, tecnicamente evoluídos, que sustentam a viagem que se inicia em… “Square one”. Juntos, estes quatro jovens, ex-estudantes universitários, produzem épicos perfeitos, onde a guitarra de Johnny é o suplemento de Chris, e o baixo de Guy a muleta para a cadência de Will. Surge “What if”. Martin no seu melhor, enamorado, um texto a fazer lembrar “Imagine” de Lennon sobre um piano “cheio”, que ressoa em “White Shadows” para atingir o seu máximo em “Fix You”. Esta é, sem dúvida, a melhor das 13 faixas que compõem o álbum, uma osmose musical entre “Politik” e “The Scientist” do anterior “Rush of Blood to the Head”, que, francamente, nos eleva a um estado… diferente. Melodia “catchy”, letra directa, e, novamente, os agudos eléctricos de Buckland no apoteótico final. Seguem-se “Talk” e “X & Y” e a sobrevalorizada “Speed of Sound”, o primeiro “single”, claramente por razões comerciais. Entre esta e “Clocks” a diferença é mínima, com prejuízo para a recente… Destacam-se, depois, “A Message”, “Hardest Plan” e “Swallowed in the Sea”, uma tríade monologa onde se notam, novamente, os avanços na voz de Martin, com um alcance claramente superior ao registado no “Parachutes”. Em todas elas, é o “eu sofredor” mas que nunca chega a ser entediante porque, convenhamos, a música/ linha melódica é, claramente, o grande trunfo dos londrinos. E, neste momento, esta capacidade de criarem os tais “anthems” só está nas suas mãos.
Depois, o problema. De facto, os Coldplay estão, ipsis verbis do parágrafo inicial, (cada vez) mais “populares”. Isto deve-se ao tremendo sucesso de “Rush of Blood to the Head”: ficaram expostos a um vasto público, abriram-se-lhes as portas de estádios e os prémios internacionais. “X &Y” só vem comprovar o que atrás vem referido: número 1 em muitos becos do mundo, espectáculos esgotados – Pavilhão Atlântico estará à “pinha” – e o vislumbre de uma sucessão de “top-ten” em catadupa. Bom para eles e para quem gosta deles. Um senão. Ameaçam tornar-se nos novos U2, irlandeses em final de carreira (por favor), o que dá a crer, dado o lado humanitário de Chris Martin, que venhamos a ter, provavelmente, um novel representante dos fracos e oprimidos. Aborrecido, portanto. Bono Vox já há um, e, sinceramente, não precisamos de outro. Mesmo. O desafio que se coloca, então, aos “Coldplay” é... o álbum seguinte. Fugirão aos épicos e apresentarão um tom diferente, ou continuarão no mesmo trilho de sucessos? É que, uma coisa é ouvirmos alguém cantar sobre amor e busca de sucesso quanto se está antes dos 30 anos… outra coisa é ter 50 e os temas manterem-se. O futuro não nos pertence, mas pode ser que estejamos na presença da grande banda do milénio. Assim o queiram.
Primeiro, a criação. Sob o signo dos cromossomas masculino e feminino, os Coldplay presenteiam-nos – nós, fãs, assumo – com uma autêntica compilação de hinos introspectivos, trauteados por uma voz depurada, com ecos do malogrado Jeff Buckley. A acompanhá-la, estão três músicos com outras armas, tecnicamente evoluídos, que sustentam a viagem que se inicia em… “Square one”. Juntos, estes quatro jovens, ex-estudantes universitários, produzem épicos perfeitos, onde a guitarra de Johnny é o suplemento de Chris, e o baixo de Guy a muleta para a cadência de Will. Surge “What if”. Martin no seu melhor, enamorado, um texto a fazer lembrar “Imagine” de Lennon sobre um piano “cheio”, que ressoa em “White Shadows” para atingir o seu máximo em “Fix You”. Esta é, sem dúvida, a melhor das 13 faixas que compõem o álbum, uma osmose musical entre “Politik” e “The Scientist” do anterior “Rush of Blood to the Head”, que, francamente, nos eleva a um estado… diferente. Melodia “catchy”, letra directa, e, novamente, os agudos eléctricos de Buckland no apoteótico final. Seguem-se “Talk” e “X & Y” e a sobrevalorizada “Speed of Sound”, o primeiro “single”, claramente por razões comerciais. Entre esta e “Clocks” a diferença é mínima, com prejuízo para a recente… Destacam-se, depois, “A Message”, “Hardest Plan” e “Swallowed in the Sea”, uma tríade monologa onde se notam, novamente, os avanços na voz de Martin, com um alcance claramente superior ao registado no “Parachutes”. Em todas elas, é o “eu sofredor” mas que nunca chega a ser entediante porque, convenhamos, a música/ linha melódica é, claramente, o grande trunfo dos londrinos. E, neste momento, esta capacidade de criarem os tais “anthems” só está nas suas mãos.
Depois, o problema. De facto, os Coldplay estão, ipsis verbis do parágrafo inicial, (cada vez) mais “populares”. Isto deve-se ao tremendo sucesso de “Rush of Blood to the Head”: ficaram expostos a um vasto público, abriram-se-lhes as portas de estádios e os prémios internacionais. “X &Y” só vem comprovar o que atrás vem referido: número 1 em muitos becos do mundo, espectáculos esgotados – Pavilhão Atlântico estará à “pinha” – e o vislumbre de uma sucessão de “top-ten” em catadupa. Bom para eles e para quem gosta deles. Um senão. Ameaçam tornar-se nos novos U2, irlandeses em final de carreira (por favor), o que dá a crer, dado o lado humanitário de Chris Martin, que venhamos a ter, provavelmente, um novel representante dos fracos e oprimidos. Aborrecido, portanto. Bono Vox já há um, e, sinceramente, não precisamos de outro. Mesmo. O desafio que se coloca, então, aos “Coldplay” é... o álbum seguinte. Fugirão aos épicos e apresentarão um tom diferente, ou continuarão no mesmo trilho de sucessos? É que, uma coisa é ouvirmos alguém cantar sobre amor e busca de sucesso quanto se está antes dos 30 anos… outra coisa é ter 50 e os temas manterem-se. O futuro não nos pertence, mas pode ser que estejamos na presença da grande banda do milénio. Assim o queiram.
14 setembro 2005
Paul McCartney - Chaos and Creation in the Backyard (2005)
Ah, One, Two! Paul está de volta e que regresso este! Após quatro anos de interregno, período no qual nunca esteve parado, dado estar constantemente entre várias tournées, entrevistas e participando em outros projectos, onde se destaca a actuação no célebre Live8, organizado por Bob Geldof, Paul McCartney regressa na sua máxima força. Chaos and Creation in the Backyard é o nome da mais recente obra daquele que será sempre visto como um dos quatro fantásticos. O ano de 1997, por muito que possa ser o mais triste na vida de Paul, será também um dos mais felizes em termos musicais. Foi o ano da sua ressurreição para a música, que vinha, lentamente, a tornar-se moribunda com o passar dos anos, não se vislumbrando qualquer chama do enorme talento demonstrado pelo britânico em longas décadas da sua carreira. Nesse ano, o amor da sua vida, Linda, morre de cancro, deixando um enorme vazio em Paul McCartney, no entanto, musicalmente, o disco lançado nesse mesmo ano, Flaming Pie, traz de volta a acendalha de criatividade e um brilhozinho nos olhos de todos que sempre acreditaram que seria capaz de voltar ao seu melhor. A partir deste ano, nunca Paul foi tão forte musicalmente. Em tributo à sua falecida mulher, dois anos volvidos, Paul decide gravar um disco de temas da sua infância, juntando-lhe outros três, de sua autoria, do mesmo calibre musical. Rock'n'Roll "à antiga". Convidou alguns amigos, entre eles, David Gilmour, guitarrista de Pink Floyd. O álbum surge num ambiente descontraído e, de certa forma, feliz. Novamente, como é de seu timbre, Paul McCartney não ficou inactivo. Entre o lançamento de um disco de música clássica e novas experimentações na música electrónica, o Beatle preparava outro retorno ao mais alto nível. Enquanto o disco Driving Rain, de 2001, mesmo sendo um álbum relativamente bom, soube a pouco, dado o grande regresso com Flaming Pie, a tournée mundial, iniciada nos Estados Unidos, trouxe de volta os grandes espectáculos que Paul McCartney sempre fez questão de apresentar. Aliado a uma nova banda, composta essencialmente por gente bastante anos mais nova, Paul trouxe uma nova frescura e determinação aos seus concertos, sempre aliados a uma grande conjugação entre música e efeitos visuais, como se pôde constatar no Rock in Rio 2004. Enquanto isso, McCartney nunca esteve parado. Entre hotéis de vários países, escreveu canções como quem cozinha um prato. Em poucos minutos. Não foi de estranhar que Paul entrasse em estúdio para gravar um novo álbum. Os boatos e rumores começaram a correr, ainda mais sobretudo depois de se saber que Nigel Godrich, produtor aclamado de vários nomes sonantes como Radiohead ou Beck, estaria a ajudar ou mesmo a produzir, quase por completo, este novo disco. A explicação para esta estranha aliança entre Paul e Godrich encontra-se algures no passado. George Martin, antigo produtor dos Beatles e de Paul, aconselhou a este o jovem produtor, dado tratar-se de alguém que puxa pelos limites, costumando estar um passo à frente de outros produtores. Estaria Paul McCartney, alguém que não tem nada a provar e que decerto não estaria tão receptivo a opiniões vindas de outros elementos, preparado para "levar no pêlo" de Godrich? O resultado foi melhor do que se esperava. Muitos acharam que Paul estaria à procura de soar como os Radiohead, outros, e bem, acharam que Paul apenas não queria estagnar mas sim dar um passo em frente. Nigel Godrich fez a ponte entre a intimidade que Flaming Pie ou mesmo McCartney, de 1970, trouxeram e o som dos últimos anos dos Beatles, onde a parte instrumental sempre foi um ponto bastante forte. Chaos and Criation não é Beatles, não é Radiohead nem Beck. É Paul McCartney no seu melhor. Seguramente um dos cinco melhores álbuns da sua carreira a solo. Para isso foi preciso muita paciência e um pouco de mão pesada de Godrich em Paul, que não se atemorizou com o peso histórico deste, antes pelo contrário, ele propunha-se trazer Paul de volta ao sítio onde merece estar. Entre os mais criativos da música pop/rock.Músicas como Fine Line, Friends to Go (inspirada em George Harrison) ou Promise to You Girl surgem-nos logo como clássicos, logo à primeira audição. Temas bastante orelhudos e ricos instrumentalmente. Aliás, não será demais repetir que Paul toca praticamente todos os instrumentos neste álbum, incluindo flauta, tal como tinha feito em McCartney ou Flaming Pie. Jenny Wren surge-nos como uma continuação de Blackbird, mítico tema do Álbum Branco. Música bastante ao nível do que Paul faz melhor, uma guitarra, uma melodia e uma viagem pela letra. Sublime!
How Kind of You, At the Mercy e Riding to Vanity Fair fazem lembrar alguns temas de Radiohead, mais concretamente dos discos Kid A ou Amnesiac, devido, sobretudo, ao modo como os acordes estão combinados e às suas constantes variações.
English Tea leva-nos, tal como Honey Pie do White Album o fazia, a um tempo bem distante daqui, num qualquer jardim britânico onde se bebe um típico chá inglês ao som da leve brisa do vento. Um clássico.
Too Much Rain parece querer ir ter ao encontro de John Lennon, com o seu Jealous Guy, no entanto, posteriormente varia para uma típica música de Paul. Simples e bela.
Há também lugar para sons mais latinos com A Certain Softness que cantado em espanhol, certamente não ficaria nada mal.
Ao todo são treze músicas que trazem um Paul McCartney ao seu melhor nível, com um lado mais intimista, onde a sua voz parece que parou em 1968. É um regresso bastante aclamado pela crítica em geral, havendo, por vezes, algum exagero que se tende a criar, dado tratar-se de um monstro sagrado da música, no entanto, a qualidade vem sempre ao de cima nos momentos mais importantes, e, para Paul McCartney de Liverpool, a oportunidade bateu à porta e ele não a enjeitou! Com 63 anos, e continuando tão criativo, e com vontade de evoluir cada vez mais, não se sabe onde parará este "jovem".
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