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09 março 2011

Duas mesas e eu na terceira - Theodor Adorno "Mínima Moralia"




Pseudómenos.  O poder magnético que as ideologias exercem sobre os homens, mesmo quando já dão sinais de estarem rotas, explica-se, para além da psicologia, pela decadência objectivamente determinada da evidência lógica enquanto tal. As coisas chegaram ao ponto em que a mentira soa como verdade e a verdade como mentira. Cada declaração, cada notícia, cada pensamento está pré-formado pelos centros da indústria cultural. O que não traz a marca familiar dessa preformação está, de antemão, destituído de credibilidade, tanto mais que as instituições de opinião pública fazem acompanhar aquilo que divulgam de milhares de comprovações factuais e de toda plausibilidade, de que se pode apoderar o poder de disposição total. A verdade que tenta opor-se a isso não só porta o carácter inverosímil como é, além disso, pobre demais para entrar em concorrência com o aparato de divulgação altamente concentrado. O caso extremo da Alemanha é instrutivo a respeito dessa mecanismo como um todo. Quando os nacionais-socialistas começaram a torturar, não apenas aterrorizaram com isto as populações no interior do país e no exterior, mas ao mesmo tempo ficavam tão mais seguros de não serem descobertos quando mais selvagem era o aumento do horror. A incredibilidade deste último tornava fácil descrer daquilo que, por amor à santa paz, não se queria acreditar, no mesmo momento em que já se capitulava diante dele." (...)

06 novembro 2010

Que se foda o fil colíns

Reflectir acerca de space rock é uma actividade chata, pelo menos tão aborrecida como ouvir os riffs do David Gilmour ou vasculhar a dentição da Mrs Archer, bibliotecária de meia idade, com aspecto de ter envelhecido em simultâneo com o contraplacado encortiçado onde terá espetado já mais de um milhão de pioneses, lingua disforme, molares de chumbo, etc.
Quem me trouxe à reflexão foram os Don Caballero, rapazes de Pittsburgh que tocam música instrumental aceitável ao ouvido naqueles dias de Outono em que o grau de exigência esteja ao ponto de nos sentarmos no sofá a ver uma série de ficção americana género Lost.
Para ser sincero, a unica razão que me leva a ouvi-los no meu iPod de vez em quando prende-se com os nomes que dão às musicas, a lembrar a equipa de futebol que formamos no secundário (A Revolta Da Carne de Porco à Alentejana, nome que depois caiu na banalidade gracas ao idiótico Luis Borges e o seu A Revolta dos Pastéis de Nata). De qualquer modo, nomes como Haven't Lived Afro Pop, Details on How to Get ICEMAN on Your License Plate ou A Lot of People Tell Me I Have a Fake British Accent são irresistiveis. A música, em si, faz as delícias de qualquer americano indie cool que tenha tido pouco contacto com Jim O'Rourke, não chegando portanto aos calcanhares de uns Mogwai.
Deixo-vos um Groove com American Don e outros. Digam-me de quem gostam mais.

30 abril 2010

Sonic Youth - Coliseu - 22.04.2010

A minha preparação para o tão aguardado concerto dos Sonic Youth foi a seguinte: injectaram-me lidocaína no abdómen como quem fura um bolo com um palito para ver se está "pronto" (gani que nem um cão), taparam-mo com um paninho verde garrido, lancetaram-me horizontalmente mesmo abaixo das costelas direitas e espremeram durante 5 minutos o tumor aí alojado, durante os quais apenas pude visualizar os esgares contorcidos do dermatologista (estaria de picha a pingar, acabadinho de comer a avantajada recepcionista de gengivas fumegantes?, pensei). Coseram-me as feridas (dois pontinhos de nylon), taparam-nas com um penso e cobraram-me 240 euros.
Bem melhor foram os caracóis (e coletas) na tasca dos Restauradores, em molho quase perfeito, devidamente acebolado, e com bichos escorregadios, não muito idosos. A fragrância de mofo foi aceite por todos como fazendo parte do preparado. Um empregado atrapalhado que perdeu a conta às imperiais. Uma discussão que opôs o capitalismo ao socialismo. Fulanos de barba e poucas gajas. Em resumo, Lisboa.

Entrou-se no recinto e atentou-se a uma banda portuguesa com boas intenções mas poucas ideias. Certifiquei-me de que o penso estava no sítio. Pausa. Lee Ranaldo chega ao palco. O público anima-se, alguns de nós tinham acabado de o ver ali tão perto na ZDB, com o prolífico Rafael Toral a martelar um bongo com os cuidados de um cirurgião de varizes, de resto, só lhe faltaram umas lupas de dentista para que tivéssemos todos a certeza da precisão milimétrica das pancadas (e garanto-vos que sem isso a coisa ficou um pouco nheh), e parecia tudo tão informal, como deve ser.
Depois os outros chegaram ao palco e, à semelhança do concerto de 2005, descarregaram ali o álbum mais recente, neste caso The Eternal, de uma maneira que diria limpinha. Canções com princípio meio e fim. Em duas delas introduziram um pouco da sua divagação sónica esperada pelos fãs. Mas algo ali começou a soar-me errado. Pelo meio meteram um Schizophrenia, que apenas aumentou a minha desconfiança em relação às outras músicas, por acção do contraste. Ao fim de pouco tempo, saíram do palco. Lembrei-me novamente do outro concerto, e da grandeza das composições do Murray Street. Esse álbum pode ser tocado em repeat durante um ano que não cansa quase ninguém e ao vivo tem algo de épico.
Mas não me mal-entendam: o The Eternal é um grande álbum pop/rock que dá, na minha opinião, dez a zero a quase tudo o que se mete aqui neste blog. Ouvi-lo pela primeira vez é como abrir a janela do quarto da minha avó. Segue o percurso mais recente que teve início no Nurse e que corre ao lado da viragem dos membros da banda para zonas alternativas enquanto artistas individuais. Os Sonic Youth tornam-se agora uma espécie de alívio da intelectualização.
Os encores que se seguiram sem grandes surpresas recaíram nos álbuns dos anos 80, belíssimamente com The Sprawl, Across the Breeze e sobretudo Death Valley 69, a música marada de que todos gostam.
Deu-me a sensação de que as músicas tiveram todas um ponto final. Tal como o concerto teve 3 parágrafos. Mas não foi isso que me fez fascinar com os Sonic Youth in the first place.
Alguém imagina daqui a 20 anos eles tocarem o Malibu Gas Station?

23 fevereiro 2010

Talvez Relacionado #40

Tenho andado numa onda mais rock puro e menos indie. E o que quer isto dizer? Que o iPod tem sido dominado por duas bandas Pavement e Sonic Youth, pelo que é o que tenho para partilhar convosco hoje. Primeiro Pavement com "Trigger Cut/Wounded-Kite At :17", do álbum Slanted & Enchanted, seguido mais abaixo por Sonic Youth com "Dirty Boots", do álbum Goo.

Enjoy!