22 dezembro 2010

Duas mesas e eu na terceira

London Town [Demo] by Donovan on Grooveshark

vi uma fotografia de nós dois com roupa de inverno

(...)
e lembro-me da nossa última conversa
por telefone.
tu pedias-me desculpa
enquanto caminhavas para o metro.
lembro-me do teu arfar
e não supunha que estava a ser enganado.
pedias-me perdão
apenas para que não me sentisse culpado
e te ligasse de volta para reconciliações ardentes
de corpos cicatrizados.
lembro-me de tudo isso
e lembro-me de te amar
sob luas suspensas de verão.
e lembro-me disso em seis salas diferentes
da universidade
em cinco praias diferentes
em sete cidades diferentes
e em noventa e duas camas de madeira
ferro plástico borracha o que fosse,
todas elas minhas
todas elas tuas.
 

20 dezembro 2010

Playlists: iDud 20-12-2010

Seguindo a teoria do bobe sobre pizzas musicais, a lista que aqui segue reúne músicas que gostei de ver ao vivo no ano que agora acaba.

13 dezembro 2010

Duas mesas e eu na terceira



"e depois lembrei-me de estar hoje no videoclip numa escola secundária e enquanto estava a filmar, uma carrada de alunos atrás de mim à volta da câmara e uma delas - aluna - estava bem junta, a sua mama tocava nas minhas costas e eu sabia-o e então chego atrás as costas e ela sabe-o e chega à frente o peito e assim aguentamos três, quatro respirações, não mais, e a meio de um plano tenho um princípio de tesão."

E foi nesta viagem
que percebi que não estou só.

Playlists: iBob 14-12-2010

Retirar uma música do seu meio e ter o descaramento de a embrulhar com outras resume para mim o acto de criar uma playlist. Nada de transcendente nos dias de hoje em que podemos pedir para retirar ou adicionar outros ingredientes numa pizza feita e pensada por um chef.

12 dezembro 2010

Chafurdando nos primórdios da música tradicional americana #4: James Yank Rachell

Chamava-se James Rachell e não me apeteceu investigar de onde veio o Yank. Nasceu em 1910 em Brownsville, Tennessee e morreu em 1997 não interessa onde, daí dizer-se que foi um dos últimos dos grandes músicos de blues do delta, apesar de nunca ter sido assim tão grande – apesar de usualmente apenas ser lembrado como o sidekick do Sleepy John Estes – talvez por não cantar muito, talvez por não tocar guitarra mas sim um curioso instrumento nestas andanças de seu nome bandolim – e depois há aquela história do bandolim e do porco que todos acham fantástica.
Estou cansado e não tenho muito mais a dizer sobre ele, vão aos links e aos youtubes e aí podem ver o próprio a falar para uma câmara a cores e isso não é algo que têm a oportunidade de ver com 



06 dezembro 2010

Playlists: iCyst 06-12-2010

A playlist para os dias que se seguem aqui em Altamont tem muito a ver com a atenção que tenho dado à percussão, mais ultimamente, daí Steve Reich, com os seus famosos loops de voz, Einstein on the Beach, de Philip Glass, quase que em jeito explicativo, Keiji Haino, de quem hei-de falar mais por aqui, com o lado super lento dos Black Blues, e depois BJM ou Boards of Canada em estilo quase dançante.
Algumas das músicas são longas, não sei se a malta daqui aguenta mais de 5 minutos nem se estará disposta a escutar isto como deve ser, ou seja, com headphones, mas nao custa tentar.

03 dezembro 2010

Chafurdando nos primórdios da música tradicional americana #3: Sleepy John Estes



Sleepy porque dizia-se que tinha assim umas coisas no sangue, umas narcolepsias – outros dizem que não. Eu pessoalmente acho piada a isso – à narcolepsia – gostaria de ver um “ataque” de narcolepsia – normalmente só os vejo em festas às tantas da manhã – não lhe chamaram Blind John Estes porque só ficou cego nos anos 50, até lá só lhe faltava o olho direito – que se fechava às vezes de repente: não só em festas.

Nasceu em Ripley, Tennessee em 1904 e tinha nove irmãos e trabalhava no campo com os  dez, contando com o pai (a mãe na cozinha e nas limpezas e nos partos?), e com apenas uns quinze anos foi começando a tocar em festas e piqueniques – será que tinham toalhas brancas axadrezadas de vermelho? – com um tipo chamado Rachell e sim era um homem e sim com dois éles pois era apelido de James Yank e ele era bandolinista  ou bandoleiro ou bandolinácio e viveu até 1997 e foi ele que um dia disse "I've had the blues so long they turned into the blacks" e depois riu-se e Estes – lê-se Éstes – também tocou muito e ao longo de muitos anos com um gaiteiro de beiços chamado Nixon mas não era o presidente mas sim um tal de Hammie e depois pelo que percebi nos anos 30 havia muitos concursos de blues e afilhados de blues ou padrastos e o John Estes – Éstes – participava muito nessas coisas. Foi dos poucos – dizem – músicos de blues que se aguentaram nos anos 30 por Chicago, conseguindo gravar para a Champion em 1935 e mais tarde para a Decca em Nova York por várias vezes – só voltou para o campo e para a enxada nos anos 40, ficou cego (que faz um cego com a enxada?) e foi redescoberto em 1962 para mais uma carrada de álbuns ao longo dos anos antes de ter um AVC em 1977 e ser enviado para os bichinhos – o Éstes.

Resumindo: o gajo tem uma data de álbuns – e o pessoal gosta porque é puro. 


02 dezembro 2010

Álbum de Estimação: The Traveling Wilburys - "Vol. 1" (1988)

Os anos 80 foram bastante negativos para bandas ou artistas que transitaram dos anos 70. Foram ainda piores para quem fez a maior parte da sua carreira nos anos 60 e para quem começou nos 50, a sua passagem pela década dita pop, não foi mais que um pequeno rodapé nos manuais da música da década. Porém, para estes cinco veteranos de que vos vou falar, o final dos anos 80 surgiu como um renascimento para todos, mas especialmente para o "velhinho" Roy Orbison. Mas sentem-se... Vou contar como tudo começou...
Tudo se conjugou após o regresso relativamente bem aceite de George Harrison em 1987, com o seu Cloud Nine, onde a mão do amigo Jeff Lynne, ex-ELO, é bem vísivel no tratamento muito mais pop do disco, onde salta a vista a açucarada cover de "Got My Mind Set On You".
Ainda entusiasmado com a aceitação do seu último trabalho, George pretende gravar um b-side para o single "This Is Love". Não tendo um estúdio disponível em tão pouco tempo, o Beatle pede ajuda ao seu amigo Bob Dylan para que este lhe empreste o seu pequeno estúdio caseiro para aí testar umas "modas" e sair de lá com o seu b-side. Já que se encontrava em solo norte americano, Harrison aproveitou a sua estadia para revisitar velhos amigos como Roy Orbison e Tom Petty. Destes encontros casuais, em tudo semelhante aos nossos encontros com velhos amigos, falou-se de tudo e, naturalmente, de música. George disse que estava a tentar gravar um b-side e os outros resolveram também dar uma perninha. A música, que se viria a chamar "Handle With Care", devido a um caixote com esse nome no estúdio de Dylan, foi proposta à editora de Harrison. Os olhos da Warner Brothers tinlitaram ao pensar nos cifrões que poderiam vir daqui e sugeriram que a música não fosse deixada apenas como o outro lado de um single mas que tivesse outra visilibidade. Os 5 veteranos resolveram, então, deixar a pasmaceira em que a sua carreira estava e juntaram esforços e resolveram gravar um disco em nome próprio. Traveling Wilburys foi o nome escolhido e cada um escolheu uma alcunha própria. A bateria ficou a cabo de um outro amigo de longa data, Jim Kelter. O resultado foi este Vol. 1, que, ao contrário das melhores expectativas acabou mesmo por ser um disco simples, despretensioso, encapsulando a vibe que se sentia naquela sala. Um grupo de velhos amigos a tocar apenas para eles próprios e divertindo-se largamente. As músicas são do mais simples que há mas são honestas e trazem boa disposição sempre que as oiço. Um supergrupo sem as peneiras dos supergrupos muito em voga nos anos 70. Este disco relançou de modo geral as carreiras de ambos, especialmente do carismático Roy Orbison. Infelizmente este viria a falecer poucos meses depois do lançamento deste disco. Ficou a imagem de alegria deixada nestas dez músicas.

01 dezembro 2010

Duas mesas e eu na terceira: antes ter ficado em pecan city

Desperado by Johnny Cash on Grooveshark

"Já não tenho muito mais para contar. No dia trinta de Junho ou Julho nunca sei, confundo sempre os dois, nesse dia encontrei um tesouro ou o tesouro, digamos que o encontrei – a coisa mais refulgente que os meus olhos castanhos já reflectiram. Era cor de prata e ouro e platina e diamante tudo ao mesmo tempo era luzidio e chiava timidamente com o vento a passar, como se este trouxesse aos ouvidos do mundo um pouco da fortuna anunciada. Quando o vi percebi que só o destino poderia arranjar estas coisas, senti uma calma tremenda e apenas rezava para que o tempo estancasse ou se eternizasse, não sei, eu que nunca rezei na vida eu que matei sem piedade nem desconforto eu que disse tantas vezes que ia só ali comprar tabaco e nunca mais voltei e eu deixei partes de mim para trás somente para não ter que regressar. Nesse instante em que o vi, o tesouro, dei-me conta de quão harmoniosa poderia ser a vida, lembro-me do silêncio das coisas e da brisa a arrastar consigo as pedrinhas e poeiras e lembro-me do sol estancado/congelado/furado a fazer-se sentir tanto como o chão debaixo de mim: estava lá. De repente ele disparou e eu como que, não vão acreditar nisto mas é verdade, como que vi a bala a chegar-se a mim em câmara lenta, isto apesar dela vir detrás. Acertou-me na carne das costas, o músculo engoliu-a e eu nem dor senti, notei apenas uma sensação de fresco de universo, antes de cair recebi muito obrigado outra bala na nuca. Depois os meus joelhos cederam e ainda hoje me recordo como ontem, o som da areia vermelha a voar pedrinha contra pedrinha, levantadas pelo bafo que soltei mal a minha face embateu no solo, um vruuu pequenino devagarinho de letras minúsculas, inaudível para quem tem quotidianos em que pensar, o que certamente não era a minha situação. Lembrei-me de como ela gostava de vir para o lado da cama onde eu tinha dormido mal me levantava todas as manhãs para ir à casa-de-banho. A minha vista ainda funcionou por dois segundos mais e foi durante esses dois gigantes segundos que me dei conta pela primeira vez em quarenta e dois anos de vida que cada grão de areia de todos os areais deste mundo é ímpar e insubstituível e que nunca se descobrirão dois iguais.
Não que eu tenha vivido a minha vida no limite só para chegar a esta conclusão mas"