Sou péssimo a tomar boas decisões. No outro dia comprei um livro chamado "como tomar boas decisões". Não ajudou. Continuo a hesitar e sou lançado para o abismo da decisão errada. Às vezes tudo me diz que é a errada mesmo antes de a escolher. Como quem penetra sem preservativo sem saber bem por quê. E o abismo ali tão perto. O preço de uma casa não nos devia permitir oscilar entre o racional e o emocional, no entanto a maioria das pessoas compra-as com base em fundamentos emotivos (gostar-se do bairro, estar-se perto dos amigos ou família, lembranças de infância). No dia em que assinei a escritura do meu apartamento estávamos em Setembro e em Lisboa. Havia sol, daquele que há e fica, mas não me recordo de suar. A manhã chegava ao fim e tinha de tratar do gás e água. Na minha mão um par de chaves. Tive a sensação de que ia olhar para a casa pela primeira vez. Tentei, mas não consegui imaginá-la, mais. Não sabia como era. Principiou-se uma ansiedade. Quando entrei estava vazia e eu sem saber o que fazer. Decidi apanhar ar, vagueei até dar por mim sentado num banco perto do médico do Campo Santana. Escolhi Boards of Canada e imaginei uma corda no meu pescoço.
Os Portishead são uma banda que dispensa apresentações para qualquer pessoa com um ouvido a funcionar bem que passou pelos anos 90, por isso não me vou alongar muito.
Banda de Bristol, onde juntamente com os Massive Attack se lançaram à conquista do mundo com o seu trip-hop, os Portishead basearam a sua estratégia de divulgação na qualidade artística dos seus videoclips. Antes até de lançarem o seu primeiro álbum realizaram uma curta-metragem, To Kill a Dead Man, mas foi a banda sonora criada para a mesma que atraiu atenções, e daí até terem Dummy no mercado foi um pequeno passo. Foi através de uma crescente rotação dos seus clips em programas como Alternative Nation ou Chill-Out Night, da MTV, que foram ganhando público, e no final de 1995 já eram agraciados com vários prémios da indústria da música. Não que isso interesse, naturalmente, mas de facto havia aqui qualquer coisa de diferente do britpop que reinava a solo nessa altura. A intensidade, o dramatismo das melodias, a voz de Gibbons, sempre acompanhadas com o sintetizador de Geoff Barrow e a guitarra de Adrian Utley são únicas.
Provavelmente vão apontar-me o dedo por meter aqui um álbum que não é um álbum de originais mas sim um concerto ao vivo. Pois bem, passo desde já a apresentar o meu argumento - andei durante 2 anos a debater-me se gostava mais do Dummy ou do Portishead. Não conseguindo chegar a uma conclusão definitiva, surgiu em 1999 este Roseland NYC Live que foi a única forma de resolver o problema - decidi que ficava este o meu favorito e pronto. E até hoje assim é. Já conheço melhor estas versões do que as versões originais. Heresia? Sim, admito que possa ser. Mas sigo na minha, herege e feliz com a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque no fundo do ouvido a acompanhar o trio Barrow Gibbons e Utley em todo o seu esplendor.
Não há muitas palavras a dizer sobre isto. São os The Good The Bad, banda dinamarquesa, com a música "030". Mas o videoclip vale por tudo. Just watch it.
Há uns dias um velho comparsa meu atirou-me para a cara: "os Franz Ferdinand estão datados!". Como não estava à espera de uma intervenção assim fiquei meio estupefacto e tentei rebater a afirmação, ao qual ele me diz: "há quanto tempo não ouves um álbum de FF de início ao fim?". Desarmou-me. De facto, Franz Ferdinand, como o indie rock em geral está a ficar datado. Já são dez (10!) anos de boa música de um estilo que veio "salvar-nos" da mediocridade do pop/rock que vigorava no fim dos anos 90. Pois bem, em dez anos passam-se muitas coisas. O mundo muda, os estilos mudam. Os próprios Beatles nem dez anos duraram. É complicado a uma banda manter-se honesta e no "top of the game" por muito tempo. As pessoas cansam-se e é normal. O indie rock está a morrer aos poucos, lentamente e este último disco dos Interpol é uma das imagens desse falecimento. Tanto a nível estético como lírico.
Apenas intitulado "Interpol", algo que a maior parte das bandas o faz logo no primeiro disco, o que poderá querer significar que o ciclo fechou e a partir de agora ou se entra por outros caminhos ou se começa a apagar lentamente como uma fogueira a qual não alimentamos mais, ou porque não precisamos de mais calor ou porque não temos mais lenha (leia-se ideias). "Interpol", quarto disco de originais da banda nova-iorquina, liderada por Paul Banks, agora com menos um elemento, cheira apenas a competente, o que não é mau, mas não é bom. Não tem a melancolia e estranheza de Turn on the Bright Lights nem a pujança e velocidade de Antics nem sequer o lado mais apelativo de Our Love to Admire. Serve para entreter, para meter lá no meio dos bons mas sem sair muito da estante. O fogo está a apagar-se mas ainda lança algumas labaredas e nos queima como em "Success", "Lights" ou "Barricade" e ainda nos leva a alguma mais distante sombria na trilogia final com "Try It On", "All the Ways" e "The Undoing". Tudo somado não nos deixa desiludidos porque já não estamos mais à espera de muito. Tal como eles, crescemos, expandimos horizontes e já estamos prontos para o futuro pós indie-rock. Falta eles darem o próximo passo ou o fogo apagar-se-á para sempre...
A expectactiva estava elevada para o passado domingo à noite - os Broken Social Scene vinham pela primeira vez a Lisboa (após já terem passado pelo palco indie por excelência Paredes de Coura em 2006) e escolheram, a meu ver, a sala perfeita para o efeito.
- Broken Social Scene - Casa Música 8 Nov
- Black Rebel Motorcycle Club - Aula Magna 8 Nov, Hard Club 9 Nov
- !!! - Lux 9 Nov, Sá da Bandeira 10 Nov
- Vampire Weekend - Campo Pequeno 10 Nov
- The Drums - Lux 11 Nov
- These New Puritans - Musicbox 11 Nov
- Interpol + Surferblood - Campo Pequeno 12 Nov
- Márcia - Lux 12 Nov
- Daniel Higgs + David Maranha & Gabriel Ferrandini - ZDB 13 Nov
Concerto destaque: The Walkmen - Coliseu Recreios 14 Nov
Reflectir acerca de space rock é uma actividade chata, pelo menos tão aborrecida como ouvir os riffs do David Gilmour ou vasculhar a dentição da Mrs Archer, bibliotecária de meia idade, com aspecto de ter envelhecido em simultâneo com o contraplacado encortiçado onde terá espetado já mais de um milhão de pioneses, lingua disforme, molares de chumbo, etc.
Quem me trouxe à reflexão foram os Don Caballero, rapazes de Pittsburgh que tocam música instrumental aceitável ao ouvido naqueles dias de Outono em que o grau de exigência esteja ao ponto de nos sentarmos no sofá a ver uma série de ficção americana género Lost.
Para ser sincero, a unica razão que me leva a ouvi-los no meu iPod de vez em quando prende-se com os nomes que dão às musicas, a lembrar a equipa de futebol que formamos no secundário (A Revolta Da Carne de Porco à Alentejana, nome que depois caiu na banalidade gracas ao idiótico Luis Borges e o seu A Revolta dos Pastéis de Nata). De qualquer modo, nomes como Haven't Lived Afro Pop, Details on How to Get ICEMAN on Your License Plate ouA Lot of People Tell Me I Have a Fake British Accent são irresistiveis. A música, em si, faz as delícias de qualquer americano indie cool que tenha tido pouco contacto com Jim O'Rourke, não chegando portanto aos calcanhares de uns Mogwai.
Deixo-vos um Groove com American Don e outros. Digam-me de quem gostam mais.