27 outubro 2010

Fotoreportagem: Dead Combo - Cinema São Jorge: 26-10-2010

(clickar aqui para mais fotos do concerto)

Grande actuação de uma grande banda. Lotação esgotada no São Jorge, não para ver um filme, mas para ver a sua banda sonora.
Os Dead Combo são uma dupla, guitarra e contra-baixo. As músicas são instrumentais, e quando há voz, não é para cantar, mas antes para falar, ou recitar, ou simplesmente vociferar.
Os Dead Combo já tinham provado que são um projecto diferente no panorama nacional, não são mais do mesmo. Trazem frescura e uma abordagem western à canção portuguesa (uma das músicas é fado eléctrico não cantado), e já tinham mostrado que são dois músicos cultos.
Agora, surgem ao vivo com a Royal Orquestra das Caveiras - 3 sopros, bateria e piano - que vem dar ainda mais densidade e impacto ao filme sonoro que se apresneta em palco, com os realizadores, Tó Trips e Pedro Gonçalves, encarregam-se de gritar luzes camera acção.
Esta nova abordagem que os Dead Combo fizeram à sua própria música, ao incluir uma royal orquestra, veio refrescar aquilo que podia começar a entrar numa espiral de repetição - mesmo com todo o virtuosismo que há naqueles 10 dedos, 2 instrumentos de cordas, sozinhos, acabam por esgotar as possibilidades de exploração.
Há vitalidade nos Dead Combo.

Duas mesas e eu na terceira: Quando escutado no momento certo


Hoje a tipa bazou de casa.
Adeus.
Não te quero ver mais, és feia e és doente e guardas a escova de dentes
no quarto.
Não cheiras mal mas apetecia-me dizer que
cheiras mal.
Quando te sentes mal
dizes “Estou doentxinha”
num sorriso demencial.
É espanhola mas aprendeu português no Brasil,
Toma antidepressivos e gritou histérica comigo quando
lhe disse que não
não podia levar a cama da casa que deixara
de pagar.
Dizia que a cama já tinha a forma dela
e achou-me um ditador satânico por não deixá-la
levar a cama.
Adeus.
O meu melhor amigo nesta cidade
apaixonou-se por ela
apesar dela ser louca e guardar a escova de dentes
no quarto
e não usar o bengaleiro
nem deixar os sapatos na despensa
nem a toalha na casa de banho
nem nunca ter deixado uma mola de cabelo ou umas chaves
na mesa da sala,
apaixonou-se apesar de ter namorada
e apesar do único contacto que quer ter com ela é em forma de
festinhas no braço,
barriga no máximo
e gosta da tipa apesar dela nunca ter dito uma frase de jeito
em três meses de convivência.
Tenho uma empregada chamada Nafta
que anda no 6º ano da escola e com quem tenho conversas mais interessantes
do que com ela
e então deixei de ter o meu amigo
porque ao zangar-me com ela zanguei-me com
ele. E já não o tenho.
Ao invés tenho uma casa com três quartos,
uma liquidificadora uma tostadeira uma panela de teflan um wok e uma faca de cozinha
daquelas boas.
Ela levou a mangueira da botija de gás
e hoje não posso cozinhar.
Levou também o boião onde tinha o açúcar
e o caixote do lixo da cozinha
e o da casa-de-banho
e mais algumas coisas.
Acho que fiquei com o mais importante,
que acham?

E como este é um blog sobre música
eu digo:
neil young é maningue nice
quando escutado no momento certo.

26 outubro 2010

Álbum Fresquinho: Best Coast - "Crazy For You"

Os Best Coast já tinham sido alvo de um Recomenda no passado mês de Julho, mas entretanto lançaram o seu primeiro LP, este Crazy For You, e, a meu ver, não foi feita a devida saliência ao mesmo.
Primeiro que tudo, começo por dizer que chamar isto de um Long Play pode parecer um pouco falacioso, uma vez que contando com o bonus track totaliza uns meros 31 minutos. O que chateia um bocado, porque chega ao fim rápido e temos de carregar no play outra vez e outra e outra, até chegarmos a um ponto de saciamento que parece nunca chegar. Sabe bem ouvir este álbum, principalmente por parecer simples. Letras simples sobre relações com rapazes, sobre being lazy, sobre o tempo, arranjos simples e formato standard rock guitarra baixo e bateria. Parece tão simples que até dói. Numa altura que aparecem diariamente bandas novas a ser faladas em blogs, sites, etc, torna-se cada vez mais dificil separar o trigo do joio, mas parece-me que estes Best Coast são mais trigo. Bethany Consentino e o seu parceiro multi-instrumentista Bobb Bruno ganharam pelo menos uma oportunidade de me provar se estarei certo ou errado, enquanto este Crazy For You me for acompanhando por uns tempos próximos com o seu surf-pop-garage-whatever. Play.
      
 

25 outubro 2010

Concertos da Semana - 25 a 31 de Outubro

Ora bem, a apenas uma semana de começar um dos meses mais empolgantes em Portugal, mais concretamente em Lisboa, no que diz respeito a concertos, esta não é o que se pode chamar uma semana muito rica, especialmente em comparação com o que vem aí.
Deste modo o destaque desta semana vai, essencialmente para uma série de concertos a realizar na sala principal do cinema São Jorge. Começa a 26 com os Dead Combo ajudados com Royal Orquestra das Caveiras. Seguem-se os Virgem Suta a 27 e os Orelha Negra, uma das boas surpresas nacionais, a 28. Nos últimos dias do mês, os Moonspell apresentam, também no São Jorge, "Sombra", um espectáculo "semi-acústico"das suas canções mais conhecidas.

A nível internacional passarão, também, por cá nomes como os A Flock of Seagulls, acabadinhos de regressar dos anos 80, esta banda "one hit wonder", tentará chamar o público português, hoje na Aula Magna, à conta do seu êxito com quase 30 anos, "I Ran (So Far Away)"
Com mais interesse assistiremos ao regresso dos britânicos  Tindersticks no Coliseu, dia 28 e do brasileiro Seu Jorge no Coliseu, a 29.

Para fechar o mês, celebrando o Halloween, Manel João Vieira, propõe uma festa no seu espaço, Maxime, com a sua banda, Irmãos Catita.

(para mais concertos, ver Agenda na barra lateral)

23 outubro 2010

Que se foda o fil colíns

Imaginemos o homem na pré-historia quando descobriu que as construções não são apenas as feitas de pedras, paus e colmo mas também dos sons que surgem dum tronco oco de árvore antiga. Ou mesmo dos sons que vem dos pulmões dos homens (quando ainda não havia nome para a caverna que existe no interior do peito), que emergem em murmúrios durante as caminhadas. Terá pensado em silencio nas imensas possibilidades da sua descoberta? Terá a musica precedido a linguagem? E sem linguagem terá conseguido formular no seu cérebro este tipo de descobertas? Terá apenas explorado sem preocupações intelectuais?
Paul Gauguin no auge do período industrial apercebendo-se da sua própria sujidade interior tentou, primeiro nas aldeias perdidas da Bretanha e mais tarde nas colónias francesas da Polinésia, atingir um estado mais selvagem, considerado por ele um estado mais puro. Não encontrou esse estado primordial com que sonhou e acabou ate por morrer de doença de homem branco, transmitida num coito lamacento, na certeza de que não existe já um espírito que seja que esteja livre da corrupção.
Indicações: A altura ideal para escutar esta obra nipónica é precisamente nos vossos escritórios ou na comuta (perdoem-me o inglesismo) diária se for feita de metro ou comboio. Em alternativa, durante um concerto de Green Day ou de uma banda tributo aos Led Zepellin. Ponham headphones, claro. E não estou a brincar.


Eu sugeria sacarem esta el paso inferior, ou, melhor, comprarem-na online, do que estarem a ouvi-la aos bocados no youtube.

22 outubro 2010

Discussão à 6ª: O Fade-out

O tema que queria lançar para cima da mesa/vosso monitor de computador hoje é o do Fade-out, aquela opção que os músicos têm de acabar uma música pura e simplesmente baixando o som da mesma até se atingir o silêncio. Temos muito e muitos casos de artistas que optam por esta solução. Será preguiça? Desleixo? Ou opção técnica e assumida como melhor? Na minha opinião, todas as músicas deveriam ter um ponto final em vez de 3 pontos, porque o final realmente marca, fica no ouvido e acaba por ser uma referência. Apresento-vos em baixo um caso muito recente que a mim me surpreendeu, porque a música parece que ganha ali uma nova vida e depois acaba.


E outra da mesma banda do mesmo álbum com um fim aparentemente mais trabalhado, pensado e que a meu ver tem maior impacto.


É bastante complicado discutir arte, mas neste caso específico gostava de saber qual a vossa opinião sobre o Fade-out? Vale como opção ou eles deviam pensar em algo mais?

Altamont Recomenda

Não é uma banda nova, mas apenas um video novo para uma excelente música do último álbum e acompanha o anúncio que vêm cá em Maio de 2011 pelo que me pareceu relevante de aqui colocar também.


Enjoy!

21 outubro 2010

Álbum de Estimação: Beck - "Odelay" (1996)

Quando Beck apareceu com o seu "Loser" pareceu-me mais um one hit wonder lançado pela MTV para ser mastigado até à exaustão e depois regurgitado. Kurt Cobain tinha acabado de se suicidar e o mundo da música (especialmente os media que vivem às custas do mundo da música) abriram o recrutamento para a vaga deixada em aberto de centro das atenções. Beck tinha semelhanças físicas com Kurt e cantava com orgulho o facto de ser "Loser", que naquela altura era visto como topo de carreira. Nada mais fixe do que ser um "Loser" em 1994 e como tal a MTV decidiu dar-lhe airplay a rodos a ver se a coisa pegava. Mas a grande maioria desconfiou logo da brincadeira e não se deixou convencer. Na minha opinião, e fantasiando um pouco à volta do tema, o próprio Beck não gostou da brincadeira e, ressabiado por ter sido utilizado, decidiu mostrar do que era capaz. Assim se fez Odelay e a sua teia única e absurda de samples, arranjos, instrumentos e principalmente de emoções num mesmo álbum, e por vezes numa mesma música.
Olhemos por exemplo para "New Pollution" - começa em ritmo de música de Natal com efeitos sonoros de desenhos animados, passa bruscamente para uma forte batida de bateria e cheia de ritmo apelando à dança, entra depois um assustador sample de saxofone a acompanhar e aquilo tudo mistura-se num grande loop final, terminando ao som do saxofone sozinho. É apenas uma amostra do que é este disco, uma amálgama de momentos de diferentes estilos musicais que intrisicamente cosidos fazem sentido. Beck não passa de uma velhinha sentada na sua poltrona a fazer tricot com todo um universo musical. E o resultado é qualquer coisa de extraordinário.
Em jeito de conclusão (e de forma a poderem passar à audição se é que ainda não o fizeram) diria que poucos são os álbuns dos anos 90 que ouvidos hoje soam tão frescos como este Odelay, aposto que se eu lhe mudasse o nome e o colocasse na rubrica dos Álbuns Fresquinhos ninguém iria dar pela falcatrua. E pensar que já foi lançado há 14 anos...

20 outubro 2010

Músicas com História: Altamont

"Isso é tipo para ser Altamente?" Não. O nome deste vosso querido blog não buscou a sua inspiração nessa palavra. Este blog foi buscar o nome a um dos acontecimentos mais marcantes da história dos anos 60. Não. Não foi o Woodstock mas sim o seu primo maquiavélico e malvado. O Festival Altamont, realizado apenas uns meses depois e com um desfecho completamente diferente. Ora então peguem uma cadeira, sentem-se confortáveis porque o que agora vão ouvir (ler) é uma história sobre o início do fim da utopia hippie e dos próprios anos 60 em si. Ora cá vai:

“Please Allow me to introduce myself, I’m a man of wealth and taste...” vociferava um alucinado Mick Jagger enquanto em seu redor, se dava a machadada final, quase literalmente, na geração Paz e Amor. Era o fim da inocência...
“This is the beat generation” afirmava, duas décadas antes, Jack Kerouac ao descrever o seu círculo social. Era o surgimento de uma nova corrente, um estilo diferente, claramente associado aos artistas e escritores boémios e consumidores de droga.
O conceito de Beat Generation era apenas este: liberdade criativa e espontânea. Daqui saíram obras primas como Howl de Ginsberg ou On the Road do próprio Kerouac.
O seu interesse na experimentação, nomeadamente nas drogas e sexo, aliado à confrontação à autoridade influenciaram muitos que sentiram estar aí a resposta, surgindo, nomeadamente nos anos 60, aquilo a que se acabou por chamar de uma contra-cultura. Uma oposição ao sistema,
especialmente por parte da população jovem.
O mundo estava a mudar, Kennedy era assassinado em Dallas enquanto