21 outubro 2010

Álbum de Estimação: Beck - "Odelay" (1996)

Quando Beck apareceu com o seu "Loser" pareceu-me mais um one hit wonder lançado pela MTV para ser mastigado até à exaustão e depois regurgitado. Kurt Cobain tinha acabado de se suicidar e o mundo da música (especialmente os media que vivem às custas do mundo da música) abriram o recrutamento para a vaga deixada em aberto de centro das atenções. Beck tinha semelhanças físicas com Kurt e cantava com orgulho o facto de ser "Loser", que naquela altura era visto como topo de carreira. Nada mais fixe do que ser um "Loser" em 1994 e como tal a MTV decidiu dar-lhe airplay a rodos a ver se a coisa pegava. Mas a grande maioria desconfiou logo da brincadeira e não se deixou convencer. Na minha opinião, e fantasiando um pouco à volta do tema, o próprio Beck não gostou da brincadeira e, ressabiado por ter sido utilizado, decidiu mostrar do que era capaz. Assim se fez Odelay e a sua teia única e absurda de samples, arranjos, instrumentos e principalmente de emoções num mesmo álbum, e por vezes numa mesma música.
Olhemos por exemplo para "New Pollution" - começa em ritmo de música de Natal com efeitos sonoros de desenhos animados, passa bruscamente para uma forte batida de bateria e cheia de ritmo apelando à dança, entra depois um assustador sample de saxofone a acompanhar e aquilo tudo mistura-se num grande loop final, terminando ao som do saxofone sozinho. É apenas uma amostra do que é este disco, uma amálgama de momentos de diferentes estilos musicais que intrisicamente cosidos fazem sentido. Beck não passa de uma velhinha sentada na sua poltrona a fazer tricot com todo um universo musical. E o resultado é qualquer coisa de extraordinário.
Em jeito de conclusão (e de forma a poderem passar à audição se é que ainda não o fizeram) diria que poucos são os álbuns dos anos 90 que ouvidos hoje soam tão frescos como este Odelay, aposto que se eu lhe mudasse o nome e o colocasse na rubrica dos Álbuns Fresquinhos ninguém iria dar pela falcatrua. E pensar que já foi lançado há 14 anos...

20 outubro 2010

Músicas com História: Altamont

"Isso é tipo para ser Altamente?" Não. O nome deste vosso querido blog não buscou a sua inspiração nessa palavra. Este blog foi buscar o nome a um dos acontecimentos mais marcantes da história dos anos 60. Não. Não foi o Woodstock mas sim o seu primo maquiavélico e malvado. O Festival Altamont, realizado apenas uns meses depois e com um desfecho completamente diferente. Ora então peguem uma cadeira, sentem-se confortáveis porque o que agora vão ouvir (ler) é uma história sobre o início do fim da utopia hippie e dos próprios anos 60 em si. Ora cá vai:

“Please Allow me to introduce myself, I’m a man of wealth and taste...” vociferava um alucinado Mick Jagger enquanto em seu redor, se dava a machadada final, quase literalmente, na geração Paz e Amor. Era o fim da inocência...
“This is the beat generation” afirmava, duas décadas antes, Jack Kerouac ao descrever o seu círculo social. Era o surgimento de uma nova corrente, um estilo diferente, claramente associado aos artistas e escritores boémios e consumidores de droga.
O conceito de Beat Generation era apenas este: liberdade criativa e espontânea. Daqui saíram obras primas como Howl de Ginsberg ou On the Road do próprio Kerouac.
O seu interesse na experimentação, nomeadamente nas drogas e sexo, aliado à confrontação à autoridade influenciaram muitos que sentiram estar aí a resposta, surgindo, nomeadamente nos anos 60, aquilo a que se acabou por chamar de uma contra-cultura. Uma oposição ao sistema,
especialmente por parte da população jovem.
O mundo estava a mudar, Kennedy era assassinado em Dallas enquanto

19 outubro 2010

Álbum Fresquinho: Robert Plant - "Band of Joy"

Depois de ter espantado meio mundo ao recusar fazer parte de lucrativa reunião com os Led Zeppelin (após aquele brilhante espectáculo em finais de 2007 que pôs os fãs com “água na boca”) e ter tido um algum sucesso com o melódico “Raising Sand” (co-assinado com a cantora country Alison Krauss), pode-se dizer que o Sr. Robert Plant, inglês, 62 anos e CBE (Commander of the Order of the British Empire) está-se basicamente nas tintas!
Senhor do seu próprio destino, o ex-vocalista dos (imortais) Led Zeppelin prefere hoje em dia fazer discos que lhe dão realmente gozo, do que embarcar em “modas” de reuniões nostálgicas (que muito raramente cumprem as expectativas). Bem pelo contrário, Plant está definitivamente “noutro registo”. Recentemente chegou a afirmar a propósito de um concerto que assistiu dos Them Crooked Voltures (onde milita o seu “ex-colega de armas”, John Paul Jones) que já não tinha qualquer conexão com o rock pesado e que ficou com as “orelhas a sangrar”.
Gostos à parte, o Sr. Plant lá tem as suas razões (o peso da idade pode ser uma delas) para partir para outras “ruas” musicais. Nomeadamente por “avenidas” onde cheira a Country, a Americana, a Gospel, a Folk ou a Blues. Géneros que se mesclam com um “rockzinho”, leve e suave (como demonstra aqui “You Can´t Buy My Love”). Ou seja: música para se ouvir enquanto se retemperam as forças numa soneca depois do almoço.
É esse “estado de alma”, preguiçoso e sonolento que temos este novo “Band of Joy” (nome da antiga banda de Plant e John Bonham antes destes ingressarem nos Led Zeppelin). Se não conhecêssemos Plant de lado algum, nunca adivinharíamos que ele algum dia foi um temerário ”Deus do Rock”. Portanto, não se espere aqui grandes riffs de guitarra, solos dilacerantes, ritmos avassaladores, composições épicas ou vozes de trovão como em clássicos como “Black Dog”, “Whole Lotta of Love”, “Kashmir” ou inevitavelmente “Stairway to Heaven”.
“Band of Joy” está a milhões de anos do tempo em que os “velhos dinossauros do rock” governavam a moda e os tops. No entanto, o disco não deixa de ter os seus méritos. Plant consegue mostrar ainda que está em boa forma vocal em canções como “Angel Dance” ou “House of Cards”. Depois há também lugar a momentos mais sublimes como no soturno “Monkey”, na balada etérea “Silver Rider” ou no excelente blues “Satan Your Kingdom Must Come Down”. Todas elas seriam idílicas se as pudéssemos escutar no final de um dia de Verão, a meio de uma auto-estrada perdida no deserto, algures entre a Califórnia e o Nevada.
A fechar temos o título (algo profético) “Even This Shall Pass Away”. Um caminho mais experimental, um som mais rude e que se calhar é uma forma de Plant nos mostrar o que há-de vir. Mais coração, mais emoção, menos guitarradas e menos distorção. A idade já vai pesando e os ouvidos de “Sir” Robert também. Por isso, (e enquanto a reforma não chega), venha de lá essa “ternura dos sessenta”...



18 outubro 2010

Altamont Recomenda

O Recomenda de hoje fica a cargo dos Indian Wars, banda de Vancouver, com o tema "If You Want Me". Diria que se encaixam no género garage punk e lançaram recentemente um EP com o mesmo nome da música que aqui vos apresento.



Enjoy!

Concertos da Semana - 18 a 24 de Outubro

O grande destaque esta semana ao nível de eventos musicais é para mim o DocLisboa.

O festival de cinema documental inclui na sua programação uma secção de nome Heart Beat dedicado aos documentários relacionados com o mundo da música e a meu ver há pérolas que não devem ser desperdiçadas, até porque como bem sabemos costumam ser oportunidades únicas de os conseguir ver. Dos 14 filmes presentes nesta secção há filmes para todos os gostos musicais - dos Beatles e Rolling Stones, a Frank Zappa, indo até à música africana e as suas raízes e passando por uma noite histórica da música brasileira. De realçar também um documentário de Fatih Akin, nome de realce do cinema turco/alemão, que usa a música para estabelecer uma ponte entre esses dois países ligados por laços de emigração.
Aqui fica um link para a programação completa, onde poderão ver sinopses horários e locais dos filmes (secção heart beat entre as páginas 57 e 61).

Quanto a concertos propriamente ditos, poderão consultar data e local dos mesmos na barra lateral do blog (Agenda).

16 outubro 2010

Que se foda o fil colíns

Estalou-me uma vertebra: aproximei-me do gradeamento - o intuito era parar - mas a bicicleta tropecou no lancil. Na altura preocupei-me em, aos solavancos, retomar a marcha, como quem deseja um numero minimo de testemunhas da burrice. Mais tarde entrava na carruagem do comboio e enquanto com o olhar procurava o melhor lugar da mesma, uma dor de anis subiu-me pela espinha, ao seu longo, para ser mais preciso, e puxou-me as orelhas. Limitado a movimentos minimos com o garganete, enfiei os headphones e fui levado pelo paquistanes Ahmed (ahrre-mede)

15 outubro 2010

Discussão à 6ª: Música Clássica

Qual o valor que damos hoje à música clássica? Foi esta a pergunta que me veio à cabeça ao ter uns minutos livres no intervalo entre a 40ª Sinfonia e o Requiem de Mozart e ao olhar à minha volta e aperceber-me que a média de idades dos presentes deveria rondar os 55 anos. Talvez até mais, mas não quero parecer exagerado e distrair do ponto principal da questão. E o ponto principal que quero lançar é: Será a música clássica o apogeu da música e só tarde na nossa vida, com o acumular de conhecimento, sabedoria, percebemos isso? Ou será que nos falta é educação de base para nos apercebermos mais cedo da sua importância e grandiosidade?
Quero colocar desde já em cima da mesa e desmistificar um aspecto que é utilizado muitas vezes como justificativa - o aspecto financeiro. Hoje em dia um concerto de música clássica é mais barato que os concertos de pop/rock que por aí se vendem, basta um saltinho à página da gulbenkian e verão muitos concertos a menos de 30€, preço que paguei por um bilhete para ver os The Walkmen, por exemplo. As óperas são um pouco mais caras, é um facto, mas também é um outro nível de produção e de trabalho envolvido. Fica ainda com certeza mais barato que um qualquer jogo da Champions.
Assim sendo, o que desmotiva um jovem de 20 anos a nem sequer ponderar a possibilidade de ir experimentar um destes concertos? É algo que me atormenta, olhando para mim próprio que não o fiz aos 20 e só aos 30 comecei a abrir as portas a este mundo e agora penso que foram 10 anos que poderia ter acumulado mais uma camada de conhecimento e assim não foi. O que fazer para estimular os jovens a quererem conhecer mais do que o que lhes é oferecido?
Desde já agradeço a vossa opinião aqui abaixo na caixinha dos comentários!

Altamont Recomenda

Os Tennis, com Marathon, música presente no 7'' lançado no passado mês de Agosto Underwater Peoples.



Enjoy!

14 outubro 2010

Álbum de Estimação: The Zombies - Odessey & Oracle (1968)

Ele há coisas assim. Por vezes, quando já não pomos pressão numa coisa porque sabemos que a partir daí seguiremos outro rumo, acontece exactamente o oposto do que se passaria se estivéssemos a dar o máximo. Este Odessey & Oracle é o exemplo disso mesmo. Gravado em 1967, em pleno "Verão do Amor" quando a banda já estava a fazer contas à vida por achar que não passava da cepa torta, pois tardava em afirmar-se ao nível de outras bandas, este disco surge como o canto do cisne desta banda inglesa que já estava praticamente separada quando o disco foi finalmente editado em 1968. Mas retomemos uns anos antes para recordar a histórida dos Zombies.
Formados em 1962, a banda de Hertfordshire cedo mostrou que não fazia parte da leva inglesa que invadiu os Estados Unidos dois anos mais tarde. É certo que foi metida no mesmo saco até porque alguns dos seus temas continham o tal Ritmo & Blues que a maior parte das bandas britânicas vinham a exibir. No entanto, o grupo, composto, principalmente, pelo vocalista Colin Blunstone e o teclista Rod Argent apresentavam uma bagagem musical muito mais clássica, o que, por vezes, até lhes deu imagem mais negativa, como se fossem uns "meninos", sem o rasgo que apresentavam os Stones, Kinks ou Who. Óbvio que cada banda deve jogar com o melhor que tem e, se calhar, as editoras nunca perceberam bem qual a linha desta banda e tentaram encaixá-la com outras bandas que não seriam bem o mesmo estilo. Isso fez com que os Zombies nunca fossem uma banda muito popular naqueles dias nem sequer tivessem singles que fossem muito comerciais nem "radio friendly". Isto numa altura em que os LPs não eram de grande importância e que um simples single poderia mudar a história de uma banda. Aparte do ligeiro sucesso com "She's Not There", isso não aconteceu com a banda de Argent e, passado alguns anos e sem mostrar provas de êxito financeiro, a editora Decca, resolveu não renovar contrato deixando-os à deriva. A CBS propôs um contrato para a gravação de um disco. A banda acedeu mas, farta de andar esta vida insegura, resolveram que seria o último. Alguns elementos da banda deixaram inclusive de tocar música. No entanto algo de muito positivo estava reservado para a gravação deste disco. Terá sido a despreocupação de já não ter de mostrar serviço ou o sentimento de que deveriam acabar em grande, ou apenas a conjugação de factores cósmicos, a verdade é que os Zombies deixaram uma obra prima para as gerações vindouras. Claro está que o disco aquando da sua edição falhou rotundamente, sobretudo em solo britânico. Nisto, os elementos da banda já seguiam o seu próprio caminho, sem olhar sequer para trás. Rod Argent fundou a sua própria banda com um registo mais Hard Rock, enquanto o vocalista Blunstone trabalhava em seguros. No entanto, vindo do nada, a edição de "Time of the Season", em 1969, deu aos Zombies, o seu hit single que tanto tinham procurado em "vida". Além disso, fez também ressurgir das trevas este disco escondido, mostrando ao mundo as pérolas escondidas em 12 músicas de ode ao melhor do psicadelismo e pop barroco britânico.
Este disco, com pouco mais de 30 minutos faz-nos mergulhar num som recheado de imensos instrumentos cada um com várias camadas assim como várias vozes e coros. Uma mistura de Pet Sounds, Yellow Submarine, Magical Mystery Tour ou Syd Barrett mas num tom muito mais clássico do habitual do rock psicadélico. A pop barroca no seu melhor.
Se o preço a pagar para este disco surgir teve que ser o desmembramento da banda, então Argent e companhia que me perdoem mas...valeu a pena...