19 outubro 2010

Álbum Fresquinho: Robert Plant - "Band of Joy"

Depois de ter espantado meio mundo ao recusar fazer parte de lucrativa reunião com os Led Zeppelin (após aquele brilhante espectáculo em finais de 2007 que pôs os fãs com “água na boca”) e ter tido um algum sucesso com o melódico “Raising Sand” (co-assinado com a cantora country Alison Krauss), pode-se dizer que o Sr. Robert Plant, inglês, 62 anos e CBE (Commander of the Order of the British Empire) está-se basicamente nas tintas!
Senhor do seu próprio destino, o ex-vocalista dos (imortais) Led Zeppelin prefere hoje em dia fazer discos que lhe dão realmente gozo, do que embarcar em “modas” de reuniões nostálgicas (que muito raramente cumprem as expectativas). Bem pelo contrário, Plant está definitivamente “noutro registo”. Recentemente chegou a afirmar a propósito de um concerto que assistiu dos Them Crooked Voltures (onde milita o seu “ex-colega de armas”, John Paul Jones) que já não tinha qualquer conexão com o rock pesado e que ficou com as “orelhas a sangrar”.
Gostos à parte, o Sr. Plant lá tem as suas razões (o peso da idade pode ser uma delas) para partir para outras “ruas” musicais. Nomeadamente por “avenidas” onde cheira a Country, a Americana, a Gospel, a Folk ou a Blues. Géneros que se mesclam com um “rockzinho”, leve e suave (como demonstra aqui “You Can´t Buy My Love”). Ou seja: música para se ouvir enquanto se retemperam as forças numa soneca depois do almoço.
É esse “estado de alma”, preguiçoso e sonolento que temos este novo “Band of Joy” (nome da antiga banda de Plant e John Bonham antes destes ingressarem nos Led Zeppelin). Se não conhecêssemos Plant de lado algum, nunca adivinharíamos que ele algum dia foi um temerário ”Deus do Rock”. Portanto, não se espere aqui grandes riffs de guitarra, solos dilacerantes, ritmos avassaladores, composições épicas ou vozes de trovão como em clássicos como “Black Dog”, “Whole Lotta of Love”, “Kashmir” ou inevitavelmente “Stairway to Heaven”.
“Band of Joy” está a milhões de anos do tempo em que os “velhos dinossauros do rock” governavam a moda e os tops. No entanto, o disco não deixa de ter os seus méritos. Plant consegue mostrar ainda que está em boa forma vocal em canções como “Angel Dance” ou “House of Cards”. Depois há também lugar a momentos mais sublimes como no soturno “Monkey”, na balada etérea “Silver Rider” ou no excelente blues “Satan Your Kingdom Must Come Down”. Todas elas seriam idílicas se as pudéssemos escutar no final de um dia de Verão, a meio de uma auto-estrada perdida no deserto, algures entre a Califórnia e o Nevada.
A fechar temos o título (algo profético) “Even This Shall Pass Away”. Um caminho mais experimental, um som mais rude e que se calhar é uma forma de Plant nos mostrar o que há-de vir. Mais coração, mais emoção, menos guitarradas e menos distorção. A idade já vai pesando e os ouvidos de “Sir” Robert também. Por isso, (e enquanto a reforma não chega), venha de lá essa “ternura dos sessenta”...



18 outubro 2010

Altamont Recomenda

O Recomenda de hoje fica a cargo dos Indian Wars, banda de Vancouver, com o tema "If You Want Me". Diria que se encaixam no género garage punk e lançaram recentemente um EP com o mesmo nome da música que aqui vos apresento.



Enjoy!

Concertos da Semana - 18 a 24 de Outubro

O grande destaque esta semana ao nível de eventos musicais é para mim o DocLisboa.

O festival de cinema documental inclui na sua programação uma secção de nome Heart Beat dedicado aos documentários relacionados com o mundo da música e a meu ver há pérolas que não devem ser desperdiçadas, até porque como bem sabemos costumam ser oportunidades únicas de os conseguir ver. Dos 14 filmes presentes nesta secção há filmes para todos os gostos musicais - dos Beatles e Rolling Stones, a Frank Zappa, indo até à música africana e as suas raízes e passando por uma noite histórica da música brasileira. De realçar também um documentário de Fatih Akin, nome de realce do cinema turco/alemão, que usa a música para estabelecer uma ponte entre esses dois países ligados por laços de emigração.
Aqui fica um link para a programação completa, onde poderão ver sinopses horários e locais dos filmes (secção heart beat entre as páginas 57 e 61).

Quanto a concertos propriamente ditos, poderão consultar data e local dos mesmos na barra lateral do blog (Agenda).

16 outubro 2010

Que se foda o fil colíns

Estalou-me uma vertebra: aproximei-me do gradeamento - o intuito era parar - mas a bicicleta tropecou no lancil. Na altura preocupei-me em, aos solavancos, retomar a marcha, como quem deseja um numero minimo de testemunhas da burrice. Mais tarde entrava na carruagem do comboio e enquanto com o olhar procurava o melhor lugar da mesma, uma dor de anis subiu-me pela espinha, ao seu longo, para ser mais preciso, e puxou-me as orelhas. Limitado a movimentos minimos com o garganete, enfiei os headphones e fui levado pelo paquistanes Ahmed (ahrre-mede)

15 outubro 2010

Discussão à 6ª: Música Clássica

Qual o valor que damos hoje à música clássica? Foi esta a pergunta que me veio à cabeça ao ter uns minutos livres no intervalo entre a 40ª Sinfonia e o Requiem de Mozart e ao olhar à minha volta e aperceber-me que a média de idades dos presentes deveria rondar os 55 anos. Talvez até mais, mas não quero parecer exagerado e distrair do ponto principal da questão. E o ponto principal que quero lançar é: Será a música clássica o apogeu da música e só tarde na nossa vida, com o acumular de conhecimento, sabedoria, percebemos isso? Ou será que nos falta é educação de base para nos apercebermos mais cedo da sua importância e grandiosidade?
Quero colocar desde já em cima da mesa e desmistificar um aspecto que é utilizado muitas vezes como justificativa - o aspecto financeiro. Hoje em dia um concerto de música clássica é mais barato que os concertos de pop/rock que por aí se vendem, basta um saltinho à página da gulbenkian e verão muitos concertos a menos de 30€, preço que paguei por um bilhete para ver os The Walkmen, por exemplo. As óperas são um pouco mais caras, é um facto, mas também é um outro nível de produção e de trabalho envolvido. Fica ainda com certeza mais barato que um qualquer jogo da Champions.
Assim sendo, o que desmotiva um jovem de 20 anos a nem sequer ponderar a possibilidade de ir experimentar um destes concertos? É algo que me atormenta, olhando para mim próprio que não o fiz aos 20 e só aos 30 comecei a abrir as portas a este mundo e agora penso que foram 10 anos que poderia ter acumulado mais uma camada de conhecimento e assim não foi. O que fazer para estimular os jovens a quererem conhecer mais do que o que lhes é oferecido?
Desde já agradeço a vossa opinião aqui abaixo na caixinha dos comentários!

Altamont Recomenda

Os Tennis, com Marathon, música presente no 7'' lançado no passado mês de Agosto Underwater Peoples.



Enjoy!

14 outubro 2010

Álbum de Estimação: The Zombies - Odessey & Oracle (1968)

Ele há coisas assim. Por vezes, quando já não pomos pressão numa coisa porque sabemos que a partir daí seguiremos outro rumo, acontece exactamente o oposto do que se passaria se estivéssemos a dar o máximo. Este Odessey & Oracle é o exemplo disso mesmo. Gravado em 1967, em pleno "Verão do Amor" quando a banda já estava a fazer contas à vida por achar que não passava da cepa torta, pois tardava em afirmar-se ao nível de outras bandas, este disco surge como o canto do cisne desta banda inglesa que já estava praticamente separada quando o disco foi finalmente editado em 1968. Mas retomemos uns anos antes para recordar a histórida dos Zombies.
Formados em 1962, a banda de Hertfordshire cedo mostrou que não fazia parte da leva inglesa que invadiu os Estados Unidos dois anos mais tarde. É certo que foi metida no mesmo saco até porque alguns dos seus temas continham o tal Ritmo & Blues que a maior parte das bandas britânicas vinham a exibir. No entanto, o grupo, composto, principalmente, pelo vocalista Colin Blunstone e o teclista Rod Argent apresentavam uma bagagem musical muito mais clássica, o que, por vezes, até lhes deu imagem mais negativa, como se fossem uns "meninos", sem o rasgo que apresentavam os Stones, Kinks ou Who. Óbvio que cada banda deve jogar com o melhor que tem e, se calhar, as editoras nunca perceberam bem qual a linha desta banda e tentaram encaixá-la com outras bandas que não seriam bem o mesmo estilo. Isso fez com que os Zombies nunca fossem uma banda muito popular naqueles dias nem sequer tivessem singles que fossem muito comerciais nem "radio friendly". Isto numa altura em que os LPs não eram de grande importância e que um simples single poderia mudar a história de uma banda. Aparte do ligeiro sucesso com "She's Not There", isso não aconteceu com a banda de Argent e, passado alguns anos e sem mostrar provas de êxito financeiro, a editora Decca, resolveu não renovar contrato deixando-os à deriva. A CBS propôs um contrato para a gravação de um disco. A banda acedeu mas, farta de andar esta vida insegura, resolveram que seria o último. Alguns elementos da banda deixaram inclusive de tocar música. No entanto algo de muito positivo estava reservado para a gravação deste disco. Terá sido a despreocupação de já não ter de mostrar serviço ou o sentimento de que deveriam acabar em grande, ou apenas a conjugação de factores cósmicos, a verdade é que os Zombies deixaram uma obra prima para as gerações vindouras. Claro está que o disco aquando da sua edição falhou rotundamente, sobretudo em solo britânico. Nisto, os elementos da banda já seguiam o seu próprio caminho, sem olhar sequer para trás. Rod Argent fundou a sua própria banda com um registo mais Hard Rock, enquanto o vocalista Blunstone trabalhava em seguros. No entanto, vindo do nada, a edição de "Time of the Season", em 1969, deu aos Zombies, o seu hit single que tanto tinham procurado em "vida". Além disso, fez também ressurgir das trevas este disco escondido, mostrando ao mundo as pérolas escondidas em 12 músicas de ode ao melhor do psicadelismo e pop barroco britânico.
Este disco, com pouco mais de 30 minutos faz-nos mergulhar num som recheado de imensos instrumentos cada um com várias camadas assim como várias vozes e coros. Uma mistura de Pet Sounds, Yellow Submarine, Magical Mystery Tour ou Syd Barrett mas num tom muito mais clássico do habitual do rock psicadélico. A pop barroca no seu melhor.
Se o preço a pagar para este disco surgir teve que ser o desmembramento da banda, então Argent e companhia que me perdoem mas...valeu a pena...

13 outubro 2010

Fotoreportagem: Andrew Bird - Aula Magna - 7.10.2010

(clickar na foto para mais imagens deste concerto)

The Legendary BirdMan 

O concerto de Andrew Bird na Aula Magna foi um one man show, tal como nós temos os Tigerman. O homem pássaro toca violino, xilofone, canta, assobia, faz loops, e anda em palco descalço, mas de fato. O homem é um talentoso virtuoso da escrita de canções e da técnica dos instrumentos - mas é para quem gosta, para os outros é só uma ligeira seca.
Este concerto não foi de apresentação de novo álbum, o último é de 2009, mas serviu também para apresentar várias músicas novas - como o próprio disse, em estreia mundial, só para os portugueses que estavam na Aula Magna.

12 outubro 2010

Álbum Fresquinho: The Walkmen - "Lisbon"

Não parece, mas Lisbon é já o sexto álbum dos The Walkmen. E não parece por um motivo muito simples - foram sempre uma espécie de tesouro escondido do rock americano. Num momento em que já vimos o que aconteceu com os Killers e os Kings of Leon é de enaltecer a sabedoria desta banda em saber esconder-se de quem se devia esconder e mostrar-se a quem se devia mostrar, mantendo sempre a sua identidade e filosofia, o que a meu ver é uma forma de estar crucial para a criação de uma certa intemporalidade. Ouvir hoje "The Rat", (do álbum Bows + Arrows) arrebata-nos da mesma forma do que quando foi lançada em 2004 e arrisco-me a afirmar que tanto essa música como a restante obra dos The Walkmen perdurará, que é algo a que poucas bandas de hoje podem almejar.
Fazendo fast forward para 2010 temos então Lisbon. Logo que se soube o nome do álbum lançou-se a dúvida - seria um tributo à cidade ou estaria relacionado com o nome das personagens de "Virgin Suicides", filme de Sofia Coppola? À cidade pois então, que serviu de inspiração derivada da agradável passagem da banda duas vezes pela nossa capital entre Dezembro de 2008 e Agosto de 2009, e ganhou não só o nome do álbum, mas também de uma música, a música que fecha o álbum (não é normal começar a analisar o álbum pelo fim, mas também ninguém disse que isto tinha de ser uma crónica normal, pelo que cá vai). "Lisbon" música é minimalista, quase despida de tudo o que não é essencial, e onde os instrumentos vão aparecendo de forma cadenciada, juntos atingem um clímax e depois um a um desaparecem. É um bom tema para fim de disco,  mas antes de lá chegar Lisbon álbum tem mais e melhor para dar. Tem "Stranded", tema escolhido para single e que dá a impressão de estar encalhado sim, mas num bar algures no México nos anos 50, dado o fundo de cornetas mariachi style constante. Tem "Victory" exclamada a plenos pulmões, mas por nunca estar do lado do narrador e não em tom de celebração. Tem "Juveniles", música de abertura e que logo nos suga para o que vem aí com a sua jovialidade. Tem "Blue is your Blood", onde a voz de Hamilton Leithauser paira acima de um ritmo constante, como de um comboio em movimento. Tem "Woe is Me", excelente música de lamentação. E tem, para mim acima de todas as outras, "Angela Surf City". A intensidade pura que a banda nos foi mostrando ao longo da sua carreira assume diferentes formas e no caso deste tema assume a forma enérgica, onde sentimos o sangue a correr nas nossas veias, num crescendo até ao desespero de ter perdido alguém sem saber como nem porquê, patente no refrão "You took the highway, I couldn't find you!".
O som dos The Walkmen, baseado em instrumentos vintage e que remexe pelo garage rock com toques de rockabilly e surf rock marca quem lhes dê mais atenção. E nada como dar uma oportunidade já no próximo dia 14 de Novembro, quando nos mostrarão este Lisbon no Coliseu dos Recreios.
Enjoy!