A partir desta 5ª feira, o Dia de Portugal 10 de Junho ganha todo um novo significado.
Nasceu o Dia de Portugal do Rock.
Nos jardins do (Instituto Superior) Técnico, começa um festival que celebra o dia de Portugal através do rock, feito, escrito, pensado e cantado na língua de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Pelo palco võa passar os Orphelia - que apresentam a sua peça instrumental de 20 minutos de space rock. Sobre a Matilha e Capitães da Areia não tenho muito a dizer, porque deles pouco sei, tirando a energia e jovialidade.
Os Golpes - talvez a banda rock mais consistente em português - devem apresentar já alguns temas novos, que vão estar num meio disco a editar em breve.
Os Feromona encerram a noite, e apresentam o novo disco, Desoliúde. A par dos Golpes, os Feromona são uma das bandas mais interessantes que apareceu por cá nos últimos tempos.
O dia de Portugal do Rock, primeira edição, começa às 18h, nos jardins do Técnico (com entrada pela Alameda Afonso Henriques), e a entrada custa 5 euros.
Os Orelha Negra é um projecto português que une Sam The Kid, Francisco Rebelo, João Gomes (ambos dos Cool Hipnoise), Fred Ferreira (Buraka Som sistema) e DJ Cruzfader.
Este primeiro álbum faz lembrar o brilhante instrumental “Beats Vol 1 - Amor”, produzido por Sam The Kid em 2002. Contando, no entanto, com uma maior influência da chamada música negra, com a predominância do Jazz, Funk e Soul.
A primeira faixa do álbum faz a seguinte introdução, "Um, dois... As canções que vamos apresentar têm uma ordem numérica que não obedeceu a nenhum critério especial, mas apenas a um sorteio. Teremos portanto canções de um a doze, além dos títulos respectivos, com o intuito também de estimular os nossos compositores e, simultaneamente, o aparecimento de novas melodias ... Pegar em canções e transformá-las ... é a gente encontrar uma, digamos, uma unidade de expressão de sentimentos para conseguir encontrar-nos aí."
Seguem-se várias faixas, onde se destacam as batidas de “Lord”. “Tanto Tempo”, com a voz de Pac Man dos Da Weasel/Dias de Raiva. A minha faixa preferida é “A Cura”, cujo vídeo está muito bom.
Não estamos perante o típico álbum passageiro. Veio para ficar e marcar o panorama musical nacional.
Como diriam os Cool Hipnoise, “O Funk É Mesmo Bom!”.
O Punk e a New Wave fizeram tanta mossa nos velhos “dinossauros”, que no inicio da década de 80, não sobrava quase pedra sobre pedra das velhas bandas de Rock Progressivo. Os Genesis tinham-se transformado numa banda Pop liderados pelo seu baterista/cantor Phil Collins; os Emerson, Lake & Palmer encerravam actividades após um medíocre “Love Beach”; os Gentle Giant faziam o mesmo e os Yes deixavam-se de músicas de 18 minutos para se juntarem ao produtor Trevor Horn e começarem a passar na Rádio com um single ultra comercial chamado “Owner of a Lonely Heart”!
Mas o que ninguém conseguiu prever é que nos bastidores e mais propriamente no circuito underground, uma banda chamada “Silmarillion” (nome inspirado numa obra de JR Tolkien) recusava enterrar “o machado de guerra”. Munidos de todo um arsenal que uma banda de Prog deve ter (canções longas, letras de ficção cientifica, músicos virtuosos e um “frontman” capaz de contar histórias disfarçado de Girassol), o grupo de Aylesbury, liderado por um excêntrico escocês chamado Derek Dick (nome infeliz, encurtado mais tarde para “Fish”), que absorviam como poucos o legado da geração dos seus “primos” mais velhos (nomeadamente dos Genesis de 1970-75).
Quando assinaram pela EMI (em finais de 1982), a banda já possuía uma base de fãs considerável que viam no grupo uma espécie de “segunda volta” do Progressivo. Com muito carisma (e charme do vocalista), a banda conseguiu gravar (nos lendários Marquee Studios) em menos de 3 meses o seu primeiro disco: “Script for a Jester´s Tear”. Uma espécie de “apanhado” das melhores canções que o grupo vinha desenvolvendo ao vivo e que por “questões editoriais” apenas deixou de fora o épico “Grendel” (deixado para o lado B do single “Marquet Square Heroes”) por este ter (“aprogriadamente”): 18 minutos de duração!
Ainda assim, só couberam (“aprogriadamente”) seis músicas no reportório de “Script”. Começando pelo tema homónimo que é uma espécie de clássico que os Genesis se esqueceram de compor. A voz encantada e trovadoresca de Fish (com um timbre muito “Gabrieliano”), as guitarras de Steve Rothery (com uma destreza tanto timidamente acústicas como mordazmente eléctricas); os teclados ambientais e “Wakemanianos” de Mark Kelly; o baixo firme de Pete Trewavas e a bateria do (quase despedido) Mick Pointer criavam um “oásis progressivo ” no meio de um “deserto” dominado por bandas que absorviam os sintetizadores para música de dança e as guitarras para fingir que sabiam tocar no “Top of the Pops”.
Daí que para 1983, se desse o reverso da medalha. O progressivo passava a ser a contra-corrente de vanguarda e tudo o resto: o mainstream! Os Marillion (apesar de uma imagem Prog) estavam mais em sintonia com a realidade (“o lado cinzento da vida” como Fish dizia nos concertos) graças a temas como “He Knows You Know” (uma viagem ao mundo dos efeito das drogas) ou “Garden Party” (paródia ao snobismo social inglês). Um realismo distorcido é certo, mas ao qual é impossível escapar: “The Web” (sobre a depressão económica) e “Forgotten Sons” (sobre os conflitos na Irlnda do Norte).
Em pouco menos de um ano, o grupo de Fish tornava-se numa das revelações surpreendentes duma Inglaterra deprimida na ressaca das Malvinas e sob o comando de Margaret “Iron” Thatcher. Script” ao mesmo tempo que chamava a realidade (e os seus problemas) era uma obra invulgar tanto pelo som da música, como pelo aspecto da banda que a produzia. Quem é que dizia que o “Prog” não sabia lidar com os problemas do dia-a-dia?
Com a década de 10 a privilegiar cada vez mais o revivalismo dos anos 90, surge mais um nome na lista dos “regressos”. Desta vez são os Californianos (de San Diego) Stone Temple Pilots que decidem por fim a um hiato de quase uma década após o vocalista Scott Weiland ter passado uma parte desse tempo em curas de desintoxicação e a cantar ao lado de ex-membros dos Guns n´ Roses nos Velvet Revolver.
Nunca sendo uma banda de “primeira água” do movimento Grunge, os Pilots podem-se orgulhar de ser uma poucas bandas fora de Seattle que conseguiram se encaixar que nem uma luva (os outros são os clones dos Nirvana, os Australianos Silverhead) nesse movimento sónico que governou por breves anos (1991 – 1994) os media e as audiências Rock da MTV! Com uma série de canções meio Pearl Jam, meio David Bowie ou Zeppelin, a banda dos manos DeLeo nunca conseguiu convencer pela originalidade. Mas é inegável que quem viveu esses anos certamente que não escapou ao rock açucarado de “Interstate Love Song” ou “Plush”.
O tempo passa, mas os Pilots não. Temos em 2010, o sexto de originais é na mesma linha de continuidade dos registos anteriores. O mesmo Rock açucarado, pop e melodioso continua por cá (“Take a Load Off” ou “First Kiss on Mars”) apenas com uma diferença subtil: Weiland trouxe consigo algum do Hard-Rock que experienciou durante a sua estada nos Velvet Revolver. Temos portanto aqui uma série de canções roqueiras que misturam “a sensibilidade pop com algum bom senso Rock”, como atesta o single que abre o disco: “Between the Lines”.
Se a postura heavy segue com “Huckleberry Crumble” (com partilha algumas afinidades com “Same Old Song and Dance” dos Aerosmith) e “Hazy Daze” (o melhor tema Rock do disco), já “Hickory Dicothomy” e “Dare if You Dare” vêem a banda revisitar o seu som mais familiar com algumas incursões pelo universo melódico dos Beatles. Uma influência descarada também em “Bagman” que nos coros faz lembrar por instantes o chavão “Taxman” de George Harrison!
Tirando o dispensável “Cinammon” cantado pelo guitarrista Dan DeLeo, o disco acaba por se safar à justa, mas não passa da mediania ou do estado “morno”. Não é uma obra que vá deixar grandes saudades (a não ser que se seja grande fã incondicional) ou vá acrescentar algo de grandioso ao legado da banda. O que o público sedento de nostalgia dos 90 vai querer ouvir será sempre o material de “Core” ou de “Purple”. Por isso…tudo na mesma a Sul de Seattle…
Façam o seguinte exercício de imaginação. Pensem numa banda qualquer que exista em 2010. Acabaram agora de se formar. Só têm 36 horas para gravar um disco. Possuem um som que ainda está por inventar ou forjar. O disco sai e cai que nem “uma bomba” na crítica e no público. Passados seis meses após do lançamento do disco de estreia já são considerados o maior fenómeno desde que Elvis e os Beatles inventaram a Pop e o Rock n Roll. Vendem milhões de discos, enchem estádios e têm os Sete Continentes na palma da mão.
Conhecem alguma banda que faça isto actualmente? Acho que grupos assim já nem se fabricam! Mas foi precisamente isto que aconteceu aos lendários: Led Zeppelin.
Nascidos das cinzas dos Yardbirds, dos quais Jimmy Page foi o último de uma série de guitarristas ilustres (Eric Clapton e Jeff Beck), os Led Zeppelin (nome inventado por Keith Moon quando este imaginou qual seria a sua banda ideal: “Lead Zeppelin!!”) eram a junção dos talentos de dois experientes músicos de estúdio (Page e o multi-instrumentista John Paul Jones) e dois ”putos” de Birmingham que tocavam numa banda local (Band of Joy) de seus nomes: Robert Plant (voz) e John Bonham (bateria).
Após uma curta tournée pela Escandinavia (ainda sob o nome “The New Yardbirds”), o grupo concentrou-se nos Olympic Studios, Londres, em Outubro para a gravação do “Lp” de estreia. Graças aos serviços do seu manager, o sempre astuto e feroz Peter Grant, foi forjado em três tempos um contrato milionário com a Atlantic Records (de Ahmet Ertgun) sem a editora ouvir sequer uma nota ou demo!
Sob a batuta dos talentos de produção de Page, a engenharia de som de Glyn Johns, o grupo ergueu uma obra para a eternidade. Nota-se logo pela abertura de “Good Times Bad Time” que este não era um mero grupo de Rock. Nem eram demasiado Blues como os Cream, nem demasiado cósmicos como Hendrix. Antes pelo contrário, os Zeppelin tinham um “som de chumbo” com os pés bem assentes na terra. Nascia assim o género Hard-Rock, com Riffs bem potentes, solos dilacerantes, baixo bem vincado, uma batida poderosa e uma voz que alternava entre a melhor tradição dos blues do Mississípi e o histerismo operático.
O vocalista Robert Plant, com o seu aspecto de “Viking disfarçado de Hippie”, tinha só 19 anos quando gravou este disco, mas a sua voz já era potente demais para a mesa de mistura. Foi necessário colocar “painéis” à volta da sua cabine para que o som que saia da sua laringe fosse minimamente controlado. No entanto, quem parecia “fora de controlo” era Jimmy Page que a meio de “Good Times Bad Times” protagoniza um momento de revelação: a “arte do shredding “, sempre utilizado por milhões de guitarristas ao serviço da causa “Heavy-Metal”.
Mas os Zeppelin não eram apenas uma banda “Heavy”. O grupo demonstrava aqui que a Folk e as guitarras acústicas também cabiam neste Rock. A balada “Babe I´m Gonna Leave You” com as suas constantes alternâncias entre a delicadeza e a brutalidade é talvez o melhor exemplo daquilo que os Zeppelin iriam imprimir a todos os seus discos da sua carreira.
Contudo o “tour-de-force” chega sob a forma do épico “Dazed and Confused”. Aqui remetido a uns curtos, (mas intensos) 6 minutos de duração. Ao vivo poderia chegar quase à marca da meia hora de duração. È aqui que se sente que este grupo era uma máquina poderosa, bem oleada capaz de por à prova todos os nossos limites de audição através de variações e vibrações emocionalmente sónicas.
Chegamos ao lado B onde aparece o vibrante órgão de John Paul Jones com “Your Time is Gonna Come”. Depois vem o instrumental “Black Mountain Side” com page novamente nas guitarras acústicas e um tocador de tabla indiano (Viram Jasani). Um prelúdio calmo antes da tempestade sonora que é “Communication Breakdown”. Um clássico do género “Hard n Heavy” que em 2 minutos e meio resume o “Poder” que era ser “tocado” por uma banda deste calibre, numa altura em que o Rock enfrentava enormes mutações!
A fechar vem ao de cima a sua paixão pelos blues. Não é alheio que as duas versões de Willie Dixon, primeiro com “You Shook Me” e depois com “I Can´t Quit You Baby”. Um ambiente onde a banda se sente à vontade o suficiente para poder compensar o facto de ainda não terem muitas canções compostas por si à data. Inclusive o tema final – “How Many More Times” – creditado a Page, Jones e Bonham mas que é uma cópia de “How Many More Years” de Howlin Wolf. Ou como reflectiu Robert Plant (anos) mais tarde sobre esta situação: “nesta grande família musical somos todos pedintes ou ladrões”!
Larápios ou não, o que é certo é que uma geração inteira estava á espera e disposta a aceitar este novo som: intenso, pesado e mordaz! Na viragem da década de 60 para 70, os Led Zeppelin eram” o maior balão musical” capazes de rebentar com a Indústria Rock!
O artigo que se segue é um apanhado de alguns concertos que vi recentemente mas cujas fotos não tive ocasião de publicar.
Segue agora, por ordem cronofónica.
(ao clicar numa qualquer foto, abre o slideshow, noutra janela, e em maior qualidade)
Gil Scott-Heron na Aula Magna.
Um momento quase histórico. Depois de andar em ruas mais obscuras, Gil Scott-Heron está de volta, tem um disco novo, e quero acreditar que vai ter mais discos novos nos próximos tempos. A vinda dele a Portugal, para um concerto íntimo na Aula Magna, foi também uma revisão da matéria dada. Tocou algumas músicas novas, e outras mais antigas, e trouxe consigo uma formação que incluía uma teclista, um percussionista e um animador de hostes/tocador de harmónica. Ele, Gil, tocava piano, cantava, palrava, e às vezes tentava lançar piadas. A formação que estava em palco não dava para grandes desvarios, e à falta de uma bateria e um baixo, deu um concerto mais espiritual, a buscar bastante ao blues e jazz de ambiente de fumo. Mais que um grande concerto, foi uma bela ocasião, para ver uma lenda viva.
Grizzly Bear no Coliseu de Lisboa.
Outro grandioso momento. Uma das maiores banda de hoje em dia, no que à pop diz respeito. São uma banda consistente, que já toca junta há alguns anos. São sublimes, pode usar-se esse adjectivo tão forte, são sublimes na forma de fazer música. São arquitectos musicais, e cada música é uma construção eficiente, em que cada elemento sonoro é lá posto com toda a cautela, não há nada fora do lugar. Na forma de fazer música, e de fazer a música soar tão musical e melódica, são sublimes.
Quanto aos sentimentos e sensações que provocam com a sua música, são magnânimos. E uso aqui magnânimos no mesmo sentido e na mesma proporção em que essa palavra pode ser aplicada aos Arcade Fire. A música dos Grizzly Bear tem magnitude e parece-me que, tal como os Arcade Fire ou os Radiohead, vai deixar marcas na história da música. O concerto (para gente que estava sentada) no Coliseu foi estrondoso, até porque era a primeira vez deles cá, e acho que quiseram dar o melhor. Em Julho, voltam, num registo para gente em pé, no Super Bock Super Rock.
A Naifa no Castelo de São Jorge.
Não quero ser repetitivo, mas creio que começo por escrever que este concerto também foi um grande momento. Aliás, foi uma grande experiência.
O Castelo de São Jorge tinha um palco montado (creio que vai ficar assim durante as festas do fado), e uma plateia de cadeiras. O tecto é o céu de uma noite amena de Junho. A Naifa esteve um ano quieta, sem golpear, enquanto lambia os seus próprios golpes, cortes fundos, com a morte do João Aguardela, em Janeiro do ano passado.
Mas depois de um ano de luto, a Naifa volta à luta. E lançou-se por auditórios deste Portugal, com uma série de concertos a tocar as músicas antigas, numa espécie de arrumar a casa, antes de seguir em frente, e começar a construir novas qualquercoisasquesejam. Esta digressão foi um resumo dos primeiros anos da banda, com o Aguardela, para que agora, e depois de o homenagearem de forma subliminar, poderem prosseguir caminho, sem ele.
E pelo que vi em palco, parece-me que este processo de renovação espiritual interior correu bem, e deu à banda novo fôlego para continuar.
Nunca tinha visto um concerto d'A Naifa, e fiquei arrebatado. Guitarra portuguesa, baixo, bateria e voz. Com 4 elementos apenas se escreve a palavra Portugal dantes e d'agora. Não é fado nem música ligeira nem música tradicional, é um bocado de Portugal num barco, a passar por tempestades e cabos das esperanças. A enegria que corre em palco é de uma força arrebatadora. Olhar nos olhos de cada músico que está em palco dá para perceber ou sentir um pouco da energia que ali corre. Não são meninos acabados de sair do conservatório, são Homens e Mulheres, por quem o tempo já passou e - para o bem ou para o mal - deixou marca.
Para adensar a misticidade do concerto no São Jorge, a Naifa convidou Celeste Rodrigues, irmã de outra fadista que está no panteão. A Celeste Rodrigues tem 65 anos de fado, e 356 de vida. E ver uma Mulher destas a cantar canções da Naifa, tem o seu quê de intenso.
Eu não conhecia mais do que 3 músicas da Naifa, mas pelo que vi neste concerto, creio que são uma das minhas bandas preferidas.
Dia 2 Thee Oh Sees - Para quem tinha entrado no segundo dia do festival com menos expectativa, esta banda de São Francisco foi uma boa surpresa. Já bons ventos me tinham chegado acerca do grupo liderado por John Dwyer, apesar de existirem há mais de dez anos. Os Thee Oh Sees praticam uma espécie de garage rock psicadélico - ou um surf rock apunkalhado -, que apesar de consideravelmente repetitivo, não deixa que essa característica seja negativa. O espírito é esse e o concerto foi bem conseguido, cheio de sons consistentes e executados com paixão, com a mais que provável intenção de colocar as pessoas num transe frenético, cheio de suor, passe o cliché. Nice, e não em França.
Spoon - Há muitos anos que presto moderada atenção, e apenas em doses moderadas, à imprensa de música. Ainda assim, lembro-me de ver este senhor, Britt Daniel, ou a banda dele, louvado como um dos grande cantautores (um dos neologismos-vómito da nossa língua) americanos. Havia, portanto, curiosidade em ver o concerto dos Spoon, já que nunca me tinha dado ao trabalho de ouvir nada deles.
Toda a gente tem direito a ter opinião e dizer bem dos Spoon está longe de estar errado. Mas é monótono, tanto melódica como estruturalmente. E é injusto para outros compositores americanos que serão provavelmente melhores, mas não fazem o jogo das trends - e nem falo da intelligentsia nova-iorquina, essa está-se nas tintas. Isto tudo também será injusto para o Sr. Daniel, que não deve ter nada a ver com estas coisas e vai escrevendo as suas boas canções, contente por haver alguém que goste. E por aí tudo bem. Mas se os Spoon são o que mostraram no Primavera Sound, bem podiam pedir emprestada alguma estranheza aos Flaming Lips, por exemplo. A rever.
Ganglians - Entediado com a prestação dos Spoon, mas longe de odiá-la, achei mais prudente ir ver os sacrament... ianos Ganglians, de quem já conhecia musiqueta ou outra. Três semi-hippies em palco mais um grande hippie como vocalista (Ganglians of 4?) fazem uma espécie de indie pop esquizóide, algures entre Beach Boys em drogas profundas tipo Ariel Pink e calmaria Beach House mas com guitarra acústica. Tem substância, é giro e é cool (and the Ganglians). Meninas giras e esquisitas, venham ouvir. E já agora, cá a casa também.
Best Coast - Candidatos ao nome mais idiota de 2010, os Best Coast são, na verdade, uma chiquita chamada Bethany Cosentino. Mantendo a rota pop lo-fi dos Ganglians, Best Coast seriam uma boa aposta, e se calhar até foram. Só que, gravados, soam muito melhor do que ao vivo, cenário em que acabam por soar um bocado às Hole da Courtney Love. Sei que, em disco, é melhor do que as duas músicas que suportei. Não esquecer de se ir ouvir Avi Buffalo, acabado de sair.
Beach House - Esta nunca será uma recensão sobre o concerto dos Beach House, pela simples razão que era praticamente impossível ver fosse o que fosse, dado o número absurdo de miúdas giras que entupiram o recinto defronte do palco. Ou seja, se um rapaz quisesse mesmo, mesmo, ver o concerto, daria para perfurar (shame on you), mas ficamos contentes assim na mesma. Ouviu-se quatro ou cinco canções e é igual ao disco. Deu para descobrir que afinal o vocalista era uma.
Wire - Ao longo dos 40 minutos que acompanhei, os históricos pós-punk dividiram-se de várias formas. Uns parecem membros dos Sex Pistols ainda vivos, outros parecem professores de faculdade, ou apenas pessoas incomodamente inteligentes, ou hipnotistas como o Paul McKenna. O vocalista, Colin Newman, parece pelo menos três destas hipóteses.
Como confundo sempre os Wire com os Ride, e entre eles há pelo menos dez anos de diferença, esperava outra coisa. E, como habitualmente o pós-punk induz graus variantes de tédio em mim, a primeira reacção não foi a mais entusiástica. Mas a qualidade tem de ser reconhecida e, gostos aparte, foi um concerto extremamente competente e até bastante interessante, quando a banda se soltava da camisa-de-forças que são os ritmos punk à la Xutos & Pontapés. Oh yes, I went there.
Les Savy Fav - Antes de mais, tal como o vocalista Tim Harrington, há anos que estou careca de saber que os Les Savy Fav são grandes em disco. E ao vivo ainda são maiores. Depois de prestações inesperadas no dia anterior, o barbudo gorducho estava já a rockar histericamente com os restantes membros do grupo quando comecei a vê-los. Assim continuaram por mais uma ou duas músicas, até que a curiosidade me fez ir ver Japandroids. Ainda regressei para três ou quatro canções, já com um Tim no chão, a cantar, dançar e outros verbos acabados em "ar" de calções demasiado curtos, com o público absolutamente fora de si.
A opinião comum e, por aquilo que vi, a minha também, com Pavement, Tortoise e Shellac, o melhor concerto do festival.
Japandroids - Enganam-se aqueles que pensam que ir ver Japandroids foi uma má escolha estratégica. Les Savy Fav pode ter sido incrível, mas Japandroids andou lá perto. Sem serem muito parecidos, a fofinha dupla canadiana faz lembrar outros conterrâneos, chamados Death From Above 1979; menos brilhantes e revolucionários, é certo, mas capturam uma certa urgência catastrófica, e até um bocado niilista, com uma bateria, guitarra e vozes, neste garage lo-fi a dois.
Naturalmente surpreendidos com as quase duas mil pessoas presentes (digo eu), ainda para mais com a quantidade de mãos no ar e cânticos de quem sabia as letras de cor, a banda estava visivelmente empolgada pelos números, provavelmente habituada a tocar em salas para sete pessoas. Foi com pena para a banda e para o público, que os Japandroids tiveram de sair do palco. Excelente concerto em qualquer parte do mundo.
The Dallas Guild - Não há muito a dizer acerca desta banda britânica, aparentemente liderada por um espanhol, cabezas-del-cartaz no palco Adidas. Vi-os por acaso, enquanto descansava entre Les Savy Fav/Japandroids e Shellac, que se previa intenso. Bom indie de raízes nos 90s, vocalista com sotaque tolerável e até irrelevante (bom sinal), escolha de sons e desempenho competente. Com um senão: se alguma vez pensaram que fazer indie rock com mellotron era boa ideia (excepto quando é espaçado e introvertido como algumas coisas de Radiohead), ainda não foram os Dallas Guild a mostrar como se faz.
http://www.myspace.com/thedallasguild
Shellac - Sei de fonte segura que a prestação dos Shellac do ano passado não foi tão boa como a de 2010. Já quanto a 2008 não sei, mas o trio costuma marcar o ponto no Primavera Sound. Para quem não conhece os Shellac, são o projecto predilecto do lendário produtor Steve Albini com o baixista Bob Weston e o tresloucado baterista Todd Trainer. Albini, para os mais esquecidos, ficou mais conhecido para o mundo como produtor do In Utero dos Nirvana e do Surfer Rosa dos Pixies e, para mim, do primeiro álbum de Jon Spencer Blues Explosion, mas a lista de coisas awesome que ele já produziu é gigantesca (tenho de mencionar Helmet, Man or Astroman?, Melt Banana, Jesus Lizard, Superchunk, Don Caballero e, sim, Jimmy Page & Robert Plant).
O concerto de Shellac foi tão, tão, tão fixe. Para um no-waver (indie e prog também, é certo) como eu, os Shellac são um prazer. Ao alinhamento não faltaram as mais populares - ataque de tosse incluído - Squirrel Song, My Black Ass, Prayer to God, Steady As She Goes, Crow. Pessoalmente, gosto mais quando se afastam das raízes directas do punk e se tornam mais complicados, mas não tenho grande razão de queixa.
Não faltou ainda a pièce de résistance que é The End of Radio, uma elegia pré-lutuosa e épica com 10 minutos em modo de mensagem final, durante a qual Trainer se passeou à vontade pelo palco com a tarola enquanto atirava baquetas aleatoriamente para o público. Qual é a diferença entre isto e o bater-no-prato-com-strobes dos The xx? Isto parece genuíno, sabe a genuíno, altera-se consoante a sensação e sensibilidade do artista e varia com cada actuação. Não faltou o habitual momento de perguntas do público. Citando Weston, "Why was I watching Superchunk last night? Because they're awesome". Uma colher cheia de fixeza.
Uma nota final para dizer que foi com alguma pena, mas também com alguma satisfação, que vi o recinto cheio no início do concerto; à quinta música, mais de metade das pessoas tinha ido embora. É que os Shellac são uma banda difícil. Não é que eu não queira que os Shellac se popularizem, ainda que isso seja impossível de acontecer - mas gosto que o Primavera se mantenha um evento indie, no qual as sensibilidades fora do mainstream se sobreponham ao festival como passeio trendy (o que também tem aspectos positivos, note-se). Por tudo isto, é bom que os Shellac mantenham este lugar cativo.
King Khan & the BBQ Crew - Concerto histérico de King Khan na guitarra e vozes, um indo-canadiano visivelmente alterado e vestido de guerreiro zulu, com BBQ (Mark Sultan), baterista e outras coisas de turbante. Lo-fi de raízes punk com rock n'roll retro e feito na garage, como uma espécie de The Gories acelerados. Divertido, mas esquecível - um daqueles concertos em que o desempenho em palco não é tão importante como a festa que provoca.
Yeasayer - Confesso que não era com grandes esperanças que encarava o concerto de Yeasayer. Não tinha nada que me interessasse muito na hora ou duas antes de ter de ir embora, mas os nova-iorquinos ainda me punham curioso. Não sendo particular apreciador, não detesto os Yeasayer. Respeito o experimentalismo deles. Por outro lado, também me parece que fazem parte daquele grupo selecto de bandas que caiu na moda e é apreciada por pessoas sem muita respeitabilidade no que toca ao reconhecimento de excelência na música. Mas também é apreciada por aqueles que a têm, e é isso que me intriga. Mais ainda, acho que fazem parte do grupo de bandas indie populares que se esquecem que é salutar ter melodias fortes de vez em quando, para além dos singles. Enfim, as bandas são o que são e o experimentalismo não vai funcionar sempre.
A verdade é que o concerto de Yeasayer é daqueles cuja relevância está no público. Ou seja, é muito bom se adorarmos a banda - ou se for a nossa banda favorita quando só conhecemos um single -, mas um concerto entediante se a música não nos disser nada de antemão. Tal como muitos dos seus pares indie da actualidade, para não citar nomes, os Yeasayer executam as coisas talvez bem de mais. O som sai imaculado ao ponto de causar desconforto e não há grande espaço para a improvisação ou qualquer coisa fora da rota já traçada. É arrumadinho. E isso vai apelar a um tipo concreto de pessoa - não que haja nada de mal com isso.
E mais não vi. Tinha de sair para o aeroporto de Prat de Llobregat ainda de madrugada. Mas o Primavera Sound tinha lugar neste que também é um blog indie. Agora vou beber a minha deliciosa Coca-Cola.