Com a década de 10 a privilegiar cada vez mais o revivalismo dos anos 90, surge mais um nome na lista dos “regressos”. Desta vez são os Californianos (de San Diego) Stone Temple Pilots que decidem por fim a um hiato de quase uma década após o vocalista Scott Weiland ter passado uma parte desse tempo em curas de desintoxicação e a cantar ao lado de ex-membros dos Guns n´ Roses nos Velvet Revolver.
Nunca sendo uma banda de “primeira água” do movimento Grunge, os Pilots podem-se orgulhar de ser uma poucas bandas fora de Seattle que conseguiram se encaixar que nem uma luva (os outros são os clones dos Nirvana, os Australianos Silverhead) nesse movimento sónico que governou por breves anos (1991 – 1994) os media e as audiências Rock da MTV! Com uma série de canções meio Pearl Jam, meio David Bowie ou Zeppelin, a banda dos manos DeLeo nunca conseguiu convencer pela originalidade. Mas é inegável que quem viveu esses anos certamente que não escapou ao rock açucarado de “Interstate Love Song” ou “Plush”.
O tempo passa, mas os Pilots não. Temos em 2010, o sexto de originais é na mesma linha de continuidade dos registos anteriores. O mesmo Rock açucarado, pop e melodioso continua por cá (“Take a Load Off” ou “First Kiss on Mars”) apenas com uma diferença subtil: Weiland trouxe consigo algum do Hard-Rock que experienciou durante a sua estada nos Velvet Revolver. Temos portanto aqui uma série de canções roqueiras que misturam “a sensibilidade pop com algum bom senso Rock”, como atesta o single que abre o disco: “Between the Lines”.
Se a postura heavy segue com “Huckleberry Crumble” (com partilha algumas afinidades com “Same Old Song and Dance” dos Aerosmith) e “Hazy Daze” (o melhor tema Rock do disco), já “Hickory Dicothomy” e “Dare if You Dare” vêem a banda revisitar o seu som mais familiar com algumas incursões pelo universo melódico dos Beatles. Uma influência descarada também em “Bagman” que nos coros faz lembrar por instantes o chavão “Taxman” de George Harrison!
Tirando o dispensável “Cinammon” cantado pelo guitarrista Dan DeLeo, o disco acaba por se safar à justa, mas não passa da mediania ou do estado “morno”. Não é uma obra que vá deixar grandes saudades (a não ser que se seja grande fã incondicional) ou vá acrescentar algo de grandioso ao legado da banda. O que o público sedento de nostalgia dos 90 vai querer ouvir será sempre o material de “Core” ou de “Purple”. Por isso…tudo na mesma a Sul de Seattle…
Façam o seguinte exercício de imaginação. Pensem numa banda qualquer que exista em 2010. Acabaram agora de se formar. Só têm 36 horas para gravar um disco. Possuem um som que ainda está por inventar ou forjar. O disco sai e cai que nem “uma bomba” na crítica e no público. Passados seis meses após do lançamento do disco de estreia já são considerados o maior fenómeno desde que Elvis e os Beatles inventaram a Pop e o Rock n Roll. Vendem milhões de discos, enchem estádios e têm os Sete Continentes na palma da mão.
Conhecem alguma banda que faça isto actualmente? Acho que grupos assim já nem se fabricam! Mas foi precisamente isto que aconteceu aos lendários: Led Zeppelin.
Nascidos das cinzas dos Yardbirds, dos quais Jimmy Page foi o último de uma série de guitarristas ilustres (Eric Clapton e Jeff Beck), os Led Zeppelin (nome inventado por Keith Moon quando este imaginou qual seria a sua banda ideal: “Lead Zeppelin!!”) eram a junção dos talentos de dois experientes músicos de estúdio (Page e o multi-instrumentista John Paul Jones) e dois ”putos” de Birmingham que tocavam numa banda local (Band of Joy) de seus nomes: Robert Plant (voz) e John Bonham (bateria).
Após uma curta tournée pela Escandinavia (ainda sob o nome “The New Yardbirds”), o grupo concentrou-se nos Olympic Studios, Londres, em Outubro para a gravação do “Lp” de estreia. Graças aos serviços do seu manager, o sempre astuto e feroz Peter Grant, foi forjado em três tempos um contrato milionário com a Atlantic Records (de Ahmet Ertgun) sem a editora ouvir sequer uma nota ou demo!
Sob a batuta dos talentos de produção de Page, a engenharia de som de Glyn Johns, o grupo ergueu uma obra para a eternidade. Nota-se logo pela abertura de “Good Times Bad Time” que este não era um mero grupo de Rock. Nem eram demasiado Blues como os Cream, nem demasiado cósmicos como Hendrix. Antes pelo contrário, os Zeppelin tinham um “som de chumbo” com os pés bem assentes na terra. Nascia assim o género Hard-Rock, com Riffs bem potentes, solos dilacerantes, baixo bem vincado, uma batida poderosa e uma voz que alternava entre a melhor tradição dos blues do Mississípi e o histerismo operático.
O vocalista Robert Plant, com o seu aspecto de “Viking disfarçado de Hippie”, tinha só 19 anos quando gravou este disco, mas a sua voz já era potente demais para a mesa de mistura. Foi necessário colocar “painéis” à volta da sua cabine para que o som que saia da sua laringe fosse minimamente controlado. No entanto, quem parecia “fora de controlo” era Jimmy Page que a meio de “Good Times Bad Times” protagoniza um momento de revelação: a “arte do shredding “, sempre utilizado por milhões de guitarristas ao serviço da causa “Heavy-Metal”.
Mas os Zeppelin não eram apenas uma banda “Heavy”. O grupo demonstrava aqui que a Folk e as guitarras acústicas também cabiam neste Rock. A balada “Babe I´m Gonna Leave You” com as suas constantes alternâncias entre a delicadeza e a brutalidade é talvez o melhor exemplo daquilo que os Zeppelin iriam imprimir a todos os seus discos da sua carreira.
Contudo o “tour-de-force” chega sob a forma do épico “Dazed and Confused”. Aqui remetido a uns curtos, (mas intensos) 6 minutos de duração. Ao vivo poderia chegar quase à marca da meia hora de duração. È aqui que se sente que este grupo era uma máquina poderosa, bem oleada capaz de por à prova todos os nossos limites de audição através de variações e vibrações emocionalmente sónicas.
Chegamos ao lado B onde aparece o vibrante órgão de John Paul Jones com “Your Time is Gonna Come”. Depois vem o instrumental “Black Mountain Side” com page novamente nas guitarras acústicas e um tocador de tabla indiano (Viram Jasani). Um prelúdio calmo antes da tempestade sonora que é “Communication Breakdown”. Um clássico do género “Hard n Heavy” que em 2 minutos e meio resume o “Poder” que era ser “tocado” por uma banda deste calibre, numa altura em que o Rock enfrentava enormes mutações!
A fechar vem ao de cima a sua paixão pelos blues. Não é alheio que as duas versões de Willie Dixon, primeiro com “You Shook Me” e depois com “I Can´t Quit You Baby”. Um ambiente onde a banda se sente à vontade o suficiente para poder compensar o facto de ainda não terem muitas canções compostas por si à data. Inclusive o tema final – “How Many More Times” – creditado a Page, Jones e Bonham mas que é uma cópia de “How Many More Years” de Howlin Wolf. Ou como reflectiu Robert Plant (anos) mais tarde sobre esta situação: “nesta grande família musical somos todos pedintes ou ladrões”!
Larápios ou não, o que é certo é que uma geração inteira estava á espera e disposta a aceitar este novo som: intenso, pesado e mordaz! Na viragem da década de 60 para 70, os Led Zeppelin eram” o maior balão musical” capazes de rebentar com a Indústria Rock!
O artigo que se segue é um apanhado de alguns concertos que vi recentemente mas cujas fotos não tive ocasião de publicar.
Segue agora, por ordem cronofónica.
(ao clicar numa qualquer foto, abre o slideshow, noutra janela, e em maior qualidade)
Gil Scott-Heron na Aula Magna.
Um momento quase histórico. Depois de andar em ruas mais obscuras, Gil Scott-Heron está de volta, tem um disco novo, e quero acreditar que vai ter mais discos novos nos próximos tempos. A vinda dele a Portugal, para um concerto íntimo na Aula Magna, foi também uma revisão da matéria dada. Tocou algumas músicas novas, e outras mais antigas, e trouxe consigo uma formação que incluía uma teclista, um percussionista e um animador de hostes/tocador de harmónica. Ele, Gil, tocava piano, cantava, palrava, e às vezes tentava lançar piadas. A formação que estava em palco não dava para grandes desvarios, e à falta de uma bateria e um baixo, deu um concerto mais espiritual, a buscar bastante ao blues e jazz de ambiente de fumo. Mais que um grande concerto, foi uma bela ocasião, para ver uma lenda viva.
Grizzly Bear no Coliseu de Lisboa.
Outro grandioso momento. Uma das maiores banda de hoje em dia, no que à pop diz respeito. São uma banda consistente, que já toca junta há alguns anos. São sublimes, pode usar-se esse adjectivo tão forte, são sublimes na forma de fazer música. São arquitectos musicais, e cada música é uma construção eficiente, em que cada elemento sonoro é lá posto com toda a cautela, não há nada fora do lugar. Na forma de fazer música, e de fazer a música soar tão musical e melódica, são sublimes.
Quanto aos sentimentos e sensações que provocam com a sua música, são magnânimos. E uso aqui magnânimos no mesmo sentido e na mesma proporção em que essa palavra pode ser aplicada aos Arcade Fire. A música dos Grizzly Bear tem magnitude e parece-me que, tal como os Arcade Fire ou os Radiohead, vai deixar marcas na história da música. O concerto (para gente que estava sentada) no Coliseu foi estrondoso, até porque era a primeira vez deles cá, e acho que quiseram dar o melhor. Em Julho, voltam, num registo para gente em pé, no Super Bock Super Rock.
A Naifa no Castelo de São Jorge.
Não quero ser repetitivo, mas creio que começo por escrever que este concerto também foi um grande momento. Aliás, foi uma grande experiência.
O Castelo de São Jorge tinha um palco montado (creio que vai ficar assim durante as festas do fado), e uma plateia de cadeiras. O tecto é o céu de uma noite amena de Junho. A Naifa esteve um ano quieta, sem golpear, enquanto lambia os seus próprios golpes, cortes fundos, com a morte do João Aguardela, em Janeiro do ano passado.
Mas depois de um ano de luto, a Naifa volta à luta. E lançou-se por auditórios deste Portugal, com uma série de concertos a tocar as músicas antigas, numa espécie de arrumar a casa, antes de seguir em frente, e começar a construir novas qualquercoisasquesejam. Esta digressão foi um resumo dos primeiros anos da banda, com o Aguardela, para que agora, e depois de o homenagearem de forma subliminar, poderem prosseguir caminho, sem ele.
E pelo que vi em palco, parece-me que este processo de renovação espiritual interior correu bem, e deu à banda novo fôlego para continuar.
Nunca tinha visto um concerto d'A Naifa, e fiquei arrebatado. Guitarra portuguesa, baixo, bateria e voz. Com 4 elementos apenas se escreve a palavra Portugal dantes e d'agora. Não é fado nem música ligeira nem música tradicional, é um bocado de Portugal num barco, a passar por tempestades e cabos das esperanças. A enegria que corre em palco é de uma força arrebatadora. Olhar nos olhos de cada músico que está em palco dá para perceber ou sentir um pouco da energia que ali corre. Não são meninos acabados de sair do conservatório, são Homens e Mulheres, por quem o tempo já passou e - para o bem ou para o mal - deixou marca.
Para adensar a misticidade do concerto no São Jorge, a Naifa convidou Celeste Rodrigues, irmã de outra fadista que está no panteão. A Celeste Rodrigues tem 65 anos de fado, e 356 de vida. E ver uma Mulher destas a cantar canções da Naifa, tem o seu quê de intenso.
Eu não conhecia mais do que 3 músicas da Naifa, mas pelo que vi neste concerto, creio que são uma das minhas bandas preferidas.
Dia 2 Thee Oh Sees - Para quem tinha entrado no segundo dia do festival com menos expectativa, esta banda de São Francisco foi uma boa surpresa. Já bons ventos me tinham chegado acerca do grupo liderado por John Dwyer, apesar de existirem há mais de dez anos. Os Thee Oh Sees praticam uma espécie de garage rock psicadélico - ou um surf rock apunkalhado -, que apesar de consideravelmente repetitivo, não deixa que essa característica seja negativa. O espírito é esse e o concerto foi bem conseguido, cheio de sons consistentes e executados com paixão, com a mais que provável intenção de colocar as pessoas num transe frenético, cheio de suor, passe o cliché. Nice, e não em França.
Spoon - Há muitos anos que presto moderada atenção, e apenas em doses moderadas, à imprensa de música. Ainda assim, lembro-me de ver este senhor, Britt Daniel, ou a banda dele, louvado como um dos grande cantautores (um dos neologismos-vómito da nossa língua) americanos. Havia, portanto, curiosidade em ver o concerto dos Spoon, já que nunca me tinha dado ao trabalho de ouvir nada deles.
Toda a gente tem direito a ter opinião e dizer bem dos Spoon está longe de estar errado. Mas é monótono, tanto melódica como estruturalmente. E é injusto para outros compositores americanos que serão provavelmente melhores, mas não fazem o jogo das trends - e nem falo da intelligentsia nova-iorquina, essa está-se nas tintas. Isto tudo também será injusto para o Sr. Daniel, que não deve ter nada a ver com estas coisas e vai escrevendo as suas boas canções, contente por haver alguém que goste. E por aí tudo bem. Mas se os Spoon são o que mostraram no Primavera Sound, bem podiam pedir emprestada alguma estranheza aos Flaming Lips, por exemplo. A rever.
Ganglians - Entediado com a prestação dos Spoon, mas longe de odiá-la, achei mais prudente ir ver os sacrament... ianos Ganglians, de quem já conhecia musiqueta ou outra. Três semi-hippies em palco mais um grande hippie como vocalista (Ganglians of 4?) fazem uma espécie de indie pop esquizóide, algures entre Beach Boys em drogas profundas tipo Ariel Pink e calmaria Beach House mas com guitarra acústica. Tem substância, é giro e é cool (and the Ganglians). Meninas giras e esquisitas, venham ouvir. E já agora, cá a casa também.
Best Coast - Candidatos ao nome mais idiota de 2010, os Best Coast são, na verdade, uma chiquita chamada Bethany Cosentino. Mantendo a rota pop lo-fi dos Ganglians, Best Coast seriam uma boa aposta, e se calhar até foram. Só que, gravados, soam muito melhor do que ao vivo, cenário em que acabam por soar um bocado às Hole da Courtney Love. Sei que, em disco, é melhor do que as duas músicas que suportei. Não esquecer de se ir ouvir Avi Buffalo, acabado de sair.
Beach House - Esta nunca será uma recensão sobre o concerto dos Beach House, pela simples razão que era praticamente impossível ver fosse o que fosse, dado o número absurdo de miúdas giras que entupiram o recinto defronte do palco. Ou seja, se um rapaz quisesse mesmo, mesmo, ver o concerto, daria para perfurar (shame on you), mas ficamos contentes assim na mesma. Ouviu-se quatro ou cinco canções e é igual ao disco. Deu para descobrir que afinal o vocalista era uma.
Wire - Ao longo dos 40 minutos que acompanhei, os históricos pós-punk dividiram-se de várias formas. Uns parecem membros dos Sex Pistols ainda vivos, outros parecem professores de faculdade, ou apenas pessoas incomodamente inteligentes, ou hipnotistas como o Paul McKenna. O vocalista, Colin Newman, parece pelo menos três destas hipóteses.
Como confundo sempre os Wire com os Ride, e entre eles há pelo menos dez anos de diferença, esperava outra coisa. E, como habitualmente o pós-punk induz graus variantes de tédio em mim, a primeira reacção não foi a mais entusiástica. Mas a qualidade tem de ser reconhecida e, gostos aparte, foi um concerto extremamente competente e até bastante interessante, quando a banda se soltava da camisa-de-forças que são os ritmos punk à la Xutos & Pontapés. Oh yes, I went there.
Les Savy Fav - Antes de mais, tal como o vocalista Tim Harrington, há anos que estou careca de saber que os Les Savy Fav são grandes em disco. E ao vivo ainda são maiores. Depois de prestações inesperadas no dia anterior, o barbudo gorducho estava já a rockar histericamente com os restantes membros do grupo quando comecei a vê-los. Assim continuaram por mais uma ou duas músicas, até que a curiosidade me fez ir ver Japandroids. Ainda regressei para três ou quatro canções, já com um Tim no chão, a cantar, dançar e outros verbos acabados em "ar" de calções demasiado curtos, com o público absolutamente fora de si.
A opinião comum e, por aquilo que vi, a minha também, com Pavement, Tortoise e Shellac, o melhor concerto do festival.
Japandroids - Enganam-se aqueles que pensam que ir ver Japandroids foi uma má escolha estratégica. Les Savy Fav pode ter sido incrível, mas Japandroids andou lá perto. Sem serem muito parecidos, a fofinha dupla canadiana faz lembrar outros conterrâneos, chamados Death From Above 1979; menos brilhantes e revolucionários, é certo, mas capturam uma certa urgência catastrófica, e até um bocado niilista, com uma bateria, guitarra e vozes, neste garage lo-fi a dois.
Naturalmente surpreendidos com as quase duas mil pessoas presentes (digo eu), ainda para mais com a quantidade de mãos no ar e cânticos de quem sabia as letras de cor, a banda estava visivelmente empolgada pelos números, provavelmente habituada a tocar em salas para sete pessoas. Foi com pena para a banda e para o público, que os Japandroids tiveram de sair do palco. Excelente concerto em qualquer parte do mundo.
The Dallas Guild - Não há muito a dizer acerca desta banda britânica, aparentemente liderada por um espanhol, cabezas-del-cartaz no palco Adidas. Vi-os por acaso, enquanto descansava entre Les Savy Fav/Japandroids e Shellac, que se previa intenso. Bom indie de raízes nos 90s, vocalista com sotaque tolerável e até irrelevante (bom sinal), escolha de sons e desempenho competente. Com um senão: se alguma vez pensaram que fazer indie rock com mellotron era boa ideia (excepto quando é espaçado e introvertido como algumas coisas de Radiohead), ainda não foram os Dallas Guild a mostrar como se faz.
http://www.myspace.com/thedallasguild
Shellac - Sei de fonte segura que a prestação dos Shellac do ano passado não foi tão boa como a de 2010. Já quanto a 2008 não sei, mas o trio costuma marcar o ponto no Primavera Sound. Para quem não conhece os Shellac, são o projecto predilecto do lendário produtor Steve Albini com o baixista Bob Weston e o tresloucado baterista Todd Trainer. Albini, para os mais esquecidos, ficou mais conhecido para o mundo como produtor do In Utero dos Nirvana e do Surfer Rosa dos Pixies e, para mim, do primeiro álbum de Jon Spencer Blues Explosion, mas a lista de coisas awesome que ele já produziu é gigantesca (tenho de mencionar Helmet, Man or Astroman?, Melt Banana, Jesus Lizard, Superchunk, Don Caballero e, sim, Jimmy Page & Robert Plant).
O concerto de Shellac foi tão, tão, tão fixe. Para um no-waver (indie e prog também, é certo) como eu, os Shellac são um prazer. Ao alinhamento não faltaram as mais populares - ataque de tosse incluído - Squirrel Song, My Black Ass, Prayer to God, Steady As She Goes, Crow. Pessoalmente, gosto mais quando se afastam das raízes directas do punk e se tornam mais complicados, mas não tenho grande razão de queixa.
Não faltou ainda a pièce de résistance que é The End of Radio, uma elegia pré-lutuosa e épica com 10 minutos em modo de mensagem final, durante a qual Trainer se passeou à vontade pelo palco com a tarola enquanto atirava baquetas aleatoriamente para o público. Qual é a diferença entre isto e o bater-no-prato-com-strobes dos The xx? Isto parece genuíno, sabe a genuíno, altera-se consoante a sensação e sensibilidade do artista e varia com cada actuação. Não faltou o habitual momento de perguntas do público. Citando Weston, "Why was I watching Superchunk last night? Because they're awesome". Uma colher cheia de fixeza.
Uma nota final para dizer que foi com alguma pena, mas também com alguma satisfação, que vi o recinto cheio no início do concerto; à quinta música, mais de metade das pessoas tinha ido embora. É que os Shellac são uma banda difícil. Não é que eu não queira que os Shellac se popularizem, ainda que isso seja impossível de acontecer - mas gosto que o Primavera se mantenha um evento indie, no qual as sensibilidades fora do mainstream se sobreponham ao festival como passeio trendy (o que também tem aspectos positivos, note-se). Por tudo isto, é bom que os Shellac mantenham este lugar cativo.
King Khan & the BBQ Crew - Concerto histérico de King Khan na guitarra e vozes, um indo-canadiano visivelmente alterado e vestido de guerreiro zulu, com BBQ (Mark Sultan), baterista e outras coisas de turbante. Lo-fi de raízes punk com rock n'roll retro e feito na garage, como uma espécie de The Gories acelerados. Divertido, mas esquecível - um daqueles concertos em que o desempenho em palco não é tão importante como a festa que provoca.
Yeasayer - Confesso que não era com grandes esperanças que encarava o concerto de Yeasayer. Não tinha nada que me interessasse muito na hora ou duas antes de ter de ir embora, mas os nova-iorquinos ainda me punham curioso. Não sendo particular apreciador, não detesto os Yeasayer. Respeito o experimentalismo deles. Por outro lado, também me parece que fazem parte daquele grupo selecto de bandas que caiu na moda e é apreciada por pessoas sem muita respeitabilidade no que toca ao reconhecimento de excelência na música. Mas também é apreciada por aqueles que a têm, e é isso que me intriga. Mais ainda, acho que fazem parte do grupo de bandas indie populares que se esquecem que é salutar ter melodias fortes de vez em quando, para além dos singles. Enfim, as bandas são o que são e o experimentalismo não vai funcionar sempre.
A verdade é que o concerto de Yeasayer é daqueles cuja relevância está no público. Ou seja, é muito bom se adorarmos a banda - ou se for a nossa banda favorita quando só conhecemos um single -, mas um concerto entediante se a música não nos disser nada de antemão. Tal como muitos dos seus pares indie da actualidade, para não citar nomes, os Yeasayer executam as coisas talvez bem de mais. O som sai imaculado ao ponto de causar desconforto e não há grande espaço para a improvisação ou qualquer coisa fora da rota já traçada. É arrumadinho. E isso vai apelar a um tipo concreto de pessoa - não que haja nada de mal com isso.
E mais não vi. Tinha de sair para o aeroporto de Prat de Llobregat ainda de madrugada. Mas o Primavera Sound tinha lugar neste que também é um blog indie. Agora vou beber a minha deliciosa Coca-Cola.
Considerados um dos marcos da contra-cultura dos anos 60, “Forever Changes” está sempre à espreita quando se fala dos grandes discos de sempre e em particular da década em que foi criado. Isto muito por culpa não só da própria do aspecto dos Love (uma das primeiras bandas multi-raciais a par de Sly a& the Family Stone), mas também pelo próprio som peculiar que o grupo imprimia aos seus discos.
Em abono da verdade os Love não soam, nem nunca soaram como mais ninguém. Com as suas origens nos Rhythm and blues, o grupo abrangia outras áreas como o Jazz, a Folk, o Country , sempre regados com melodias Pop de garagem (geniais) saídas da imaginação de Arthur Lee e com uma pitada alma psicadélica muito em voga em 1967.
Apesar de já terem dado algumas grandes pegadas no predecessor “Da Capo”, é com “Forever Changes” que o grupo atinge a maturidade criativa. Dotado de melodias irresistíveis ao nível de um Mccartney ou de um Wilson, Arthur Lee tinha em Bryan McClean o co-piloto perfeito para dar um colorido especial aos Love. Aliás é desta parceria que nascem algumas das melhores de “Forever Changes”. A começar por “Alone Again Or” uma canção que poderia ser perfeitamente dos Buffalo Springfield: se estes tivessem paciência para tocar com uma orquestra de Mariachis! Um clássico absoluto que foi copiado ao longo dos anos por gente tão díspar como Sarah Brightman, The Damned ou Calexico.
Segue-se “Andmoreagain”, outra pérola da dupla Lee/Mclean com arranjos orquestrais (cortesia do maestro David Angel) delicados e guitarras acústicas herdeiras da tradição da então “Nova Folk” instituída por Baez e Dylan.
Mas não se pense que os Love desaceleravam o seu som e se tornavam “softzinhos”. O grupo continuava na luta, juntamente com os colegas de editora Doors, por serem das bandas mais anti-establishment que LA já produzira. Em títulos mais eléctricos e ácidos como “A House is Not a Motel” ou “Bummer in the Summer” o grupo continuava a fazer o seu “Rock n Roll” mordaz e intrigante.
Apesar dos bons esforços, a banda estava a desintegrar-se. As saídas do teclista Alban Pfisterer e do saxofonista Tjay Cantrelli deixaram brechas difíceis de superar. Com a chegada das drogas e o desinteresse em continuar a gravar, não deram alternativa ao produtor Bruce Botnick em utilizar músicos de estúdio (externos à banda) para acabar o disco. Porém, “Lee e companhia” ficaram tão enojados pelo trabalho dos “session players” que decidiram começar do zero e convencer Botnick e a editora a serem eles próprios a gravar “Forever Changes”.
Os resultados foram melhores que o esperado, oiça-se o “Beatlesco” “The Daily Planet”; o negro “Live and Let Live” ou o falso romântico “The Red Telephone” para se perceber que” o todo” seria muito forte.
A finalizar “You Set the Scene”, um clássico perdido dos anos 60 e com alguns contornos Rock, Ragas Indianas e Jazz. Enfim, há aqui mais que pretextos para ouvirmos este disco muitas vezes sem nunca nos fartarmos. Ele não é nem Indie, nem Rock, nem Pop, nem Jazz, é simplesmente “Forever Changes” um dos melhores discos de sempre da história a par de “Sgt. Pepper” ou “Pet Sounds”. Obrigatório!
Chamem-me saudosista, chamem-me nostálgico, chamem-me a merda que quiserem. Eu nunca hei de gostar dos Yuppies que começaram a aparecer a partir dos anos 80. Sinceramente, não há saco para os seus maneirismos musicais. Sim, maneirismos. Eles não gostam verdadeiramente de música. Eles apenas receberam o que lhes era dado sem sequer questionar. Era tudo bom? Não. Era tudo mais ou menos bom? Não. One Hit Wonders desde cedo sempre houve mas os anos 80 fizeram isso tão especial que até começou a ser respeitado. Para essa geração, claro. Por isso, hoje em dia temos rádios tipo M80 (O melhor dos anos 70, 80 e 90). Que risada... Mas eu nem sequer quero saber disso. Os 80 não foram maus mas hoje em dia são uma praga que parece não querer desaperecer. E fala-se dos 80s como se da melhor década se tratasse a nível musical... E, se alguém referir bandas dos anos 60, a reacção destes Yuppies é de estranheza. Como se o que fosse feito antes fosse de muito má qualidade. A verdade é só uma. Os anos 80, por muito bom que tivessem trazido, mataram o cinema e a música como artes mais ou menos puras. As fórmulas começaram a apoderar-se de todos. A inocência foi-se perdendo aos poucos...
Daí, ao ouvir discos como este dos Fairfield Parlour, renascidos das cinzas dos Kaleidoscope [UK], o que me vem à mente é: Eu tenho muito mais a ver com os meus pais do que tenho a ver com qualquer Yuppie dos anos 80. E que continuem a fazer as vossas festinhas dos anos 80 durante 50 anos. Pois serão sempre populares pois os acéfalos irão sempre acompanhar...
Dia 1 Bis - Os Bis são uma banda de culto que, aparentemente, deixou marcas nas pessoas. Eu fui uma delas. Desde 1994 que estes escoceses de Glasgow faziam uma mistura incomum de punk com pop e uma forte influência de manga e... doces. Mais tarde, viraram-se mais para ritmos disco, com reflexo mais ou menos evidente nos Franz Ferdinand (e, por conseguinte, milhares de outras bandas) - de que é bom exemplo o quasi-êxito Eurodisco. Ficaram ainda conhecidos por produzirem as suas próprias zines, nas quais os membros Steven, Amanda e John apareciam como heróis de banda-desenhada. Original, no mínimo. O Primavera aproveitou a reunião da banda após sete anos de hiato e pôs os Bis a abrir o primeiro dia. Este é daquele tipo de banda que estava no limiar entre a viabilidade numa label, por mais pequena que fosse, e a inviabilidade. E o advento da Internet possibilitou a recuperação dos Bis, uma das melhores bandas do mundo, de entre as que quase ninguém cantou.
Os Bis estavam genuinamente contentes por estar ali. Não vi o set inteiro, mas pareceu-me que a banda se inclinou mais para aquilo em que o indie rock se tornou ao longo dos tempos, do que focar-se nas canções mais rockadas como This Is Fake D.I.Y. e Sweet Shop Avengerz, que eu gosto mais. Mas valeu a pena e soube bem ver aquele sabor a 90s mais uma vez. E há uma grande satisfação em vê-los de volta. E houve a Starbright Boy.
The Wave Pictures - Não vi muitas canções deste trio inglês, confesso. Enquanto que a qualidade está lá, não é bem o meu estilo de coisa. Acho que para qualquer pessoa que toca guitarra há mais de cinco anos, esta banda tem potencial para se tornar aborrecida.
The Fall - É sempre com antecipação que se vê os The Fall e o líder talvez mais fixe da História do rock, Mark E. Smith. Imagino eu, porque nunca os tinha visto antes. Ora, ainda que possa estar a cometer aqui uma heresia, e mesmo que tenha prestado já bastante tempo aos discos deles, e mesmo que ache o Sr. Smith um poeta fenomenal, sempre achei os The Fall uma seca descomunal - excepção feita para a delícia que é o Hex Induction Hour. Em cada música, um poema, em cada música, um loop em trânse durante 7 minutos; foi divertido ver o desdentado e barrigudo Mark E. Smith a berrar coisas interessantes mas incompreensíveis para dentro do microfone, enquanto os músicos da temporada iam acompanhando. Terá sido muito emocionante, mas fartei-me após três músicas.
Circulatory System - Os Circulatory System são o veículo de Will Cullen Hart, dos notáveis Olivia Tremor Control, da também notável editora Elephant 6. Foi um concerto bom, agradável ainda que com uma formação de cinco, para uma banda que estava habituada a imensa gente em palco. Terão tocado a maioria do set baseados no disco do ano passado, que continua a explorar rock mais psicadélico e com vasta influência de Brian Wilson.
The xx - Não sou grande fã dos xx. Admito que seja uma coisa emocional, consideravelmente bonita e até com o potencial de ser profundamente íntima. Compreendo o que uma banda como esta pode fazer. Contudo, nunca os achei terrivelmente interessantes, tirando a tal Crystalized, a única que acho realmente conseguida.
O concerto nunca poderia ser muito longo, até porque eles ainda só têm um disco e não são ávidos improvisadores. Funciona ao vivo? Se aquela gente toda (procurem a outra versão de Crystalized no YouTube se quiserem ter ideia) se manteve silenciosa durante tanto tempo, então sim. Mas, para um não-entusiasta como eu, tornou-se bastante monótono. Não fui o único. Ou seja, para quem gosta, deve ser realmente tocante - mas os xx não me converteram.
Uma pequena nota ainda para a última música. No final, Oliver Sim deixa o baixo, pega em baquetas e, com espectacularidade e acompanhado de luzes strobe e fumo, bate solemente num prato, sozinho, no meio do palco. Quem sabe tocar instrumentos percebe que aquilo não é nada de especial, mas que impressiona quem não compreende música a esse nível, e que parece mostrar grande proficiência e capacidade de improviso. Não mostra. Este problema é revelador e não é nada bom sinal. Ou seja, detrás da sofreguidão toda, há sinais de algum calculismo, o que até pode ser fixe se for auto-irónico - e não há ironia nos xx.
Mas, para alguém que não gosta muito dos xx, assisti ao concerto todo, e isso deve querer dizer alguma coisa.
Superchunk - Mais outra banda histórica que apenas tem editado EPs nos últimos anos e que regressou este ano em força. Infelizmente, e como não dá para ver tudo no Primavera Sound e Tortoise estava quase a começar, vi apenas duas ou três canções dos norte-americanos. Estava muita gente a ver os Superchunk, o que se regista com agrado, porque eles bem merecem e já não era sem tempo. Entre a pressa e as cabeças à minha frente, terei apanhado dois dos momentos-chave da actuação: quando a eles se juntou esse louco chamado Tim Harrington dos Les Savy Fav, e a grande Water Wings (não é este vídeo).
Tortoise - Há quantos anos é que os Tortoise fazem álbuns de boca cheia? Não me lembro, vou ver ao Wikipedia. Ok, já voltei. Há 16. O grupo existe desde 1990 e editou o primeiro álbum, homónimo, quatro anos depois. Mesmo com a fasquia tão elevada, os Tortoise saltaram por cima como se fossem o Sergey Bubka: TNT, Millions Now Living Will Never Die, Standards. Falar dos Tortoise, liderados pelo talentosíssimo John McEntire, até por já terem actuado em Montreux (e não na parte rock do cartaz), é falar de uma banda jazz. É falar de uma banda indie. Uma banda progressiva. Uma banda experimental. Uma banda que, no fundo, inventou o pós-rock, mais tarde celebrizado pelos Sigur Rós. Um género que, contudo, caiu em vícios monótonos que os Tortoise, felizmente, não têm.
O concerto foi incrível. É pena que não haja ainda muitos exemplos no YouTube. Para uma banda com tantos anos e num festival com tanta qualidade, é incrível como os Tortoise conseguem manter-se entre os mais frescos e surpreendentes. E, apesar de não haver ainda provas em vídeo para postar aqui (o que há online tem-no atrás das teclas), John McEntire é dos melhores bateristas da actualidade. Impressionante.
Adivinhem quem ficou com saudades e vai tirar o pó à discografia?
The Big Pink - Esta é uma banda de que não gosto nada. São os Kasabian, o que seria bom, numa versão mais chav e chungosa e má, o que é, claro, mau. Big Pink, I poop on you. Foi por mero acaso que vi o início do concerto no Primavera. Devo ter visto três minutos ao todo, quando subiram ao palco, mas a entrada, pelo menos, pareceu-me muito melhor do que aquilo que conheço deles. E é só por isso que ponho aqui um vídeo. Por outro lado, como a única coisa com qualidade que se encontra deles é a Dominos, vejo-me obrigado a postar isso. Dominos é uma canção da piça.
Pavement - Não vou dar lições de História em relação aos Pavement. Ficaríamos aqui o resto do dia. Mas é importante dizer que, quando deram o último concerto em 1999, na Brixton Academy em Londres - existe registo em DVD, algemas no microfone e tudo -, as coisas estavam azedas entre o vocalista e compositor principal Stephen Malkmus e o resto da banda. Resultado? Malkmus seguiu em frente com discos geniais e o resto da banda continuou a trabalhar noutros projectos com menor relevância. Mas por óptimos que os discos fossem, os trabalhos dos Pavement não têm comparação. É, para mim e para muitos, a melhor banda da História do mundo e do rock e de sempre for ever and ever, sem itálico. Por razões diferentes, eles e os King Crimson. Nada mau, hein?
Chegamos ao ano de 2009 e ouço inesperadamente que uma amiga tinha acabado de comprar bilhetes para uma reunião dos Pavement em Nova Iorque em Setembro deste ano, a um ano de distância. Boato, certamente, como muitos outros. Nada disso. O mais inteligente seria comprar também e foi o que fiz. Esgotaram online em quatro horas. Mas, como Nova Iorque ainda fica longe e nunca se sabe, e como entretanto marcaram uma digressão mundial, o Primavera Sound colocou-se como uma óptima primeira escolha.
Nem três minutos da banda anterior me afectaram, nervoso que estava por querer um bom lugar. A meia hora do início do concerto, não havia praticamente ninguém à frente do palco. A vinte minutos, quando cheguei, já só consegui ficar a uns 30 metros do palco, à frente do lado do Malkmus. A banda entra, só sorrisos e piadas. Bastou o início da Cut Your Hair, o mais popular semi-êxito dos Pavement, para o entusiasmo rebentar. Dizem que foi o concerto com mais gente no festival inteiro. Eu não sei, não conseguia ver para trás.
Assim se formou imediatamente um mosh e eu, felizmente, que me infiltrei alegremente para tentar chegar à frente, cheguei às primeiras filas. Agora à direita, de frente para Scott Kannberg, era o melhor sítio, até porque SM toca de frente para a banda e, desta forma, de frente para mim também. A partir da Rattled By The Rush, foi visão perfeita e costas em papa, mas costas em papa felizes. E não admira, com este alinhamento:
Cut Your Hair / Trigger Cut / Rattled By The Rush / Father To A Sister Of Thought / In The Mouth A Desert / Kennel District / Grounded / Silent Kid / Ell Ess Two / Spit On A Stranger / Unfair / Starlings Of The Slipstream / Fight This Generation / We Dance / Conduit For Sale! / The Hexx / Here / Stereo / Two States / Range Life // Gold Soundz / Shady Lane / Stop Breathin’
Dificilmente escolheria um alinhamento melhor que este, só faltando talvez ali uma Frontwards - mas estaria a ser picuínhas. Os Pavement foram aonde tinham de ir e Stephen Malkmus continua a fazer os alinhamentos com meras horas de antecedência. Nota-se e sabe a fresco. Podemos ir à net ver as setlists dos concertos anteriores à vontade, que não é isso que vamos ouvir.
Mesmo assim, foi uma escolha equilibrada entre os discos, os singles e as cantadas por Kannberg, mas com pouca relevância para o último disco - a versão escolhida para The Hexx foi a de 1997, a pesada (e a que tem letra mais gira). E um concerto que acabe com Stop Breathin', tocado pelos Pavement, é perfeito. Qualquer uma das canções, noutro concerto e interpretadas desta forma, seriam sempre um momento alto. Este concerto foi feito apenas de momentos altos. Como disse a Pitchfork, que de vez em quando se lembra de ter toda a razão, este não foi só um concerto, nem só motivado pelo dinheiro de uma reunião - foi um love affair.
Com muitos dos músicos do festival a ver o concerto em palco (lá estava de novo Tim Harrington), cientes do momento memorável que era, as participações não faltaram, como os Monotonix a dançar a We Dance com Bob Nastanovich e Kevin Drew dos Broken Social Scene a cantar o refrão da Kennel District. A nível de curiosidade, mais para o final do concerto, Kannberg decidiu descer e tentar fazer crowd surfing. E eu sei, porque tentei sozinho segurar num americano de 120 quilos, sem ajudas. Como naturalmente não consegui, ficou a tocar sentado na grade à minha frente. Posso ter segurado no rabo de outro homem, mas como são os Pavement, não faz mal.
A banda esteve em forma, talvez como nunca esteve. Não diria que estão profissionalmente melhores - isso nunca importou nos Pavement. Estão a tocar com mais ou menos a mesma destreza e tightness que em 1999, com uma diferença: agora lembram-se que gostam uns dos outros e, principalmente, da música. Portanto, uma coisa que era incrível mesmo com 30 a 50 por cento de entrega, agora é amor puro.
Uma pessoa pode olhar para a cara do Stephen Malkmus e achar que está a fazer um verdadeiro frete. Garanto que não; é apenas a postura enfadada e birrenta que lhe dá tanta graça. Os Pavement - todos eles - foram honestos e estavam felizes. E a felicidade deles é a nossa.
Nota: no dia seguinte conheci o baterista Steve West e ele confirmou-me, "Yep, that was a great one..."
Fuck Buttons - O cansaço àquela hora já era imenso. Mesmo assim, ouvi grande parte do concerto de Fuck Buttons, sem a atenção devida, admito. É capaz de ser muito mais interessante do que aquilo que me pareceu. Um homem não é o mesmo com os pés a ferver e, apesar de não ter visto montes de bandas que gostaria de ver (Mission of Burma, Sleigh Bells, Moderat, Delorean, Wild Beasts, etc.), naquele momento, já pouco importava.
Pois é bitches, o Altamont esteve no Primavera Sound 2010. Ainda que não tenha visto o último dia, devido a casório já em terras nacionais, tive a possibilidade e sorte de estar nos dois primeiros dias de um dos maiores festivais de música indie do mundo. Ainda que a ida a Barcelona fosse principalmente motivada pela actuação dos Pavement como cabeças-de-cartaz no primeiro dia, entre as inúmeras bandas em cartaz, a maioria interessava-me. E é este um dos espíritos com que este festival pode ser encarado.
Antes de falar dos concertos em maior detalhe, devo explicar como o Primavera Sound funciona.
A escolha das bandas funciona em três ou quatro lógicas paralelas: tocam bandas lendárias, ou bandas da moda, ou bandas que estão agora a tornar-se conhecidas. E há ainda as bandas espanholas, como é natural. O cartaz inteiro deste ano encontra-se aqui.
A estes, juntam-se os concertos no Auditório Rockdelux (Low, Hope Sandoval, Owen Pallett, etc.), fora do festival; no palco Ray-Ban Unplugged (concertos unplugged de bandas de outros palcos como Ganglians e The Wave Pictures); no Salón Myspace 43 e no Adidas Originals (bandas espanholas) e ainda no Minimúsica. Isto nos três dias oficiais, porque o festival espalha pela cidade outros concertos nas semanas que antecedem o Primavera Sound.
A nossa atenção foca-se maioritariamente nos cinco grandes palcos, todos praticamente do mesmo tamanho, com concertos quase sempre em simultâneo; o que, como podem imaginar, inviabiliza que se assista a tudo o que se gostaria. Pode parecer uma redundância, mas tirando os concertos que queremos ver do início ao fim, na maior parte do tempo o festival coloca-se como uma excelente oportunidade de ver muitas bandas relevantes em pouco tempo. E, logisticamente, funciona muito bem, o que torna a experiência global muito mais agradável. Nunca se espera mais de cinco minutos (senão apenas três, até) para comprar bebidas, comer, ir à casa-de-banho ou chegarmos a um palco diferente.
É possível encontrar os artistas do festival com alguma frequência - entre outros, vi os The XX umas quatro vezes, os Yo La Tengo andavam a passear, e ainda conheci o baterista dos Pavement.
É natural que a maioria das pessoas no festival seja melómana. Mas também se sente que há muita gente que não faz ideia do que quer ver, nem que saiba o que está ali a fazer além de saber que deve estar ali. Contudo, nunca chega a ser o ovelhismo dos festivais em Portugal: tirando as bandas históricas, entre as quais muito poucas chegaram a ser super-estrelas (Pixies, Pet Shop Boys), a maioria é relativa ou francamente obscura ou, então, bastante recente. Diria que se pode ir ao festival de consciência tranquila só conhecendo 10% das bandas, o que neste caso já é uma percentagem respeitável. Não existe a obrigatoriedade de conhecer as bandas de antemão, até porque este é um festival, em grande parte, de descobertas. No meu caso, como disse, iria só por Pavement. Mas o resto estava longe de ser irrelevante, sendo apreciador de muitas das bandas, ou apenas tendo curiosidade de ver outras ao vivo.