22 maio 2010

Caravan – In The Land of The Grey and Pink (1971)

Quem disse que o Rock Progressivo não era capaz de soar melodiosamente e com alguma sensibilidade Pop, de certeza que nunca ouviu “In the Land of the Grey and Pink” dos Caravan. Uma obra imaculada que misturou na perfeição as tendências vanguardistas da herança do Psicadelismo, com algumas das fórmulas Pop (surrealista) desenvolvidas na década anterior por “gurus” como John Lennon, Brian Wilson ou Syd Barrett.
Talvez por virem da mais sossegada e acolhedora Canterbury, no sudeste de Inglaterra, os Caravan eram muito menos espalhafatosos que muitos dos grupos que provinham de Londres (Yes, King Crimson ou Emerson, Lake & Palmer). Formados “das cinzas” dos extintos Wilde Flowers em 1968 (que a um certo ponto contaram com os serviços de Robert Wyatt na voz além de outros futuros membros dos Soft Machine), os Caravan eram constituídos por Pye Hastings (guitarra e voz), Richard Coughlan (bateria) e os primos Dave (teclas) e Richard Sinclair (baixo e voz).
Apesar de nunca deixarem de ser “Progressivos”, a sua postura “campestre” transparecia nos discos uma calmaria e um sentido de amenidade que ainda hoje se conseguem suportar facilmente. Ou seja, os Caravan bem podiam ser a banda de Rock Sinfónico mais suportável pelos anti-fãs deste género de música que é no fundo uma mistura do Rock, Jazz e Folk Inglesa regado com algumas sensibilidades Pop que fazem de “In the Land of the Grey and Pink” algo muito mágico, cósmico e especial.
Se tiverem paciência, façam a experiência: oiçam este disco três vezes seguidas. Acredito que se conseguirem fazer isso, é sinal que ele vai ocupar um lagar muito especial na vossa colecção.
E tirando a longa suite “Nine Feet Undewrground”, o resto é muito fácil de escutar. E haverá melhor “single” que “Golf Girl” para começar um disco? Um tema que mais parece que a Alice no País das Maravilhas se transformou em ”Hippie” e foi jogar golfe com os jornalistas da BBC. Tudo muito “very british”…
Segue-se “Winter Wine” uma canção gentil e muito ao estilo dos contemporâneos Genesis, em que se vislumbra uma pareceria entre as teclas de Dave Sinclair e os ambientes mais acústicos criados pela guitarra de Hastings. Mas os Caravan não se esgotavam em devaneios acústicos ou jazzísticos. “Love You to Love You (and Tonight Pigs Might Fly)” poderia ter sido um ”hit-single” se tivesse sido criado por outro tipo de banda.
Mas os Caravan nunca foram o género de querem o sucesso a qualquer preço, álbuns comerciais ou groupies a adula-los. Aliás objectivos muito em comuns a qualquer banda do período áureo do “Prog-Rock” (1969 a 1976).
O épico “Nine Feet Underground” é a prova disso mesmo. Ficava bem em qualquer disco da época ter uma suite de vinte e tal minutos, dividida em oito partes e com muitos solos e secções musicais diferentes. Mas afinal de contas em 1971 tudo era possível. Nem as editoras mandavam nos grupos, nem estes se submetias às regras do mercado. Era “música pela música”. Algo audacioso e corajoso e que hoje só muito poucos conseguem almejar.
“In the Land of the Grey and Poink” é não só o melhor disco de sempre dos Caravan, como um dos melhores discos de Rock Sinfónico. E um dos poucos (do período) que funciona sempre como um bom vinho de “reserva especial”…quanto mais velho melhor!

21 maio 2010

The Velvet Underground - Loaded (1970)

É ou não uma sensação óptima quando no meio de um bom filme, aparece como banda sonora uma daquelas músicas de um daqueles álbuns que já não se ouve há imenso tempo e que, do nada, voltamos a ficar completamente viciados nele? É, claro! Isso aconteceu-me hoje enquanto via o "Away We Go" do Sam Mendes. Filme meio indie com boas interpretações e com uma banda sonora impecável. De Dylan a Harrison, passando pelos Velvet Underground com "Oh! Sweet Nuthin'", a qual me deixou com um ligeiro arrepio ao ouvi-la... Pois bem, pôs-me a ouvir outra vez o Loaded, um daqueles discos que se ouve uma vez e parece que foi nosso sempre. Tem a alegre "Who Loves the Sun", a historieca em "Sweet Jane", o significado de "Rock and Roll" e ainda há espaço para o "mellow", como alguém lhe chamou hoje, em "New Age", "I Found A Reason" e "Oh! Sweet Nuthin'". Os Velvet tiveram um período muito curto de existência, porém nenhum disco seu foi em vão. Mesmo a simplicidade com que faziam música de nada tinha simples. Há uns dias li no ípsilon que o Rock nunca foi adulto até aos National. Pois bem, há gente que precisa de tomar lições de história de música...

Peter Frampton – Thank You Mr. Churchill (2010)

Ora aí está mais um regresso de um dos grandes “desaparecidos em combate” do Rock: Mr. Peter Frampton! Com uma carreira que já conta com mais de 40 anos de actividade, 15 discos de estúdio, o grande salto para fama deu-se em 1976 quando o então jovem publicou o “ao vivo”, “Frampton, Comes Alive”, um dos discos seminais dos anos 70 e que por sua vez amaldiçoou para sempre a carreira do ex-Humble Pie.
15 Milhões de discos vendidos (6 milhões, só nos Estados Unidos), tornaram em Frampton (em 1976) numa “overnight sensation” que não foi capaz de capitalizar musicalmente os fabulosos ganhos desse monumental disco ao vivo. Sempre a descer em termos de vendas de discos e de popularidade, o guitarrista só voltou às luzes da ribalta quando aceitou o convite do amigo dos tempos de escola, um tal de David Bowie para fazer parte da banda de apoio da espalhafatosa “Glass Spider Tour”, em 1987.
Daí para cá, Frampton lá foi publicando um disco ou outro (sempre sem grande chama), feito uma tournée ou outra (com bastante sucesso no circuito de “golden oldies” ou rock clássico, nos E.U.A.). Enfim, os anos lá foram passando. À lustrosa cabeleira loira aos caracóis deu lugar a uma respeitável careca. No entanto, as qualidades de Frampton enquanto guitarrista mantiveram-se intactas. Um grande senhor das “seis cordas de aço” que infelizmente nunca foi valorizado nem pela crítica especializada, nem pelo público mais dado ao Rock.
Agora chega, “Thank You Mr. Churchill”, o décimo quarto de originais e com ele a vontade de recuperar algum do respeito perdido. Tirando o dispensável azeiteiro, “Vaudeville Nanna and the Banjolele é um disco em que Frampton “dispara em todas as direcções”. Desde os Blues-Rock (“I Want it Back” ou “Asleep at the Wheel”), passando pelo Pop-Rock, muito estilo do seu primeiro conjunto profissional os The Herd (1967 -1968) com “I´m Due To You” (uma excelente canção que não ficaria mal a Eric Clapton), à Soul com “Invisible Man”, até aos habituais instrumentais (“Suite Liberté”) “ditos normais” em discos cozinhados por “velhos feiticeiros da guitarra”. Mas melhor mesmo é postura Hard-Rock que essencialmente governa o disco. Estão aqui grandes malhas de fazer inveja não só aos Humble Pie (como “Solution”) como também aos anos perdidos e obscuros da carreira de Frampton. È o caso de “Road to the Sun”, cantado pelo filho Julian.
Parece mesmo que os maus tempos se foram embora e os dias ao Sol vieram para ficar! No entanto como já não resta muito tempo de actividade a Frampton, se este fosse o seu último de estúdio, já se podia reformar feliz e contente por ter voltado a “Rockar” como nos velhos tempos! “Frampton is still much Alive!”

20 maio 2010

Steve Hackett – Out of the Tunnel's Mouth (2009)

Se Peter Gabriel se virou mais para a “World Music”; se Tony Banks se dedicou à composição de álbuns orquestrais menores; se Mike Rutherford encetou por caminhos completamente comerciais e Phil Collins fez as porcarias baladeiras que fez…sobra alguém que se encarregue de salvar a “Honra do Convento” dos velhos Genesis? Felizmente, ainda existe esse “alguém”. Chama-se Steve Hackett e é o único dos ex-Genesis que ainda pratica aquilo que se pode chamar de “Rock Progressivo”. O último dos resistentes…
“Out of the Tunnel´s Mouth” é a última oferta de um guitarrista que aos 60 anos de idade ainda carrega consigo aqueles arranjos musicais audaciosos dignos da “velha guarda Prog”, bem como uma enorme capacidade de reinvenção e uma aptidão para compor temas minimamente inteligentes e ambiciosos.
O disco divide-se em oito temas onde Hackett explora ambientes tanto acústicos como eléctricos. Algo que sempre fez com mestria e precisão em todos os seus registos a solo (e já vão mais de vinte). O inaugural “Fire on the Moon” é um óptimo exemplo dessa maneira de estar em que nos vêm à memória grandes sons extraídos do catálogo dos Genesis como nos clássicos “Selling England By the Pound” ou “Trick of the Tail”. Como bónus temos sempre os seus solos precisos, meticulosos e celestiais (que só encontram rivalidade em Robert Fripp dos King Crimson ou David Gilmour dos Pink Floyd).
Segue-se o lindíssimo “Nomad”, uma homenagem aos ciganos em que o ex-Genesis volta a explorar as potencialidades da dicotomia entre “acusticalidade vs electricidade”, emprestando ao tema um cariz mágico em que se cruzam influências que vão do Flamenco passando pelo Jazz até ao Rock. Já “Emerald and Ash”, tem um ar “Vitoriano”, decididamente mais inglês, mais Genesis, em que poderiam surgir quatro ou cinco temas diferente da mesma canção. O solo eléctrico e corrosivo de Hackett nesta canção é aquilo a que poderemos chamar verdadeiramente progressivo.
Com “Tubehead”, Hackett volta-se para terrenos dignos de “Guitar Hero”. A sua destreza técnica não fica nada atrás de nenhum Eddie Van Halen ou Steve Vai deste mundo. Mas melhor mesmo, e talvez a obra que enche mais as medidas é “Sleepers”. Tem tudo aquilo que todo o velho fã de Genesis gostava. Começa como uma balada celestial que depois desemboca numa tempestade épica com grande sentido orquestral.
Depois do excelente instrumental, o pequeno “Ghost in the Glass”, chega-nos o tema mais pesado do disco: “Still Waters”. Mais uma lição de mestre de Hackett e com uma ambiência que não dista muito dos últimos registos dos King Crimson.
A fechar, surge o arábico e semi-cinematográfico – “Last Train to Istanbul” – um tema quente, exótico, mágico e pelo qual a guitarra solista de Hackett nos guia como se de uma câmara se tratasse.
No global este é um disco sólido e talvez o melhor que Hackett produziu desde o excelente “To Watch the Storms” (2002). Uma obra que esteve quase para não ver a luz do dia devido a complicações legais surgidas com o divórcio do ex-Genesis e a pintora brasileira Kim Poor (autora de muitas das capas do vasto catálogo do ex-marido). No final, o casamento foi à vida, mas pelo menos salvou-se este disco...

Gogol Bordello - Trans-Continental Hustle (2010)

Os Gogol Bordello estão de regresso com o seu novo álbum Trans-continental Hustle. Após o seu excelente sucesso do álbum Super Taranta (2007), tiveram nos últimos anos a conquistar fãs, nos melhores festivais de música à volta do globo. Marcando internacionalmente o seu conceito de música, o Gipsy Punk Rock.
Este trabalho contou com a produção de Rick Rubin, ex Dj dos Beastie Boys. Este produtor americano trabalhou com bandas como, Red Hot Chilli Peppers, Johnny Cash, The Cult, Metallica, AC/DC, U2, Jay Z, Run DMC, entre outras. O que veio dar origem a um álbum mais polido que os anteriores.
Para quem não conhece os Gogol Bordello, são um grupo composto por 9 elementos, formado por Eugene Hutz no bairro de Lower East Side de Manhattan, em 1999. São uma banda multi cultural e eclética, pois é composta por pessoas de todos os cantos do mundo, Ucrânia, Rússia, Etiópia, Equador, Israel, etc.
Este álbum tem uma menor influência punk rock, tem um som mais global, misturando vários tipos de música e linguagens. Influência brasileira, do leste europeu e latina. Estando mais presente uma universalidade popular, em relação ao típico gipsy punk rock, apresentado nos quatro álbuns anteriores.
Recomendo as seguintes faixas:
Pala Tute
Mi Compañera
Rebellious Love
Immingraniada
Uma Menina
Break the Spell
É um álbum divertido, puro e simples.
A não perder será o concerto que terá lugar no dia 10 de Julho no Optimus Alive 2010. Trata-se de um regresso, depois de terem estado em 2008 no mesmo festival. Veremos se a onda dos Balcãs virá para ficar em Portugal, como tem estado e marcado as noites por essa Europa fora.

Heroes Playlist

E estamos de voltas às playlists temáticas. Depois de "Lost" agora chega-nos a "Heroes".

The Kinks - Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire) (1969)

Numa destas tardes de passeata pela nossa bela Lisboa, que, com este bom tempo convida a ligeiros passeios, acompanhados de bons amigos, umas ginjinhas e umas imperiais, deparei-me com uma ligeira branca aquando da selecção de algo para ouvir no meu iFrod. Por vezes, a quantidade deixa-nos indecisos e periclitantes na escolha do som para o momento. Alguns clicks para cima e para baixo e parei neste álbum. Fiz play e segundos depois já estava a bater o pé ao som de "Victoria" enquanto aguardava o metro na estação do Areeiro. E, de repente, lembrei-me o porquê fiquei tão "amarrado" ao som dos Kinks. A estes Kinks, os do final dos anos 60 que se desprenderam da onda da British Invasion que os fez mais conhecidos. "All Day and All of the Night" ou "You Really Got Me" por muito que sejam grandes músicas ficam a léguas dos álbuns conceptuais mas muito britânicos feitos alguns anos depois. Aqui, em Arthur, os Kinks viajam pelos gloriosos anos do Império Britânico que estava presente nos quatro cantos do mundo. Mais uma vez, e, como é normal num álbum dito conceptual, a audição do mesmo tem que ser do início ao fim. De "Some Mother's Son", passando por "Australia", "Shangri-La" e acabando em "Arthur", os Kinks demonstram porque razão são tidos como uma das bandas que encorpou o verdadeiro sentido britânico. E nisto saí na estação do Rossio, bebi uma ginjinha e lá se passou mais dia...

19 maio 2010

Metallica - Pavilhão Atlântico - 18.05.2010

Os Metallica são uma instituição. Então em Portugal eles são quase uma religião. Ontem perante um Pavilhão Atlântico (transformado em “Catedral de Metal”) a transbordar pelas costuras, os” fieis“ metaleiros gritaram, cantaram, “mosharam” e veneraram todos os acordes, todos os riffs, todas as batidas, todos os solos e letras da maior banda de Heavy Metal do Mundo.
E não é caso para menos, desde a última vez que os vi ao vivo (há dois anos no Rock in Rio) a banda pareceu ganhar uma nova alma com este “Death Magnetic”. Uma espécie de regresso à forma dos velhos tempos e o primeiro bom disco desde o longínquo “Black Album” a reunir o consenso dos fãs mais ferrenhos.
E foi precisamente ao som de “That Was Just Your Life”( tema que abre este último disco) que os Metallica apareceram em palco. Eram 21 e 45 e o Pavilhão quase que ia abaixo. Não só com a reacção esfusiante do público, como pelo som carregado de decibéis (a mais) que arruinou o primeiro quarto de hora do concerto. È lamentável que as pessoas tenham que pagar para ver grandes bandas com um som tão sofrível como este.
Se a audição não era lá grande coisa (a voz de Hetfield parecia um eco gigantesco a deslizar pelo Atlântico, enquanto que as guitarradas eram abafadas pela bateria de Ulrich), visualmente o concerto era compensado por um palco 360º, muito usual nos concertos americanos dos Metallica, mas nunca visto em Portugal. Tudo para grande regozijo dos músicos (este formato dá-lhes maior amplitude de movimentos) que brindavam a plateia dos mais diversos ângulos.
Após mais uma demonstração “decibélica” com “The End of The Line”, Hetfield dirigiu-se pela primeira vez ao público Lisboeta anunciando um “clássico”: “Ride the Lightning”! Uma das melhores músicas da fase Trash (1983 – 1988) e que pôs os fãs mais “old School” ao mosh e com um sorriso na boca!
A viagem ao passado seguiu-se ao som de “Through the Never” do “Black Album”. Um tema que nos meus 6 concertos de Metallica, pouco me lembro de alguma vez o ter escutado ao vivo. Aliás, em abono da verdade o espectáculo de ontem deve ter sido o que mais me surpreendeu a nível do alinhamento, não só pelas músicas de “Death Magnetic” (as demolidoras “Broken, Beat and Scared” e “My Apocalypse”), como também pela escolha em tocarem “clássicos do baú” como “The Four Horsemen” ou “Phantom Lord” do primeiro LP: “Kill Em All”!
Apesar do ambiente de celebração e das condições sonoras terem melhorado à medida que o PA do grupo se instalava nos monitores, chegou a homenagem da noite. O ex-vocalista dos Black Sabbath, Ronnie James Dio, falecido no domingo passado não foi esquecido e o grupo dedicou-lhe “Fade to Black”. A frase “…But Now He´s Gone” fez tanto sentido naquele momento que chegou a arrepiar.
“Vocês querem Heavy”? Perguntava Hetfield antes de introduzir “Sad But True”, o primeiro de uma série imparável de clássicos e êxitos que levou o Atlântico à euforia. Lá vieram as as habituais explosões pirotécnicas do épico “One”; os coros magistrais de “Master of Puppets”; a fúria de “Battery”; a calmaria de “Nothing Else Matters” e o delírio comercial de “Enter Sandman”.
Para os encores, mais uma boa surpresa: a cover de “Stone Cold Crazy” dos Queen! A finalizar o habitual “Seek and Destroy”. Nesta altura voam balões, canta-se os parabéns ao filho de Hetfield, grita-se por Portugal e bebe-se muita cerveja. O recinto mais parece um baile de “Sto. António” do que o “Ritual” exibido duas horas antes. A banda agradece põe a bandeira de Portugal ao pescoço e Lars pergunta: “"should Metallica play in Portugal every year?” A resposta é um estrondoso sim, mas…não no Atlântico!

18 maio 2010

Metallica - Master of Puppets (1986)

Pode ter parecido há séculos, mas houve uma altura em que os Metallica eram provavelmente o porta-estandarte do “Heavy Metal”. Não só porque inventaram (acidentalmente) um género que ficou para a história como Trash Metal, bem como terem sido dos primeiros a levantar a voz contra os impostores do “Falso Metal”, ou seja as bandas Glam de L.A. (Motley; Poison ou Ratt) que dominavam o Rock e os Tops dos anos 80.
Vindos de mais a norte da Califórnia (da Bay Area de San Francisco), os Metallica assustaram muita gente quando publicaram o seu disco de estreia “Kill ´em All”. Um ritmo ultra rápido da bateria de Lars Ulrich; riffs e solos de guitarra a 200 à hora; um baixo virtuoso de Cliff Burton e a voz furiosa (contra tudo e contra todos) de James Hetfield eram receita suficiente para o grupo se afirmar (em inícios da década de 80) como o mais “barulhento e poderoso da América!
A cada disco os Metallica quebravam fronteiras e ganhavam novos adeptos do seu estilo demolidor. Já em “Ride the Lightning” (1984), parecia haver um amadurecimento do seu som Trash, incluindo nesse disco uma semi-balada (“Fade to Black”) que granjeou aos Metallica ainda mais fãs, que tinham perdido o barco ou andavam distraídos da primeira vez.
Mas é com “Master of Puppets”, gravado entre Setembro e Dezembro de 1985, na terra natal de Ulrich (i.e. Copenhaga), que esta “Metal Militia” atinge a maturidade. Sob a batuta do produtor Fleming Rasmunssen, os Metallica voltavam a por o pé no acelerador, reinventando um estilo que rapidamente contagiava outras bandas (Megadeth, Slayer ou Anthrax). Chamemos-lhe “Trash Metal Progressivo”. Porque era isso mesmo que os Metallica eram. Uma banda em constante evolução sonora, sem grandes paragens para contemplarem “os louros do sucesso”.
“A revolução” começa no uso de gentis guitarras acústicas utilizadas na introdução do brutal “Battery”. Como se fossem um pontinho de sol antes de a “embarcação” ir rumo à tempestade. Este efeito “Luz /Sombra”, também é utilizado no tema homónimo, embora aqui ornado com algumas harmonias de baixo saídas do cérebro efusivo de Burton.
Aliás, o último disco que o malogrado baixista grava com a banda tem a sua marca bem presente. O instrumental harmónico “Orion” é a prova viva que Burton podia encaixar as suas influências de Rock mais clássico numa canção trash.
Se Burton é o decorador destas canções, o seu Amo verdadeiro é Hetfield que tem aqui algumas das suas melhores letras sobre a guerra (que ia na sua cabeça): “Disposable Heroes” e uma nova semi-balada “Welcome Home (Sanatarium)”. Ambas um excelente tour de force para quem gosta de gastar um bilhete até a um “Inferno Sonoro”. Há também a versatilidade de “The Thing That Should Not Be”, com o grupo a introduzir um som mais limpo e algo indicativo daquilo que iria surgir na década seguinte.
A finalizar o álbum mais um clássico da banda – “Damage Inc.” – com ´Hetfield em plena fúria guerreira e Kirk Hammett (ainda não tínhamos falado dele) a rubricar um excelente solo de guitarra. Palmas também para Ulrich que tinha (à época) um pedal duplo diabólico!
“Master of Puppets” fica para a história como sendo não só o melhor disco dos Metallica, como também uma despedida “Gloriosa” de Burton que mal sabia que estaria morto um ano depois, num estúpido acidente de autocarro aquando de uma digressão pela Escandinávia. Era o fim de uma era…