13 março 2010

Isto é Potente

Relacionado #48

Já está disponível para audição, embora sem vídeo oficial, o primeiro single do novo disco dos MGMT. Não se afastando muito do espírito do primeiro disco, Oracular Spectacular, a banda de Brooklyn soa mais madura e confiante. Um dos bons regressos previstos para este 2010. Aqui fica "Flash Delirium".

12 março 2010

Radiohead - Kid A (2000)

Ano 2000. Já tinha passado a possibilidade de o mundo acabar na mudança de milénio, e o pânico lançado pelo "montanha pariu um rato" bug Y2K. Já a população do mundo e especialmente a que habita os Estados Unidos da América pensava que tudo não tinha passado de uma grande esquema para alarmar o pessoal, levá-los a frenesim consumista de armazenamento de bens de primeira necessidade, quando, já o ano ia em Outubro, acontece o verdadeiro choque que abanou a Terra - o lançamento deste Kid A. Ninguém estava à espera de uma mudança tão radical de registo após OK Computer e como tal este álbum foi encarado como tendo apenas um objectivo - diminuir a sua base de fãs e com isso conseguir reduzir o desgaste causado pelo sucesso, as tours, as necessidades de promoção, com as quais Thom Yorke nunca lidou bem. Mas isto não passou de uma primeira reacção histérica, que eu próprio, posso admitir, também senti quando primeiro coloquei os ouvidos neste Kid A. É que na realidade este ábum faz todo o sentido e encaixa totalmente na evolução de uma banda que nunca foi de fazer mais do mesmo, mas sim de procurar caminhos diferentes para evoluir, experimentar, sem receios de que críticos e fãs deixassem de gostar deles. Mas esta não foi (mais uma vez) uma decisão consensual no seio da banda, e chegou mesmo a ameaçar que a mesma terminasse, uma vez que enquanto Yorke e Jonny Greenwood queriam ir por algo cada vez mais experimental, os restantes membros estavam mais virados para um seguimento simples de Ok Computer. No fundo, os Radiohead dão a ideia que precisam deste conflito interno para trazer ao de cima o melhor deles mesmo, e o processo de gravação de Kid A não foi diferente dos anteriores. O resultado, esse sim, é que foi diferente. Afinal de contas, o mundo também já estava bastante diferente.
 Este experimentalismo, inovação, está presente nas várias faixas do álbum. No ambiente sónico com várias vozes sampladas à volta da voz de Yorke em "Everything In Its Right Place", voz esta que foi totalmente transfigurada para "Kid A", a acompanhar uma melodia com aparência infantil. O baixo no ínicio de "The National Anthem", acompanhado com o som de um Ondes Martenot usado por Jonny Greenwood que desaguam numa forma de free-jazz bastante intenso. O exercício de "Treefingers", que mais não é do que o feedback da guitarra de Ed O'Brien trabalhado e organizado por Yorke no seu computador. O atirarem-se para fora de pé, mais concretamente ao campo da música electrónica com uma forte influência de uns Aphex Twin em "Idioteque", para depois terminar o álbum com a tranquilidade aparente de "Morning Bell" e "Motion Picture Soundtrack", esta última uma música que foi escrita para "Pablo Honey" e foi sendo sucessivamente adiada a sua presença em disco.
É um disco que a cada ano que passa me parece melhor, realmente inovador e que serviu para virar uma página na história da banda. E da história da música também.

Talvez Relacionado #44

Aqui está o hype do momento - a nova música dos The National, mostrada anteontem ao vivo no Jimmy Fallon. Chama-se "Terrible Love" e é a primeira amostra de "High Violet", disco que irá sair em Maio próximo.

10 março 2010

Half of what I say is meaningless, but I say it just to reach you Someone-who-certainly-is-not-in-this-room(or-eventualy-is-but)

Peço desculpa ao André Sousa. Exaltei-me, por vezes sou um tipo emotivo.
No entanto a minha opinião em relação ao que me expressei mantém-se, e por não ser capaz de pertencer a algo com o qual não me identifico, deixo assim de escrever neste blog.
Qualquer rubrica pendente será deixada a cargo desta pessoa.


09 março 2010

Norberto é Lobo e é bom.

Queria fazer uma crítica ao último álbum dele mas não tenho categoria para fazê-lo, não tenho conhecimentos não domino a coisa não sei o que é um fá sustenido nem sei se existem fás sustenidos ou se isso foi apenas uma coisa que ouvi dizer por aí, o que sei é que o concerto de Norberto Lobo no último sábado na culturgest foi das coisinhas mais emocionantes que já presenciei e durante aquela hora e pouco senti o meu corpo entregue às probabilidades das coisas e é isso que se quer quando se entra numa sala de espectáculos ou uma sala de cinema, ou o que o valha, queremos deixar-nos ir e voar por cima de tudo o que para nós é memória e desejos de futuro e imaginarmos que aquele que toca está a tocar para ti.

Mudar de bina é o primeiro álbum dele a solo e Pata Lenta é o segundo, ele que antes já integrou e integra noutros projectos como os Munchen, os Norman, os Tigrala ou os Xamã, a primeira banda leva trema mas eu tremas não sei fazê-los. Ao ouvir Norberto penso em John Fahey e inevitavelmente em Paredes e em tudo o que é português e rural e penso em vídeos mudos de super-8 caseiros com os putos a darem voltas em triciclos e penso também em ervas daquelas altas a abanarem ao vento, mas estamos dentro do carro por isso não se ouve o vento mas pensa-se no vento.

E também no dia seguinte, penso em todos os dias seguintes.

E sendo assim deixo aqui um exemplo e um convite para o concerto na sexta-feira na zdb.


08 março 2010

Kasabian - West Ryder Pauper Lunatic Asylum (2009)

Após o êxito de singles como Club Foot, L.S.F. Cutt Off e Empire, estão de volta com um álbum que serve com um óptimo aperitivo para os festivais de verão.
Com a saída de Chris Karloff, teclista, guitarrista e compositor da maioria das músicas de Kasabian, aguardava-se com expectativa qual seria o rumo a seguir por esta banda inglesa. No álbum Empire, Karloff, chegou a escrever três músicas.
O disco começou a ser trabalhado em 2007, ano em que saíram dois singles, Fast Fuse e Thick As Thieves, que fazem parte do trabalho lançado em 2009.
Recomendo vivamente o presente álbum, nomeadamente as faixas “Underdog”, “Where Did All the Love Go?”, “Fast Fuse”, “Vlad the Impaler” e “Fire”.
Eleito como melhor álbum, pelo NME Awards no dia 24 de Fevereiro de 2010. Teremos oportunidade de ouvir os Kasabian no Optimus Alive no dia 8 de Julho de 2010.

Sem palavras


Tigrala from ivan goite on Vimeo.

07 março 2010

Palavras ao Ouvido#4 - Shakira - "Hips Don't Lie"



Afastou com precisão o dedo anelar do mindinho. Fez aquela pausa como se num segundo o seu cérebro alojasse um naufragado frágil. Tinha feito um bolo de chocolate na quinta-feira e lembrava-se de riscar o fundo da panela ao raspar o resto do creme. Tinha usado aquela mesma faca pois o resto da louça estava na máquina e não gostava de interromper as tarefas a meio. Não, não teria segundos pensamentos quanto ao que fazer. Num gesto fluído separou o anelar do resto do corpo: com isto uma chusma desordenada de sangue começou a brotar da ferida. O homem enorme tinha o grito preso nos olhos. Como o sangue não era asseado, não tinha maneiras, teve mesmo que interromper o seu pequeno projecto sociológico para ir buscar uns jornais velhos. Entre a maca, que era já mais uma esteira meio roída pelo Inverno, e a parede, havia muito pouco espaço. Ainda assim, ela conseguia rodopiar, como se dançasse pelo pequeno corredor que a levava do quarto à cozinha. Junto ao forno havia uma pilha de jornais velhos. Limpou de imediato o sangue da faca ao primeiro do topo. Agachada em frente ao forno apenas teve que pressionar o botão vermelho para acender a luz. No seu interior o frango ainda nem começava a estar corado pelo que tinha ainda algum tempo. Só faltava o molho que era muito fácil de fazer e pôr a mesa. De qualquer forma os convidados podiam ajudá-la a fazer isso caso se atrasasse um pouco. Tinha um set novo de pratos amarelos com flores em azul comprados no supermercado, mas que faziam as vezes de um serviço fino. Com pés leves passou aos saltinhos pela sala sempre atenta aos possíveis pinguinhos de sangue que pudessem cair e coagular no soalho de tacão. Não suportava que o sangue coagulasse, isso era o que podia diferenciar um bom dia de um mau dia. Reentrou no quarto e começou a limpar o sangue caído numa enorme poça junta à mão do enorme senhor. Só as contracções da tábua respiratória dele, chamada o peito, indicavam a dor como uma música secreta de músculos. Ele não era má pessoa, era apenas um analfabeto corporal. Pelo menos era o que ela pensava. Mesmo agora, já com apenas quatro dedos na mão esquerda, retorcia-se sem ritmo, como se não soubesse sofrer com estilo. Desfolhou o “Correio da Manhã” e com duas páginas limpou o sangue que começava a formar um carreiro. Junto à mesa onde estava o retrato da avó falecida há muito, o anelar decepado parecia um caracol. Pegou noutra página e leu distraidamente uma notícia sobre o começar da Primavera. Com ela enrolou o dedo e colocou-o na gaveta com carinho. Ele olhava-a com a expectativa de quem poderia ficar a qualquer momento com menos corpo. Ela pensava que ele dançava bem e que tudo o que acontecesse de agora em diante não iria pôr essa sua qualidade em risco. Mas ele tinha dito palavras que vinham de outro país, estrangeiras, e nelas estava acorrentada a vontade de dançar a dois. Não que não quisesse, não que o seu próprio corpo mentisse quanto à vaga ideia que se lhe havia formado naquela noite quanto a ser penetrada por aquele animal. Mas as palavras dele, sempre as palavras, tinham vindo a uma velocidade superior. Uma velocidade que se tivesse sido corporal tinha apenas desencadeado um abraço lento, daqueles com que se começa. Mas, “és muito bonita” tinha sido faca suficiente para aquele momento. E foi fatal. A sua saia branca com bolinhas pretas estava imaculada e deixava-o entrever o joelho. Ela tinha vontade de o ouvir falar agora. Irónico certamente que o deixasse falar naquele momento mas porque pensava que ele não pudesse já ser hipócrita. Sim, ela agora já não seria bonita, seria um ser medonho com um vestido belo. Uma deusa com uma faca brilhante a ponderar o que fazer com aqueles 100 kilos de carne negra. Tinha quase a certeza que ele choraria e pediria perdão, sem saber do quê. Por isso, ligou o rádio e foi com jazz que pegou novamente na faca. Garganta ou coração? Quinze segundos depois decidiu-se. Garganta. Porque o corpo não pecara, porque o coração só corria sem saber para onde. Sem mais, fez um corte limpo e ele esbracejou numa última vivacidade sem estilo. Animais a viver e a morrer: que desinteresse. Não se sentia culpada. Afinal tinha sido apenas um problema de comunicação. Como milhões de outros.

O gato amarelo lambia a faca que tinha entretanto caído ao chão e o dia avançava lentamente. Pensou se sairia naquela noite outra vez. Apetecia-lhe. Mas agora era tempo de se preparar para o almoço. Tinha um homem morto no quarto das visitas e embora não tivesse ouvido o alarme podia jurar que o frango estaria certamente já cozinhado.