11 fevereiro 2010

Midlake - The Courage of Others (2010)

Midlake. Uma banda nova a surgir? Não. Este quinteto texano já existe desde 2000 e acaba de lançar o seu terceiro disco. Há bandas assim. Umas aparecem logo à primeira e acabam por desaparecer ao segundo ou terceiro disco, outras ganham mais importância em discos posteriores. Uma maior maturidade e experiência ajuda, por vezes. Os Midlake entraram no mundo discográfico com Bamnan and Slivercork em 2004. Um álbum rotulado de lo-fi ou indie psicadelia, ou seja, um disco morno com toques psicadélicos à la Pet Sounds ou Sgt Pepper's. Dois anos volvidos os Midlake acabariam por largar esta onda, colando-se mais à sonoridade de um Rufus Wainwright ou Tim Buckley com The Trials of Van Occupanther. Um folk de eloquência mais grandiosa. Este ano os Midlake continuaram o seu caminho pelas florestas obscuras tal Duendes, Elfos ou Hobbits a caminho de destruir o anel. Tudo instigado e magicado pelas poções de Gandalf. O toque dos druidas é visível até pela própria capa do disco. O ambiente do disco não deixa enganar. Estamos perante um dos grandes discos de folk alternativo dos últimos anos. Enquanto os Fleet Foxes vão calças de ganga e botas, os Midlake escolheram o caminho medieval. Não há grande destaque música a música dado ser um disco que se tem que ouvir de início ao fim. Uma folk pujante que nos agarra logo desde o início com "Acts of Man" e liberta-nos com "In The Ground". No fim ficamos com a impressão que tivemos mais um bocadinho da nossa vida escondida no imaginário de alguém. É bom escapar como também é bom voltar.

Radiohead - The Bends (1995)

Dois anos após "Pablo Honey" os Radiohead lançam o seu (sempre difícil para uma banda) segundo álbum, de nome "The Bends". Já eram tempos diferentes, os anos do grunge com quem os Radiohead foram conotados no início já iam longe, e o que vingava agora no mercado era a britpop, nomeadamente a tão proclamada guerra entre os Oasis e os Blur. Mas para quem conseguiu ler (ou, para ser mais preciso, ouvir) nas entrelinhas, o som dos Radiohead diferia destas bandas, para além de uma muito interessante evolução desde os tempos do álbum anterior. Esta evolução verificou-se a nível de utilização de guitarras por parte de Jonny Greenwood (que investiu bastante tempo em experiências sónicas), nas letras e voz de Thom Yorke (nem sempre egocêntricas e mais abrangentes; utilizando falsettos), e resultou de um período de choque no seio da banda, na hora de tomar uma decisão sobre a direcção a tomar, se fugindo do êxito de "Creep", se aproveitando-o ao máximo. O que é certo é que todas estas dúvidas, discussões, indecisões resultaram num grande álbum, que parece conter dois pólos distintos: um mais rock, com riffs e energético, que tem o seu ponto mais alto em "Just" (música que ficou também na memória de todos pelo videoclip inusitado em que todos se deitavam na calçada e nunca ficámos a saber o porquê, se alguém souber que partilhe, para mim continua a ser dos mistérios mais intrigantes de sempre....). No outro lado do álbum encontram-se as baladas excepcionais, a tensão, os demónios que assolam Yorke, mais chegado ao pós-rock. Aqui encontram-se músicas que ouvi em repeat tantas e tantas vezes como "Fake Plastic Trees" (de uma intensidade avassaladora), "Black Star" e "Sulk". E a frase marcante "Immerse your soul in love" da faixa final também fica connosco mais um bom bocado depois de o álbum chegar ao fim.
"The Bends" entra na grande discussão sobre qual o melhor álbum de Radiohead, e diria que dependendo do mood da pessoa e do momento, pode sair vencedor. O que é dizer muito sobre esta banda, produtora de álbuns como "Ok Computer" e Kid A".


Lichens + Xamã - ZDB - 10.02.2010

Absorto. É o sentimento em que me sinto no momento em que escrevo estas linhas. Houve qualquer coisa de muito real mas ao mesmo tempo muito etérea e imaginária que se passou em cerca de duas horas na Galeria Zé dos Bois. Um colectivo "fantasma" de seu nome Xamã e, como prato principal, Lichens. Mas comecemos pelo início da aventura onírica.

Com uma ZDB mais tranquila que em outros concertos que este escriba já assistiu, inclusive o facto da sala ser em lugares sentados, a noite começou por volta das 22:30 com a entrada de um trio português intitulado Xamã.
Deles se diz que são um "colectivo fantasma de geometria variável em estreia na Zé dos Bois sob a forma de tríada eléctrica. Constituído por alguns dos mais generosos e talentosos músicos nacionais, a banda - qual mito urbano - afasta-se do percurso a que são frequentemente associados os seus membros para abraçar a surpresa T-O-T-A-L."
Hoje, um power trio com bateria, baixo e guitarra eléctrica. Até aqui nada de especial. Enganem-se. Atentando com mais rigor nos elementos da banda e repara-se que todos têm a face tapada. O baterista com uma máscara de luchador, os outros elementos com panos ou lenços na cara, completando o anonimato com um gorro de camisola por cima da cabeça. Quem seriam estes tipos? Ao sinal dos primeiros sons, deixámos todos para trás aquela excentricidade. Que interessava realmente ver a cara daqueles tipos? Provavelmente não passariam de mais 3 cabeludos e barbudos. Ah mas o som... 20 minutos, mais coisa menos coisa, durou o set destes 3 incógnitos. Terão tocado 2 músicas, quem sabe 3. Não interessava. Um rock instrumental de origens ácidas. "Stoner Rock" poderia ser um dos nomes mas não, não chega. "Experimental Rock" talvez... O que interessa é, mais uma vez, realçar que as pessoas não devem perder as primeiras partes de concertos só porque são demasiado preguiçosas. Eu quero mais destes senhores e, por mim, podem ficar o resto da vida disfarçados. O som é que tem que sair cá para fora...

O senhor que se seguia também se encontrava "escondido por uma máscara". Lichens ou Robert Aiki Aubrey Lowe, veio a Lisboa mostrar um pouco do seu trabalho a solo. Ex-membro dos 90 Day Men e colaborador em outras bandas, nomeadamente os Om, Robert Lowe é, basicamente, um desenhador. Tanto visual como auditivo. As camadas de sons que, sozinho, faz, conseguem preencher uma tela inteira. Os seus constantes loops hipnóticos e, por vezes, oníricos, conseguem fazer-nos parar a olhar para o infinito durante minutos a fio, perdendo-nos do resto do mundo ao nosso lado para acordarmos com um pequeno toque no pé ou no braço de um qualquer espectador ao lado (Tá quieto, oh Vasco). Um set que, supostamente, era constituído por uma só música e aqui o termo música nada tem a ver com a música que conhecemos. Aliás, não lhe chamemos música. Chamemos-lhe Tela. Lichens desenhou-nos durante cerca de 40 minutos uma tela. Algo irrepetível e foi só para nós. Nós gostámos tanto e pedimos mais. Algo exausto e cansado, Robert voltou, pintou outra tela, esta já formato A5 e foi-se embora como veio, misterioso. A tela, essa, ficou marcada cá dentro...

Ps: Um exemplo do que não passou em Lisboa:

10 fevereiro 2010

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O último álbum destes senhores, "Post-Nothing", tem gerado muito entusiasmo por onde passa, e agora tem passado por estas bandas. Como tal, aqui deixo à apreciação dos vossos ouvidos (e também olhos, mas pronto, os ouvidos é que interessam mesmo) os Japandroids, com "Young Hearts Spark Fire". São mais uma banda proveniente do Canadá, mas em vez de Montreal ou Toronto de onde têm saído várias coisas interessantes, estes são um "produto" de Vancouver.

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Do Texas com um cheirinho do Reino Unido, apresento-vos estes Strange Boys, banda que vai para o seu segundo disco. Influenciados pelo Garage Rock do período 64-67 de grupos como os Kinks, Rolling Stones, 13th Floor Elevators ou Electric Prunes, estes norte-americanos tentam recriar o rock honesto e crú que se fazia naquela altura. Deixo-vos com "Be Brave" do segundo disco de originais, a sair este ano, também chamado Be Brave.

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"Written in Reverse" serve de primeira amostra do novo álbum dos Spoon, "Transference". Após um muito interessante "Ga Ga Ga Ga Ga", parece-me que a banda original de Austin, Texas, volta em força em 2010!

Enjoy!

09 fevereiro 2010

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LICHENS
Mais uma vez a ZDB mostra porque é, realmente, uma das melhores casas de concerto em Lisboa. Não só tem uma boa localização e bom ambiente como traz, quase sempre, grandes músicos a preços irrisórios. Amanhã, dia 10, às 22h, é a vez de Lichens, pseudónimo para Robert A. Lowe. Este músico traz consigo na bagagem um projecto experimental com ambientes hipnóticos e psicadélicos com uma grande carga de improviso. Não será apenas mais um concerto. A não perder. Aqui fica um excerto de um concerto em Paris.

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KATE NASH
Confesso que não sou grande fã de covers, acho-as ou demasiado presas ao original ou então demasiado desconstrutivas, perdendo-se a essência da mesma. Além de que o original é, quase sempre, melhor que covers. Aqui o caso confirma a regra, o original é melhor, no entanto, há qualquer coisa na voz e piano desta senhora, Kate Nash, que acrescenta uma doçura à música dos Arctic Monkeys. De valor.

Chafurdando nos primórdios da música tradicional americana #19: Joseph Spence

Este é um post à parte. À parte porque Joseph Spence não só não é reconhecido como alguém importante na história da música tradicional americana como aliás não é sequer americano.
Spence nasceu nas Bahamas em 1910. Tocava guitarra apesar desse não ser um instrumento muito popular lá nas suas bandas. Algures na sua vida foi contratado para ir alguns meses trabalhar nos campos de algodão no sul dos Estados Unidos e foi lá que tomou conhecimento com a música tradicional americana que se tocava pelo Mississippi, ragtime, blues, folk, etc. Voltou às Bahamas convencido que iria conseguir reproduzir aquelas melodias que tinha na memória, e apenas na memória, e instintivamente influenciado também pelos ritmos caribenhos foi desenvolvendo um estilo musical muito particular que o musicólogo folk Samuel Charters registou pela primeira vez no alpendre da casa do músico em 1958. Tinha a guitarra sempre afinada em Ré e em relação aos grunhidos e murmúrios que tornam qualquer música sua uma experiência senão única ao menos estranha, há quem diga que o fazia por não saber escrever letras e tentar simplesmente imitar as vozes dos músicos do Mississippi ou então por ter sempre um cachimbo na boca que o impedia de cantar propriamente. Mas cá para mim é um estilo e pronto.
Eu não queria incluir este tipo tão cedo nesta rubrica uma vez que falta apresentar tantos músicos mas a verdade é que Spence apenas me foi dado a conhecer no concerto da semana passada de Elijah Wald na Culturgest e fiquei em êxtase e quis partilhar esse êxtase pois é um êxtase muito fixe daqueles à antiga quando conhecíamos aquelas bandas novas e agora pensamos sempre que já não vamos conhecer nada de novo mas depois ouvimos uma ópera de Wagner com 150 anos e ficamos em êxtase e é bom. Pelo menos para mim.