09 fevereiro 2010

Relacionado #36

OH NO ONODa Dinamarca chega-nos uma daquelas bandas que, provavelmente, vai dar algo que falar. Originários de Aalborg, os Oh No Ono começaram a dar os primeiros passos em 2003, acabando por lançar o seu primeiro disco de originais em 2006 de seu nome Yes. Uma alusão à palavra que fez Lennon se enamorar da artista japonesa. No entanto acabou por passar completamente despercebido. Três anos mais tarde chega-nos, agora, o sucessor, Eggs, gravado em estúdios e igrejas mas também em florestas, praias e fábricas abandonadas, que contêm uma atmosfera que podia ser usada em filmes de Tim Burton, por exemplo. Aqui fica "Swim".

Altamont @ Radar

Caros leitores, seguidores, visualizadores e afins,

Queria aqui anunciar que (e perdoem-me a mudança para o inglês, mas soa-me melhor), "My time has come!". Serei o responsável de cozinha de um bolo cuja receita será transmitida pela Radar no próximo sábado, dia 13 Fevereiro, às 17h (com repetição no domingo da semana seguinte, dia 21 Fevereiro à mesma hora). Acho que a grande maioria deve conhecer a rubrica "Hora do Bolo" da 97.8, mas para quem nunca tenha ouvido falar, trata-se de um programa semanal de uma hora com músicas escolhidas por um ouvinte. Podem seguir o programa na rádio ou online, no próprio site cujo link deixei ali acima. Posteriormente tentarei partilhar aqui a emissão, com a playlist por mim escolhida.

Enjoy!

Owen Pallett - Heartland (2010)

Para algumas pessoas mais distraídas, Owen Pallett poderia surgir como um artista novo, que lança agora em 2010 o seu primeiro álbum. Nada mais longe da realidade, afinal de contas Pallett já aí anda a agitar o universo musical há uns bons tempos, e em várias frentes. Por um lado, a solo, sob a designação de Final Fantasy, com a qual lançou 2 álbuns, "Has a Good Home" (2005) e "He Poos Clouds" (2006), sendo este último o que chamou mais atenção sobre si. No entanto Pallett teve de abandonar o nome/alter-ego Final Fantasy por conflitos de direitos com uma empresa que tem um jogo de consola/PC com o mesmo nome e é esse o motivo que leva a que este "Heartland" seja assinado em nome próprio.
Por outro lado, como contribuidor em vários álbuns marcantes desta década, tais como "Funeral" e "Neon Bible", ambos de Arcade Fire, "The Flying Club Cup", Beirut, "The Age of The Understatement", Last Shadow Puppets, "Yellow House", Grizzly Bear, entre outros. Em todos estes Pallett contribuiu com arranjos para cordas e/ou orquestração, o que demonstra bem a sua elevada capacidade de se desdobrar, que já vem desde os 13 anos, altura em que escreveu a sua primeira composição musical. Para além de tudo isto é também membro da Orquestra de Vancouver, onde mantém intacta a sua formação na escola da música clássica.
Dediquemos pois, alguma atenção a este "Heartland". Primeiro que tudo, o conceito; segundo Pallett, as músicas que constituem o álbum são todas monólogos de um personagem chamado Lewis, um agricultor ultra-violento, que vive num mundo chamado Spectrum, monólogos estes dirigidos ao seu criador, que não é mais que o próprio Owen Pallett. Estranho? Alienado? Um pouco de cada, pois, e a música encaixa também nesta descrição. Mas eu adicionaria os adjectivos densa, nebulosa e cheia de diferentes camadas, que só após algumas audições muito atentas poderemos captar. É que a evolução de Pallett do álbum anterior para este é feita em várias frentes, para além dos tradicionais arranjos para cordas temos também instrumentos eléctricos (baixo, bateria), a ajudarem a compôr a sua nuvem de sons, dando-lhe toques mais pop, e ao mesmo tempo mais bem aprumadinhos. É um tipo de música que ou se ouve uma vez e nunca mais, ou entra e depois é difícil de tirar da cabeça. A mim já me está a ficar, sobretudo as músicas "Tryst with Mephistopheles" e "Midnight Directives". Só há uma forma de descobrir qual vai ser o vosso caso, experimentando já aqui em baixo!

Enjoy!

08 fevereiro 2010

Os Velhos - Cabaret Maxime - 05.02.2010



Os Velhos são uma banda nova, que apareceu há pouco tempo, ainda só têm um EP editado, e mais algumas músicas. São da Amor Fúria, Companhia de Discos do Campo Grande, e praticam rock.
E o mais interessante do concerto no Maxime, a 5 de Fevereiro, foi a vasta legião de fãs que esgotou por completo a lotação do cabaret. A grande parte das pessoas que estavam a assistir, e a cantar fervorosamente as músicas e trautear as melodias, eram jovens adolescentes, imberbes, e...betos. Aquilo a que dantes se chamava queques. Uma franja da sociedade que, há alguns anos e quando tinha esta idade, ia sair à noite para o Whispers ou Maria Bolachas, e vibrava com músicas como Let's Get Loud da J. Lo, ou Walking on Sunshine de Katrina and The Waves. Não que isso seja mau, mas só porque isso era um género de pessoas. E agora, esta mesma franja da sociedade ouve rock, e Strokes, e Arcade Fire, e deixa crescer a barba... (não quero ser tido como preconceituoso aqui, só estou a tentar ilustrar como as coisas mudam). As mesmas pessoas que há uns anos olhavam com ar de nojo para bandas como os Strokes, agora sabem as letras todas de cor. E isso é bom.
E o concerto d'Os Velhos foi um interessante mini laboratório social. É um fenómeno engraçado este.

Do ponto de vista musical, os Velhos, tal como a malta que os ouvia, são uma banda jovem, ainda a dar os primeiros passos. Mas têm potencial. Pelo menos, as bases são boas, as influências são boas - não fazem de certeza música inspirada em Jeniffer Lopez. Têm energia, têm muito por onde crescer. E cantam em português, e de uma forma que não sendo genial, não ofende minimamente, e isso é bom. Hoje em dia são muitas as bandas e cantautores a usar o português, e isso é salutar (aliás, hoje ouvir portugueses a cantar em estrangeiro já me faz alguma espécie).
Mas Os Velhos são mais uma banda deste género a aparecer, e isso é sempre bom, quantas mais melhor. Porque eles podem não ser geniais. Em 9 bandas que apareçam, podem ser todas más, mas se a 10ª for muito boa, valeu a pena. Acho que estamos a assistir ao nascimento de uma corrente, na música portuguesa, e por isso, todos os músicos desta nova geração que estão a aparecer, terão pelo menos o mérito de fazer parte da história, de ter desempenhado um papel importante no “partir pedra”.
Daqui a 10 anos completo este artigo...

iFrod Shuffle 08-02-2010

06 fevereiro 2010

CARTOON













Keith Richards passou por Porugal e foi ver uma banda indie nacional da editora Flor Caveira


05 fevereiro 2010

Arctic Monkeys - Campo Pequeno - 03.02.2010



They grow up so fast.
Os Arctic Monkeys tocaram em Portugal, pela 3ª vez desde 2006, e isso foi só há 4 anos.
E hoje, os Arctic Monkeys estão adultos. E há 4 anos, eram simples adolescentes, com jeito para a música, mas não eram mais do que adolescentes, com tudo o que de bom e de mau isso tem. E passados 4 anos e 3 discos, eles tocam em Lisboa, e dão um concerto que é de guardar na memória.
Campo Pequeno todo lotado, com adolescentes e quarentões, tudo em pulgas para ver os Monkeys. Alguns resistiram ao saber que era no Campo Pequeno, raro é o concerto que tem bom som, e isso estraga logo quase tudo. mas desta vez, alguém se esmerou, e o som só não estava mau, como estava muito bom. Não fazia eco, os instrumentos saíam limpos, nenhum se sobrepunha muito aos outros. Lá está, o som bom na sala, melhora logo quase tudo (por isso quse todos os concertos na aula magna são bons).
Mas neste concerto não havia outra hipótese, o som tinha mesmo de estar bom, porque o novo álbum dos Arctic Monkeys, Humbug, tem uma sonoridade limpa, definida. Neste capítulo, tudo correu bem.

A actuação deles em palco, e a pose deles em palco, e a música deles em palco, provou que eles cresceram, amadureceram, fizeram-se homens.
A diferença do último para este álbum é o que cada membro da banda passou. Nestes anos, desde 2007 quando saiu Favorite Worst Nightmare, os putos de Sheffield viveram muito mais do que tinham vivido até aí - enfiados na sua cidadezinha inglesa, sempre sem sol. Neste processo de crescimento de cada um deles, há uns aspectos a destacar. Nomeadamente a música que começaram a ouvir. Por sua iniciativa, e por iniciativa de um jornalista da Mojo, que lhes deu um molhe de discos e lhes disse "vocês têm de ouvir isto". E fez ele bem. Um artista, para ser melhor no que faz, tem de conhecer o que já foi feito.
E com os Monkeys deu-se isso, ouviram Black Sabbath e Led Zeppelin. E deixaram crescer o cabelo. E foram aos Estados Unidos, e gravaram nos estúdios do Jimi Hendrix. E Gravaram com o Josh Homme, algures no Mojave Desert na Califórnia.
E isso, claro, influencia tanto a pessoa como o músico.

Em palco, no Campo Pequeno, estiveram esses músicos e pessoas, mudados, mais velhos, mesmo que ainda tenham 24 anos. E fizeram um concerto memorável - com direito a uma explosão de confettis no fim. Tocaram as músicas novas, mais melódicas e com menos exuberância rock, tocaram as músicas mais exuberantes rock dos álbuns anteriores, mas fizeram-no de forma adulta. Puseram o Campo Pequeno a cantar, a dançar, e em certas alturas, a fazer moche. Têm energia, boas músicas, um atitude discreta (baixo-perfil), e sabem conquistar o público.
São um caso sério, porque o talento musical está lá, e o potencial para crescer, está lá ainda mais. Principalmente se continuarem a ser bem orientados, e se continuarem a encarar a música como encaram - sem grandes preocupações, e cada vez mais comprometidos com o som. Uma grande banda para os anos 10.

Pink Floyd - The Piper at the Gates of Dawn (1967)

Tal como as estrelas, também os seres humanos podem ter a capacidade de brilhar tão intensamente e desaparecer tão rapidamente como apareceram. A história que vos vou contar começa desta maneira. Em 1946, em Cambridge, Inglaterra, uma criança veio ao mundo. Roger Keith Barrett era o seu nome. Filho de Wynn e Max Barrett, cedo o pequeno Roger tomou contacto com a arte, música e literatura. O seu pai incentivava a isso.
Os contos de fadas e o surreal começaram a fazer parte da sua vida. Roger, mais tarde "Syd", teve uma infância relativamente feliz até aos seus 16 anos, altura em que o seu pai faleceu de cancro. Daí em diante, o pequeno génio começou a fechar-se cada vez mais no seu próprio mundo e não mais de lá saiu. Fim de História? Nada mais errado. A história de Syd é a própria história dos Pink Floyd. Por toda a sua existência mesmo apesar de Syd só ter estado fisicamente no primeiro disco da banda inglesa. Poucos anos mais tarde após a morte do seu pai, Syd, juntamente com os amigos da Universidade, Roger Waters, Nick Mason e Rick Wright começaram a fazer aquilo que na altura era chamado de underground. Os seus concertos eram uma orgia para os sentidos. Sons, luzes e experiências visuais começaram a fazer dos Pink Floyd, uma banda de culto no undeground scene de Londres, mais precisamente em clubes como o UFO. Depois de um 1966 em alta, conseguiram contrato para a gravação do seu disco de estreia. Gravando em Abbey Road na mesma altura que os Beatles estavam a gravar Sgt Pepper, Syd Barrett começava já a demonstrar que algo na sua cabeça já não estava bem. Dificuldades em estar concentrado para gravar um disco por completo e incapacidade de tocar os mesmos acordes em takes repetidos, fizeram que os engenheiros de som e produtores subissem paredes. Porém o disco foi acabado e o resultado final agradou tanto que o próprio Paul McCartney quis uma cópia do álbum. The Piper at the Gates of Dawn de seu nome é o disco mais psicadélico e ingénuo de toda a discografia dos Floyd. Nunca mais a banda teria esta aura de banda de culto e pouco conhecida, então após o êxito de Dark Side of the Moon nunca mais a banda tocaria em pequenos clubes ou passaria despercebida em qualquer lado. The Piper... é Syd Barrett no seu esplendor máximo. Ele leva a banda por mundos esótericos, espaciais ou surreais. Seja em "Astronomy Domine", "Lucifer Sam", ou "The Gnome". Leva-nos ao mundo infantil em "Bike" e à experimentação psicadélica em "Insterstellar Overdrive". Os Floyd conseguiram encaixar todo o espírito de 66/67 neste disco. Longe ainda estavam as alienações de Waters ou os solos mágicos de David Gilmour, que acabaria por substituir Barrett após este disco. Barrett esse que cada vez mais se debatia com laivos de insanidade e incapacidade de comunicar e estar presente. O fim estaria próximo. Aconteceu após o falhanço de uma tour nos EUA, onde a banda queria fazer impacto. No regresso a Londres, Waters e os outros trouxeram Gilmour para a banda para fazer uma espécie de Brian Wilson/Beach Boys. O génio louco escrevia as músicas mas os outros iam para tournée e Syd apenas faria número com o amplificador desligado. Nem tal foi possível e um dia a carrinha da banda não parou em casa de Syd para o levar para um concerto. Acabava aí a fase Syd.
Tão rapidamente como aparecera, a luz de Syd desapareceu sem deixar rasto. Os seus discos a solo são tudo o se conseguiu extrair daquela cabeça genial mas danificada. Anos mais tarde o seu regresso ao mundo Floyd seria tão estranho como breve.

Chafurdando nos primórdios da música tradicional americana #7: Mississippi John Hurt

Mississippi John Hurt nasceu em 1892 em Teoc, Mississippi, mas cedo a família se mudou para Avalon. Se forem ao link repararão que esta localidade já nem existe. John Hurt aprendeu a tocar guitarra aos nove anos e numa terra onde não há quase ninguém poucas hipóteses existem senão aprender-se consigo próprio, daí ter desenvolvido um estilo muito próprio. Enquanto trabalhava no campo ou nos caminhos de ferros ou onde fosse, Hurt ia tocando nos bailes da aldeia. De vez em quando substituía um músico na banda de um tipo chamado Willie Namour que uma vez teve a oportunidade de gravar para a Okeh Records, onde havia um produtor de nome Tommy Stockwell que levou Hurt a Memphis e mais tarde Nova Iorque para gravar algumas das suas músicas. Acrescentaram-lhe o “Mississippi” ao nome em jeito de marketing. Estávamos em 1928.

Surge a Grande Depressão, a Okeh Records vai à falência, John Hurt volta para Avalon e para o trabalho de campo e por aí fica durante os próximos 35 anos. O sonho fora curto.

Salto para os anos 60. Por esta altura todos os musicólogos de blues e folk andam loucos a tentar localizar os músicos do sul dos Estados Unidos. Alguns deles tentam localizar esta personagem misteriosa que apenas gravou treze músicas mas que ninguém conhece, ninguém sabe de onde vive, com quem tocou, não há uma fotografia, nada. Terão pensado que John Hurt já tinha morrido. Até que em 1963 o musicólogo Tom Hoskins “descodifica” a letra de uma música que contém o verso “Avalon, my home town”. Abre o mapa do estado do Mississippi e nada, será que a terra existia? Apenas a encontrou num atlas antigo. Pegou no seu carro e arriscou a viagem. Por fim lá encontrou o homem, já com 71 anos mas com as cordas ainda afinadas. Trouxe-o para Washington e em 1964 ao chegar ao Newport Folk Festival, Hurt deparou-se com uma plateia cheia de betinhos brancos de Nova Iorque que gritavam pelo seu nome, o pobre homem deve ter olhado para o lado e perguntado “É mesmo por mim que chamam?”, suspeitava lá ele que alguém fora de Avalon o conhecia...

O resto é história mas uma história curta. John Hurt viveu uma breve fama dando vários concertos um pouco por todo o lado, gravando álbuns e até apareceu no programa Tonight Show, mas logo em 1966 viria a morrer de ataque cardíaco. Afinal já não era um jovem.

Neste vídeo perceberão o quão um artista pode ser uma pessoa... simples.