05 fevereiro 2010

Pink Floyd - The Piper at the Gates of Dawn (1967)

Tal como as estrelas, também os seres humanos podem ter a capacidade de brilhar tão intensamente e desaparecer tão rapidamente como apareceram. A história que vos vou contar começa desta maneira. Em 1946, em Cambridge, Inglaterra, uma criança veio ao mundo. Roger Keith Barrett era o seu nome. Filho de Wynn e Max Barrett, cedo o pequeno Roger tomou contacto com a arte, música e literatura. O seu pai incentivava a isso.
Os contos de fadas e o surreal começaram a fazer parte da sua vida. Roger, mais tarde "Syd", teve uma infância relativamente feliz até aos seus 16 anos, altura em que o seu pai faleceu de cancro. Daí em diante, o pequeno génio começou a fechar-se cada vez mais no seu próprio mundo e não mais de lá saiu. Fim de História? Nada mais errado. A história de Syd é a própria história dos Pink Floyd. Por toda a sua existência mesmo apesar de Syd só ter estado fisicamente no primeiro disco da banda inglesa. Poucos anos mais tarde após a morte do seu pai, Syd, juntamente com os amigos da Universidade, Roger Waters, Nick Mason e Rick Wright começaram a fazer aquilo que na altura era chamado de underground. Os seus concertos eram uma orgia para os sentidos. Sons, luzes e experiências visuais começaram a fazer dos Pink Floyd, uma banda de culto no undeground scene de Londres, mais precisamente em clubes como o UFO. Depois de um 1966 em alta, conseguiram contrato para a gravação do seu disco de estreia. Gravando em Abbey Road na mesma altura que os Beatles estavam a gravar Sgt Pepper, Syd Barrett começava já a demonstrar que algo na sua cabeça já não estava bem. Dificuldades em estar concentrado para gravar um disco por completo e incapacidade de tocar os mesmos acordes em takes repetidos, fizeram que os engenheiros de som e produtores subissem paredes. Porém o disco foi acabado e o resultado final agradou tanto que o próprio Paul McCartney quis uma cópia do álbum. The Piper at the Gates of Dawn de seu nome é o disco mais psicadélico e ingénuo de toda a discografia dos Floyd. Nunca mais a banda teria esta aura de banda de culto e pouco conhecida, então após o êxito de Dark Side of the Moon nunca mais a banda tocaria em pequenos clubes ou passaria despercebida em qualquer lado. The Piper... é Syd Barrett no seu esplendor máximo. Ele leva a banda por mundos esótericos, espaciais ou surreais. Seja em "Astronomy Domine", "Lucifer Sam", ou "The Gnome". Leva-nos ao mundo infantil em "Bike" e à experimentação psicadélica em "Insterstellar Overdrive". Os Floyd conseguiram encaixar todo o espírito de 66/67 neste disco. Longe ainda estavam as alienações de Waters ou os solos mágicos de David Gilmour, que acabaria por substituir Barrett após este disco. Barrett esse que cada vez mais se debatia com laivos de insanidade e incapacidade de comunicar e estar presente. O fim estaria próximo. Aconteceu após o falhanço de uma tour nos EUA, onde a banda queria fazer impacto. No regresso a Londres, Waters e os outros trouxeram Gilmour para a banda para fazer uma espécie de Brian Wilson/Beach Boys. O génio louco escrevia as músicas mas os outros iam para tournée e Syd apenas faria número com o amplificador desligado. Nem tal foi possível e um dia a carrinha da banda não parou em casa de Syd para o levar para um concerto. Acabava aí a fase Syd.
Tão rapidamente como aparecera, a luz de Syd desapareceu sem deixar rasto. Os seus discos a solo são tudo o se conseguiu extrair daquela cabeça genial mas danificada. Anos mais tarde o seu regresso ao mundo Floyd seria tão estranho como breve.

Chafurdando nos primórdios da música tradicional americana #7: Mississippi John Hurt

Mississippi John Hurt nasceu em 1892 em Teoc, Mississippi, mas cedo a família se mudou para Avalon. Se forem ao link repararão que esta localidade já nem existe. John Hurt aprendeu a tocar guitarra aos nove anos e numa terra onde não há quase ninguém poucas hipóteses existem senão aprender-se consigo próprio, daí ter desenvolvido um estilo muito próprio. Enquanto trabalhava no campo ou nos caminhos de ferros ou onde fosse, Hurt ia tocando nos bailes da aldeia. De vez em quando substituía um músico na banda de um tipo chamado Willie Namour que uma vez teve a oportunidade de gravar para a Okeh Records, onde havia um produtor de nome Tommy Stockwell que levou Hurt a Memphis e mais tarde Nova Iorque para gravar algumas das suas músicas. Acrescentaram-lhe o “Mississippi” ao nome em jeito de marketing. Estávamos em 1928.

Surge a Grande Depressão, a Okeh Records vai à falência, John Hurt volta para Avalon e para o trabalho de campo e por aí fica durante os próximos 35 anos. O sonho fora curto.

Salto para os anos 60. Por esta altura todos os musicólogos de blues e folk andam loucos a tentar localizar os músicos do sul dos Estados Unidos. Alguns deles tentam localizar esta personagem misteriosa que apenas gravou treze músicas mas que ninguém conhece, ninguém sabe de onde vive, com quem tocou, não há uma fotografia, nada. Terão pensado que John Hurt já tinha morrido. Até que em 1963 o musicólogo Tom Hoskins “descodifica” a letra de uma música que contém o verso “Avalon, my home town”. Abre o mapa do estado do Mississippi e nada, será que a terra existia? Apenas a encontrou num atlas antigo. Pegou no seu carro e arriscou a viagem. Por fim lá encontrou o homem, já com 71 anos mas com as cordas ainda afinadas. Trouxe-o para Washington e em 1964 ao chegar ao Newport Folk Festival, Hurt deparou-se com uma plateia cheia de betinhos brancos de Nova Iorque que gritavam pelo seu nome, o pobre homem deve ter olhado para o lado e perguntado “É mesmo por mim que chamam?”, suspeitava lá ele que alguém fora de Avalon o conhecia...

O resto é história mas uma história curta. John Hurt viveu uma breve fama dando vários concertos um pouco por todo o lado, gravando álbuns e até apareceu no programa Tonight Show, mas logo em 1966 viria a morrer de ataque cardíaco. Afinal já não era um jovem.

Neste vídeo perceberão o quão um artista pode ser uma pessoa... simples.



04 fevereiro 2010

Beirut: Pompeii

Estava para pôr aqui uma das músicas deste EP, mas as duas têm algo de siamesas, de certa forma complementam-se, e são complicadas de separar. Pompeii, um dos 3 EP de Beirut em 2007, apresenta-nos uma melancolia esperançosa, num registo de Zach Condon diferente do habitual.

03 fevereiro 2010

Arctic Monkeys - Preparação


O propósito deste post é muito simples - proporcionar aos leitores do Altamont fazerem um aquecimento para o concerto de Arctic Monkeys, mais logo no Campo Pequeno. Para tal, nada como clicarem na imagem acima, que vos dará ligação directa à emissão online da Antena3, na qual, a partir das 17h, os Arctic Monkeys farão uma sessão especial acústica.

Enjoy!

Archie Bronson Outfit - Derdang Derdang (2006)

Quando em 2003 foi editado o primeiro álbum dos Kings of Leon, o povo americano pareceu não querer saber muito desta banda com ar rafeiro que ia buscar sonoridades aos anos 70 tipo Lynyrd Skynyrd ou Creedence Clearwater Revival. Foi preciso serem os ingleses a descobrirem aqueles que, uns anos mais tarde, acabariam por encher estádios em nome próprio e uma das maiores bandas destes últimos anos. Dois anos após Youth & Young Manhood, uma nova banda norte-americana também acabaria por ser descoberta apenas pelo mercado britânico. De seu nome Archie Bronson Outfit. O primeiro disco, Fur, foi apenas um começo para aquilo que viria a seguir apenas um ano depois. Derdang Derdang, produzido em Nashville por Jacquire King, o mesmo que produziu discos de Tom Waits e Kings of Leon, é aquilo que se pode chamar de rock sujo e bruto com letras de angústia, como são exemplo as músicas "Cherry Lips", "Kink", "Dart For My Sweetheart" ou "Modern Lovers". São 11 músicas quase sempre a rasgar a fazer relembrar a má fama do antigo Rock. Derdang Derdang está, provavelmente, naquela lista de grandes discos que passaram despercebidos um pouco por todo o lado. Nunca irão, certamente, ter o mesmo sucesso que os Kings of Leon mas, se calhar, ainda bem...

02 fevereiro 2010

Agenda de Fevereiro

E os Arctic Monkeys estão de regresso a Portugal. Os britânicos tocam hoje no Porto e amanhã em Lisboa para apresentarem o mais recente álbum "Hambug". Este é sem dúvida o maior destaque do mês de Fevereiro. Mas hoje também, no LX Factory podemos ver a actuação de Sun O))), um concerto que vale a pena não perder. O segundo mês do ano é também sinónimo do primeiro festival do ano: o Festival para Gente Sentada em Santa Maria da Feira. Nomes como Bill Calahan ou Camera Obscura fazem um cartaz bem simpático. Os outros destaques do mês vão para os Tindersticks que vão dar nada mais nada menos do que 5 concertos, os Australian Pink Floyd Show que regressam para mais dois concertos, Panda Bear que actuará no Lux e os Fiery Furnaces que finalmente se estreiam em Portugal. Um cartaz bem diversificado para este mês que ainda conta com muitos e bons concertos da nova vaga de música portuguesa: Diabo na Cruz, João Coração, Samuel Úria ou os Pontos Negros.

Agenda:

2. Sun O))) - Lx Factory
2. Arctic Monkeys + Mistery Jets - Coliseu, Porto
3. Arctic Monkeys + Mistery Jets - Campo Pequeno, Lx
4. OliveTreeDance - Santiago Alquimista, Lx
5. Fu Manchu - Santiago Alquimista, Lx
5. Tindersticks - Olga Cadaval, Sintra
12. Diabo na Cruz - C.Artes e Espectáculos, Figueira da Foz
12. Panda Bear - Lux, Lx
14. Joss Stone - Coliseu, Porto
15. Joss Stone - Coliseu, Lx
15. Irmãos Catita - Maxime, Lx
18. The Australian Pink Floyd Show - Campo Pequeno, Lx
19. The Australian Pink Floyd Show - Pav.Rosa Mota, Lx
19. Real Estate - Galeria ZdB, Lx
20. João Coração + Samuel Úria - Theatro Circo, Braga
25. The Album Leaf - Santiago Alquimista, Lx
26. Os Pontos Negros - Arcos de Valdevez
26. Fiery Furnaces - Santiago Alquimista, Lx
26. Bill Calahan + Perry Blake - Festival para Gente Sentada
27. Camera Obscura + Dakota Suite + Noiserv - Festival para Gente Sentada



Relacionado #35

MYSTERY JETS
E porque parece que sempre que há uma banda que já tem o peso dos Arctic Monkeys, a primeira parte do concerto é acessório, proponho uma audição dos Mystery Jets que estarão amanhã a abrir para a banda de Sheffield. Aqui fica "Young Love".

iLex Shuffle 02.02.10

01 fevereiro 2010

Samuel Úria - B Fachada - Manel Cruz - LX Factory - 30.01.2010



Lx Factory, 30 para 31 de Janeiro, final do Termómetro (ex Unplugged), 6 bandas finalistas, e uma convidada.
Os convidados não eram uma banda, eram 3 cantos do século XXI, que inspirados nos 3 cantos do século XX (link para arti). Manel Cruz, Samuel Úria e B Fachada.
O concerto que deram foi uma espécie de concerto, porque tocaram 6 músicas (há bandas que tocam mais que isso num showcase na fnac), para gente que esperou até às quatro e mais que meia da manhã. Claro que sabe a pouco, mas encheu as medidas. Cada um tocou duas músicas suas, alternadamente, e o show acabou com Capitão Romance. E aí, a casa veio abaixo. Mais ou menos 2 mil pessoas, a cantar a música, mesmo com vontade, como se já não vissem os Ornatos ao vivo há muito tempo. E não viam. Há tempo demais. A noite girou um bocado em torno da aparição do Manel Cruz, que continua a ser um dom sebastião musical, pelo menos para um grupo mais ou menos grande de adeptos. Porque ele é o lado mais visível dos Ornatos Violeta que, mais uma vez ficou confirmado, são mesmo uma banda de culto. Culto e grosso.

Na noite de sábado, o sebastião tocou ao lado de outros dois cançonetistas promissores, gente da nova vaga de lusitanos que tocam e cantam, e querem encantar, e encantam.
E este concerto teve encanto, porque todos eles são músicos inteligentes, criativos, e têm talento ser mais do que promessas.
O Úria e o Fachada já estão habituados a tocar juntos, mas o Manel foi uma surpresa – e aqui se louva a organização do Termómetro, que promoveu esta tripartida cantaria. E a escolha foi acertada, porque os 3 se encaixam bem na música dos outros, e nas ideias, e é sempre agradável ver este tipo de iniciativas. Só fazem bem à música portuguesa, e devem ser repetidas.
Quanto ao concerto, foi um belo momento musical, intenso, música para ouvir com o interior. Mais do que a performance, fica o sentimento que eles levaram para o palco, num concerto meio improvisado, mas que deu para entreter, e para matar saudades do passado, e abrir o apetite para um eventual futuro.
Valeu a pena por ser raro (não sei se volta a acontecer, espero que sim), e porque trouxe o Manel Cruz cá abaixo, à capital, para nos mostrar que não está parado, e por isso não deve tardar muito até editar novo material.