01 fevereiro 2010

Radiohead - Pablo Honey (1993)

Quando "Pablo Honey", álbum de estreia dos Radiohead, chegou às lojas, passou despercebido pela maioria dos consumidores e críticos. Alguns meses antes tinha sido lançado o primeiro single do mesmo, denominado "Creep", música que foi banida da Radio 1 da BBC por ser muito deprimente, e como tal ninguém prestou muita atenção ao álbum no Reino Unido. Conta a história que foi em Israel que as coisas começaram a animar-se, "Creep" começou a ser mais e mais ouvidas, e, quiçá pela relações político-económicas próximas, chegou também rapidamente aos EUA. Quando a banda deu por ela, já o single subia nos charts americanos, derivado do facto da letra ultra-depressiva se enquadrar na fabricada "onda grunge" e sem perder mais tempo lá foram eles dar concertos para terras do Tio Sam. No entanto, muita gente começou a vê-los como one hit wonders, em vários concertos as pessoas iam-se embora depois de ouvirem a música que gostavam. Cantavam "What the hell am I doing here, I don't belong here", apercebiam-se que ser "weirdo" não era assim tão giro, davam meia volta e iam comprar felicidade noutras bandas. Poucos foram os que viram nos Radiohead mais do que "Creep" mostrava. O meu colega de secundário Rui Pereira foi um deles e tanto insistiu que me convenceu - "Pablo Honey" é um bom álbum e os Radiohead tinham ali uma boa base para o futuro. Ouvir hoje o álbum leva-me de volta a esses tempos e sabe bem. Não só por isso, mas também. Músicas como "I Can't", "Blow Out", "Thinking About You", "Anyone Can Play Guitar?" e "Vegetable" acho que merecem atenção. Se não acreditar, nada como carregar no play na barra abaixo e experimentar.


Hoje em dia é impossível separar este álbum do resto da carreira e de todos os álbuns extraordinários que os Radiohead já lançaram entretanto, o que pode dificultar tudo, e facilmente entrar-se em comparativos. Que a meu ver não fazem sentido, uma carreira é mesmo assim, tem um início, meio e fim, e para início, este não é nada, mas mesmo nada, mau.

Talvez Relacionado #37

St. Vincent, com "These Days". Para começar bem a semana.

31 janeiro 2010

Norberto Lobo - Culturgest, 5 e 6 de Março, 5 euros

Norberto é bom e o primeiro dia está esgotado e o segundo eventualmente também ou se não está está quase e isto porque ele é bom e dentro de mim a sua música faz-me lembrar nuvens a passar no céu com alguma velocidade a passar a passar a passar a p

30 janeiro 2010

A passing feeling

Elliot Smith lembra-me o melhor (e apenas o melhor) do Lennon. O lamento da guitarra a partir do minuto 2 é do mais bonito que já ouvi (e tão simples).

Palavras ao Ouvido #2- "Fall From a Height"- The Honeydrips



Roberto, atento, de joelhos, meteu a mão ao bolso e encontrou uma surpresa. Roberta, jazia romântica com o nariz colado a uma moeda escura. Ela, atenta aos micróbios do passado, passou a mão no seu próprio bolso e encontrou uma surpresa. Roberto, caído por entre os talões de desconto, parecia o fim de tudo.

Roberta amava-o e guardou-o no coração direito pouco depois de chegar à cidade: para que ninguém comentasse; para que ninguém lhe visse os joelhos esfolados. Tinha-se ferido a colher um gato indefeso do cimo de uma duna. Nem é que Roberto fosse amável ou gostasse de bichos. Os animais apoderavam-se da sua natureza por uma questão de diplomacia ou filhadaputice, não sabia bem.

Roberta era prostituta. Roberta também subia às árvores. Ela achava que aquela cidade era o início de tudo. Leilões, edifícios espelhados e aperitivos baratos. Precisava de pouco mais. Depois da queda do nacional-socialismo era lixado encontrar um sítio para passear sem ser incomodado. As luzes eléctricas dos carrosséis poluíam tudo e nenhum cliente se aproximava mais do que da berma do passeio.

Roberta nem sempre fora a irmã de Roberto. Houve anos em que só partilharam a ideologia do sangue e bolsos à espera de se romperem.

Em Verões inesquecíveis, bateram com a cabeça por caírem de sítios rasos. Comiam raramente outras coisas que não salada de pepino. Era bonita a visão do amor depois do nacional-socialismo. Ele, com vergonha de tudo, escondia-se no bolso dela quando lhe pediam que falasse alto. Tinha falado alto uma vez numa cabana e houve mortos. Roberta, escondia-se por razões menos prosaicas, uma dívida, um acesso de espirros ou o sono.

Roberto, a surpresa de Roberta, e Roberta, a surpresa de Roberto, amavam-se como uma guerra que se acabasse.

“Como será a neve a cair sobre uma duna?”, pensou Roberta, pensou Roberto. E foi dessa vez, em que os discursos até cá por dentro fizeram amor que tudo começou. Ao início era tudo tão excitante como lamber uma faca. Mas à medida que os dedos dos pés iam inchando, Roberta, e porque não dizê-lo Roberto, sofriam o revés da amizade. Eram irmãos, fodiam-se, e os anos caíam-lhes como moedas em slot machines.

Roberta trabalhava num bar quando a semana acabava. Era no canto esquerdo do balcão, com um copo encarnado e um vinho encarnado, que geria o seu negócio. Os oficiais de sarja verde pedem-lhe com o dedo indicador que viesse. Ela vem e rodopia, em ritmos implacáveis, na sala mal iluminada. Falam de alegria, do terem filhos em casa que não querem que morram, de dormir no tapete até tarde; ocasionalmente referem a palavra carinho. Roberto fica durante horas na mesma posição. A seguinte: as duas mãos seguram junto à sua cabeça o peso do corpo. Agarra-se ao bolso do casaco de Roberta que está desde o início da noite do fim da semana no cabide. É daí que vê Roberta a trabalhar. E é por isso que Roberto já sabe que quando passa a guerra, carinho é foder. Para toda a gente.

Como é bom de ver, quando a guerra acabar ou a cidade acabar, instaurando a sua paz pestilenta nos barris de farinha e no cabelo das senhoras, Roberta e Roberto deixarão de ir a todo o lado, os dois. As calças estarão gastas e a falta de aspirações profissionais matá-los-á.

Cairão pela última vez do mesmo sítio para o mesmo sítio. Nesse dia, em que já não nadarão numa piscina cheia de destroços de carros e outras porcarias, um néon amarelo, no último andar de uma cidade desaparecida, vai acender-se. O néon dirá “schicksal”.

O néon mentiu.

29 janeiro 2010

Aparentemente relacionado #3

WAVE MACHINES
Sexta-feira à tarde e ainda tenho de acabar umas coisas... Um berbequim fura a parede ao lado e fornica o meu timpano... De repente, a colega da sala ao lado lembra-se de pôr Iran Costa para abafar o som irritante. Costa a limpar um berbequim está como que um mau ambientador num péssimo wc. O cenário é dramático e eu socorro-me à memória de um belo concerto no Maxime: Wave Machines.

Chafurdando nos primórdios da música tradicional americana #12: Elizabeth Cotten

Elizabeth Cotten nasceu em 1895 num sítio qualquer no North Carolina, sim era neta de escravos. Aos oito anos começou a roubar a guitarra ao irmão quando ele saía de casa e por ser canhota e ele não, Libba foi desenvolvendo de forma auto-didacta a sua técnica dedilhada que mais tarde ficou conhecida como técnica cotten-picking e que consistia no dedilhar as cordas com dois dedos apenas, sendo que o polegar tocava nas notas agudas ao contrário do habitual. Aos doze anos Libba já trabalhava, aos quinze casava-se e durante 25 anos não tocou guitarra porque na igreja lhe tinham dito que ragtime era música do diabo. Um dia, conta a lenda ou os pontos acrescentados dos outros pontos, teve a sorte de encontrar na rua uma criança perdida. Era a filha do musicólogo etnográfico Charles Seeger e da compositora Ruth Crawford Seeger, e ao devolvê-la aos pais, estes, em sinal de agradecimento, contrataram-na como empregada doméstica. Na casa dos Seeger também viviam o famoso músico-folk-de-intervenção Pete Segeer e o musicólogo-produtor-folk Mike, eram irmãos, penso que meios. Na casa também havia guitarras e banjos e cedo Libba foi aproveitando as horas em que todos estavam fora para assim ir recuperarando o gosto e a técnica. Um dia foi apanhada, corou, desculpou-se. Mas eles quiseram mais, não queriam acreditar no que ouviam. Foi aí que diz a lenda, Pete Seeger disse a célebre frase “Toca mais, toca mais”. Rapidamente a família se juntou para arranjar concertos a Libba e ela “Mas eu sou demasiado humilde para isso eu apenas sei limpar o pó e lavar a loiça” e o Pete “Toca mais, toca mais”. Em 1958, já Elizabeth Cotten tinha mais de 60 anos, quando Mike Seeger a gravou no álbum “Folksongs and Instrumentals with Guitar”.
Com o revivalismo folk e blues nos anos 60, Libba foi aos poucos trocando a vassoura e o esfregão por concertos em festivais de música tradicional americana.
A sua música mais famosa Freight Train foi escrita quando ela tinha nove anos e nenhum historiador sabe se há-de incluí-la na lista dos grandes ragtimes do início do século XX, porque apesar de ter sido escrito nessa altura, apenas foi dada a conhecer às pessoas várias décadas mais tarde.
No primeiro vídeo deste post Elizabeth Cotten tem 90 anos, podia ser a vossa bisavó mas a vossa bisavó não toca assim.

28 janeiro 2010

Cartoon : Hoje Foi o "pedido de desculpas" de Salinger a John Lennon




JD Salinger (1919-2010)







The Fish - Culturgest 25 Fevereiro, 5 euros

THE FISH
... e já que estamos numa de confidências, este é o concerto que vou ver no dia 25 de fevereiro.
É um som bucólico, que me faz lembrar calmaria, campo, um rio que escorre lento com a paciência das eternidades umas a seguir às outras, um cigarrinho pendurado no lábio e uma andorinha a sobrevoar-me no adejo gracioso de quem só tem de voar para se sentir viva... recosto-me na espreguiçadeira e digo ahhhh...