Norberto é bom e o primeiro dia está esgotado e o segundo eventualmente também ou se não está está quase e isto porque ele é bom e dentro de mim a sua música faz-me lembrar nuvens a passar no céu com alguma velocidade a passar a passar a passar a p
31 janeiro 2010
Norberto Lobo - Culturgest, 5 e 6 de Março, 5 euros
30 janeiro 2010
A passing feeling
Elliot Smith lembra-me o melhor (e apenas o melhor) do Lennon. O lamento da guitarra a partir do minuto 2 é do mais bonito que já ouvi (e tão simples).
Palavras ao Ouvido #2- "Fall From a Height"- The Honeydrips
Roberto, atento, de joelhos, meteu a mão ao bolso e encontrou uma surpresa. Roberta, jazia romântica com o nariz colado a uma moeda escura. Ela, atenta aos micróbios do passado, passou a mão no seu próprio bolso e encontrou uma surpresa. Roberto, caído por entre os talões de desconto, parecia o fim de tudo.
Roberta amava-o e guardou-o no coração direito pouco depois de chegar à cidade: para que ninguém comentasse; para que ninguém lhe visse os joelhos esfolados. Tinha-se ferido a colher um gato indefeso do cimo de uma duna. Nem é que Roberto fosse amável ou gostasse de bichos. Os animais apoderavam-se da sua natureza por uma questão de diplomacia ou filhadaputice, não sabia bem.
Roberta era prostituta. Roberta também subia às árvores. Ela achava que aquela cidade era o início de tudo. Leilões, edifícios espelhados e aperitivos baratos. Precisava de pouco mais. Depois da queda do nacional-socialismo era lixado encontrar um sítio para passear sem ser incomodado. As luzes eléctricas dos carrosséis poluíam tudo e nenhum cliente se aproximava mais do que da berma do passeio.
Roberta nem sempre fora a irmã de Roberto. Houve anos em que só partilharam a ideologia do sangue e bolsos à espera de se romperem.
Em Verões inesquecíveis, bateram com a cabeça por caírem de sítios rasos. Comiam raramente outras coisas que não salada de pepino. Era bonita a visão do amor depois do nacional-socialismo. Ele, com vergonha de tudo, escondia-se no bolso dela quando lhe pediam que falasse alto. Tinha falado alto uma vez numa cabana e houve mortos. Roberta, escondia-se por razões menos prosaicas, uma dívida, um acesso de espirros ou o sono.
Roberto, a surpresa de Roberta, e Roberta, a surpresa de Roberto, amavam-se como uma guerra que se acabasse.
“Como será a neve a cair sobre uma duna?”, pensou Roberta, pensou Roberto. E foi dessa vez, em que os discursos até cá por dentro fizeram amor que tudo começou. Ao início era tudo tão excitante como lamber uma faca. Mas à medida que os dedos dos pés iam inchando, Roberta, e porque não dizê-lo Roberto, sofriam o revés da amizade. Eram irmãos, fodiam-se, e os anos caíam-lhes como moedas em slot machines.
Roberta trabalhava num bar quando a semana acabava. Era no canto esquerdo do balcão, com um copo encarnado e um vinho encarnado, que geria o seu negócio. Os oficiais de sarja verde pedem-lhe com o dedo indicador que viesse. Ela vem e rodopia, em ritmos implacáveis, na sala mal iluminada. Falam de alegria, do terem filhos em casa que não querem que morram, de dormir no tapete até tarde; ocasionalmente referem a palavra carinho. Roberto fica durante horas na mesma posição. A seguinte: as duas mãos seguram junto à sua cabeça o peso do corpo. Agarra-se ao bolso do casaco de Roberta que está desde o início da noite do fim da semana no cabide. É daí que vê Roberta a trabalhar. E é por isso que Roberto já sabe que quando passa a guerra, carinho é foder. Para toda a gente.
Como é bom de ver, quando a guerra acabar ou a cidade acabar, instaurando a sua paz pestilenta nos barris de farinha e no cabelo das senhoras, Roberta e Roberto deixarão de ir a todo o lado, os dois. As calças estarão gastas e a falta de aspirações profissionais matá-los-á.
Cairão pela última vez do mesmo sítio para o mesmo sítio. Nesse dia, em que já não nadarão numa piscina cheia de destroços de carros e outras porcarias, um néon amarelo, no último andar de uma cidade desaparecida, vai acender-se. O néon dirá “schicksal”.
O néon mentiu.
29 janeiro 2010
Aparentemente relacionado #3
WAVE MACHINES
Sexta-feira à tarde e ainda tenho de acabar umas coisas... Um berbequim fura a parede ao lado e fornica o meu timpano... De repente, a colega da sala ao lado lembra-se de pôr Iran Costa para abafar o som irritante. Costa a limpar um berbequim está como que um mau ambientador num péssimo wc. O cenário é dramático e eu socorro-me à memória de um belo concerto no Maxime: Wave Machines.Chafurdando nos primórdios da música tradicional americana #12: Elizabeth Cotten

Elizabeth Cotten nasceu em 1895 num sítio qualquer no North Carolina, sim era neta de escravos. Aos oito anos começou a roubar a guitarra ao irmão quando ele saía de casa e por ser canhota e ele não, Libba foi desenvolvendo de forma auto-didacta a sua técnica dedilhada que mais tarde ficou conhecida como técnica cotten-picking e que consistia no dedilhar as cordas com dois dedos apenas, sendo que o polegar tocava nas notas agudas ao contrário do habitual. Aos doze anos Libba já trabalhava, aos quinze casava-se e durante 25 anos não tocou guitarra porque na igreja lhe tinham dito que ragtime era música do diabo. Um dia, conta a lenda ou os pontos acrescentados dos outros pontos, teve a sorte de encontrar na rua uma criança perdida. Era a filha do musicólogo etnográfico Charles Seeger e da compositora Ruth Crawford Seeger, e ao devolvê-la aos pais, estes, em sinal de agradecimento, contrataram-na como empregada doméstica. Na casa dos Seeger também viviam o famoso músico-folk-de-intervenção Pete Segeer e o musicólogo-produtor-folk Mike, eram irmãos, penso que meios. Na casa também havia guitarras e banjos e cedo Libba foi aproveitando as horas em que todos estavam fora para assim ir recuperarando o gosto e a técnica. Um dia foi apanhada, corou, desculpou-se. Mas eles quiseram mais, não queriam acreditar no que ouviam. Foi aí que diz a lenda, Pete Seeger disse a célebre frase “Toca mais, toca mais”. Rapidamente a família se juntou para arranjar concertos a Libba e ela “Mas eu sou demasiado humilde para isso eu apenas sei limpar o pó e lavar a loiça” e o Pete “Toca mais, toca mais”. Em 1958, já Elizabeth Cotten tinha mais de 60 anos, quando Mike Seeger a gravou no álbum “Folksongs and Instrumentals with Guitar”.
Com o revivalismo folk e blues nos anos 60, Libba foi aos poucos trocando a vassoura e o esfregão por concertos em festivais de música tradicional americana.
A sua música mais famosa Freight Train foi escrita quando ela tinha nove anos e nenhum historiador sabe se há-de incluí-la na lista dos grandes ragtimes do início do século XX, porque apesar de ter sido escrito nessa altura, apenas foi dada a conhecer às pessoas várias décadas mais tarde.
No primeiro vídeo deste post Elizabeth Cotten tem 90 anos, podia ser a vossa bisavó mas a vossa bisavó não toca assim.
No primeiro vídeo deste post Elizabeth Cotten tem 90 anos, podia ser a vossa bisavó mas a vossa bisavó não toca assim.
28 janeiro 2010
The Fish - Culturgest 25 Fevereiro, 5 euros
THE FISH
... e já que estamos numa de confidências, este é o concerto que vou ver no dia 25 de fevereiro.É um som bucólico, que me faz lembrar calmaria, campo, um rio que escorre lento com a paciência das eternidades umas a seguir às outras, um cigarrinho pendurado no lábio e uma andorinha a sobrevoar-me no adejo gracioso de quem só tem de voar para se sentir viva... recosto-me na espreguiçadeira e digo ahhhh...
Relacionado #34
ROYAL BANGS
Originários de Knoxville, Tennessee, chegam-nos os Royal Bangs, uma banda que parece ir numa linha parecida à dos TV on the Radio. Oriundos de uma região que pouca tradição tem de rock alternativo, os Royal Bangs já contam com dois discos. Deixo-vos aqui "My Car Is Haunted" de 2009.27 janeiro 2010
Queen - A Day at the Races (1976)
Não foi à primeira, nem à segunda, nem à terceira. Só à quinta é que os Queen assumiram controlo total das operações de uma banda maior do que eles. E do que nós. E do que a própria vida. E que acabou com a morte do mais genial dos front man (já o disse antes) da história da música. Com A Day At the Races, o quinto álbum deles, o grupo perseguia o sucesso tremendo de A Night At the Opera e da "Bohemian Rapsody". E com este, mostraram que podiam comandar o seu próprio destino e que aquilo de ter um produtor só porque sim era coisa dispensável para eles. Que eram todos super talentosos – gostos à parte, ninguém põe em causa a capacidade deles para escrever e tocar e, fundamentalmente, dar espectáculo. Na era dos concertos em estádios, não havia pai para eles. Nem depois houve filhos. Legítimos. Bastardos claro que os houve, mas a colagem soou sempre a falso. (Bom, agora pus os headphones com o dito em rodagem, alto e bom som e vamos lá a escrever sobre ele).E o dito começa com a “Tie Your Mother Down”, escrita por Brian May em Tenerife em 1975 (obrigado Wikipédia). E do que fala a “Tie Your Mother Down”? De sexo, pois. De sexo espalhafatoso, com grinaldas, lantejoulas, de uma miúda com medo do pai e da mãe e de um tipo que não tem medo de ninguém. “I’m a bad guy, your mommy and your daddy gonna plague till I die”. E é hard-rock, de Led Zeppelin, numa voz cuja versatilidade não tinha limites. Depois, porque eles não encaixavam em nenhum estilo, dançaram por uma valsa (“The Millionaire Waltz”), cantaram uma música com chave pop (“You and I”, de John Deacon) até chegarem ao clímax do álbum: “Somebody to Love”. Aqui, os Beatles cruzam-se com Elvis e com os Beach Boys, enfim, com tudo. Mas esse tudo são vários homens e personagens condensados num só corpo e numa só voz: Freddie Mercury. Uma música intemporal que sobreviveu a tudo. Inclusivamente a um senhor com manias estranhas (como a de visitar casas de banho públicas com amiguinhos) que pensa poder cantá-la como Mercury – valeu pelo esforço George. No A Day At the Races, há espaço também para a consciência política (“White Man”) que nunca tinha sido a praça dos Queen. Honestamente, a canção irrita-me. Mas a seguinte (“Good Old Fashioned Lover Boy”) diverte-me. E a “Drowser” mostra que nem sempre os bateristas são os tipos menos dotados de uma banda. Para o fim, uma espécie de épico dedicado a japoneses com a “Teo Torriatte”, com um coro enorme. E tudo fica bem quando acaba bem.
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