24 janeiro 2010

Jandek e eu no Maria Matos, 23 de janeiro de 2010

Jandek, nome estranho. Espécie de Herberto Hélder do Texas, classificado em todos os artigos como “o tipo misterioso que não dá entrevistas” e que por isso há quem pense que ele seja ou um psicopata ou um tipo brilhante, se calhar é apenas um tipo reservado, a verdade é que esse retraimento social faz com que falem dele e façam documentários. Tinha visto uma notícia no jornal sobre o concerto, o Cisto louvou o indiesmo deste senhor, catalogou-o algures entre o folk e o free jazz. Ouvi o que pude ouvir na internet e reconheci o folk – digamos neo-folk, eu sei lá – algures por ali, não reconheci o free jazz, ontem no concerto reconheci o free jazz mas de folk pouco ou nada, gostei da ideia: Jandek não é tipo previsível e ontem senti-me parte de uma experiência no mínimo singular. Isto porque acredito que o próximo concerto de Jandek quer seja em Espanha ou no Japão, certamente não terá o mesmo tempo nem as mesmas músicas nem os mesmos acordes nem o mesmo, continuemos:
Jandek veio portanto ao teatro Maria Matos – sala demasiado grande para a número de espectadores presentes e para o carácter intimista da música tocada – com três músicos locais, digo isto pelo que li visto que os seus nomes ou origens nunca foram pronunciados durante o concerto e as luzes apagaram-se, anunciaram aquela coisa do desliguem os telemóveis e no escuro ficámos por uns bons três minutos de suspense até que como crianças tímidas os músicos lá se foram chegando ao palco e aos seus lugares. Sentaram-se de olhos postos no chão e o tal Jandek começou a arranhar as cordas da sua guitarra, provocando um som monotónico semelhante a tudo o resto que serviria de base para toda a sua actuação. Por detrás ou à sua frente aos restantes músicos era dada a liberdade para improvisar, tendo o pianista e o saxofonista a responsabilidade de serem os elementos mais desconstrutivos do ajuntamento. O concerto não primou por uma elegância instrumental arrebatadora, o cornetista Sei Miguel pouco saiu de um estilo exageradamente milesdavisiano com as suas notas largas agudas lamurientas, nas últimas músicas já nem se levantava da cadeira e apenas abanava a cabeça de olhos fechados como quem engole uma bebedeira pelos ouvidos, o pianista que não vou dizer o nome porque li dois nomes apresentados em diferentes fontes, cumpria uma função claramente percussionista, martelando as teclas com um descuidado ocasional sem grande fulgor e ou ele não sabia mais ou não lhe fora pedida outra coisa senão isso mesmo, o holandês Peter Bastien era quem mais estimulava a atenção do público e apesar de lhe reconhecer a coragem para arriscar nas suas deambulações improvisadas de notas soltas teve a infelicidade de por duas ou três vezes se ter entusiasmado demais e ter tentado ir para lá das suas capacidades mas duvido que muitos lhe tivessem notado a falta de fôlego ou de dedos, o próprio Jandek não mostrava intenções de ir para lá do que a sua música minimalista apresenta e lá foi arranhando massajando mexendo apalpando as cordas numa cadência de quem afina um instrumento mas sem lhe alterar os tons e pelo meio ia narrando pensamentos guturais que pouco variavam de algo como I am alone at this house and I look at the mirror and I say to myself is this me or am I somebody else’s imagination, percebem a onda, e sempre num tom monocórdico e cavernoso e claro que as pessoas iam bocejando e um tipo que estava ao meu lado chamado raul ia olhando para o relógio e juntando as pálpebras dos olhos e às tantas pôs a mão na minha perna mas eu não notei porque estava embriagado com aquela música de cadência atordoante e durante quinze minutos fechei os olhos e abanei a cabeça como o Sei Miguel e a luz era azul e inerte e o escuro tentava impor-se no palco e o Jandek, que já agora parece uma figurinha tirada de um filme do Dreyer, não olhava para os músicos não olhava para o público não falava com ele connosco e claro as pessoas sentindo-se miseráveis porque vinham ali para receber obrigados e quase que parecia que as palmas eram em vão, o raul a meio de uma música sussurra-me, Já reparaste que os sonhos são sempre inacabados, eu não lhe respondi. A dada altura Jandek acaba uma música, os tipos da banda estalam os dedos e os pescoços à espera de um novo pano de fundo para os seus sopros e martelares e o tipo vira-se para trás muito lentamente num jeito de quem tem o pescoço engessado e não pode fazer movimentos bruscos, carrega no botão on/off do amplificador, o público entreolha-se, ele poisa a guitarra, os músicos entreolham-se, já acabou quis alguém perguntar, ninguém o fez, o tipo coloca as mãos sobre as coxas, respira fundo como um velho que contrariado lá tem que se levantar, eleva-se, o Bastien murmurando para ele próprio Poiso o saxofone não poiso o saxofone, o tipo das luzes Ligo as luzes não ligo as luzes, alguém dá uma palmada solta, outro alguém dá outra, damos todos, já o Jandek está do outro lado da cortina quando os aplausos se tornam consensuais, personagem estranha, olho para a coxa e vejo a mão do meu amigo poisada, pergunto-lhe, Que estás a fazer meu, ele abana a cabeça, finge-se desencontrado com o mundo e no dia seguinte pergunta-me como foi o concerto e fala-me de sósias e estranhas dores de cabeça. No fim das contas gostei muito, refiro-me ao concerto.


22 janeiro 2010

George Harrison - Electronic Sound (1969)

Quando em 1968 os Beatles decidiram avançar por conta própria criando a sua própria editora, Apple, o mundo parecia estar sob a sua alçada. Talvez levados por um crecente ego, nomeadamente John e Paul, acharam que podiam ser, ao mesmo tempo, músicos e empresários de sucesso. Em pleno lançamento do Álbum Branco, tínhamos 3 (sim, Ringo não quis saber disto para nada) Beatles a descobrir novos talentos. A premissa era: "Dêem-nos todas as vossas maquetas ou ideias que nós as todas as ouviremos". Erro tremendo, passados uns dias os escritórios da Apple em Savile Row estavam atulhados de cassetes e cartas e afins. Apesar de se terem feito algumas descobertas musicais (Paul descobriu Mary Hopkin e os Badfinger, enquanto George fez aparecer James Taylor), a situação era insustentável e cedo os Beatles desistiram desta ideia, começando a dedicar-se apenas à música, continuando a Apple a ser a sua editora. Uma das boas ideias a surgir da criação de uma editora própria seria a de uma maior liberdade para a criação. Um disco duplo naquele tempo seria, provavelmente, impossível, se os Beatles ainda fossem pertença absoluta de outra editora. Sendo assim a margem de manobra para a experimentação era maior, sendo criada uma "etiqueta" para estes projectos de seu nome Zapple. Encerrada pouco tempo depois de ter sido criada pelo empresário tubarão Allen Klein, a Zapple foi criada para permitir projectos paralelos tanto dos membros dos Beatles como de outros. Lennon lançou, juntamente com Yoko, Unfinished Music Nº2: Life With The Lions, enquanto George lançou este Electronic Sound. Duas músicas apenas fazem o total deste disco: "Under The Mersey Wall" e "No Time or Space". Bastante ajudado pelo compositor californiano Bernie Krause, George sai do mundo do Rock e aventura-se na electrónica mas de uma forma ainda naive. O surgimento dos sintetizadores Moog fizeram despertar um outro tipo de sentimento no Quiet Beatle que o utilizou no próprio Abbey Road. Totalmente ignorado na altura em que saiu, Electronic Sound é, o que podemos definir como, um tesouro escondido, uma faceta desconhecida de George Harrison. A (re)descobrir.

Jandek

Bem sei que Phil Niblock é um osso duro de roer e que muito de vos estao mais preparados para fazer uma endoscopia do que para ouvir música electronica abstracta.
Por isso deixo-vos aqui uma outra sugestão provavelmente mais apropriada aos gostos da malta da música indie com vertente folk. E por falar em música indie (conceito ja tão debatido por estas bandas), haverá indie mais indie que o projecto Jandek?
Jandek nasceu em 1978 (mas o autor de Jandek cre-se ter nascido por volta de 1945).
Nos ultimos 10 anos, Jandek gravou uma média de 3,4 albuns/ano (e e por isso que ja vai com 60 albuns).
Jandek deu duas entrevistas na vida (e por isso é que ninguem sabe nada dele...)
Jandek vem a Portugal, para não perder amanha no Teatro Municipal Maria Matos, acompanhado pelo lisboetas Sei Miguel, André Abel e Peter Bastien. Por favor não faltem. Vão por mim.

Deixo-vos aqui o album Telegraph Melts, em que o free jazz se mescla com o folk de uma maneira particularmente interessante.

Bande A Part: Radiohead #1

Ando a prometer ao administrador deste blog fazer um artigo de fundo aqui no blog e parece-me que está na altura de lançar mãos à obra. A premissa é muito simples mas seguramente polémica, e como tal estou a aguardar comentários inflamados, lutas de ideiais, visões distintas. Mas é disto que também se alimenta um blog, e este não é excepção, portanto acho que os leitores também esperam isto de nós. Não esperem é telenovelas. Cá vai:

"Os Radiohead são os Beatles da nossa geração."

De forma a suportar esta forte afirmação, irei aqui no Altamont, ao longo de algumas semanas, analisar toda a obra dos Radiohead, álbum a álbum. Tenho como meu objectivo pessoal convencer pelo menos 2 pessoas que assim é e conseguir não ser agredido fisicamente pelos que discordam. Para já deixo aqui um vídeo de 1 hora (!) com os Radiohead, numa sessão chamada From the Basement feita na altura do lançamento do último álbum "In Rainbows", mas que contem também algumas músicas de álbuns anteriores. É algo de extraordinário, é o que vos digo. Tem qualidade suficiente para ser visto em Full Screen, mas como compreendo que possa ser dificil a algumas pessoas, experimentem pelo menos colocar no play e fazerem outra coisa qualquer. Porque no fundo, it's all about the music.



Tracklist:

Weird Fishes/Arpeggi; 15 Step; Bodysnatchers; Nude; The Gloaming; Myxomatosis; House Of Cards; Bangers and Mash; Optimistic; Reckoner; Videotape; Where I End And You Begin; All I Need; Go Slowly.

Relacionado #31

FREE ENERGY
De Filadélfia nem sempre o que vem é queijo fundido. Por vezes, também bom som lá surge e estes Free Energy são um bom exemplo. Mais afastados da onda Indie que, naturalmente, assola a música de hoje em dia, o grupo norte-americano vai beber inspiração em bandas como Thin Lizzy, Cheap Trick ou Fleetwood Mac. Os Free Energy fazem parte da editora DFA, sendo que o seu primeiro disco foi produzido por James Murphy dos LCD Soundsystem. Aqui fica "Free Energy".


21 janeiro 2010

Talvez Relacionado #35

É sempre uma maravilha ficar uns tempo sem ir à Blogotheque, chegar mesmo próximo ao limite de me esquecer que existe, e depois um belo dia "Deixa ver o que há lá de novo" e deslumbrar-me com as novidades. É das coisas mais seguras que conheço - há sempre algo com qualidade à nossa disposição! Hoje aconteceu-me isto mesmo - e como tal quero aqui colocar também à disposição dos assíduos leitores deste blog esta pequena maravilha com os The Antlers. Já tinha feito a avalição ao seu álbum "Hospice" aqui, mas não podia deixar de complementar com estas pérolas, filmadas em Paris, o primeiro ("Shiva") numa loja de brinquedos e a segunda ("Two"/"Epilogue") num bar, mas no qual a música é tocada num quarto dos fundos do mesmo. Sem mais palavras, os vídeos. E a música. Uma excelente conjugação dos dois.

Enjoy!

Talvez Relacionado #34

Uma música que apareceu do nada, a meio do filme que visualizei ontem e me deixou de tal forma curioso que tive que ir à procura. Encontrei, gostei mesmo e resolvi partilhar. E foi isto. Abaixo, ao clicarem no botão do play começará a ecoar nas vossas colunas ou fones a voz e guitarra com toques de blues de Turner Cody, com "Corner of My Room". Se vos deixar curiosos podem consultar o myspace para ouvir mais músicas.

The Rising Sun Experience - Musicbox - 20.01.10

Os anos 90 foram passear aos 70s e o resultado é...Esquisito. Esta podia muito bem ser a síntese desta banda pelo que se viu neste concerto de hoje. Já aqui referenciados no blog, este sexteto oriundo de Lisboa mostra grande vontade mas o resultado final é apenas satisfatório. Uma mistura entre Grunge e Hard Rock é estranha e nem sempre funciona muito bem. Isto tudo apesar de terem bons músicos, especialmente o guitarrista Nuno Cardinho e terem um vocalista com grande voz, mas mais numa onda anos noventa, Stone Temple Pilots. A verdade é que P.A. do musicbox não é fenomenal e o som sai muito compacto, no entanto o som psicadélico fica muito aquém do prometido e o que tivemos foi apenas um bom som Hard Rock. Nota-se uma tentativa dos Rising Sun Experience de não fazer um som mais do mesmo, porém nem sempre dá para misturar vários géneros. Quando encontrarem um melhor equilíbrio entre estilos musicais, poderão fazer melhor.


20 janeiro 2010

Muse - Showbiz (1999)

“I have played in every toilet
but you still want to spoil it
to prove i’ve made a big mistake”
Muscle Museum

Em 1999 andava a ouvir como um louco o Ok Computer dos Radiohead – chegou-me tarde mas chegou-me para ficar rendido. E na mesma altura num zapping pelos canais de música que a parabólica me deixava curtir, dou por mim a ouvir e ver um videoclip daqueles. Foi como um soco no estômago: velhos, novos, gajas boas, gajos pintas, todos eles sorrisos e todos eles choros enquanto avançava uma lenga-lenga na guitarra suportada por um baixo saltitante. Era a "Muscle Museum" do álbum Showbiz dos Muse. E tudo aquilo me soava a Bends e a Radiohead. Comprei o CD e devorei-o até ficar com uma congestão. Sabia-me a Tom Yorke com uns temperos – ainda agora os Muse mantêm esse registo (acho), mas queria sempre mais. E este Showbiz, a estreia dos Muse, tem momentos sublimes, como a "Muscle Museum" ou a "Falling Down" – e nesta o Bellamy consegue cantar como o Jeff Buckley sobre uma chave básica de blues. Não há como não nos rendermos à voz dele. E não há como não nos rendermos à "Unintended", a balada das baladas de uma banda que era indie e que foi puxada para o mainstream porque mereceu. E não fizeram cedências pelo caminho. Apenas apostaram em tornar-se maiores, pujantes, operáticos.