10 janeiro 2010

Festival Para Gente Sentada 2010


"É um dos eventos mais aguardados pelos apreciadores de música para ouvir e sentir. Assim se define o Festival Para Gente Sentada, um evento direccionado para um público mais exigente e de uma faixa etária mais elevada, que apresenta uma nova vaga de cantores e compositores, com o intuito de contribuir para um universo musical cada vez mais sofisticado.
O Festival Para Gente Sentada nasceu em 2004 com o objectivo de preencher uma lacuna existente no mercado nacional de oferta musical. Surgiu também como alternativa aos festivais de Verão, intrinsecamente ligados a géneros musicais de massas.
Foi precisamente para contrariar esta lógica, dar a conhecer alguns artistas de renome e marcar a diferença com a realização de um evento original no país, que Santa Maria da Feira apostou neste festival ímpar que se realiza há cinco anos consecutivos.
O impacto mediático do Festival Para Gente Sentada apresenta-se como uma mais-valia para a sua realização, em grande parte devido à participação de cantautores/songwriters internacionais, muitos deles em estreia absoluta no nosso país.
Pelo palco do Cine-Teatro António Lamoso já passaram alguns nomes sonantes, tais como: Devendra Banhart, Kate Whalsh (2004), Patrick Wolf, Wovem Hand (2005), Adam Green, Sparklehouse (2006), Richard Hawley e Nina Anastasia (2008).
Curiosamente na sequência de um concerto memorável, Devendra Banhart decidiu criar uma canção com o nome “Santa Maria da Feira” para o seu álbum “Cripple Crow”, em homenagem ao ambiente vivido na primeira edição do Festival Para Gente Sentada."

Este ano, o Festival que se irá realizar de 26 a 27 Fevereiro, já apresentou três nomes: Bill Callahan, Dakota Suite e Camera Obscura.
Os bilhetes são colocados à venda dia 11 de Janeiro e custam entre 20 euros (um dia) e 30 euros (dois dias).





09 janeiro 2010

Relacionado #20

Uma das boas surpresas a sair do baú do Grunge revival, o concerto completo da banda de Kurt Cobain no festival de Reading é, sem dúvida, uma das melhores actuações do grupo de Seattle. Com um reportório de músicas que vai desde o primeiro ao último disco, passando por b-sides e covers, os Nirvana dão um concerto que ficará para sempre na retina de quem o viu ao vivo. Este DVD vem dar a oportunidade a todos os outros que não tiveram esse momento de felicidade. Um Must See.

Arthur Russell e Phil Niblock

Phil Niblock é relativamente desconhecido quando comparado com Steve Reich ou Philip Glass, mas a sua contribuição para música minimalista foi tremenda. Intrinsecamente um cineasta, Niblock documentou nos anos 70 pessoas de países em vias de desenvolvimento a trabalhar - na agricultura ou pesca (o valor antropológico das filmagens dos pescadores de Peniche é incomensurável, que pena que seja ignorado/desconhecido pelos portugueses) - com sequências longas e simples revelando pouquíssimo trabalho de montagem.
A sua abordagem à música não é distinta, embora seja composta de forma muito mais complexa. O resultado são peças que evoluem suavemente, quase a nível microscópico que, tal como os seus filmes, renunciam à narração. Para os apreciarmos, precisamos de imergir neles e detectar, como que intuitivamente, os padrões de mudança que constroem a sua densidade.

Em 1985 Phil Niblock filmou de maneira sublime, no seu espaço em Nova Iorque Experimental Intermedia (por onde já passaram artistas portugueses como André Gonçalves, Rafael Toral ou Francisco Janes ou outros como Thurston Moore, Jim O'Rourke e Janek Schaeffer), o hoje em dia consagrado Arthur Russell, numa das raras vezes em que o músico foi documentado na película. Vale a pena ver em tela, como um dia o vi no espaço do Bairro Alto da Bomba Suicida.




mais sobre Experimental Intermedia aqui.

Relacionado #19

E já que estamos a falar de Brooklyn, deixo-vos o pequeno "concerto" que os Vampire Weekend deram na "Juan's Basement", rubrica da Pitchfork. Vale a pena.



Concerto completo aqui.
De referir que a série MTV Unplugged está de regresso com a participação da banda nova-iorquina.

Relacionado #18

Mais uma banda de Brooklyn regressa aos discos em 2010. Yeasayer de seu nome com o primeiro single: "Ambling Alp".

08 janeiro 2010

O ipod do Rock -The Black Keys

Crónica da responsabilidade do Rock:

"É pá, foi-me pedido pelo Fellini dos pobres, o baixinho que participa neste blog, que falasse sobre o que tenho ouvido ultimamente.
Aviso já, que não sou um erudito rebuscado como o Cisto - que apesar de ser um bacano, é uma beca estranho - e que a minha escrita é bastante simples e despretensiosa.
Nas aulas de português, enquanto a badocha da professora ensinava, refundia-me no canto, de Walkman da Sony dos antigos da cassete nos ouvidos, a ouvir o "Ten" e o "Nevermind".
Tenho de confessar: A minha única companhia durante as aulas foram o Lennon e Cobain e
nunca liguei a profesores ou a patrões. Sempre escrevi nos cadernos em letras graúdas a máxima do Bob Dylan: "Dont Follow Leaders".
Ao contrário do Roll, que nunca tem guita para raio nenhum e anda sempre a cobrar dinheiro para cerveja quando vamos ao bairro, nunca compro música: Saco à fartzana do pirata bay ou gravo Cds da marca mistal porque são os mais baratos. Um empregado do Macdonalds, bestialmente mal pago, não tem dinheiro para mais, arre porra!
Voltando à música, eu tenho ouvido com insistência os "The Black Keys".
Tomei conhecimento da banda pelo Fred, o amigo do Ico, que me falou deles no bairro.
A conversa foi breve, visto que, infelizmente, o bacano estava lá como aquele mentecapto que eu e o Roll não curtimos nada, mesmo assim, deu para receber altas dicas do nosso amigo e music geek.
Em relação aos Black Keys, uma banda que traz à memória os saudosos Cream (Eric Clpaton no seu melhor) e o psicadelismos dos anos setenta, é constituída por exímios executantes e escritores de boas canções rock.
Apesar de as influências serem óbvias, existe originalidade e prazer nesta banda que ainda arranja tempo para magníficas composições blues com slide guitar ao estilo do deus Robert Johnson.
Segundo consta, as actuações ao vivo são mágicas, o que me leva a passar um atestado de estupidez aos promotores nacionais: para quando os Black Keys em Portugal?"
Aqui vai um cheirinho:

"uns sons esquisitos"

Comecei a participar na introdução de snippets no Altamont que julgo terem sido bem recebidos. O objectivo até agora tem sido mostrar uma espécie de alternativa musical ao pop/rock que é geralmente explorado neste blog, apesar da primeira música deste último snippet seja justamente uma obra-prima do pop-rock: uma quase-provocacão do Jim O'Rourke, músico extraordinário (um dos mais influentes da actualidade) que um dia decidiu mostrar ao mundo que, do mesmo modo que tanto se pode ouvir Stockhausen como Beatles, é possivel, sem grandes pudores, construir melodias pop de manhã e elaborar peças de electronica abstracta pela noitinha.
Mas achei curiosa a observaçao duma amiga minha, S., em relacão ao primeiro aqui introduzido (peças dos compositores Tim Hecker, William Basinski, Steve Reich, Stars of the Lid):

Cheguei ao trabalho, sentei-me à secretaria, abri uma gaveta, afiei dois lápis, abri o computador, fui ao Altamont, cliquei no play do teu snippet e nos primeiros momentos não dei por nada. Depois comecei a ouvir uns sons esquisitos que nem sabia que vinham do blog, senti-me dentro dum aquário com peixinhos a gemer. Meti logo na Radar outra vez. Raul, que merda foi aquela???

Na altura em que S. me dizia isto, girava um vinil de Hawkwind e a malta mastigava uma bolonhesa de características excepcionais enquanto conversas animadas se iam desenrolando a um ritmo aceitável. A dada altura reparei que a camisa de F. tinha exactamente o mesmo padrão que a toalha da mesa. B. pediu um pouco mais de esparguete ao fim de uns meros 5 minutos de refeição. R. rejeitou a salada por ter sal em excesso. L. disse que tinha pouco sal para o seu gosto. S. concordou. F. não exprimiu a sua opinião em relação a este assunto. D. disse que estava frio e perguntou pelo aquecedor. B. empurrou o aquecedor para ao pé de D. E o disco dos Hawkwind por detrás a girar (mas alguém o escutava?).

Tal como esta minha amiga nao abdica da musica como elemento decorativo do seu ambiente de trabalho, escutando-a enquanto aldraba análises ambientais que possibilitem mais uma obra de engenharia civil de notável fealdade, muitos de nos aprendemos a ouvir assim as diversas melodias, disponíveis hoje como nunca. Ouvimos música no carro, entrecortada por apresentadores de rádio parvos e anuncios idiotas, ouvimos música enquanto jantamos, ouvimos música enquanto trabalhamos ou jogamos championship manager, enquanto estudamos uma matéria ou até mesmo enquanto fodemos ou nos casamos. Há até condomínios na Expo que - luxo dos luxos - têm música (erroneamente) dita ambiente nos corredores e elevadores.

O comentário de S. fez-me relembrar as palavras de John Cage:

...music isn’t useful, music isn’t, unless it develops our powers of audition. But most musicians can’t hear a single sound, they listen only to the relationship between two or more sounds. Music for them has nothing to do with their powers of audition, but only to do with their powers of observing relationships. In order to do this, they have to ignore all the crying babies, fire engines, telephone bells, coughs, that happen to occur during their auditions. Actually, if you run into people who are really interested in hearing sounds, you’re apt to find them fascinated by the quiet ones. “Did you hear that?” they will say.



07 janeiro 2010

Metallica - Metallica [Black Album] (1991)

Em 1991 aconteceu de tudo um pouco. Morreu Freddie Mercury, talvez o maior (e melhor) frontman da história; e com ele morreu a ideia de que a SIDA só atacava os outros e os pobres. Nasceu o grunge com o Nevermind dos Nirvana e outras bandas que tais, como os Pearl Jam ou os Alice In Chains ou mesmo os Soundgarden; e com eles nasceram os miúdos urbano-depressivos de flanelas vestidos, com cabelos desguedelhados e também os stage dives e o pro choice. E renasceu o metal, travestido de hard-rock e entregue num álbum que ficou para história como a melhor colectânea de canções duronas a chegar ao mercado: o Black Album dos Metallica. Os números não mentem: 15 milhões de álbuns vendidos nos EUA; 22 milhões no Mundo. Doa a quem doer, este é o maior feito de um conjunto metal à data. De uma banda de culto os Metallica passaram a uma religião de massas. Houve quem não gostasse – os puristas que se julgam donos das bandas só porque as seguem desde o início criticaram-nos por terem desacelerado. Já eu, que detesto puristas, estou a borrifar-me para a velocidade e nem conto o número de notas por segundo. E dou-me satisfeito que tenham mudado porque a coisa, assim, tornou-se perceptível. Nada contra os anteriores álbuns, que tinham músicas como "Master of Puppets" ou a "One". Mas com este as letras entendem-se e os solos não se atropelam uns aos outros. Um tipo virtuoso não deixa de o ser só porque os dedos dele deixam de percorrer freneticamente o braço da guitarra como um epiléptico.
No Black, apostou-se nos riffs curtos e poderosos. E não há riff como o do "Enter Sandman". Todos sabem de cor e salteado a progressão daquelas cinco notas que abrem a música e o álbum. Depois, seguem-se a "Sad But True", a "Holier Than Thou", a "Unforgiven" e a "Whererever I May Roam". Ouvidas estas, chega-se ao fim da primeira metade do álbum e o pulso está frenético e o pescoço dorido de tanto acompanhar a batida do Ullrich (há melhor baterista, já agora). A segunda metade perde um pouco de força mas tem a "Nothing Else Matters". E aqui é que os metaleiros se foram aos arames. Não é que o bom do Hetfield, debaixo daquela fronha de camionista e do corpo intimidador, é um rapaz (até) dado a coisas do coração? É verdade, sim. E os Metallica fizeram a melhor balada hard-rock alguma vez composta. Outra vez à frente de todos e contra os que os atrasavam. Mérito a Bob Rock, o produtor que os Metallica primeiro recusaram e depois receberam a conselho de Ullrich, que transformou a banda californiana na maior do planeta durante um par de anos. Rock, que havia promovido o glam-rockers Mötley Crue do abastado Tommy Lee, depurou e sugou a alma do quarteto metálico à exaustão. E o resultado ficou à vista e no ouvido. Para sempre.


The Antlers - Hospice (2009)

Para começo de conversa confesso que me senti um pouco desiludido a este propósito. Desiludido com o facto de nenhuma das minhas fontes habituais, tantas e boas que aí andam, não me terem alertado para isto. Parece que andavam a fazer complô, a trocar segredinhos, e só na hora da loucura de listas de melhores do ano é que surgiram os The Antlers, com este "Hospice". E aí, meu amigo, não foi uma ou duas referências, de repente este álbum estava em TODAS as listas que vi por aí. Perguntei para mim mesmo "Mas que raio?", ao mesmo tempo que arranjei forma de fazer o álbum cá chegar. E agora, passados apenas cerca de 7 dias de o ter, estou conquistado. Pela beleza, pelas variações de estados de espírito que o álbum nos cria, por um certo esquecimento de tudo à volta.
Os Antlers são uma banda de Brooklyn, mas não se pode dizer que se inserem num propalado movimento criado nesta cidade. Até porque o álbum foi criado pelo seu mentor, Peter Silberman em total reclusão, abrindo apenas portas aos dois restantes membros da banda para a gravação do mesmo. Diria que se aproximam bem mais de uns Bon Iver neste aspecto, do que uma qualquer outra banda saída da fornada de Brooklyn.
"Hospice" não é apenas um conjunto de músicas. É um álbum conceptual, e como tal tem uma história de fundo, uma triste história de um homem que assiste uma mulher padecer de cancro, e que nos vai mostrando, faixa a faixa, o impacto que isto causa no próprio. Nota-se uma dor constante com esta situação, patente no ritmo da maioria das músicas, nos ambientes que cria. E aqui e ali utilizam também esse ritmo para nos mostrar alguns rasgos de esperança. As suas memórias, os seus arrependimentos, o seu pesar, tudo isto está presente neste difícil momento. É um álbum que importa mesmo ouvir como tal, como um álbum, como um todo, do início ao fim. Sem interrupções. Só deixar a música correr. Vale bem a pena.