23 janeiro 2009

CARTOON - Kurt Cobain



Beirut

"A Sunday Smile". Ele há músicas assim: progressão de acordes simples (não confundir com simplista), refrão a condizer, 3 minutos e poucos mais de som... que te agarram do início ao fim. Porquê? A voz: o mais importante instrumento musical é tudo para este homem, Zach Condon, um norte-americano europeu. A forma como a coloca, arrasta, sobrepõe, constrói uma teia de onomatopeias, envolve-te e deixa-te levar, é fantástica.

A isto, junta-lhe um ritmo de valsa (1,2,3; 1,2,3...) em que o contrabaixo paulatinamente conduzido para o apogeu com os metais, tambores, piano e tudo mais em que este Zach Condon colocou a mão para conferir textura e riqueza à sua música.

Mr. Mustard, obrigado.

CARTOON - Keith Richards

Kings of Leon - Only by the Night (2008)

And Here Were Go

O que fazer com uma banda que passa da obscuridade - das pequenas salas, de culto dizem-nos, onde fumar ganzas não só é socialmente bem visto (aceite, já o é há muito) como te faz sentir "um deles"; onde se respira uma certa atmosfera elitista que emana do simples facto de se estar a assistir ao concerto de um conjunto sem tempo de antena nas rádios/televisões, numa lógica de contracultura... - que passa da obscuridade, dizia eu, para o estrelato - dos pavilhões e estádios esgotados, da tímida pirotecnia e dos videoclips que tentam ser fiéis ao dia-a-dia de um grupo rock -? O que fazer? Amar, ou odiar.

Eu, sou sempre pelo amor nestes casos. Se os tipos que antes usavam barba ou tinham os fios de cabelo pelos ombros, como outra qualquer banda sulista dos 70's, decidiram apresentar-se com outras roupagens, eu digo: porque não? "A fama, sentiram-se atraídos pela fama..." E eu digo, outra vez, porque não? A fama traz-te o dinheiro e outros benefícios, os quais, agora, não me sinto à vontade para especificar... E ser ambicioso, querer ser reconhecido, é ser, apenas, humano. Quanto a superficialidades, estamos, aparentemente, conversados.

E quanto ao conteúdo? Bom, "Only By the Night" é o álbum rock de 2008. Tem, aqui e ali, um som mais britânico, "pop"? Tem. Mas também tem a "Closer" que, se não é a melhor música destes ex-hillbylly's, agora meninos-bonitos, deve andar lá perto; a "Notion", muito boa também; a "Sex on Fire", bem, os rapazes fazem com que uma canção com este tema soe a poesia. O que, convenhamos, não é fácil (atentem à letra).

Pink Floyd - Obscured by Clouds (1972)

Não sendo precisamente o típico álbum de Pink Floyd, "Obscured by Clouds, banda sonora para o filme La Valée, de Barbet Schroeder, é uma espécie de tesouro escondido. É um disco mais calmo, pausado, com imagens pastorais, um pouco ao estilo do que a banda estava a fazer, nomeadamente em Atom Heart Mother e Meddle. Músicas como "Burning Bridges" e "Wot's...Uh the Deal " trazem das melhores interpretações voz-guitarra de David Gilmour, especialmente a última.
É em "Obscured by Clouds" que Roger Waters começa a dar os primeiros passos para a sua visão mais intimista e psicótica em relação ao mundo. "Free Four", encoberta por uma melodia mais pop a fazer lembrar os Kinks ou T-Rex, esconde no seu interior letras sobre morte, envelhicimento, cinísmo e tristeza que iriam ser muito exploradas nos discos seguintes da banda.
Juntando alguns números instrumentais bem conseguidos, este disco, esquecido pela crítica e público, consegue ser mais do que uma banda sonora a um filme mediano, vivendo por si próprio.

The Killers

Confirma-se, por fim, a vinda de uma das bandas mais esperadas em Portugal nos últimos tempos. A banda norte-americana, natural de Las Vegas, estará, no próximo 18 de Julho no Estádio do Restelo, inserida no festival Super Bock Super Rock. O concerto faz parte da digressão do novo disco do conjunto, "Day and Age". Aguardam-se as restantes bandas. Pede-se um cartaz ao nível de 2007.

REPTO (cont.)

É evidente que não foi totalmente inocente, o meu repto. Não quis com isso criticar quem usa utiliza o termo música indie, mas apenas reflectir sobre o seu significado.

A meu ver, música é uma coisa, o movimento na qual poderá estar inserida é outra. Mas se o movimento pode ter tido importância na sua génese, não deveria tatuá-la em plenitude; ao invés, entendo a música como ela é, a sua natureza, os instrumentos que a produzem, os ritmos e compassos e o seu conteúdo lírico. O facto de se enquandrar numa determinada vaga é, até prova em contrário, puramente circunstancial.

Digo até prova em contrário, porque música há que não passa de fashionismo, amalgamação, repetição sem alma, e que por (muitas) vezes não é devidamente ignorada.
E aqui reside a perversão da catalogação: bandas que nela embarcam exibindo a t-shirt do (neste caso) indie, enganando e confundido muita gente.

Não sendo um dos enganados, presunçosamente, serei certamente um dos confusos. E na verdade não entendo a necessidade de se catalogar música que não seja pelas suas características musicais.

Sejamos honestos: não acham que é demasiado fácil meter tudo que tenha um aspecto retro no mesmo saco? Como se pode misturar Gogol Bordelo com Franz Ferdinand com Beirut?

A meu ver, essa é uma necessidade que se prende com aspectos comerciais da música e não com aquilo que interessa mesmo. E as pessoas deviam referir aquilo que interessa mesmo e não aquilo que é mais conveniente.

Obrigado pela participação, é bom ver este blog a mexer.

21 janeiro 2009

REPTO

Faço aqui o repto, de alguma natureza provocativa, mas essencialmente suscitado por um verdadeiro embaciamento, que uso óculos:

O que é música indie?

Desafio todos os intervenientes e leitores deste blog a participarem no repto e, assegurou-me o fundador, Mr Mustard, o que melhor se souber explanar, ganhará um vinil dos 4 non blonde.

Aphrodite's Child


Que poderão ter em comum Demis Roussos e Vangelis para além de serem gregos (embora Roussos tenha nascido no Egipto), barbudos e praticamente indiferentes para a população em geral? "Não poderia estar mais desinteressado", poderiam responder muitos. O melhor é irmos por partes.
Com uma carreira de quase 40 anos a solo praticamente irrelevante, Demis Roussos há de ficar conhecido, e não de uma maneira muito nobre, pela música "Goodbye My Love, Goodbye". Por outro lado, Vangelis Papathanassiou tem mais motivos para se orgulhar. Foram da autoria do compositor bandas sonoras para filmes como "Chariots of Fire", "Blade Runner" ou "1492: Conquest of Paradise". No entanto, e juntamente com o baterista Lucas Sideras e o guitarrista Anargyros Koulouris, fizeram parte de uma das bandas psicadélicas, não anglo-saxónicas (apesar de cantarem em inglês), mais importantes, Aphrodite's Child.
O trio/quarteto (inicialmente um quarteto, a banda ficou subitamente sem o guitarrista, Anargyros "Silver" Koulouris, devido ao serviço militar grego, acabando por falhar os dois primeiros discos, voltando, apenas, para o último fôlego da banda), composto pelo vocalista Demis Roussos, Vangelis nas teclas e, o já referido, Lucas Sideras na bateria, teve o seu início em 1967, o ano conhecido como o "verão do amor", o apogeu da música psicadélica.
Um ano após a formação da banda, na esperança de ganharem estatuto internacional, Vangelis propôs a mudança para Londres. Tal como numa tragédia grega, o caminho para a fama foi tortuoso. Para além de perderem o seu guitarrista para o serviço militar, ficaram retidos em Paris devido, em parte, à dificuldade em obter vistos de trabalho em Inglaterra e, também, devido aos tumultos por que passavam os parisienses nesse mítico mês de Maio de 1968.
Presos em Paris, a banda marcou, então, o seu caminho para o sucesso ao assinarem contrato com a empresa discográfica, Mercury, tendo lançado o seu primeiro single, "Rain and tears", sendo, provavelmente, a música mais conhecida da banda.




Com o sucesso imediato deste single, especialmente em França e em mais alguns países europeus, a banda acabaria por editar, nesse mesmo ano, o seu primeiro disco de originais, "End of the World". Um álbum muito "au courant" da época, com melodias psicadélicas e sinfónicas, muito ao estilo de uns Moody Blues ou Procol Harum, seus contemporâneos. Apesar de se notar algum tolhimento nas vozes, dado não serem uma banda anglo-saxónica, o disco revela momentos deliciosos , nomeadamente "End of the World", "Mister Thomas", o single "Rain and Tears" e mais psicadélica "The Grass is no Green".




Após digressões pela europa e, conseguindo, finalmente, autorização para embarcar para inglaterra, a banda preparou-se para gravar o sucessor de "End of the World".
Gravado no Trident Studios, um dos mais famosos estúdios londrinos, "It's Five O'Clock", segundo disco de originais da banda grega é um misto de continuação e despedida do primeiro álbum. O psicadelismo deixa de ser tão evidente, passando a banda a entrar por vários caminhos: um mais pastoral, como criando uma banda sonora a vários tipos de paisagens, em "It's Five O'Clock", a relembrar "Whiter Shape of Pale" dos Procol Harum, "Annabella" ou "Marie Jolie"; outro mais folk, evidente em "Wake Up", "Take Your Time"; ou um caminho mais duro e experimental como "Let Me Love, Let Me Live" e "Funky Mary".
Para uma banda não britânica ou americana, os gregos Aphrodite's Child conseguem criar um misto entre as duas culturas, dando-lhe um toque mais mediterrânico.




Porém, e apesar da banda estar a ganhar mais estatuto e andar em digressões, o efeito "Brian Wilson" acabaria por chegar. Vangelis, cansado de tournés, começou a não acompanhar a banda, preferindo manter-se no estúdio em gravações de temas, tal como aconteceu com os Beach Boys pós "Pet Sounds". Substituído em tourné por Harris Chalkitis, Vangelis começava a realizar os seus primeiros temas para bandas sonoras, nomeadamente para "Sex Power", o filme de Henry Chapier.
Com o virar da década, o sonho colorido dos anos sessenta, especialmente da segunda metade, já se tinha esfumado. Beatles tinham se separado, o movimento Hippie começava a chegar ao fim. Manifestações pacifistas deram lugar a tumultos variados por todos os estados unidos. Começava a tornar-se outro mundo, mais agressivo e crú.
Com um terceiro disco em preparação, a banda começava a ruir, pese embora não em número, dado que, Anargyros Koulouris, guitarrista retido na Grécia para serviço militar, estava de volta. O vocalista Demis Roussos estava já preparado para encetar uma carreira a solo, lançando o single "We Shall Dance", seguindo-se o álbum "On the Greek Side of my Mind" em 1971, ainda antes do disco final da banda, "666" sair para o público.
Este disco de curioso título, ideia de Vangelis com amigo liricista, ao exemplo de Brian Wilson com Van Dyke Parks, teve como mote o bíblico "Livro das Revelações". Um Projecto que fugia de sobremaneira ao estilo anterior da banda. Um álbum conceptual sobre o apocalipse de São João como uma ópera Rock. A música complexa que Vangelis já começara a criar nos dois primeiros discos encontra o seu auge neste disco duplo. Um projecto audacioso que levou, obviamente, à ruptura da banda já que Roussos, mais interessado em continuar na mesma linha dos dois primeiros discos, uma linha mais pop e acessível, mostrava as suas intenções ao editar um projecto a solo.
"666" é uma obra conceptual e difícil de digerir, podendo tornar-se longa e esquizofrénica, no entanto, revela um poder e uma musicalidade impressionantes. "Four Horseman" é o tema mais acessível, com a voz de Roussos no seu melhor, envolvida num grande nevoeiro de instrumentos musicais. A influência em músicas dos Verve é bastante visível neste tema e em "Altamont".
O disco acabaria por apenas ser editado em 1972, após o desaparecimento da banda. Acabou por ser, como aconteceu em outros casos, como o dos Zombies com "Odessey and Oracle", o canto do cisne, porém o álbum do reconhecimento. Demis Roussos e Vangelis tiveram as carreiras já referenciadas, o guitarrista Koulouris trabalhou com ambos e o baterista Sideras tentou, também ele, uma carreira a solo, porém pouco sucedida.