Em semana de mais um festival Super Bock Super Rock, este ano marcado por um cartaz indie, o que revela particular atenção por parte dos organizadores em relação ao que se passa na cena musical nos dias de hoje, o álbum da semana recai sobre Neon Bible, segundo disco de originais daquela a que muitos chamam a banda do século XXI: Arcade Fire.
Após a fantástica estreia de Funeral, trabalho marcado pelas mortes de vários entes queridos aos membros da banda, os canadianos de Montreal lançaram em Março deste ano, o sucessor, Neon Bible. Para este álbum, os Arcade Fire compraram uma igreja e foi precisamente aí que resolveram gravar grande parte das músicas, especialmente devido ao efeito de acústica que o espaço oferecia e ainda porque continha um grande piano que passaria a ser o mote deste disco, bem visível em "Intervention". Com um começo algo aterrador em "Black Mirror", digno de banda sonora com fundo mais sombrio, os Arcade Fire mostram um lado mais político e sobretudo mais negro do que em Funeral. O mundo não é, já, um sítio tão bonito como se poderia pensar. Há injustiças em todo o lado, até na própria igreja. Para uma banda que conta com quase tantos elementos como uma equipa de futebol, os Arcade Fire conseguem fazer uma fusão entre as várias vozes, instrumentos e personalidades que acaba por criar uma espécie de grande orquestra. O tema sombrio de Neon Bible denota-se um pouco por todo o disco como em "Black Wave/ Bad Vibrations", "Antichrist Television Blues", uma mistura de Dylan com Springsteen e "Windowsill". Vão ainda recuperar um clássico do seu primeiro EP, No Cars Go, tornando-a ainda mais forte e épica.Tal como no disco anterior, o género épico está bem vincado nas músicas da banda. A tal palavra muito empregue para definir os canadianos, catarse, é palavra de ordem, no entanto, ao contrário de Funeral, aqui as almas não são lavadas, mas sim mais enegrecidas. Neon Bible é, sem dúvida alguma, um digno sucessor de Funeral. Não é mais do mesmo. São os Arcade Fire, novamente no seu melhor e a demonstrar que não são apenas hype de comunicação social. São uma banda a sério e vão voltar a demonstrá-lo dia 3 no festival Super Bock Super Rock.
No imaginário de muitas pessoas, o concerto rock está intimamente ligado ao estádio. A visão de um sítio aberto, amplo e povoado por milhares de pessoas a cantar em uníssono com a banda ou cantor faz parte do imaginário colectivo de muitos de nós. É, por vezes, uma experiência transcendental. Ora, todo este misticismo que se convoca quando falamos de um concerto, e, sobretudo num estádio traz vivas memórias à mente das pessoas. Há duas coisas que nos saltam logo à cabeça: sol e confraternização. E pode se perguntar “sol? Mas a maior parte dos concertos ocorre à noite”. Nada mais correcto, no entanto, é o ínicio que nos deixa aquele sorriso na boca, aquele gosto que perdurá sempre na memória quando nos lembramos de concertos que fomos há anos e anos.
Claro que há muitas pessoas trabalham ou estudam até tarde e fazem tudo por tudo só para chegar a tempo do primeiro acorde da banda principal, no entanto, para quem pode saborear todo o momento de um concerto rock, torna-se, sem exagero, em uma das grandes experiências na vida. A excitação que se começa a sentir no dia anterior até à caminhada que se faz até à porta do estádio faz parte deste misticismo clássico do que é assistir a um concerto. Até a confraternização à porta do estádio nos sítios clássicos para comer a bifana e a imperial é, também, uma celebração. Não obstante o facto de se ter modernizado os estádios, as organizações dos eventos serem já impecáveis, o bichinho mantém-se inalterável.
Quando falamos em Rolling Stones, essa imagem torna-se ainda mais vívida, e é, sem dúvida, uma celebração da música. A vinda de uma banda tão conceituada e tão consagrada ao nosso país é sempre uma notícia relevante. E nem o facto de todos os elementos da banda estarem na casa dos sessenta anos, de já ser a quinta vez que visitam o nosso país e, sobretudo, por ainda o ano passado terem actuado no Estádio do Dragão, no Porto, retirou a chama de mais um concerto em Portugal.
Se da primeira vez que se fizeram ouvir em Portugal, a maioria das pessoas presente já eram pais, ontem, em Lisboa, muitos desses já eram avós e vinham acompanhados por filhos e, imagine-se, também pelos netos. Três gerações em perfeita sintonia com o som. A música tem tanto o poder de separarar geracionalmente como, depois, para unir.
No exterior do estádio, grupos de amigos reuniam-se ao sabor de vários tragos de cerveja, entoando clássicos da banda britânica. O ambiente começava a compôr-se e, entre lembranças de concertos anteriores e conversas sobre desculpas que deram aos patrões para estarem mais cedo à porta do estádio, o alarido de sirenes policiais fazia-se sentir.
O cortejo Stones começava. Um a um começavam a chegar os elementos da banda a Alvalade. Cada em sua viatura. Mick Jagger filmava enquanto passava entre a multidão. Talvez para introduzir essas imagens num futuro DVD da banda que se prevê para o fim da digressão. Um pouco à imagem do que Bryan Adams fez na sua passagem por Portugal, o que resultou num DVD ao vivo no nosso país.
Com o abrir das portas pelas 17 horas, algumas pessoas tentavam já marcar o seu lugar o mais perto possível do palco, como que dizendo, “Mick e Co. Estamos presentes!”. Entre a abertura de portas e as 20 horas, momento em que os Jet começavam a primeira parte do espéctaculo, poucas eram as pessoas no interior do estádio, o que parecia fazer crêr que afinal este concerto dos stones ia ser marcado por uma muito baixa assistência. Assistência esta que, de tempos a tempos, ia se animando com o som que se fazia ouvir pelas grandes colunas do palco. Uma grande obra de arte, fazendo parecer uma nave espacial repleta de luzes.
Ainda os últimos raios de sol se faziam sentir no interior do estádio de Alvalade quando os quatro elementos da banda Australiana Jet invadiram o recinto. Bastante inspirados por bandas como Rolling Stones, Oasis, Kinks e até AC/DC, os Jet foram buscar o seu nome a uma música de Paul Mccartney. Com o intuito de tentarem agarrar o (pouco) público presente no recinto, os Jet apenas tocaram músicas mais a rasgar, com especial destaque para a Are you gonna be my girl, tema usado pela companhia Vodafone, que os levou para a ribalta. No entanto, apesar de a banda ter alguma vontade e alguma postura, não conseguiram fazer grande mossa entre a multidão. Talvez porque afinal não saibam mesmo fazer o que anunciavam ao mundo aquando do seu primeiro disco, citando uma máxima do ídolo Keith Richards “Some bands know how to rock, but they don’t know how to roll”. Após cerca de quarenta e cinco minutos ao som das músicas mais fortes da banda, o concerto chegava ao fim e chegava ao fim também a espera de milhares de pessoas para verem os seus artistas favoritos. A noite tinha caído em Lisboa, e via-se nos ecrâs gigantes imagens e sons da banda que se formou em Londres em 1962. As luzes do palco desligaram-se, o público, agora em muito maior número, começava a ir ao rubro. Uma panóplia de cores, objectos e fogo de artifício fizeram-se sentir e ao fundo do palco já se viam os elementos dos Stones. Ia começar o Show. Apostas para qual seria a primeira música começavam-se a fazer. A espera tinha acabado. Start me up era mesmo a inicial e assim abriu o espectáculo.
Mick,Charlie,Ron e Keith, acompanhados pelos já habituais membros da banda de suporte começaram a mostrar que, afinal, a idade ainda é um posto e deram mostras da sua eterna juventude. You got me rocking do disco Voodoo Lounge e Rough justice do seu último trabalho A Bigger Bang foram os temas mais “novos” que a banda tocou, o que é compreensível, dado que quase toda a gente presente espera pelos clássicos. No entanto, apesar de terem presenteado o público com os temas mais óbvios, Mick e companhia foram ainda buscar alguns tesourinhos, estes não deprimentes, mas sim de grande orgulho, como You got the silver, She’s so cold, Bitch e I wanna hold you, este último cantado por Keith Richards, que se mostrou ao público lisboeta parecendo ainda estar no filme Piratas das Caraíbas.
Sempre em grande forma, Mick Jagger percorria de um lado para o outro e de cima para baixo, o grande palco, parecendo ainda ser o mesmo homem de há 20,30 ou 40 anos atrás. Decerto muitos na mesma faixa etária devem ter pensado para si mesmo como seria possível... Um dos momentos altos para o público português foi a entrada em palco da fadista Ana Moura para cantar em dueto com Mick Jagger a música No Expectations. Ela, que já tinha trabalhado num projecto com os Stones, que a descobriram numa casa de fados e ficaram encantados com ela. Embora a voz lhe tenha falhado com a emoção de estar a cantar para milhares de pessoas, o produto final acabou por ser positivo e de grande orgulho para o público. Mick agradeceu e por diversas vezes experimentou falar umas palavras em português. O público estava rendido. Com Ron Wood em grande forma e a manter o grupo coeso, especialmente em Can’t you hear me knockin, os Rolling Stones iam aos poucos preparando a multidão para uma surpresa. Muitos já tinham ouvido falar dela mas não a esperariam assim tão boa. A meio de It's only rock 'n roll (but I like It), o palco central começa a mexer-se e a vir de encontro ao público e a percorrer o centro do estádio. O público delirou com o facto de estar tão perto dos seus ídolos. Uma espécie de recompensa para quem não consegue estar tão perto do palco. Seguiram-se Satisfaction, que, obviamente foi o ponto alto em termos de coro, porém quem olhava para trás para o palco principal começava a ver uma boca e língua gigante, o símbolo mítico da banda, a ser insuflada no topo. Adivinha-se o que se seguiria. Honky Tonk Women. Uma labareda gigante fez aquecer até a mais friorenta das pessoas em Alvalade e os primeiros acordes do diabo sentiam-se... Sympathy for the devil fez estremecer o estádio e Mick Jagger sentiu-se, literalmente, no topo do mundo a balancear-se como um jovem de 20 anos. Inesquecivel. Seguiram-se Paint It Black, uma das músicas mais dark e míticas, a qual continua a falhar uma homenagem a Brian Jones, um dos membros mentores da banda desaparecido em 1969. Jumpin’ Jack Flash e Brown Sugar acabaram em beleza o concerto fazendo água na boca às cerca de 30 mil pessoas presentes em Alvalade.
Duas horas de concerto, apesar de tudo, souberam a pouco. Faltaram alguns clássicos, mas nem sempre se pode agradar a todos quando se tem uma carreira de 45 anos... Esperemos que nos 50 anos de carreira cá estejam de novo para nos trazer todos esses clássicos naquela que será uma celebração não apenas de carreira mas sim de vida. Vida dedicada à música. Eles sempre hão de saber “how to rock and to roll”.
Quase 40 anos de carreira, digressões esgotadas e 170 milhões de discos vendidos parecem não ser suficientes para os Deep Purple! O que leva estes Dinossauros a continuar? Só eles e os Rolling Stones é que lá sabem!Mas certamente que o ditado vaticinado por Paul Simon - "Still Crazy After All These Years"- é uma desculpa plausível... Surpresa das surpresas, o novo disco da banda - "Rapture of the Deep" - é um álbum digno da velha aura dos Purple. Desde "Perfect Strangers" (1984), que não ouviamos Ian Gillan e Compª. soar tão frescos e versáteis misturando a fórmula Hard Rock com o Blues, o Clássico e o Jazz. "Rapture of the Deep" gravado em apenas três semanas reflecte um verdadeiro espirito de camaradagem e química musical que só as rugas do tempo permitem alcançar. O álbum começa com uma excelente "rocalhada" á moda dos velhos tempos - "Money Talks", onde Ian Gillan canta sobre os vícios que a fama e o dinheiro trazem a uma sociedade cada vez mais orientada pelo "Vil Metal". Seguem-se o boogie-whoogie sobre as groupies que cercam o negócio do rock n roll em "Girls Like That" e o heavy blues de "Wrong Man", com destaque para mestria do guitarrista Steve Morse. A verdadeira está reservada para o quarto tema do álbum,"A Rapture of the Deep"! Nunca a música turca, o jazz sinfónico e as guitarras aero-espaciais haviam sido tão bem conseguidos num tema rock! Um clássico para rivalizar com "Smoke on the Water". O álbum entra numa toada mais calma em "Clearly Quite Absurd", talvez uma tentativa frustrada de compor uma balada para passar nas rádios. Mas os amplificadores voltam a subir de tom em "MTV" uma sátira brilhante sobre as rádios e os canais de música estarem nas mãos de burocratas que não percebem nada de música! "I´´m sure i won´t play you anything new..." A fechar, o épico "Before Time Began" um retrato quase perfeito sobre a insanidade que atravessa os nossos dias..."Someone is murdering my sisters and brothers, in the name of some God or another"! Bingo!
"Remember that Night...white sails in the Moonlight..."
Já lá vão 12 anos desde o último disco de estúdio dos Pink Floyd - "The Division Bell"! David Gilmour, ao contrário do que muito pensaram, decidiu não prolongar por muito mais tempo a carreira do grupo "post- Roger Waters". Nos 7 anos seguintes, a carreira musical ficou para trás. Montou uma empresa de aviões, casou-se, teve filhos e ajudou as mais diversas causas humanitárias pelo mundo fora. E foi precisamente por essas causa, que Gilmour voltou acidentalmente ao activo. Estávamos em Julho de 2005. Bob Geldof organizador do "Live 8" consegue convencer os Pink Floyd (Gilmour, Mason e Wright) a juntarem a Roger Waters para uma actuação única e histórica em Hyde Park. O grupo conseguiu não só convencer os mais cépticos (que nunca acreditariam em tal reunião), como também uma geração nova de fãs, ávidos de voltar a ver os Pink Floyd ao vivo. Nos meses seguintes, gerou-se uma enorme espectativa sobre o regresso dos Floyd à ribalta. Contudo, David Gilmour (detentor legal sobre os direitos de utilização do nome do grupo) optou por negar todos os rumores e pos um ponto final na carreira da banda de "Dark Side of the Moon". "On an Island" é o terceiro disco a solo de Gilmour, depois de "David Gilmour" (1978) e "About Face"(1984). A acompanhar o guitarrista, está um elenco de luxo: Rick Wright, teclista dos Pink Floyd; Guy Pratt, baixista das últimas digressões do Pink Floyd; Robert Wyatt, vocalista e baterista dos Soft Machine e Phil Manzanera, guitarrista dos Roxy Music e co-produtor do álbum. Músicalmente, o álbum é irrepreensivel e transporta-nos imediatamente para os ambientes de nostalgia "Floydiana". Basta escutar o primeiro tema, "Castellorizon" e está lá tudo. Os solos de guitarra imaculados; os teclados ambientais a juntar aos efeitos sonoros tão característicos da história da banda. A voz de Gilmour continua fresca, o tema "On an Island" encontram se afinidades com "Echoes" (de Meddle, 1971) e "Fat Old Sun" (de Atom Heart Mother, 1970). Liricamente é o melhor tema do álbum, com as vocalizações de Graham Nash e David Crosby a brilhar por entre os olhares do céu estrelado e viagens perdidas no meio do Oceano. A nostalgia do tempo que já passou ("Pocket Full of Stones"), as pressões da meia idade ("Take a Breathe") acabam por afectar a maré de um álbum, onde as letras a atirar para o Phil Collins, são o ponto menos bem aproveitado do disco (escute-se "This Heaven" ou "Smile"). Polly Samson, jornalista e mulher de Gilmour, não tem certamente a visão "newtoniana" e inspirativa de um Roger Waters ou a alucianação criativa de um Syd Barrett. Não é propriamente um disco dos Pink Floyd, mas não anda longe. Veremos o que Roger Waters tem a dizer... "Which One´s Pink?". (7/10)
A história dos Beatles está, certamente, por demais contada, recontada, relambida ou até mesmo gasta do tanto que já se falou, especulou ou mesmo lucrou à volta da mesma. A vida do quarteto fantástico, composto por John,Paul,George e Ringo é, por demais, sobejamente conhecida. Fica, então, a interrogação no ar. Que mais poderá, então, se dizer acerca dos Beatles? Não terá sido tudo dito? Certamente que sim, no entanto, em memória de alguns intervenientes nesse grande romance musical do século XX, denominado "Beatles", aqui ficam as histórias e estórias de personalidades que fizeram parte de toda essa grande viagem, agora esquecidas pelo tempo, que se encarregou de os condenar ao esquecimento, uns mais que outros... Muito se tem dito sobre quem foi ou terá sido, realmente, o quinto Beatle. Nomes como George Martin ou Brian Epstein foram alguns dos mais referidos. Até mesmo o recém-falecido George Best, famoso jogador do Manchester United durante a década de sessenta, foi conotado como o quinto Beatle, apesar deste ter sido apontado pela sua excentricidade dentro e fora dos relvados, bastante adiantada no tempo, tal como os Beatles o foram. No entanto, não podemos apontar este ou aquele como o verdadeiro quinto Beatle, porque realmente não “O” há. Aqui ficam, então, os vários "quinto Beatle"...
Music??? ou lixo?? Ainda me lembro, há uns 10 anos quando os MTV european music awards eram uma coisa fantástica porque tinham o melhor dos USA e o melhor da Europa. Já na altura os Music Awards americanos eram horríveis. Eram, mais ou menos, como são os Grammies. Hoje em dia é tudo igual. Lixo musical misturado com publicidade, empresas, modelos. Tudo ao molho e o que antes interessava, a música, agora é um acessório para esta máquina comercial, que é a MTV
Começo por pedir desculpa aos amantes de U2, por exemplo, pelo que se segue, mas é da minha intenção abanar os críticos de música amadores que pululam por todo a parte, e dos quais se referem os pivots dos noticiários quando dizem que o último álbum de Rolling Stones foi unanimemente aclamado pela crítica mundial, como se tal fosse possível, e se o fosse seria muito muito mau sinal. Ainda a propósito disso, a única crítica (séria, profissional, pelo João Lisboa) que li relativamente a esse álbum foi bastante devastadora, e perguntei-me logo pelo uníssono BRAVO que aqueles jornalistazecos bradiam.
Mas a questão é que me parece que hoje em dia o jornalismo que invade as casas das pessoas, o mass media, adora fanaticamente o consenso, sentindo orgulho em pertencer ao sábio grupo das pessoas que votaram no Revolver como o melhor álbum de sempre e pergunto-me também: qual a utilidade duma votação como essa? É que não duvidem da existência de uma obscura utilidade. E portanto, sem o saber, esse tipo de jornalismo vai toldando a visão das massas (e do próprio jornalismo em si, tornando-se, consciente ou inconscientemente, numa óptima ferramenta das empresas multinacionais).
É com pena que observo isto, as mordomias com que a imprensazinha trata determinados entertainers, como os artisticamente estagnados Rolling Stones, Oasis ou o Paul McCartney, e para onde caminham outros muito rapidamente, deixando-se cegar pelos inapropriados elogios.
Só se condenam aqueles cujas vidas pessoais tenham tido aspectos mórbidos, sangue para um público devorar, e de preferência que tenham enveredado por um caminho artístico diferente, independentes da pressão dos gigantes multinacionais que são as editoras. Não se fala dos que não se preocupam em evoluir ou dos que tenham ausência de intenção artística de todo.
Que me desculpem os puristas do mundo “indie” que pululam neste blog, mas a verdade é que X&Y é o melhor trabalho de Chris Martin e companhia até à data. Reconheço, todavia, que o quarteto britânico assume, em cada álbum, um cunho (cada vez) mais “popular” e é por isso que este disco apresenta, de uma assentada só, a maior solução e problema para aquela que agora é considerada a maior banda do planeta. Mas já aí iremos. Primeiro, a criação. Sob o signo dos cromossomas masculino e feminino, os Coldplay presenteiam-nos – nós, fãs, assumo – com uma autêntica compilação de hinos introspectivos, trauteados por uma voz depurada, com ecos do malogrado Jeff Buckley. A acompanhá-la, estão três músicos com outras armas, tecnicamente evoluídos, que sustentam a viagem que se inicia em… “Square one”. Juntos, estes quatro jovens, ex-estudantes universitários, produzem épicos perfeitos, onde a guitarra de Johnny é o suplemento de Chris, e o baixo de Guy a muleta para a cadência de Will. Surge “What if”. Martin no seu melhor, enamorado, um texto a fazer lembrar “Imagine” de Lennon sobre um piano “cheio”, que ressoa em “White Shadows” para atingir o seu máximo em “Fix You”. Esta é, sem dúvida, a melhor das 13 faixas que compõem o álbum, uma osmose musical entre “Politik” e “The Scientist” do anterior “Rush of Blood to the Head”, que, francamente, nos eleva a um estado… diferente. Melodia “catchy”, letra directa, e, novamente, os agudos eléctricos de Buckland no apoteótico final. Seguem-se “Talk” e “X & Y” e a sobrevalorizada “Speed of Sound”, o primeiro “single”, claramente por razões comerciais. Entre esta e “Clocks” a diferença é mínima, com prejuízo para a recente… Destacam-se, depois, “A Message”, “Hardest Plan” e “Swallowed in the Sea”, uma tríade monologa onde se notam, novamente, os avanços na voz de Martin, com um alcance claramente superior ao registado no “Parachutes”. Em todas elas, é o “eu sofredor” mas que nunca chega a ser entediante porque, convenhamos, a música/ linha melódica é, claramente, o grande trunfo dos londrinos. E, neste momento, esta capacidade de criarem os tais “anthems” só está nas suas mãos. Depois, o problema. De facto, os Coldplay estão, ipsis verbis do parágrafo inicial, (cada vez) mais “populares”. Isto deve-se ao tremendo sucesso de “Rush of Blood to the Head”: ficaram expostos a um vasto público, abriram-se-lhes as portas de estádios e os prémios internacionais. “X &Y” só vem comprovar o que atrás vem referido: número 1 em muitos becos do mundo, espectáculos esgotados – Pavilhão Atlântico estará à “pinha” – e o vislumbre de uma sucessão de “top-ten” em catadupa. Bom para eles e para quem gosta deles. Um senão. Ameaçam tornar-se nos novos U2, irlandeses em final de carreira (por favor), o que dá a crer, dado o lado humanitário de Chris Martin, que venhamos a ter, provavelmente, um novel representante dos fracos e oprimidos. Aborrecido, portanto. Bono Vox já há um, e, sinceramente, não precisamos de outro. Mesmo. O desafio que se coloca, então, aos “Coldplay” é... o álbum seguinte. Fugirão aos épicos e apresentarão um tom diferente, ou continuarão no mesmo trilho de sucessos? É que, uma coisa é ouvirmos alguém cantar sobre amor e busca de sucesso quanto se está antes dos 30 anos… outra coisa é ter 50 e os temas manterem-se. O futuro não nos pertence, mas pode ser que estejamos na presença da grande banda do milénio. Assim o queiram.
Ah, One, Two! Paul está de volta e que regresso este! Após quatro anos de interregno, período no qual nunca esteve parado, dado estar constantemente entre várias tournées, entrevistas e participando em outros projectos, onde se destaca a actuação no célebre Live8, organizado por Bob Geldof, Paul McCartney regressa na sua máxima força. Chaos and Creation in the Backyard é o nome da mais recente obra daquele que será sempre visto como um dos quatro fantásticos. O ano de 1997, por muito que possa ser o mais triste na vida de Paul, será também um dos mais felizes em termos musicais. Foi o ano da sua ressurreição para a música, que vinha, lentamente, a tornar-se moribunda com o passar dos anos, não se vislumbrando qualquer chama do enorme talento demonstrado pelo britânico em longas décadas da sua carreira. Nesse ano, o amor da sua vida, Linda, morre de cancro, deixando um enorme vazio em Paul McCartney, no entanto, musicalmente, o disco lançado nesse mesmo ano, Flaming Pie, traz de volta a acendalha de criatividade e um brilhozinho nos olhos de todos que sempre acreditaram que seria capaz de voltar ao seu melhor. A partir deste ano, nunca Paul foi tão forte musicalmente. Em tributo à sua falecida mulher, dois anos volvidos, Paul decide gravar um disco de temas da sua infância, juntando-lhe outros três, de sua autoria, do mesmo calibre musical. Rock'n'Roll "à antiga". Convidou alguns amigos, entre eles, David Gilmour, guitarrista de Pink Floyd. O álbum surge num ambiente descontraído e, de certa forma, feliz. Novamente, como é de seu timbre, Paul McCartney não ficou inactivo. Entre o lançamento de um disco de música clássica e novas experimentações na música electrónica, o Beatle preparava outro retorno ao mais alto nível. Enquanto o disco Driving Rain, de 2001, mesmo sendo um álbum relativamente bom, soube a pouco, dado o grande regresso com Flaming Pie, a tournée mundial, iniciada nos Estados Unidos, trouxe de volta os grandes espectáculos que Paul McCartney sempre fez questão de apresentar. Aliado a uma nova banda, composta essencialmente por gente bastante anos mais nova, Paul trouxe uma nova frescura e determinação aos seus concertos, sempre aliados a uma grande conjugação entre música e efeitos visuais, como se pôde constatar no Rock in Rio 2004. Enquanto isso, McCartney nunca esteve parado. Entre hotéis de vários países, escreveu canções como quem cozinha um prato. Em poucos minutos. Não foi de estranhar que Paul entrasse em estúdio para gravar um novo álbum. Os boatos e rumores começaram a correr, ainda mais sobretudo depois de se saber que Nigel Godrich, produtor aclamado de vários nomes sonantes como Radiohead ou Beck, estaria a ajudar ou mesmo a produzir, quase por completo, este novo disco. A explicação para esta estranha aliança entre Paul e Godrich encontra-se algures no passado. George Martin, antigo produtor dos Beatles e de Paul, aconselhou a este o jovem produtor, dado tratar-se de alguém que puxa pelos limites, costumando estar um passo à frente de outros produtores. Estaria Paul McCartney, alguém que não tem nada a provar e que decerto não estaria tão receptivo a opiniões vindas de outros elementos, preparado para "levar no pêlo" de Godrich? O resultado foi melhor do que se esperava. Muitos acharam que Paul estaria à procura de soar como os Radiohead, outros, e bem, acharam que Paul apenas não queria estagnar mas sim dar um passo em frente. Nigel Godrich fez a ponte entre a intimidade que Flaming Pie ou mesmo McCartney, de 1970, trouxeram e o som dos últimos anos dos Beatles, onde a parte instrumental sempre foi um ponto bastante forte. Chaos and Criation não é Beatles, não é Radiohead nem Beck. É Paul McCartney no seu melhor. Seguramente um dos cinco melhores álbuns da sua carreira a solo. Para isso foi preciso muita paciência e um pouco de mão pesada de Godrich em Paul, que não se atemorizou com o peso histórico deste, antes pelo contrário, ele propunha-se trazer Paul de volta ao sítio onde merece estar. Entre os mais criativos da música pop/rock. Músicas como Fine Line, Friends to Go (inspirada em George Harrison) ou Promise to You Girl surgem-nos logo como clássicos, logo à primeira audição. Temas bastante orelhudos e ricos instrumentalmente. Aliás, não será demais repetir que Paul toca praticamente todos os instrumentos neste álbum, incluindo flauta, tal como tinha feito em McCartney ou Flaming Pie. Jenny Wren surge-nos como uma continuação de Blackbird, mítico tema do Álbum Branco. Música bastante ao nível do que Paul faz melhor, uma guitarra, uma melodia e uma viagem pela letra. Sublime! How Kind of You, At the Mercy e Riding to Vanity Fair fazem lembrar alguns temas de Radiohead, mais concretamente dos discos Kid A ou Amnesiac, devido, sobretudo, ao modo como os acordes estão combinados e às suas constantes variações. English Tea leva-nos, tal como Honey Pie do White Album o fazia, a um tempo bem distante daqui, num qualquer jardim britânico onde se bebe um típico chá inglês ao som da leve brisa do vento. Um clássico. Too Much Rain parece querer ir ter ao encontro de John Lennon, com o seu Jealous Guy, no entanto, posteriormente varia para uma típica música de Paul. Simples e bela. Há também lugar para sons mais latinos com A Certain Softness que cantado em espanhol, certamente não ficaria nada mal. Ao todo são treze músicas que trazem um Paul McCartney ao seu melhor nível, com um lado mais intimista, onde a sua voz parece que parou em 1968. É um regresso bastante aclamado pela crítica em geral, havendo, por vezes, algum exagero que se tende a criar, dado tratar-se de um monstro sagrado da música, no entanto, a qualidade vem sempre ao de cima nos momentos mais importantes, e, para Paul McCartney de Liverpool, a oportunidade bateu à porta e ele não a enjeitou! Com 63 anos, e continuando tão criativo, e com vontade de evoluir cada vez mais, não se sabe onde parará este "jovem".