25 abril 2005

O Quarto Mundo

O conceito de “Quarto Mundo”, idealizado por Jon Hassell, transmite-nos uma ideia de que poderá haver uma área no nosso mundo que não apenas a visível e palpável.
Um mundo onde não houvesse os mais ricos e mais poderosos que se encontram no 1º mundo, nem as zonas mais pobres e oprimidas, vulgarmente chamadas de 3º mundo. Um mundo onde a situação espácio-temporal não tem um registo identificável. Um mundo onde a tradição ou civilização são marcas preponderantes. Este mundo não existe mas ao mesmo tempo está bem presente na música da nossa sociedade.
Ao misturarmos o som característico de uma qualquer tribo africana ou asiática com um som característico de outra região, seja um som recente ou secular, acabamos por criar algo que não pode ser taxado, ou seja, não podemos afirmar que este som é característico de uma certa zona, época ou estilo. Não estamos presentes perante a pop ou o rock ocidental nem tão pouco perante as canções milenares de tribos africanas, mas sim numa mistura de sons e tipos que, acabam por criar um mundo à parte. Este é o “Quarto Mundo”. Um espaço intemporal onde civilizações, estilos, épocas ou tendências se misturam criando um quadro que não se termina mas sim expande-se.

15 março 2005

A Música no Séc. XX



O século XX é o século da música tal como a conhecemos nos dias de hoje. É o século de todas as mudanças, quer a nível cultural, como civilizacional. Obviamente que uma coisa puxa a outra, nada nasce do nada, no entanto o acaso pode mudar muitas coisas.
Quando ligamos uma TV, quando mudamos de posto de rádio, quando pomos um disco que acabámos de comprar não estamos apenas a ouvir aquele instante, aquele som. Estamos a ouvir séculos e séculos de evolução humana em todos os níveis. A música, tal como a conhecemos nos dias de hoje, como todas as artes, faz parte da evolução humana, não é estanque e não é, sobretudo, temporal ou local. No entanto, isto nem sempre foi assim. Antes de Colombo ter partido para o Novo Mundo, Vivia-se um clima de culturas fechadas sobre si mesmas. O Oriente não influenciava o Ocidente e vice-versa, talvez exceptuando as invasões árabes na Península Ibérica onde deixaram marcas a vários níveis, tanto cultural como civilizacional. No entanto, com os Descobrimentos abriu-se uma porta imensa para a evolução da música, sem nunca sequer se ter feito nada directamente para que isso acontecesse. Foi, sobretudo, obra de todas a História do desenvolvimento humano.
Sendo assim, a evolução da música pode esclarecer-se a nível histórico. Com a descoberta do Continente Americano por parte dos navegadores Europeus, a senda humana da exploração e conquista de novos territórios esteve à vista. Ainda hoje o Homem procura essa senda no espaço.
Precisava-se então de expandir territórios, criar novas colónias no Novo Mundo. As tribos locais, pouco acostumadas a trabalhos pesados, não puderam servir como mão-de-obra para a construção de uma nova civilização. A resposta foi dada com o transporte negreiro de escravos africanos para o continente americano. Estes, já habituados a trabalhos forçados, adaptaram-se bem em terras coloniais. A ponte África-América foi longa e muito proveitosa para os Europeus. À primeira vista poder-se-ia pensar que apenas se estaria a falar de mais um texto histórico sobre os Descobrimentos, porém, é neste momento que a música, tal como a conhecemos hoje, dá o primeiro passo. Não foram apenas os Negros que viajaram para o continente americano. Estes escravos levaram toda a sua cultura para o novo mundo, incluindo, obviamente, a sua musical tradicional, de um cariz tribal, muito marcada pelo ritmo, embora parecendo desconexo ao ouvido de um ocidental, fazendo-a atravessar léguas e léguas sem se precisar de Internet, TV ou Rádio.
Ora, tal como os escravos levaram a sua cultura, também os Europeus a levaram, tal como a sua música, caracterizada por um estilo muito certinho e “limpinho”, ao contrário da africana.
Estes fluxos migratórios sucederam-se durante vários anos, intensificando-se a partir do final do Séc. XIX, dada a crise que se vivia em alguns pontos da Europa, sobretudo na Irlanda.
Assim, aos poucos, as diversas culturas foram-se aproximando, o que fez com que a própria música se fosse misturando, fazendo com que cada ponto colonial tivesse o seu próprio panorama musical, tão longe e tão perto um dos outros.
Assim nasceu o Samba, o Tango, a Cumbia, o Mambo, o Vudu ou o Reggae.
Muitos destes sons viajaram para os Estados Unidos influenciando outros estilos musicais que aí se tinham imposto, tal como o Jazz, voltando outra vez para as colónias já com um som completamente distinto.
Porém, é nos Estados Unidos que a música dá o salto final para que hoje oiçamos toda a música que nos rodeia.
O Blues, esse espírito tão próprio do sul dos Estados Unidos, teve obviamente a ver com a questão da escravatura, sobretudo nos campos de algodão e da permanente perseguição aos negros por parte de grupos racistas tal como os KKK. O Jazz, tem tudo a ver com os ritmos, supostamente desordenados, dos ritmos africanos. O Rock’n’Roll, surgido nos anos 50, por negros e mais tarde aculturado por ícones brancos, como Elvis, nasce da electrificação dos instrumentos e torna-se no primeiro grande movimento juvenil que traz a revolução na música do Séc. XX. São estes primeiros Rockeiros dos anos 50, como Fats Domino ou Little Richard que vão influenciar miúdos ingleses, desejosos de sons quase proibitivos. Entre estes míudos encontravam-se os Beatles, que, ao conseguirem introduzir a música inglesa, de origem americana, nos Estados Unidos vão continuar essa tal revolução que se estava a passar. A música já tinha viajado ida e volta várias vezes durante estes séculos, sempre em constante mutação.
A partir dos anos 60, a abertura da música Ocidental a outras culturas, como a Oriental, com o caso dos Beatles, outra vez, a irem buscar sons à Índia, fazendo a música cada vez se tornar mais una e colectiva. Daí podermos falar de uma identidade colectiva em relação à música. Ela construiu-se e modificou-se com o contacto entre os vários povos e as várias culturas. Ela não nasce do nada, há sempre algo por trás. Acontecimentos políticos, culturais ou apenas circunstanciais fazem com que pessoas ou povos se aproximem e partilhem as suas tradições, fazendo que, por vezes, essas tradições se misturem e criem uma só. É essa a História do Homem desde os tempos primórdios. Sozinho não sobreviveria. Obviamente que haverá sempre culturas típicas, no entanto todas elas já foram tocadas por algo vindo do exterior, sendo que, nos dias de hoje isso é cada vez mais visível. A velocidade de informação permite-nos ter acesso a sons ou imagens que nunca poderíamos provavelmente ter acesso.
A história da música do Séc. XX foi esta, a do Séc. XXI promete ainda ser mais culturalmente abrangente.

17 fevereiro 2005

Loto - The Club (2004)

RECICLA MÚSICA E VIVERÁS!

Factory, Manchester, Agosto de 1984, batidas palpitantes, sintetizadores electrizantes e luzes delirantes fazem o público vibrar. Os New Order faziam-se sentir.
Clinic, "Madbaça", Agosto de 2004, batidas palpitantes, sintetizadores electrizantes e luzes delirantes fazem o público vibrar. Os Loto fazem-se sentir.
The Club, primeiro álbum dos portugueses Loto faz sentir-nos algures nos anos oitenta a dançar à maluca, certamente já meio alterados, a altas horas da noite.
Há certamente grandes semelhanças entre o som dos Loto e o dos New Order, as influências são imensas mas nem por isso estaremos a falar de uma cópia. Os Loto são mais que isso. São uma mistura entre a disco pop dos anos 80 em que figuravam nomes como os New Order mas também os Depeche Mode ou os Duran Duran mas vão buscar também influências aos anos 90 com Beck, Blur, altura do Girls & Boys, Air e Daft Punk.
Não estamos a falar de uma grande inovação no estilo de música mas é salutar observar que a Pop nacional está a aparecer e isso notou-se também com o surgimento de Gomo.
É, certamente, um álbum bem conseguido, alegre que nos faz sempre lembrar (ou não) uma bela noite a vibrar ao som de músicas como "Back to Discos", "The Club" ou "The Boy".
Como os próprios o afirmam, recicla música e viverás...

Os Melhores Álbuns ao Vivo

1 - Made in Japan - Deep Purple (1972)
2 - How the West Was Won - Led Zeppelin (2003)
3 - Live After Death - Iron Maiden (1985)
4 - Live at the Budokan - Cheap Trick (1979)
5 - Live in Lisbon 23.05.2000 - Pearl Jam (2000)
6 - Live at Leeds - The Who (1970)
7 - Frampton Comes Alive - Peter Frampton (1976)
8 - Ummagumma - Pink Floyd (1969)
9 - Live Killers - Queen (1979)
10 - Get Yer Ya Yas Out - The Rolling Stones (1970)
11 - Absolutely Live - The Doors (1970)
12 - Live in the Heart of the City - Whitesnake (1980)
13 - Live Bootleg - Aerosmith (1978)
14 - If You Want Blood You Got It - AC/DC (1978)
15 - MTV Unpplugged Live in New York City - Nirvana (1994)
16 - S&M: Live Shit - Metallica (1993)
17 - Alchemy: Dire Straits (1983)
18 - Live From Mars: Ben Harper & The Innocent Criminals (2001)
19 - Live in London: Steve Vai (2001)
20 - I Might be Wrong: Radiohead (2000)
21 - Strangers in the Night: UFO (1978)
22 - Rock n Roll Animal: Lou Reed (1974)
23 - Unplugged: Alice in Chains (1996)
24 - Live at the Olympia: Jeff Buckley (1997)
25 - One More From the Road: Lynyrd Skynyrd (1976)
26 - The Royal Albert Hall Concert - Bob Dylan (1998)
27 - Wheels of Fire: Cream (1968)
28 - Welcome Back My Friends to the Show That Never Ends - Emerson; Lake & Palmer (1974)
29 - Right Here, Right Now - Van Halen (1993)
30 - Seconds Out - Genesis (1977)
31 - Paris - Supertramp (1980)
32 - Live at Luther College - Dave Matthews & Tim Reynolds (1999)
33 - Irish Tour 74 - Rory Gallagher (1974)
34 - No Sleep Til Hammersmith - Motorhead (1980)
35 - It´s Alive - The Ramones (1977)
36 - Santa Monica 72 - David Bowie (1983)
37 - Live Rust - Neil Young & Crazy Horse (1979)
38 - Wings Over America - Paul McCartney & Wings (1976)
39 - Live 75 -85 - Bruce Springsteen & The E Street Band (1986)
40 - Band of Gypsys - Jimi Hendrix (1969)
41 - 4 Way Street - Crosby, Stills, Nash & Young (1971)
42 - Alive - Kiss (1975)
43 - Live at The Fillmore East - The Allman Brothers Band (1971)
44 - Under a Blood Red Sky - U2 (1983)
45 - Live - Bob Marley & The Wailers (1975)
46 - Live Era 87 - 93 - Guns n Roses (1999)
47 - Yessongs - Yes (1973)
48 - Exit...Stage Left - Rush (1981)
49 - Live & Dangerous - Thin Lizzy (1978)
50 - Reunion - Black Sabbath (1998)

16 fevereiro 2005

Os Melhores Guitarristas Rock de Sempre

Amigos "altamontianos"! Só para espicaçar um pouco as coisas aqui vai um top 50 dos meus melhores de sempre nas 6 cordas...com as respectivas melhores canções e álbuns!! Aceitam-se sugestões e comentários...
1 - Jimi Hendrix: Purple Haze - Are You Experienced? (1967)
2 - Eric Clapton: Layla - Layla & Other Assorted Love Songs (1970)
3 - Jimmy Page: Whole Lotta Love - Led Zeppelin II (1969)
4 - David Gilmour: Confortably Numb - The Wall (1979)
5 - Ritchie Blackmore: Highway Star - Machine Head (1972)
6 - Kirk Hammett: One - And Justice for All (1988)
7 - Jeff Beck: Freeway Jam - Blow by Blow (1975)
8 - Steve Vai: For the Love of God - Passion & Warfare (1990)
9 - Tony Iommi: War Pigs - Paranoid (1970)
10 - Eddie Van Halen: Eruptions -Van Halen (1978)
11 - Stevie Ray Vaughan: Little Wing - The Sky is Crying (1991)
12 - Frank Zappa: My Guitar Wants To Kill Your Mama - Weasels Ripped My Flesh (1970)
13 - Mike McCready: Alive - Ten (1991)
14 - Steve Howe: Starship Trooper - The Yes Album (1971)
15 - Pete Townshend: We Won´t Get Fooled Again - Who´s Next (1971)
16 - George Harrison: Taxman - Revolver (1966)
17 - Randy Rhoads: Crazy Train - Blizzard of Ozz (1980)
18 - Joe Walsh: Hotel California - Hotel California (1976)
19 - Carlos Santana: Soul Sacrifice - Santana (1970)
20 - Ace Frehley: Shock Me - Kiss Alive II (1977)
21 - John Sykes: Still of the Night - Whitesnake 1987 (1987)
22 - Gary Moore: Walking By Myself - Still Got the Blues (1990)
23 - Peter Green: The Green Manalishi - Then Played On (1969)
24 - Alvin Lee: I´m Going Home - Woodstock (1970)
25 - Joe Satriani: Satch´s Boogie - Surfing with the Alien (1988)
26 - Robbie Krieger: The End - The Doors (1967)
27 - Neil Young: Down by the River - Everybody Knows This is Nowhere (1969)
28 - Alex Lifeson: Spirit of Radio - Permanent Waves (1980)
29 - Brian May: Now I´m Here - Sheer a Heart Attack (1974)
30 - Angus Young: Thunderstruck - Razor´s Edge (1990)
31 - Keith Richards: Sympathy for the Devil - Beggar´s Banquet (1968)
32 - Tom Morello: Killing in the Name - Rage Against the Machine (1993)
33 - Mick Ronson: Hang On to Yourself - Ziggy Stardust (1972)
34 - Smells Like Teen Spirit: Kurt Corbain - Nevermind (1991)
35 - Slash: Sweet Child O Mine - Appetite for Destruction (1976)
36 - Mark Knopfler: Money for Nothing - Brothers in Arms (1985)
37 - Steve Morse: Take it Off the Top: What If (1978)
38 - Yngwie Malmsteen: Far Beyond the Sun - Rising Force (1984)
39 - Mike Oldfield: Part One - Tubular Bells (1973)
40 - Steve Hackett: Firth of Fifth - Selling England by the Pound(1973)
41 - John Mclaughlin: One Word - Birds of Fire (1973)
42 - Duanne Allman: Whipping Post - Live at The Fillmore (1971)
43 - Syd Barrett: Astronomy Domine - The Piper At The Gates of Dawn (1967)
44 - Tommy Bolin: Post Toastee - Private Eyes (1976)
45 - Joe Perry: Walk this Way - Toys in the Attic (1975)
46 - Steve Jones: Pretty Vacant - Never Mind the Bullocks (1977)
47 - Jerry Garcia: Dark Star - Live Dead (1969)
48 - Marty Friedman: Hangar 51 - Rust in Peace (1990)
49 - Adrian Smith: Wasted Years - Somewhere in Time (1986)
50 - Robert Fripp: 21 st Century Schizoid Man - In The Court of The Crimson King (1969)

11 fevereiro 2005

Smoke on the Water: The Deep Purple Story - Part III

Primavera de 1976. Os fundadores da banda Jon Lord e Ian Paice ao fim de 8 anos de árduo trabalho, 40 milhões de discos vendidos e quatro mudanças de formação anunciavam o fim dos Purple. Razões musicais invocavam os dois veteranos...
Porém David Coverdale, alguns meses mais tarde após a morte de Tommy Bolin (em Dezembro de 1976) por overdose de heroína explicava o porque do afastamento ao jornal New Musical Express: "Quando pertences a uma banda com o dinheiro e a fama dos Purple, perdes um bocado o sentido da realidade...achas que tudo te é permitido...incluído as grupies, as drogas, as tournées mundiais, o dinheiro...aquilo era 24 horas, 7 dias por semana! Parecia irreal...mas a a parte má é quando acordas um dia e vês a foto de um amigo como o Tommy Bolin, morto num hotel por overdose de heroína! Foi por isso que eu me afastei...Tommy mesmo depois da separação não soube parar com esse estilo de vida! Era um viciado...se calhar eu teria acabado da mesma maneira se tivéssemos continuado mais 6 meses..."
Em 1977, em pleno período Punk, surgem no mercado os primeiros projectos a solo: Lord e Paice juntam-se ao vocalista Tony Ashton no grupo PAL; Glenn Hughes publica o funky "Play Me Out" e David Coverdale forma os lendários Whitesnake. Estes últimos, de todas as bandas nascidas pela morte dos Purple, foram sem dúvida o projecto com mais sucesso.
Foi preciso esperar mais uns anitos para que o interesse no Hard Rock voltasse a crescer e com ele a chama dos Deep Purple. Em 1980 um empresário sem escrúpulos juntou Coverdale e Blackmore na mesma sala e ofereceu-lhes 5 milhões de dólares se voltassem a tocar juntos sob o nome de Deep Purple acompanhados por músicos desconhecidos (e baratos). Na altura, tantos os Whitesnake como os Rainbow vendiam milhões de discos e enchiam qualquer sala. Tanto um, como outro acharam um insulto a proposta do dito empresário.
Contudo, o maldito empresário não desistiu facilmente. Foi bater á porta do primeiro vocalista da banda Rod Evans, na altura estudante de medicina na Universiade da Califórnia e convencendo-o de que ele com mais uns músicos baratos podiam voltar a tocar sob o nome Deep Purple.
Uma digressão pelo continente Norte-americano foi rapidamente marcada. A notícia caiu que nem uma bomba entre os media - "Os Purple estavam de volta" - milhares de bilhetes esgotavam em minutos. O pano ainda estava por cair...
O primeiro concerto estava marcado para Abril de 1980 no prestigiado Los Angeles Forum. Às 9 em ponto apagam-se as luzes, e a "pseudo-banda" entrava em palco ao som de "Highway Star"...parecia um sonho. Mas em minutos a fantasia de ver os Purple juntos deu lugar ao pesadelo. Os músicos estavam mal ensaiados, o som não prestava e já ninguém se lembrava de Rod Evans. Não tardarem em chover os assobios, os pedidos de devolução dos bilhetes e os tomates...
Em Inglaterra, os restantes membros da banda ao saberem dos esquema fraudulento da banda de Evans e do seu malvado empresário deram entrada com um processo no Supremo Tribunal Norte-americano para por fim à palhaçada.
No final do julgamento Rod Evans foi humilhado pelos seus antigos colegas e foi obrigado a pedir desculpas publicamente. Quanto ao dito empresário, a prisão e a restituição do dinheiro ganho fizeram-lhe melhor justiça...
Após este aparatoso episódio, não tardou a que Ian Gillan e Ritchie Blackmore se voltassem a juntar a Roger Glover, Jon Lord e Ian Paice em 1984 para um verdadeiro regresso dos Purple à ribalta...
(continua...)

10 fevereiro 2005

The Coral - Nightfreak and the sons of Becker (2004)

OS FILHOS DE BORIS BECKER

Nightfreak and the Sons of Becker é a história do patinho feio que se tornou cisne. Não é um álbum dito oficial, pois nem sequer foi considerado um álbum, antes mais um mini-álbum, um bonus-cd do segundo disco de originais da banda, Magic and Medicine. Banda essa que, para quem ainda não sabe, tem o nome The Coral, originária dessa terra tão prolífera, Liverpool, e é composta por 6 amigos, malta amiga lá do bairro, supostamente todos filhos ilegítimos de Boris Becker que agora se vingam do próprio fazendo shows em todo o lado. Ora, este tal de mini-álbum, "apenas" composto por 11 faixas, gravado somente numa semana, conseguiu a incrível façanha de se equiparar aos seus irmãos álbuns, oficialmente lançados pela banda. Apesar do seu som ser muito influenciado por bandas dos anos 60 ou 70, com um ar muito psicadélico mas não só, os The Coral pegam também em sons recentes, criando um estilo muito próprio. São também muito experimentalistas, utilizando uma variedade notável de instrumentos nos seus temas, tornando-os muito diferentes de outras bandas. Nightfreak and the sons of Becker vem ao encontro disto mesmo. Podendo pensar-se que estaríamos na presença de temas esquecidos de álbuns anteriores, deparamo-nos com um disco de eleição, certamente merecedor de álbum oficial e não o tal patinho feio. O disco realmente vale por si, sendo que músicas como "Precious Eyes", "Song of the Corn" e "Keep me Company" fazem a cereja em cima do bolo. Um "álbum" a não perder.

08 fevereiro 2005

Sonic Nurse



No final dos anos setenta ninguém se importava de morar em Nova Iorque, a América vivia tempos apáticos, de ressaca dos anos sessenta, e foi então que um movimento artístico, avant-garde, enclausurado na insanidade individual, subitamente habitou o bairro de Lower East Side e ficou conhecido como NO WAVE (por oposição à popular New Wave). Do nada, proliferaram bandas interessadas no extremo, na anarquia, na experimentação ruidosa, conferindo a Nova Iorque uma paisagem apocalíptica, avassaladora. O No Wave explorou a anarquia e amadorismo do punk-rock britânico, mas abordou-o dum ponto de vista demencial transformando-o num jogo cubista interior, rejeitando todas as fórmulas rítmicas do rock and roll, uma amalgamação de free jazz, auto-destruição, caos paródico, ruído e silêncio, a nota errada na altura certa, a dissonância (rítmica?) enquanto técnica, a ausência da técnica.
Apesar de nenhum dos artistas do No Wave alguma vez ter tido sucesso junto de públicos mais amplos (o extenso fecundo trabalho de Lydia Lunch, que pudemos ouvir recentemente na Galeria ZDB e as deambulações do brasileiro Arto Lindsay serão ténues excepções), as suas influências repercutiram-se em vários artistas como os The Residents, The Birthday Party e os Sonic Youth, que transportaram o No Wave pelos anos oitenta adentro e ainda hoje conseguimos sentir a reverberação do movimento novaiorquino nas dissonâncias abrasivas de vários artistas.
Os SONIC YOUTH, juntos desde 1981, emergiram deste palco americano, conseguindo fundir a cacofonia distorcida com as meditativas explorações sonoras do compositor Glenn Branca, adicionando uma estrutura melódica ao som, e tornaram-se numa das bandas mais influentes e inovadoras do seu tempo.
Depois de vinte e três anos de criatividade sónica, de experimentação e inconformismo, lançam em 2004 o décimo-nono albúm, Sonic Nurse. Supondo que não conseguirei dizer nada que lhe seja justo, arrisco dizer que se trata de um trabalho de certo modo amadurecido em relação aos anteriores, o culminar de uma antiga busca da melodia, reinventando-a, ditando-a. Brilhante.
Vão simplesmente até ao site sonicyouth.com e ouçam a sua inefável beleza; valerá mais que mil palavras.

06 fevereiro 2005

3 Anos de Amor e Morte



“Please Allow me to introduce myself, I’m a man of wealth and taste...” vociferava um alucinado Mick Jagger enquanto em seu redor, se dava a machadada final, quase literalmente, na geração Paz e Amor. Era o fim da inocência...
“This is the beat generation” afirmava, duas décadas antes, Jack Kerouac ao descrever o seu círculo social. Era o surgimento de uma nova corrente, um estilo diferente, claramente associado aos artistas e escritores boémios e consumidores de droga.
O conceito de Beat Generation era apenas este: liberdade criativa e espontânea. Daqui saíram obras primas como Howl de Ginsberg ou On the road do próprio Kerouac.
O seu interesse na experimentação, nomeadamente nas drogas e sexo, aliado à confrontação à autoridade influenciaram muitos que sentiram estar aí a resposta, surgindo, nomeadamente nos anos 60, aquilo a que se acabou por chamar de uma contra-cultura. Uma oposição ao sistema, especialmente por parte da população jovem.
O mundo estava a mudar, Kennedy era assassinado em Dallas enquanto Martin Luther King tinha o “Sonho” de ver uma America livre de preconceitos. Estávamos no auge da Guerra Fria, o perigo nuclear era iminente e os USA invadiam o Vietname.
Com estes acontecimentos todos, uma derivação da tal contra-cultura apareceu. “All you need is love” cantavam estes jovens um pouco por todo o mundo, mas essencialmente em Inglaterra e USA.
Estávamos em 1967 e vivíamos o auge da geração Hippie. O infame Summer of Love, que não era mais que uma descrição de todo o sentimento que se vivia em San Francisco durante esse Verão.
Influenciados por uma nova mentalidade, tanto cultural, como musical e até de drogas e por Timothy Leary, famoso médico que incitava à experimentação de ácidos, como o LSD, milhares de jovens amontaram-se em Haight-Ashbury, em San Francisco, para apenas partilharem o seu gosto pela vida, pelas drogas, pela experimentação e sobretudo para tentar mudar o mundo. Exemplo maior disso terá sido a aglomeração de hippies em frente ao Pentágono norte-americano em claro movimento contra a guerra do Vietname. Estes jovens pretendiam levantar, apenas com a força da mente, o tal edíficio militar.
Albuns como Sgt Pepper’s dos Beatles, Pet Sounds dos Beach Boys ou Surrealistic Pillow dos Jefferson Airplane tiveram enorme influência nestes jovens. Eles acreditavam que seria possível mudar o mundo apenas com Paz e Amor, sendo o maior exemplo disso o festival que se realizou dois anos depois no estado de Nova Iorque. O Woodstock Festival. “An Aquarian Exposition with an arts fair, crafts and food”. Três dias de Paz e Música, assim prometia o cartaz. Pois bem, o festival que hoje todos conhecemos por ter sido um marco único na história, de milhares e milhares de jovens amontoados em frente ao palco até ao fugir da vista, não pretendia ter sido o que foi. Começou por ser um festival supostamente pago para cerca de dez mil a vinte mil pessoas, havendo realmente gente que pagou o seu bilhete. 400 mil migraram de várias partes dos USA, invandindo e fazendo transbordar todo o recinto destinado ao evento.
Não havia condições mínimas para tamanho número de pessoas. Para piorar o cenário chovia copiosamente. Muitos temeram o pior. A mistura de álcool, droga e a própria aglomeração de tanta gente convidava à violência e à tragédia. Não aconteceu.
Debaixo de um dilúvio, milhares e milhares de pessoas, muitas apenas como vieram ao mundo, dançavam e abraçavam-se, tentando atingir o sentido da vida ou apenas o conforto da existência humana. Isto tudo ao som de uma banda sonora composta por gente tão ilustre como Joe Cocker, Creedence Clearwater Revival, Crosby, Stills, Nash and Young, Jimi Hendrix, Jefferson Airplane, Janis Joplin, Santana ou os The Who.
O Woodstock foi um hino à geração hippie, onde se acreditou que tudo seria possível, apenas acreditando no poder da mente e na harmonia entre os homens, não havendo nada de cliché nesta afirmação. Era realmente o espírito da população jovem daquela época.
Talvez motivados por os Beatles estarem em vias de se separarem, os Rolling Stones sentiram estarem no topo do mundo. Resolveram então fazer eles próprios o seu “Woodstock”. Em Dezembro desse mesmo ano, 1969, tentaram realizar um festival que contava com bandas como os Grateful Dead ou os Jefferson Airplane, estes últimos estavam em todas, personificando fielmente o retrato hippie daquela altura. Com várias dificuldades para conseguir arranjar um bom sítio para o festival, os Stones apenas conseguiram, praticamente em cima da hora, com prenúncio de cancelamento por parte dos organizadores, arranjar um lugar para o dito evento. Altamont Speedway era o seu nome. Como seguranças foram contratados os motoqueiros Hells Angels. Formados em 1948 na California, os Hells Angels retiraram o seu nome do famoso filme com o mesmo nome, realizado por Howard Hugues, personificado por Leonardo di Caprio, em The Aviator, realizado por Scorsese.
Convém referir que este grupo de motoqueiros esteve sempre relacionado com roubo, violações, racismo ou assassínio. A sua mota era mais importante para si do que qualquer outra coisa no mundo.
Diz-se que apenas por 500$ em cerveja, os Hells Angels aceitaram ser os seguranças do concerto.
Por estar tão perto e tão baixo, o palco era constantemente invadido por jovens loucos que queriam estar ao pé dos seus ídolos. Claramente alcoolizados, os violentos motoqueiros começaram por tratar do assunto à sua maneira. Tacos de snooker e soqueiras incluídas, tudo valia para pôr ordem no espaço. Até membros dos Jefferson Airplane foram agredidos por estes Hells Angels. A confusão reinava muito antes dos Stones terem subido ao palco. Quando se pensava que tudo estaria sob controle, qualquer pequena querela reacendia o rastilho dos seguranças, que não tinham qualquer problema em espancar quem quer que fosse. O caos estava lançado. Não estávamos de facto em Woodstock.
Quando chegou a vez de os Stones entrarem em palco, a situação estava completamente descontrolada, então Mick Jagger tentou dar a performance da sua vida para se fazer o centro das atenções e terminar os tumultos. Até que, durante a alucinante performance de Jagger em Sympathy for the devil, os tumultos recomeçaram, tendo-se passado algo muito grave, pois rapidamente foram chamados médicos e ambulâncias. Um afro-americano tinha sido esfaqueado e pontapeado por elementos dos Hells Angels. Acabaria por falecer no Hospital mais tarde.
A machadada na dita contra-cultura e na geração hippie tinha sido dada e de repente o festival de Woodstock parecia ter sido há imenso tempo.
“Pleased to meet you, hope you guessed my name”. No mínimo irónico…