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17 março 2010

Owen Pallett - Teatro Maria Matos - 11.03.2010


(fotos by Du, texto by Alex)

Owen Pallett @ Teatro Maria Matos, 11.03.2010

Vou começar a crónica deste concerto pela primeira parte. Só na altura descobri que iria haver uma primeira parte, e penso que no concerto do dia anterior tal não tinha ocorrido. Uma banda de nome Ava Infari. A grande maioria das pessoas não gosta das primeiras partes, mas eu por acaso nutro alguma curiosidade. Tento perceber o que fez com que esta banda tenha conseguido este slot, com a convicção de que o artista principal tenha tido algo a ver com aquilo. Pois bem, na passada 5ª feira esta minha ideia foi estilhaçada por um grande erro da casting de alguém (e não me pareceu ser do Pallett, que no seu concerto até gozou com a coisa) que decidiu colocar uma banda de metal doom gothic a abrir este concerto. Seria de chorar a rir, não fosse a total ridicularidade da coisa. 1/3 da sala levantou-se e saiu. Outros conversam a alta voz, ouviam iPods. Desconexão total. Uma tristeza (falarei sobre esse mundo paralelo que é o metal num post futuro).

Bem, vamos ao que interessa: Owen Pallett. Pois muito bem - foi um excelente concerto. Mais uma noite que a memória não esquecerá, pelas maravilhosas canções que nos remetem para um universo imaginário onde tudo pode acontecer. Já não é um one man show, uma vez que se faz acompanhar em vários momentos por Thomas Gill que ajuda (dentro da sua notória timidez) com voz e percussão. Mas é Pallett que controla tudo, o seu violino, a sua voz (voltando a iniciar a música quando não sai quando ele quer), o seu sampler e o seu pequeno órgão e com todas estas peças monta o puzzle que é cada uma das suas músicas. Tudo combinado em melodias pop únicas, com devida interacção com o público, partilhando o seu gosto pelo queijo português, sentindo-se bastante à vontade na cidade que segundo o próprio foi onde escreveu grande parte de "Heartland", o seu mais recente álbum, e naturalmente também o mais tocado. "Keep the Dog Quiet", "Flare Gun" e "This Lamb Sells Condos", com toda a sua intensidade, acompanharam-me desde que saí da sala até casa e no dia seguinte. O violino aparecia, depois juntava-se a voz e assim passei o dia, dividido entre o universo Pallettiano e o mundo real. E soube muito bem.  

16 março 2010

Ölga - Teatro Aberto - 13.03.2010


Por incrível que pareça, e apesar de seguir esta banda há já uns bons 6 anos, nunca tinha conseguido ir ver um concerto deles. Ia sempre seguindo o site, atento às (poucas) datas dos concertos (sintomático da aposta que (não) é feita nas bandas nacionais) e cada vez que aparecia uma oportunidade, acabava logo esmagada pela minha impossibilidade por algum motivo. Por isso, foi com grande ansiedade que esperei por este concerto, que teve como motivação adicional o facto de ser o lançamento do novo EP da banda, denominado "Samurai". E tenho a dizer que esteve à altura das minhas expectactivas, deram um concerto bastante competente, e que entusiasmou as 170 pessoas entre fãs e amigos que lá foram conhecer o novo registo, que no fundo representa a 2ª parte de uma trilogia, iniciada com o álbum do ano passado, "La Résistance". A evolução da banda de terrenos no pós-rock de início de carreira para um indie rock psicadélico actualmente tem sido bem cimentada e no palco estão bastante à vontade em qualquer tema, tendo inclusivamente deixado para o final uma música para dançar (não fosse o facto de haver cadeiras e assim seria, vontade não faltou) ao som de "Paul Simon", música virada para o ritmo do cantor que dá nome à música. "Take Us All", "Money" e "Elephants" também foram momentos altos da noite, com a devida intensidade e bem acompanhados pelo trabalho de projecção de Miguel Lopes, que providenciou um bom ingrediente para acompanhar o concerto. Deixou vontade para os ver novamente, assim que a oportunidade surgir!

15 março 2010

Yo La Tengo - Aula Magna - 14.03.2010

(fotos by Du, texto by Alex)

A vontade de fazer aqui estas análises do concerto leva-me a ir pensando no que escrever no dia seguinte sobre o mesmo. E a grande palavra que me veio à cabeça para definir este concerto e a própria banda foi versatilidade. Por um lado versatilidade dos elementos da banda, acaba uma música e troca tudo, o guitarrista (Ira Kaplan) passa para os teclados, a baterista (Georgia Hubley) passa para a guitarra e o baixista James McNew para a voz. Outra música, outra mudança. Todos tocam um pouco de cada instrumento, facto a que não será alheia a experiência acumulada ao longo dos 25 anos de carreira que já levam. Por outro lado, versatilidade no próprio som da banda, é impossível colocar-lhes um rótulo. Num concerto (e também num álbum) de Yo La Tengo temos momentos lo-fi, momentos de guitarras frenéticas, momentos acústicos, momentos dançaveis. E saltamos de um para outro com a maior naturalidade do mundo, porque realmente faz sentido para quem sabe tocar várias cordas. Foi uma noite também marcada pelo momento "No you won't..." frase proferida por McNew ao aperceber-se do que estava Kaplan a preparar, nada mais nada menos do que uma música tocada sentado na confortável cadeira da 1ª fila. São pequenos momentos como este que nos fazem lembrar dos concertos que assistimos!

O setlist foi mais focado no álbum mais recente, "Popular Songs", como seria de esperar, o que para mim foi uma boa opção dado que já conheço bem os últimos 3 álbuns e estou a descobrir pouco a pouco os mais antigos. O rock forte em "Nothing to Hide", as baladas "I'm on My Way" e "Avalon or Someone Very Similar" e a mais pop "Periodically Triple Or Double" que abriu o concerto, junto com a "Our Way to Fall" foram para mim os momentos mais altos. Se bem que aquela devastação de som, guitarras desafinadas, teclados que compõem "The Story of Yo La Tango" (não é gralha, é mesmo Tango), antes do primeiro encore foi algo de estonteante.

Deixo aqui a memória de um post altamont relacionado com esta banda. Algo para a posterioridade. Whatever that is...

04 março 2010

Diabo na Cruz - São Jorge - 03.03.2010



Boa noite nós somos o diabo na cruz, diz o Jorge, também cruz, nas boas vindas ao São Jorge. Muita gente, sala quase esgotada, para ver o primeiro grande concerto em Lisboa.
O grupo é o Jorge Cruz, Bernardo Barata, B Fachada, João Gil e João Pinheiro, cada um deles já com trabalhos e vários anos de música. A música que fazem está entre o rock punk e o lore, folclore, tradição lusitana. Alguém classificou esta banda como "quinta do bill meets zeca afonso". Também é uma boa definição. Há várias definições, mas isso não é o que interessa. Interessa sim o som que resulta dali, músicos com passados e contextos musicais diferentes, com uma ideia mais ou menos definida, e com o firme pensamento de Há Meninas à Espera Vamos Lá Pôr Isto a Andar.
Já conhecia o disco, e já tinha visto ao vivo no Musicbox, mas o concerto de ontem superou tudo isso. Tocaram músicas novas, e também as do disco, donas ligeirinhas e afins, e mostraram que estão aí, chegaram.
Pelo que me pareceu ontem, este diabo pode ir longe, tem o potencial para se tornar um caso sério. Pegam na tradicionalidade lusitânica juntam-lhe guitarras frenéticas, umas teclas versáteis - às vezes fazia lembrar "Riders on the Storm", outras lembrava quase Daft Punk. A bateria é a convencional, mas depois tem um enorme bombo, rufo, cujo som faz lembrar tempos medievais.
E o som que do palco sai às vezes leva-nos a esses tempos, idade média, tiro com arco, bobos da corte..
Essa lusitanidade é muitas vezes transformada em puro rock, seattle anos 90, londres anos '70, '80, 2030...
O que me faz elevar o diabo na cruz a superbanda é não só a qualidade e a agradibilidade da música, mas também é a versatilidade, não se fecham num só conceito, e querem inovar. Mesmo que não inovem na música em geral - eu acho que sim, poucas coisas terei ouvido na vida que me soassem assim - inovam na sua música. No concerto de ontem percebi isso com duas ou três músicas novas.
Deixo, portanto, a recomendação de uma boa banda, um bom projecto, que pode vir a bem maior e deixar marca.

22 fevereiro 2010

US Girls + Real Estate - ZDB - 19.02.10


À entrada para este concerto, e enquanto mostrava os bilhetes para entrar, o mesmo porteiro que me permitiu passagem barrava 5/6 pessoas derivado de estar lotação esgotada. Fiquei algo surpreendido com este facto, afinal de contas os Real Estate são uma banda bastante recente, tendo lançado o seu primeiro álbum no final do ano passado, mas serve para provar que temos público que está ao corrente do que se passa no mundo da música.
Subindo as escadas, passando o bar e o pequeno pátio, começamos a ouvir uns sons estranhos. Um arranhar de um qualquer instrumento, uns berros, mas ninguém no palco. Pensava eu. Estava lá agachada, à volta de uma caixinha de música e agarrada ao microfone não as, mas a U.S. Girls. Uma banda de elemento só que muito berrou ao microfone, muito mexeu na sua caixinha, mas espremendo bem a coisa, a meu ver pouco sumo de lá saiu.
Quando os Real Estate subiram ao palco já o espaço era diminuto para os nossos braços, quanto mais para tentarmos acompanhar o ritmo da banda. A sua "onda" que é descrita pela wikipedia como "psychedelic surf pop", começou numa toada calma, à medida do que é o seu album homónimo, mas que pensei que ao vivo fosse um pouco mais animado. Alguma interacção com o público, constantando o facto de serem de New Jersey, de aquela ser a última noite da tour europeia, pedindo até voluntários para lhes dar um tour de Lisboa. E depois lá arrancavam com mais uma música, embalando o público. O melhor para mim foi mesmo o final. Na última música e nas duas do encore a energia subiu um pouco mais, quiçá pelo sentir que se aproximava mesmo o final da tour, e puxaram um pouco mais pelas guitarras e o ritmo foi mais animado. "Fake Blues", a música que vos deixo aqui abaixo, foi para mim o ponto alto do concerto que foi engraçado de ver e ouvir, mas do qual senti que poderiam ter dado um pouco mais. E a modos que é isto.

11 fevereiro 2010

Lichens + Xamã - ZDB - 10.02.2010

Absorto. É o sentimento em que me sinto no momento em que escrevo estas linhas. Houve qualquer coisa de muito real mas ao mesmo tempo muito etérea e imaginária que se passou em cerca de duas horas na Galeria Zé dos Bois. Um colectivo "fantasma" de seu nome Xamã e, como prato principal, Lichens. Mas comecemos pelo início da aventura onírica.

Com uma ZDB mais tranquila que em outros concertos que este escriba já assistiu, inclusive o facto da sala ser em lugares sentados, a noite começou por volta das 22:30 com a entrada de um trio português intitulado Xamã.
Deles se diz que são um "colectivo fantasma de geometria variável em estreia na Zé dos Bois sob a forma de tríada eléctrica. Constituído por alguns dos mais generosos e talentosos músicos nacionais, a banda - qual mito urbano - afasta-se do percurso a que são frequentemente associados os seus membros para abraçar a surpresa T-O-T-A-L."
Hoje, um power trio com bateria, baixo e guitarra eléctrica. Até aqui nada de especial. Enganem-se. Atentando com mais rigor nos elementos da banda e repara-se que todos têm a face tapada. O baterista com uma máscara de luchador, os outros elementos com panos ou lenços na cara, completando o anonimato com um gorro de camisola por cima da cabeça. Quem seriam estes tipos? Ao sinal dos primeiros sons, deixámos todos para trás aquela excentricidade. Que interessava realmente ver a cara daqueles tipos? Provavelmente não passariam de mais 3 cabeludos e barbudos. Ah mas o som... 20 minutos, mais coisa menos coisa, durou o set destes 3 incógnitos. Terão tocado 2 músicas, quem sabe 3. Não interessava. Um rock instrumental de origens ácidas. "Stoner Rock" poderia ser um dos nomes mas não, não chega. "Experimental Rock" talvez... O que interessa é, mais uma vez, realçar que as pessoas não devem perder as primeiras partes de concertos só porque são demasiado preguiçosas. Eu quero mais destes senhores e, por mim, podem ficar o resto da vida disfarçados. O som é que tem que sair cá para fora...

O senhor que se seguia também se encontrava "escondido por uma máscara". Lichens ou Robert Aiki Aubrey Lowe, veio a Lisboa mostrar um pouco do seu trabalho a solo. Ex-membro dos 90 Day Men e colaborador em outras bandas, nomeadamente os Om, Robert Lowe é, basicamente, um desenhador. Tanto visual como auditivo. As camadas de sons que, sozinho, faz, conseguem preencher uma tela inteira. Os seus constantes loops hipnóticos e, por vezes, oníricos, conseguem fazer-nos parar a olhar para o infinito durante minutos a fio, perdendo-nos do resto do mundo ao nosso lado para acordarmos com um pequeno toque no pé ou no braço de um qualquer espectador ao lado (Tá quieto, oh Vasco). Um set que, supostamente, era constituído por uma só música e aqui o termo música nada tem a ver com a música que conhecemos. Aliás, não lhe chamemos música. Chamemos-lhe Tela. Lichens desenhou-nos durante cerca de 40 minutos uma tela. Algo irrepetível e foi só para nós. Nós gostámos tanto e pedimos mais. Algo exausto e cansado, Robert voltou, pintou outra tela, esta já formato A5 e foi-se embora como veio, misterioso. A tela, essa, ficou marcada cá dentro...

Ps: Um exemplo do que não passou em Lisboa:

08 fevereiro 2010

Os Velhos - Cabaret Maxime - 05.02.2010



Os Velhos são uma banda nova, que apareceu há pouco tempo, ainda só têm um EP editado, e mais algumas músicas. São da Amor Fúria, Companhia de Discos do Campo Grande, e praticam rock.
E o mais interessante do concerto no Maxime, a 5 de Fevereiro, foi a vasta legião de fãs que esgotou por completo a lotação do cabaret. A grande parte das pessoas que estavam a assistir, e a cantar fervorosamente as músicas e trautear as melodias, eram jovens adolescentes, imberbes, e...betos. Aquilo a que dantes se chamava queques. Uma franja da sociedade que, há alguns anos e quando tinha esta idade, ia sair à noite para o Whispers ou Maria Bolachas, e vibrava com músicas como Let's Get Loud da J. Lo, ou Walking on Sunshine de Katrina and The Waves. Não que isso seja mau, mas só porque isso era um género de pessoas. E agora, esta mesma franja da sociedade ouve rock, e Strokes, e Arcade Fire, e deixa crescer a barba... (não quero ser tido como preconceituoso aqui, só estou a tentar ilustrar como as coisas mudam). As mesmas pessoas que há uns anos olhavam com ar de nojo para bandas como os Strokes, agora sabem as letras todas de cor. E isso é bom.
E o concerto d'Os Velhos foi um interessante mini laboratório social. É um fenómeno engraçado este.

Do ponto de vista musical, os Velhos, tal como a malta que os ouvia, são uma banda jovem, ainda a dar os primeiros passos. Mas têm potencial. Pelo menos, as bases são boas, as influências são boas - não fazem de certeza música inspirada em Jeniffer Lopez. Têm energia, têm muito por onde crescer. E cantam em português, e de uma forma que não sendo genial, não ofende minimamente, e isso é bom. Hoje em dia são muitas as bandas e cantautores a usar o português, e isso é salutar (aliás, hoje ouvir portugueses a cantar em estrangeiro já me faz alguma espécie).
Mas Os Velhos são mais uma banda deste género a aparecer, e isso é sempre bom, quantas mais melhor. Porque eles podem não ser geniais. Em 9 bandas que apareçam, podem ser todas más, mas se a 10ª for muito boa, valeu a pena. Acho que estamos a assistir ao nascimento de uma corrente, na música portuguesa, e por isso, todos os músicos desta nova geração que estão a aparecer, terão pelo menos o mérito de fazer parte da história, de ter desempenhado um papel importante no “partir pedra”.
Daqui a 10 anos completo este artigo...

05 fevereiro 2010

Arctic Monkeys - Campo Pequeno - 03.02.2010



They grow up so fast.
Os Arctic Monkeys tocaram em Portugal, pela 3ª vez desde 2006, e isso foi só há 4 anos.
E hoje, os Arctic Monkeys estão adultos. E há 4 anos, eram simples adolescentes, com jeito para a música, mas não eram mais do que adolescentes, com tudo o que de bom e de mau isso tem. E passados 4 anos e 3 discos, eles tocam em Lisboa, e dão um concerto que é de guardar na memória.
Campo Pequeno todo lotado, com adolescentes e quarentões, tudo em pulgas para ver os Monkeys. Alguns resistiram ao saber que era no Campo Pequeno, raro é o concerto que tem bom som, e isso estraga logo quase tudo. mas desta vez, alguém se esmerou, e o som só não estava mau, como estava muito bom. Não fazia eco, os instrumentos saíam limpos, nenhum se sobrepunha muito aos outros. Lá está, o som bom na sala, melhora logo quase tudo (por isso quse todos os concertos na aula magna são bons).
Mas neste concerto não havia outra hipótese, o som tinha mesmo de estar bom, porque o novo álbum dos Arctic Monkeys, Humbug, tem uma sonoridade limpa, definida. Neste capítulo, tudo correu bem.

A actuação deles em palco, e a pose deles em palco, e a música deles em palco, provou que eles cresceram, amadureceram, fizeram-se homens.
A diferença do último para este álbum é o que cada membro da banda passou. Nestes anos, desde 2007 quando saiu Favorite Worst Nightmare, os putos de Sheffield viveram muito mais do que tinham vivido até aí - enfiados na sua cidadezinha inglesa, sempre sem sol. Neste processo de crescimento de cada um deles, há uns aspectos a destacar. Nomeadamente a música que começaram a ouvir. Por sua iniciativa, e por iniciativa de um jornalista da Mojo, que lhes deu um molhe de discos e lhes disse "vocês têm de ouvir isto". E fez ele bem. Um artista, para ser melhor no que faz, tem de conhecer o que já foi feito.
E com os Monkeys deu-se isso, ouviram Black Sabbath e Led Zeppelin. E deixaram crescer o cabelo. E foram aos Estados Unidos, e gravaram nos estúdios do Jimi Hendrix. E Gravaram com o Josh Homme, algures no Mojave Desert na Califórnia.
E isso, claro, influencia tanto a pessoa como o músico.

Em palco, no Campo Pequeno, estiveram esses músicos e pessoas, mudados, mais velhos, mesmo que ainda tenham 24 anos. E fizeram um concerto memorável - com direito a uma explosão de confettis no fim. Tocaram as músicas novas, mais melódicas e com menos exuberância rock, tocaram as músicas mais exuberantes rock dos álbuns anteriores, mas fizeram-no de forma adulta. Puseram o Campo Pequeno a cantar, a dançar, e em certas alturas, a fazer moche. Têm energia, boas músicas, um atitude discreta (baixo-perfil), e sabem conquistar o público.
São um caso sério, porque o talento musical está lá, e o potencial para crescer, está lá ainda mais. Principalmente se continuarem a ser bem orientados, e se continuarem a encarar a música como encaram - sem grandes preocupações, e cada vez mais comprometidos com o som. Uma grande banda para os anos 10.

01 fevereiro 2010

Samuel Úria - B Fachada - Manel Cruz - LX Factory - 30.01.2010



Lx Factory, 30 para 31 de Janeiro, final do Termómetro (ex Unplugged), 6 bandas finalistas, e uma convidada.
Os convidados não eram uma banda, eram 3 cantos do século XXI, que inspirados nos 3 cantos do século XX (link para arti). Manel Cruz, Samuel Úria e B Fachada.
O concerto que deram foi uma espécie de concerto, porque tocaram 6 músicas (há bandas que tocam mais que isso num showcase na fnac), para gente que esperou até às quatro e mais que meia da manhã. Claro que sabe a pouco, mas encheu as medidas. Cada um tocou duas músicas suas, alternadamente, e o show acabou com Capitão Romance. E aí, a casa veio abaixo. Mais ou menos 2 mil pessoas, a cantar a música, mesmo com vontade, como se já não vissem os Ornatos ao vivo há muito tempo. E não viam. Há tempo demais. A noite girou um bocado em torno da aparição do Manel Cruz, que continua a ser um dom sebastião musical, pelo menos para um grupo mais ou menos grande de adeptos. Porque ele é o lado mais visível dos Ornatos Violeta que, mais uma vez ficou confirmado, são mesmo uma banda de culto. Culto e grosso.

Na noite de sábado, o sebastião tocou ao lado de outros dois cançonetistas promissores, gente da nova vaga de lusitanos que tocam e cantam, e querem encantar, e encantam.
E este concerto teve encanto, porque todos eles são músicos inteligentes, criativos, e têm talento ser mais do que promessas.
O Úria e o Fachada já estão habituados a tocar juntos, mas o Manel foi uma surpresa – e aqui se louva a organização do Termómetro, que promoveu esta tripartida cantaria. E a escolha foi acertada, porque os 3 se encaixam bem na música dos outros, e nas ideias, e é sempre agradável ver este tipo de iniciativas. Só fazem bem à música portuguesa, e devem ser repetidas.
Quanto ao concerto, foi um belo momento musical, intenso, música para ouvir com o interior. Mais do que a performance, fica o sentimento que eles levaram para o palco, num concerto meio improvisado, mas que deu para entreter, e para matar saudades do passado, e abrir o apetite para um eventual futuro.
Valeu a pena por ser raro (não sei se volta a acontecer, espero que sim), e porque trouxe o Manel Cruz cá abaixo, à capital, para nos mostrar que não está parado, e por isso não deve tardar muito até editar novo material.

24 janeiro 2010

Jandek e eu no Maria Matos, 23 de janeiro de 2010

Jandek, nome estranho. Espécie de Herberto Hélder do Texas, classificado em todos os artigos como “o tipo misterioso que não dá entrevistas” e que por isso há quem pense que ele seja ou um psicopata ou um tipo brilhante, se calhar é apenas um tipo reservado, a verdade é que esse retraimento social faz com que falem dele e façam documentários. Tinha visto uma notícia no jornal sobre o concerto, o Cisto louvou o indiesmo deste senhor, catalogou-o algures entre o folk e o free jazz. Ouvi o que pude ouvir na internet e reconheci o folk – digamos neo-folk, eu sei lá – algures por ali, não reconheci o free jazz, ontem no concerto reconheci o free jazz mas de folk pouco ou nada, gostei da ideia: Jandek não é tipo previsível e ontem senti-me parte de uma experiência no mínimo singular. Isto porque acredito que o próximo concerto de Jandek quer seja em Espanha ou no Japão, certamente não terá o mesmo tempo nem as mesmas músicas nem os mesmos acordes nem o mesmo, continuemos:
Jandek veio portanto ao teatro Maria Matos – sala demasiado grande para a número de espectadores presentes e para o carácter intimista da música tocada – com três músicos locais, digo isto pelo que li visto que os seus nomes ou origens nunca foram pronunciados durante o concerto e as luzes apagaram-se, anunciaram aquela coisa do desliguem os telemóveis e no escuro ficámos por uns bons três minutos de suspense até que como crianças tímidas os músicos lá se foram chegando ao palco e aos seus lugares. Sentaram-se de olhos postos no chão e o tal Jandek começou a arranhar as cordas da sua guitarra, provocando um som monotónico semelhante a tudo o resto que serviria de base para toda a sua actuação. Por detrás ou à sua frente aos restantes músicos era dada a liberdade para improvisar, tendo o pianista e o saxofonista a responsabilidade de serem os elementos mais desconstrutivos do ajuntamento. O concerto não primou por uma elegância instrumental arrebatadora, o cornetista Sei Miguel pouco saiu de um estilo exageradamente milesdavisiano com as suas notas largas agudas lamurientas, nas últimas músicas já nem se levantava da cadeira e apenas abanava a cabeça de olhos fechados como quem engole uma bebedeira pelos ouvidos, o pianista que não vou dizer o nome porque li dois nomes apresentados em diferentes fontes, cumpria uma função claramente percussionista, martelando as teclas com um descuidado ocasional sem grande fulgor e ou ele não sabia mais ou não lhe fora pedida outra coisa senão isso mesmo, o holandês Peter Bastien era quem mais estimulava a atenção do público e apesar de lhe reconhecer a coragem para arriscar nas suas deambulações improvisadas de notas soltas teve a infelicidade de por duas ou três vezes se ter entusiasmado demais e ter tentado ir para lá das suas capacidades mas duvido que muitos lhe tivessem notado a falta de fôlego ou de dedos, o próprio Jandek não mostrava intenções de ir para lá do que a sua música minimalista apresenta e lá foi arranhando massajando mexendo apalpando as cordas numa cadência de quem afina um instrumento mas sem lhe alterar os tons e pelo meio ia narrando pensamentos guturais que pouco variavam de algo como I am alone at this house and I look at the mirror and I say to myself is this me or am I somebody else’s imagination, percebem a onda, e sempre num tom monocórdico e cavernoso e claro que as pessoas iam bocejando e um tipo que estava ao meu lado chamado raul ia olhando para o relógio e juntando as pálpebras dos olhos e às tantas pôs a mão na minha perna mas eu não notei porque estava embriagado com aquela música de cadência atordoante e durante quinze minutos fechei os olhos e abanei a cabeça como o Sei Miguel e a luz era azul e inerte e o escuro tentava impor-se no palco e o Jandek, que já agora parece uma figurinha tirada de um filme do Dreyer, não olhava para os músicos não olhava para o público não falava com ele connosco e claro as pessoas sentindo-se miseráveis porque vinham ali para receber obrigados e quase que parecia que as palmas eram em vão, o raul a meio de uma música sussurra-me, Já reparaste que os sonhos são sempre inacabados, eu não lhe respondi. A dada altura Jandek acaba uma música, os tipos da banda estalam os dedos e os pescoços à espera de um novo pano de fundo para os seus sopros e martelares e o tipo vira-se para trás muito lentamente num jeito de quem tem o pescoço engessado e não pode fazer movimentos bruscos, carrega no botão on/off do amplificador, o público entreolha-se, ele poisa a guitarra, os músicos entreolham-se, já acabou quis alguém perguntar, ninguém o fez, o tipo coloca as mãos sobre as coxas, respira fundo como um velho que contrariado lá tem que se levantar, eleva-se, o Bastien murmurando para ele próprio Poiso o saxofone não poiso o saxofone, o tipo das luzes Ligo as luzes não ligo as luzes, alguém dá uma palmada solta, outro alguém dá outra, damos todos, já o Jandek está do outro lado da cortina quando os aplausos se tornam consensuais, personagem estranha, olho para a coxa e vejo a mão do meu amigo poisada, pergunto-lhe, Que estás a fazer meu, ele abana a cabeça, finge-se desencontrado com o mundo e no dia seguinte pergunta-me como foi o concerto e fala-me de sósias e estranhas dores de cabeça. No fim das contas gostei muito, refiro-me ao concerto.


21 janeiro 2010

The Rising Sun Experience - Musicbox - 20.01.10

Os anos 90 foram passear aos 70s e o resultado é...Esquisito. Esta podia muito bem ser a síntese desta banda pelo que se viu neste concerto de hoje. Já aqui referenciados no blog, este sexteto oriundo de Lisboa mostra grande vontade mas o resultado final é apenas satisfatório. Uma mistura entre Grunge e Hard Rock é estranha e nem sempre funciona muito bem. Isto tudo apesar de terem bons músicos, especialmente o guitarrista Nuno Cardinho e terem um vocalista com grande voz, mas mais numa onda anos noventa, Stone Temple Pilots. A verdade é que P.A. do musicbox não é fenomenal e o som sai muito compacto, no entanto o som psicadélico fica muito aquém do prometido e o que tivemos foi apenas um bom som Hard Rock. Nota-se uma tentativa dos Rising Sun Experience de não fazer um som mais do mesmo, porém nem sempre dá para misturar vários géneros. Quando encontrarem um melhor equilíbrio entre estilos musicais, poderão fazer melhor.


18 janeiro 2010

Air - Coliseu dos Recreios - 16.01.10


Foi um ar morno que passou pelo Coliseu dos Recreios, que rebentou pelas costuras para ver os franceses Air.
Foi um ar morno porque o concerto não foi mau, mas também não foi excelente.
Ar morno, que vinha do palco para o público, que proporcionou alguns bons momentos, mas alternou esses com outros, mais mortiços.
Os Air já têm vários discos editados, uns bons, outros mais ou menos, e os concertos ao vivo nunca foram o seu forte. Dantes, actuavam em quinteto, agora só em trio, com um baterista a acompanhar Nicolas Godin e Jean Benoit Dunkel – que se encarregam de tocar tudo, com enfoque nas teclas, mas também há uma ou outra guitarra ou um baixo de vez em quando. Os Air preferem tocar ao vivo com esta formação, dizem que é mais próximo dos álbuns, porque aí também são eles os dois que tocam tudo.
Foi assim que se apresentaram no Coliseu, poucos meses depois de editar o novo disco, Love 2. Porém, não foi esse o prato forte do concerto. Eles não optaram por despejar as canções novas, e guardar os clássicos para os encores.
Também porque não vêm cá muito frequentemente (e por um lado ainda bem, porque hoje em dia há bandas que vêm cá 1 vez por ano, ou 3 vezes em 2 anos, e acaba por cansar, porque deixa de ter o efeito novidade, e passa a ser mastigado). Assim, os Air deram um concerto abrangente, que passou por quase todos os discos da carreira. Tocaram alguns temas do novo disco (entre eles, não o single que apresentou este Love 2), e depois foram passeando pelos anteriores, Talkie Walkie, Pocket Symphony e Moon Safari.
Em cerca de hora e meia, optaram por levar o público numa viagem quase hipnótica, com muitos temas instrumentais, alguns menos conhecidos, em vez de tocar só singles e canções em formato canção. A escolha não foi errada de todo, mas também terá sido por aí que o concerto não chegou nunca a “explodir”. Porque ao escolher hipnotizar, fizeram-no com canções mornas, que talvez fossem melhor ouvidas num concerto sentado. Com o Coliseu cheio como nunca o tinha visto, acho que aquelas pessoas queriam mais festa.
Ainda assim, no que toca à hipnose, não pode dizer-se que tenha sido mau. Bons momentos para ouvir de olhos fechados, para relaxar e deixar-se ir com o som. Bastava apenas estar nessa onda, à partida.
Na perspectiva pessoal deste que escreve, o concerto teve mais de bom do que de mau, embora pudesse ter sido bem melhor.
Em suma, um bom concerto para começar o ano, um começo em velocidade cruzeiro, à espera dos outros mil já marcados para este 2010.

23 dezembro 2009

Living Colour@Santiago Alquimista - 22/12/2009

Devo começar por dizer que não sou o maior conhecedor de Living Colour. Mas comprei o Stain em 1994, com 13 anos, e continua a ser um dos grandes discos dos anos 90.
Existe uma febre recorrente em relação à década de 80, e os dez anos seguintes tendem a ser menosprezados em termos de modas e gostos. Pensa-se nos anos 90 apenas como o período no qual se afirmaram tanto o grunge como as boybands, tal como a popularização da dance music. Mas eu creio que é redutor.
Na primeira metade dos anos 90, a par do conhecido slackerismo e do heroin chic, conviviam muitas expressões de vanguarda na arte, acompanhadas de um cepticismo urbano de cariz pós-moderno, uma espécie de auto-sarcasmo. Decorrente do crescimento económico nos anos 80, este foi também um período de excessos e de alguns traços barrocos – e como não podia deixar de ser, tinha equivalentes musicais. E os Living Colour espelhavam isso perfeitamente.
Pertencem, a meu ver, a um grupo selecto de bandas: bandas extremamente criativas e compostas de virtuosos, mas com traços pop que permitiam aos grupos ter considerável popularidade e êxitos, também com alguma dose de ironia.

Escrevi, até agora, a maior parte desta crónica no passado, mas não é justo para a banda. O concerto de hoje provou que estão em forma, talvez como nunca tenham estado. O preço do bilhete, a proximidade das festas e a noite de temporal seriam vários factores para desmotivar uma ida, mas sabia que iria arrepender-me se não fosse. E valeu mais a pena do que imaginava.

Um breve apontamento para expressar a pena que tenho em que nem toda a gente possa ter presenciado o concerto. Mesmo para quem não é tocado por este tipo de música, qualquer humano ficaria impressionado e/ou convencido pelo que teria visto e ouvido. E, nestes anos em que a produção musical dá espaço a toda a gente, é curioso como ninguém se interessa e como talvez fosse eu o mais novo de entre todos os presentes. É uma pena que se vá a concertos principalmente por moda.

Para o Santiago Alquimista, palco de estreia destes norte-americanos em Portugal, 100 a 150 pessoas é um copo meio cheio, mas chegou – e tornou a experiência mais pessoal. Estamos também a falar de uma banda cujo pico de popularidade já passou e que felizmente regressou ao activo.

Este foi o último concerto da digressão, no qual a banda tocou uma mistura equilibrada entre canções antigas e recentes, algumas do álbum The Chair In The Doorway, acabado de sair. Os Living Colour mantêm o mesmo estilo, as novas canções são frescas, enquanto que não destoam das anteriores. E o público aplaudiu a banda de forma sincera. Estavam ali para ouvir música, fosse ela antiga ou não. No fim, a banda comprometeu-se a autografar qualquer coisa que lhes fosse trazida (em termos de memorabilia, trouxe uma setlist e 4 fotografias com a banda). Devo ainda dizer que tocaram com um backline adequado a um concerto de estádio, o que se reflectiu no volume, altíssimo. But hey, it's rock n' roll. E o equipamento do lendário guitarrista Vernon Reid parecia um puzzle de 15 mil peças.

O alinhamento, com quase duas horas e meia de duração, deu espaço aos desempenhos a solo na guitarra do virtuoso Vernon Reid – ainda andava o Tom Morello a brincar com ele próprio e já o Vernon Reid desbravava caminhos semelhantes –, uma incursão pelo público pelo baixista Doug Wimbish (com solo simultâneo), apontamentos impressionantes do vocalista Corey Glover e, last but not least, um solo de bateria inacreditável por parte de Will Calhoun. Estes momentos podem não dizer nada a muita gente, e bem vos entendo; mas estamos a falar de solos que mexem com emoções e não apenas espalhafato técnico.

Escuso-me de fazer considerações acerca da qualidade da música composta pelos Living Colour. Talvez nem os exemplos que aqui deixo em vídeo sejam os melhores. A nota que dou é, na minha opinião, dada objectivamente pela qualidade do concerto. E esse foi perfeito.






19 dezembro 2009

Os Tornados@Santiago Alquimista - 18/12/09


Chamem-lhes os novos Ekos, chamem-lhes os novos Shadows, chamem-lhes os novos Animals ou os novos Monks. Chamem o que quiserem, a verdade é que Os Tornados são, seguramente uma das melhores bandas a tocar em Portugal. Musicalmente são quase perfeitos. Eles sabem o que tocam, quando tocam e quando não devem tocar. Seis elementos constituem esta banda nortenha de cariz retro. Porém aqui não nos deparamos com os anos oitenta. O dito Indie Rock que bebe dos anos 80. Não. Os Tornados vão mais atrás, vão ao início da bela história que foi os anos sessenta. Imaginem o período de tempo entre 1964 e 1966. Os Tornados seriam, se fossem da altura, uma das melhores bandas, certamente.

12 dezembro 2009

Diabo na Cruz@Musicbox - 11/12/2009


Há os supergrupos como os Cream ou Blind Faith, CSNY ou os Traveling Wilburys. Há ainda os Audioslave ou ainda mais recentemente os Raconteurs e os Them Crooked Vultures. A nível nacional houve, entre outros, os Resistência e os Humanos. No dia de hoje celebrou-se o aparecimento de mais um um "supergrupo". Exageros à parte, dado que obviamente que não estamos na presença de nenhum consagrado na música, nem nenhum virtuoso ou génio musical, aquilo que se ouviu hoje em pleno Musicbox foi o que já não se sentia desde, pelo menos, a digressão (infelizmente única) dos Humanos. A Portugalidade no seu melhor. Orgulho em estar a ouvir cantar em português. A métrica das letras não soa mal, não é desajustada, não é foleira. Entretém e apraz. O som medieval misturado com o rock faz todo o sentido. E ainda bem. Diabo na Cruz, mais uma banda lançada pela editora de Tiago Guilul, Flor-Caveira, é, provavelmente, uma das melhores apostas desta editora nacional. Jorge Cruz criou os Diabo na Cruz chamando o Barata dos Feromona, o Gil dos V.Economics, o Pinheiro dos TV Rural e o B. Fachada. Juntos eles transformam o Rock em Roque ou Folc'roque. Com um Musicbox à pinha como há muito já não se via, como referiu Bernardo Fachada, algo ou muito alterado (cuidado com as sobredosagens), o público assistiu a um bom momento de uma banda que poderá entreter muito durante o próximo ano. Músicas corriqueiras e "catchy" dão o mote ao álbum que acabou de ser lançado agora, "Virou!", que tem tudo para ser um sucesso, ou quase, ao nível dos Humanos. "Dona Ligeirinha" e "Os Loucos Estão Certos" são, claramente, músicas para ficar. Um bom projecto nacional, sim senhor!

04 dezembro 2009

The Musical Box@Aula Magna - 3/12/2009

Por princípio, não sou grande adepto de bandas de tributo. Se não podemos ver alguém a tocar ao vivo, c'est la vie. Os Musical Box são a excepção. Os Genesis são possivelmente a banda teoricamente mais difícil de imitar - porque é disso que aqui se trata, ficando a interpretação reduzida a um mínimo, se existir de todo - da História do rock. E estas não são palavras escritas de ânimo leve: existem muitas razões que as fundamentam. Não é só o material que é difícil de interpretar em cada instrumento individual; existem, nesse caso, outros intérpretes mais tecnicistas (em termos de guitarra, Paul Gilbert e John Petrucci são considerados os guitarristas mais tecnicamente perfeitos no rock, no activo); são os arranjos inacreditavelmente complexos dos Genesis dos anos 70 que tornam esta tarefa verdadeiramente hercúlea. Falamos de uma banda que chegava a usar três guitarras em simultâneo, cada uma com uma afinação diferente, e cujo guitarrista ritmo tocava frequentemente baixo com os pés ao mesmo tempo.
Mas não só isto. Os Genesis originais usavam muitos instrumentos que já na altura eram obscuros, assim como o resto do material de som - nesse aspecto, os Musical Box fazem constantes esforços para procurar, ou fabricar, material igual ou semelhante, lidando com as mesmas imperfeições que os músicos originais, tendo em conta o carácter ainda primitivo dos efeitos de música nos anos 70. E existe um esforço, levado ao extremo, destes músicos em imitar o som, a maneira de tocar e os maneirismos de actuação de cada elemento original dos Genesis. E, nesse campo, excedem-se.

Profundo conhecedor e coleccionador da obra dos Genesis, incluindo os poucos registos que existem em vídeo, os Musical Box convenceram-me, na Aula Magna, com o primeiro espectáculo que trouxeram cá, no qual recriaram o primeiro concerto em Portugal depois do 25 de Abril, quando os Genesis trouxeram o incrível The Lamb Lies Down On Broadway. Falando de um concerto do qual existem apenas talvez 10 minutos gravados em vídeo - e era um álbum duplo -, esta torna-se uma experiência espiritual para qualquer fã dos Genesis.

Diria que a imitação dos Musical Box tem um grau de aproximação de 95%. Faltam aqueles 5% que são impossíveis de conseguir, mas simplesmente porque os Musical Box não são os Genesis. Isto reflecte-se mais na voz, factor sempre mais inglório e mais facilmente identificável, mas está lá em todos os instrumentos. Mas, e considerando o grau de perfeição destes concertos, isso é simplesmente pedir o impossível.

Foi ontem o regresso a Portugal, de novo numa Aula Magna esgotada, mas agora para o concerto de digressão Trick Of The Tail. Com um novo baterista - Martin Levac está actualmente com um projecto de tributo a Phil Collins -, os Musical Box apresentaram um falso Bill Bruford (dos Yes e King Crimson), jogando com dois bateristas em certas ocasiões, tal como nos concertos originais. Nesta fase, os Genesis já não tinham Peter Gabriel na banda, e o vocalista Denis Gagné passou agora a interpretar Phil Collins, cantando as canções de Gabriel com as vocalizações de Collins, e com sucesso. É deste grau de perfeccionismo que estamos a falar. Os falsos Mike Rutherford e Steve Hackett são os mesmos e estão impecáveis. No caso de Hackett, está ainda melhor, talvez por força de não ter de se ver obrigado a tocar sentado, como nas digressões anteriores. O novo Tony Banks parecia melhor executante, mas talvez mais duro que o anterior. O novo Phil Collins baterista, que substituia o Phil Collins vocalista nos duetos de bateria, parecia também uma excelente aquisição para a banda, apesar de demonstrar um pouco mais de força que o Collins original. Mas, repito, são detalhes ínfimos e, na maior parte do tempo, a imitação é igual.

Entraram com um forte Dance On a Volcano, passando para um trio de canções do Lamb, que incluiu a canção homónima, e umas actuações imaculadas de Fly On a Windshield e Carpet Crawlers. Depois, os momentos mais altos. As complicadíssimas The Cinema Show e Robbery, Assault and Battery foram exemplarmente executadas e levaram o público a um aplauso empolgado, sincero e recompensador. White Mountain, talvez por não ser tão exuberante como as outras peças, foi menos emotiva, mas ainda assim esteve bem.

Seguia-se Firth of Fifth, a que não faltou a introdução em piano a solo, até ao momento em que deixou de se ouvir o baixo. Aconteceu o impensável: três segundos depois, o som foi todo abaixo. Aparentemente, houve falhas nos geradores da EDP por toda a cidade, e o gerador do som - não das luzes - que estava a servir a banda, foi um dos que falhou. O público esperou pacientemente ao longo de uma hora e meia, com o natural convívio entre os fãs, mas o espectáculo não iria ser retomado. Existe a possibilidade da banda regressar para um concerto completo. Mesmo assim, valeu a pena e só não levam a nota máxima por ter sido meio concerto, ainda que por razões alheias à banda, que deu autógrafos a partir do palco e falou com os espectadores.

É por bandas como esta que estes projectos de tributo-imitação valem a pena, e cimentam a ideia de que o rock progressivo é o equivalente - não confundir com «substituto» - da música clássica do futuro.

Deixo-vos com duas entrevistas realizadas em Lisboa há 2 anos, quando os Musical Box trouxeram os concertos das digressões Foxtrot e Selling England, e um apanhado de imagens desta digressão.

The Musical Box - Trick Of The Tail: 9