Não há quem não goste do verão, do
calor, da praia, do tempo livre que se pode passar na rua com os amigos.
Mas uma das melhores partes do verão são os dias como hoje, de
primeiras chuvas, que nos fazem lembrar o inverno. Aquele inverno em que
estamos em casa, com muita chuva a bater na janela, com uma caneca de
chá na mão e naquele aconchego da manta, de quem sabe que não tem de
sair de casa nesse dia. Valter Lobo, homem do norte, lançou ainda nos
finais do inverno passado o seu primeiro EP, intitulado precisamente
"Inverno", e vem aqui a propósito, porque é precisamente aquilo que
queremos ouvir nesses dias em casa.
Não
tendo muito mais do que a sua voz e a sua guitarra, aqui e acolá
acompanhado por alguns ritmos, Valter Lobo apresenta-se intimista e como
excelente trovador de canções nostálicas e melancólicas. Lançou como
primeiro single "Eu não tenho quem me abrace neste inverno" mas à medida
que se repete seguidamente a escuta do EP, faz-nos sentir que quem nos
abraça, com as suas canções, é ele. Ficamos à espera ansiosamente que
nos envolva novamente, num disco de longa duração.
E para que não restem dúvidas, os TV Rural lançam o repto, logo na 2ª música - «Faz-te um Homem, Rapaz».
Os TV Rural lançam esta semana o seu 2o disco, A Balada do Coiote, e é um grande disco. E eles são uma grande banda.
Ainda bem que escrevo estas palavras depois de os ter visto ao vivo (este sábado, no Musicbox). Porque a minha interpretação é bem diferente depois de os ver em concerto. A minha impressão da banda já era bastante boa só tendo ouvido o disco, mas vendo o show, fiquei ainda mais rendido.
Os TV Rural já existem há cerca de 10 anos. Em 2007 lançaram o primeiro disco, Filomena Grita (outro grande exemplar de rock português). Deixaram passar 5 anos e lançam agora, e finalmente, o sempre complicado segundo álbum. Mas neste caso, não me parece que tenha sido complicado. Este disco vem consolidar a posição dos TV Rural, como uma das melhores bandas portuguesas da actualidade.
Habitualmente, quando se escreve sobre uma banda e se a dá a conhecer, é fácil comparar o som que fazem com outras bandas que já existem, para mais fácil contextualização. No caso dos TV Rural não os comparo com nenhuma banda existente, apenas os coloco no mesmo patamar dos Ornatos Violeta, no que toca à grandeza estética (seja lá o que isso quer dizer).
Os TV Rural parecem saídos de outro tempo, de outra era, mas nunca de outro local. São portugueses de Portugal intemporal. Fazem rock maduro, musculado, cantado em português e com excelente uso desta língua.
As músicas deste disco são pequenas histórias, nunca monótonas e quase sempre com variações dentro da mesma canção, passando num instante e harmoniosamente de rock animalesco para jam session quase improvisada e com cheiro a escola de jazz, com a cadência marcada por tambores.
Ao vê-los em palco, vi uma coisa que nunca tinha visto - um vocalista-saxofonista. Ainda está a dar o último sopro no saxofone e já está a dirigir-se para o microfone, para berrar mais umas frases eloquentes e se retorcer e rodopiar sobre si próprio enquanto os colegas criam ambientes teatrais - não cinematográficos, teatrais. Além disto, o vocalista faz lembrar (não sei porquê) o conde Drácula, que quase intimida ao contar as suas fábulas sobre «Bruxas», sobre «Quando Troveja», ou quando pede «Morde-me» e «Dá-me Dor».
Aqui não se fala sobre dramas existenciais de andar no liceu e não gostar de viver em casa dos pais. Não se fala de uma rapariga gira que se conheceu na aula de ciências, fala-se sobre a «Mulher da Minha Vida». São coisas diferentes.
Aqui contam-se contos, de encantar ou de atemorizar. Contos cantados, e acompanhados por uma banda de virtuosos vampiros, que fazem da música dos TV Rural uma peça de teatro da Lusitânia Antiga.
Ah, e a fechar o disco está uma bela versão de «Toma o Comprimido», de António Variações, uma versão de que o próprio não se envergonharia.
A Balada do Coiote - está esta semana nas lojas, e está sem dúvida na lista dos melhores discos feitos este ano.
Em 2009 o Diabo na Cruz chegou, e Virou ao contrário as concepções que até aí se podiam ter da música tradicional portuguesa. Virou foi o disco de estreia do Diabo na Cruz, e rapidamente inscreveu o nome da banda no cenário musical deste país. Na altura, surpreendeu pela ligação forma harmoniosa como fez a ligação entre a tradição da música do Portugal profundo, e os padrões do rock anglo-saxónico.
Em 2012, a banda regressa, e confirma tudo o que tinha prometido na estreia.
O Diabo na Cruz é um supergrupo - chama-se supergrupo a qualquer banda que tenha membros de outras bandas. E o Diabo na Cruz juntou gente dos You Can't Win Charlie Brown (João Gil), Feromona (Bernardo Barata), TV Rural (João Pinheiro), e cantautores consagrados, B Fachada e Jorge Cruz. Para o 2º álbum, a banda teve alterações - saíu B Fachada e entraram outros 2 músicos, mas a génese mantém-se a mesma.
Roque Popular é o nome do 2º álbum do Diabo na Cruz, e a identidade musical e o conteúdo do disco são logo explicados no título e na capa do disco. Esta capa, que merece uma edição em vinil, retrata o que se passa dentro do disco, que no fundo é rock popular, música tradicional portuguesa adornada com electricidade. Esta foi a premissa que norteou a banda desde o nascimento, e essa interligação é consumada e alargada neste 2º disco.
O Diabo na Cruz foi às raízes mais profundas da música tradicional portuguesa como se faria, acredito, há 300 anos, com instrumentos de cordas e tambores - e fundiu essa música e esse sentimento com o rock, punk rock, garage rock da tradição anglo-saxónica, regando ainda com pitadas de pop, e melodias que ficam no ouvido com relativa facilidade.
Esse mergulho na profunda Lusophonia estende-se também às letras, que são fábulas de um Portugal rural (Jorge Cruz diz que entre as fontes de inspiração para as letras estão as trovas do Bandarra, que viveu entre 1500 e 1556).
Posto isto, digo que Roque Popular é um grande disco. São 10 canções, e quase todas têm potencial para ser singles, para rodar até nas rádios mais quadradonas. Todas elas são marcadas por uma batida frenética dos tambores. As letras são vociferadas quase em modo de combate. Além dos elementos mais tradicionais como o cavaquinho e a viola braguesa, a grande virtude do Diabo na Cruz é a inclusão das teclas e do baixo. Disso não havia há 300 anos, e a forma como aqui são incluídos, é um dos pontos mais fortes deste disco. Os órgãos entram nas músicas nas alturas certas, e dão uma sensação de modernidade. O baixo do Bernardo Barata confere à música um balanço incrível, e é talvez o principal impulsionador da dança - porque a música do Diabo na Cruz não é feita para ouvir sentado!
The Kids Are Allright!
Recorro aos The Who, para anunciar que a juventude portuguesa está bem. Bastante bem, no que à música diz respeito.
A sustentar estas palavras, trago à conversa a malta da Cafetra Records. Esta é mais uma editora, criada recentemente, por gente nova - neste caso, muito nova mesmo.
A Cafetra começou a ser desenhada em 2008, e nessa altura, alguns dos envolvidos tinham 15 anos.
Nesta altura, a Cafetra já pôs cá fora o seu primeiro disco (Até Morrer d'Os Passos em Volta), e outros estão na calha, para este ano de 2012.
A Cafetra é uma editora comunitária - cada um dos elementos desempenha várias funções, entre elas, tocar numa banda.
Nesta primeira abordagem à Cafetra, começo por falar do primeiro disco - Até Morrer d'Os Passos em Volta.
São 2 raparigas e 3 rapazes, guitarras, baixo, bateria, algumas teclas. E um gosto pelo rock sujo de baixa fidelidade. Já que falo deste conceito, começo por apresentá-los, dizendo que os Passos, na sua curta existência, já fizeram a primeira parte dum concerto de R. Stevie Moore, o pai fundador do lo-fi.
Os Passos em Volta fazem música de forma completamente despreocupada - com 20 anos, não há muitas razões para preocupações. Cantam sobre as festas dos Santos Populares, sobre o filme que viram ontem à noite, ou sobre comer a minha irmã, por trás - e acompanham essas palavras maioritariamente com guitarradas desbragadas e ritmos do punk rock dos anos 90, tudo ao molho, vozes umas por cima das outras, dando a sensação de terem sido gravadas live em estúdio (não sei se foram, mas parece. E isso é bom). Mas este disco não é só "barulho juvenil". Uma das músicas diz-lo logo no título - Acustiquinha. Além deste tema, há outros momentos mais calmos e melodiosos, talvez para descansar os ouvidos, por alguns minutos, antes de voltarem a disparar a sua puerilidade rockeira.
Os Passos em Volta, que foram buscar o nome a um livro de Herberto Hélder, não estão cá para salvar a música portuguesa, nem a música independente, nem a música de baixa fidelidade (expressão portuguesa para lo-fi, usado pelos saxões). Estão cá, para se divertirem, e para nos divertirem a nós, enquanto ouvintes e espectadores dos concerto.
Estão os Passos em Volta, como estão todos os companheiros da Cafetra Records (Kimo Ameba, Pega Monstro, Go Suck a Fuck, 100 Leio, Éme).
Juventude, energia e frescura. E vontade de fazer. Nesta altura, a Cafetra ainda só editou 2 discos, físicos, mas ao longo deste ano, esta barriga lisboeta há de dar à luz mais alguns discos, e dar a conhecer mais novas bandas portuguesas.
Os últimos anos têm visto nascer inúmeras bandas nacionais, filhas, por exemplo, da Amor Fúria, Flor Caveira, Chifre. Não sabemos o que será feito destas bandas daqui a 10 anos, mas se em cada 10 que aparecem, nos lembrarmos de uma, não será mau. E pelo menos, poderemos sempre olhar para os anos 10 do século XXI e lembrar este período fértil e criativo do velho Portugal Musical.
Para falar dos You Can’t Win, Charlie Brown começo por falar dos Grizzly Bear. No princípio de 2010 foi anunciado que os Grizzly Bear vinham a Portugal, tocar no Coliseu de Lisboa, e nessa altura tinha pensado escrever aqui um artigo sobre esta banda. Por dificuldades de agenda, acabei por não escrever esse artigo, mas tinha pensado sobre o que ia escrever – e ia escrever que eles eram sublimes. (Para mais esclarecimentos, ouvir o disco Veckatimest). E este adjectivo traz-nos aos You Can’t Win, Charlie Brown. Estes jovens lisboetas começaram há relativamente pouco tempo, mas já tocaram em vários países – e por ocasião de uns concertos em Londres, a revista francesa Les Inrockuptibles acusou-os de serem sublimes. Esse mesmo adjectivo que eu tinha encontrado para definir os Grizzly Bear, e que pode ajudar a definir os YCWCB. O adjectivo sublime significa, por exemplo, encantador. Ou grandioso. E estas são palavras que rimam bem com a música dos YCWCB. A estrutura das músicas deste sexteto baseia-se na guitarra acústica, pianos e órgãos – as pinceladas de cor são dadas com instrumentos como o metalofone, omnichord ou glockenspiel. As vozes são repartidas – há dois vocalistas principais, mas depois há coros prolongados, e aqui e ali, outro vocalista.
não conhecia estes a música portuguesa a gostar dela própria mas agora conheço e tem de tudo e porque não? http://amusicaportuguesaagostardelapropria.org/ será que alguém já falou deles aqui e porque não? não sei, espero que sim. http://amusicaportuguesaagostardelapropria.org/ um pouco blogotheque ou lá como se chama aquilo mas é português e porque não? http://amusicaportuguesaagostardelapropria.org/ tem rock e fado e cantos de almeirim e porqu
E agora mais algum tempo de antena dedicado à música portuguesa (fora da esfera Flor Caveira, que parece ter adormecido tudo e todos com os seus baladeiros, de tal forma que muitas pessoas se estão a esquecer que já existia, existe e existirá sempre música portuguesa sem ser a deles). Hoje partilho aqui Minta, nome artístico/alter-ego como lhe queiram chamar, de Francisca Cortesão. Lançou este ano o seu primeiro álbum, "Minta & The Brook Trout", e pelo que tenho ouvido no myspace, é algo que tenho de adicionar rapidamente à minha biblioteca. São músicas cativantes, daquelas que caem tão bem em dias de Inverno como o de hoje, em que só apetece deixar-nos ficar em casa com uma mantinha e uma bebida quente na mão. Porque a música também serve para aquecer, e este é um bom exemplo disso mesmo. Fica o videoclip lançado recentemente de "A Song To Celebrate Our Love".