31 março 2010

Relacionado #50

Banda de nome curioso, estes Gringo Star são mais que um grupo de miúdos com um nome curioso. O seu som cumpre os requisitos mínimos. Aqui fica "All Y'All".


Music Video: Gringo Star- "All Yall" from Bryan Bankovich on Vimeo.

30 março 2010

Moonlight Drive Sessions by Altamont Sounds

Mundo Cão - A Geração da Matilha (2009)

Formados em 2001, contam com a ajuda preciosa do seu patrício Adolfo “Luxúria” Canibal. Com origem em Braga, têm vindo a conquistar o panorama musical nacional. Com participações em festivais como Live Earth, Paredes de Coura e Super Bock, Super Rock. Um dos seus maiores momentos foi quando actuaram na primeira parte do concerto de AC/DC no Estádio de Alvalade.
Apesar do seu nome fazer lembrar os Ornatos Violeta, há uma forte aproximação aos Mão Morta. Não só pelas letras de Adolfo Luxúria Canibal, mas também pela presença de Miguel Pedro e Vasco Vaz nos Mundo Cão.
A banda liderada por Pedro Laginha tem previsto um novo álbum para 2011. Até lá resta-nos explorar “A Geração da Matilha”. Álbum que veio a suceder a “Mundo Cão 2007”, com o excelente single “Morfina”.
“A Geração da Matilha”, é um disco bem trabalhado. Onde se destacam as seguintes faixas:
“Ordena que te Ame”, “Amantes Sem Sal”, “Tu Não És Princesa” e “Hoje e Sempre Amén”.
O rock português está vivo e recomenda-se.

29 março 2010

Whatever Happened to my Rock n' Roll?

Grande festa! Valeu realmente a pena ter levado este blog a um outro nível, através da criação da "Altamont Sounds Presents:", sessões itinerantes de música levada a quem as quiser ouvir e que vão andar por aí. A aprovação foi (das pessoas com quem falei e que poderão ter falado apenas para ser simpáticas, mas de qualquer forma ter ali 60 pessoas no final é para mim gratificante) unânime, saiu pessoal de lá animado e isso foi o principal da noite. Quero acreditar que a música tenha tido um papel importante nisto e que não tenha sido apenas o álcool ingerido, pelo que aqui deixo o setlist completo da festa.

1. Keep on Running - Spencer Davis Group
2. I Can't Turn You Loose - Otis Redding
3. Hit the Road, Jack - Ray Charles
4. Maybellene - Chuck Berry
5. At the Hop - Flash Cadillac
6. Route 66 - Them
7. Surfin Bird - Trashmen
8. One after 909 - The Beatles
9. Cocaine Blues - Johnny Cash
10. Do It Again - The Beach Boys
11. Bad Moon Rising - Creedence Clearwater Revival
12. Brown Sugar - The Rolling Stones
13. Get it On - T.Rex
14. Hold Tight - Dave, Dee, Dozy, Beaky, Mick and Tich
15. Peace Frog - The Doors
16. Who Loves the Sun - Velvet Underground
17. Go Your Own Way - Fleetwood Mac
18. Kodachrome - Paul Simon
19. Beat It - Michael Jackson
20. Paradise City - Guns N' Roses
21. Whats the Frequency, Kenneth? - R.E.M
22. Sassafras Roots - Green Day
23. Molly's Lips - Nirvana
24. Zero - Smashing Pumpkins
25. Going nowhere - Therapy?
26. Velvet Snow - Kings Of Leon
27. Whatever Happened To My Rock n' Roll - Black Rebel Motorcycle Club
28. Hero Of The Day - Metallica
29. Go With The Flow - Queens Of The Stone Age
30. Dead End Friends - Them Crooked Vultures
31. Sacred Trickster - Sonic Youth
32. When It Started - The Strokes
33. Do The Evolution - Pearl Jam
34. Vasoline - Stone Temple Pilots
35. This Fire - Franz Ferdinand
36. I Bet You Look Good On The Dancefloor - Arctic Monkeys
37. Hotel Yorba - The White Stripes
38. Shake Shake Shake - White Denim
39. Nothing To Hide - Yo La Tengo
40. Keep The Car Running - Arcade Fire
41. Somebody To Love - Jefferson Airplane
42. Ever Fallen In Love (With Someone You Shouldn't've) - The Buzzcocks
43. London Calling - The Clash
44. Warsaw - Joy Division
45. Atomic - Blondie
46. Killing Moon - Echo & The Bunnymen
47. There is a Light that Never Goes Out - The Smiths
48. Getting Away With It - James
49. Common People - Pulp
50. She Bangs the Drums - Stone Roses
51. Road to Nowhere - Talking Heads
52. Get Off - Dandy Warhols
53. Love is a Deserter - The Kills
54. Slow Hands - Interpol
55. 16th & Valencia - Devendra Banhart
56. 1901 - Phoenix
57. Sick Muse - Metric
58. Out of the Blue - Julian Casablancas
59. Backfire at the Disco - The Wombats
60. Saddest Summer - The Drums
61. Lust For Life - Girls
62. Pumpkin and Honey Bunny [Dialogue] / Misirlou - Dick Dale & The Del-Tones
63. Huddle Formation - The Go! Team
64. Dance With Somebody - Mando Diao
65. It's Getting Boring By The Sea - Blood Red Shoes
66. Standing In The Way Of Control - The Gossip
67. Gravity's Rainbow - Klaxons
68. Heads Will Roll - Yeah Yeah Yeahs
69. Cousins - Vampire Weekend
70. Warm Heart Of Africa - The Very Best
71. Surprise Hotel - Fool's Gold
72. Hot n' Cold - Los Colorados
73. Unza Unza Time - Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra
74. Start Wearing Purple - Gogol Bordello
75. Stuck In The Middle With You - Stealers Wheel
76. A Call To Arms - Beirut
77. Nantes - Beirut
78. Where Is My Mind? - Pixies
79. Cannonball - The Breeders

Enjoy!

Gorillaz - Plastic Beach (2010)


Damon Albarn (Blur) está de regresso com o seu projecto animado Gorillaz. Numa onda com uma maior influência electrónica, hip hop e funk, menos Pop que os dois álbuns anteriores. Conta com a participação de monstros da música da velha guarda, tais como, Snoop Doggy Dogg, Bobby Womack, Mick Jones e Paul Simonon dos Clash, Mark E Smith e os De La Soul (Provavelmente a melhor grupo de Hip Hop Americano).
Apesar das diferenças o presente álbum não é inovador. Copiou a fórmula de sucesso dos dois anteriores, ficando no entanto a faltar temas excepcionais como Clint Eastwood, 19-2000, Feel Good ou Dare. Para compensar a falta de um ou dois temas que marcam um álbum, temos vários temas bons. Bem apoiados pelas bandas convidadas que já citei anteriormente.
Destacam-se as seguintes faixas:
Welcome to the World of the Pastic Beach, introduz o album com uma boa batida, um som funk e o tom Chilly de Snoop Dogg.
White Flag, conta com uma estranha mistura entre a Orquestra Nacional Sinfónica do Líbano e os rappers Kano e Bashy. Dando origem a uma interessante fusão entre Beirut e Londres. Entre o Ocidente e o Oriente. Bastante original.
Stylo é o primeiro single do álbum, conta com a participação de Bobby Womack e Mos Def. Contanto com o equilíbrio da voz de Damon Albarn.
Some Kind of Nature, é a minha preferida do álbum. Onde Lou Reed dá uma excelente contribuição. Fazendo uma excelente combinação com Damon Albarn e com as batidas electrónicas. Muito bom.

25 março 2010

Tangerine Dream - Coliseu - 25.3.2010



Concerto de 3 horas (para os resistentes), com um Coliseu a 25%.
Uma banda que já terá sido grande e importante, mas já não estamos nos anos 70.
O Coliseu foi mal escolhido para este concerto, demasiado grande e com demasiadas cadeiras vazias.
Um cocktail de drogas ajudaria a suportar melhor esta actuação..

24 março 2010

Fanfarlo - Reservoir (2009)

Os Fanfarlo são uma banda formada em Londres, em 2006, apesar do seu mentor, Simon Balthazar, ser original da Suécia. Após o lançamento de vários singles no espaço de tempo que separa a criação da banda com o ano de 2009, lançaram já perto do final do ano passado este Reservoir, álbum de estreia. E na minha perspectiva, não se saíram nada mal. É um som que numa primeira audição se fica com a sensação "Já ouvi isto em qualquer lado", mas no fundo não, não ouvimos, ou pelo menos não assim, misturado desta forma. É que aqui encontra-se um pouco de Arcade Fire, de Beirut, contando também com uns toques de Clap Your Hands Say Yeah! e The Antlers, criando um som bom de ouvir (para quem também gostar das bandas referidas, claro). Às vezes não é preciso algo de totalmente original para nos animar, e este Reservoir é isso mesmo - um docinho para nos animar uns tempos.
Uma pequena trivia question, a rapariga na capa do álbum não é mais nem menos que Sigurrós, irmã mais nova de Jón Þór Birgisson, e inspiração para o nome da banda islandesa, dada a amizade existente entre Jon e Simon.
Olhando para a lista dos temas, destaco "Luna", "The Walls are Coming Down" e "Harold T. Wilkins, Or How To Wait For A Very Long Time" como as mais animadas e interessantes, e que criam um bichinho na nossa cabeça. Acho que merece uma audição (caso contrário também nem sequer aqui colocaria, mas pronto).

Enjoy!

21 março 2010

Desrelacionado#5

Relacionado #49

Parece que, finalmente, a música portuguesa está a despertar para patamares de qualidade que estavam adormecidos há bastantes anos. Após o oasis que foi a cena de Leiria e Alcobaça, começaram a surgir, nomeadamente em Lisboa, várias bandas. Essas apoiadas por duas editoras, Flôr Caveira e Amor-Fúria. Mas não só. Em Barcelos surge outra cena. Não um movimento, dado que não estão todos sintonizados no mesmo estilo musical, mas uma "cena", já que começam a surgir imensas bandas por lá. Estes Black Bombaim são exemplo disso. O Stoner Rock está-lhes no sangue e nem vocalista precisam. O resultado é muito bom. 

20 março 2010

Joe Bonamassa – Black Rock (2010)

Para quem não sabe vem mais um super-grupo a caminho. Glenn Hughes (Trapeze, Deep Purple, Black Sabbath); Derek Sherenian (Dream Theater), Jason Bonham (Led Zeppelin) e Joe Bonamassa juntaram-se este ano em estúdio para gravar o primeiro disco dos Black Country.
Enquanto não conhecemos os resultados desta nova banda (cujo disco só deve sair lá mais para o final do ano), o guitarrista Joe Bonamassa não pára quieto e edita mais um álbum recheado de blues roqueiros ou roques da pesada com cheiro a blues.
Com influências que vão desde os Cream de Eric Clapton, passando pelos Fleetwood Mac de Peter Green até aos Led Zeppelin e Jimi Hendrix, Joe vai pondo "a mão na massa” construindo uma sólida carreira que vai fazendo furor em ambos lados do Atlântico. Há quem já lhe chame o novo Clapton, há quem lhe chame o líder da nova Blues Explosion. O que é certo é que o jovem guitarrista é, a par do conterrâneo John Mayer, um dos grandes responsáveis por uma nova geração descobrir os Blues com uma nova animosidade como já não se ouvia desde que apareceu um tal de Stevie Ray Vaughan.
Quanto a este Black Rock, o nono de estúdio, há aqui algumas faixas que tentam surpreender por novos caminhos. A começar com o melhor tema do disco: a versão do clássico de Leonard Cohen, “Bird on a Wire”. Já “Quarryman's Lament” que faz lembrar a fase bluesy dos Jethro Tull e até tem um solo de flauta a condizer.
Vislumbra-se também que o rapaz também andou a ouvir os últimos registos de Bob Dylan. “Baby You Got to Change Your Mind” é uma das muitas canções que Robert Zimmermann nunca escreveu.
Outros destaques e que também escapam da norma são a acústica “Athens to Athens” e as mais Zeppelinianas como “Blue and Evil” ou “Spanish Boots”. O resto do disco não destoa dos registos anteriores e só com um pouco de paciência é que se atura mais um “boogie-woogie” com travo a Soul como “Night Life” (dueto com B.B. King) ou um velho blues à moda de Chicago como “Look Over Yonders Wall”.
Mas como o pesado “Steal Your Heart Away” é um grande tema, Bonamassa pode dormir descansado que não vai perder os fãs pelos quais andou a trabalhar tantos anos. Afinal de contas, ele é mesmo o melhor “bluesman” branco a aparecer desde Stevie Ray.

19 março 2010

Eric Clapton – 461 Ocean Boulevard (1974)

Após a separação dos Derek and the Dominos em finais de 1970, Eric Clapton, o “Deus da Guitarra”, “Mr. Slowhand”, acabava de completar 25 anos, mas o seu historial parecia o de um homem de 40! Em cinco anos o jovem Clapton tinha um C/V inalcançável: primeiro com os “poppy”Yardbirds (64-65), depois com “os homens de barba rija” de John Mayall's Bluesbreakers (65-66) e mais tarde com os super-grupos Cream (66-69) e Blind Faith (69). Mas o auge é sem dúvida o disco Layla and Other Assorted Love Songs que gravou com os Dominos (sob a batuta do experiente Tom Dowd na produção) no lendários estúdios de Miami, Criteria Sound.
No entanto, o grupo acabou ao final de poucos meses e Clapton retirou-se da cena musical, tornando-se um perigoso heroinomano.
Durante 4 longos e penosos anos, Clapton apenas apareceu em palco duas vezes. A primeira foi no Madison Square Garden (1971), concerto organizado pelo amigo George Harrison a favor da vítimas do Bangladesh. A segunda, no “Rainbow”, Londres (1973), em jeito de “homenagem especial”, organizada por Pete Townshend, e a qual contou também com a presença de outros velhos comparsas como Ronnie Wood ou Steve Winwood.
Basicamente Clapton estava “feito em pedaços”, mal se aguentava em palco e estava todo “carcomido”. O destino fatal que tinha ceifado outras “Rock Stars” estava prestes a bater-lhe à porta. Até que aconteceu precisamente o contrário. Foi o próprio “Junky Clapton” a inscrever-se na clínica de reabilitação.
Meses passaram e o desejo de tocar e gravar voltaram espontaneamente. Chegou 1974, e com ele um “Slowhand” “renascido das cinzas”. Para começar a sua jornada musical voltou ao ponto de partida, ou seja aos estúdios Criteria juntamente com algumas caras familiares (o produtor Dowd e o ex-baixista dos “Dominos”, Carl Radle) e outras novas (a futura diva do “disco sound” Yvonne Elliman, o guitarrista George Terry, o teclista Abhy Galunten e o baterista dos roqueiros James Gang, Jim Fox).
Dai nasceu, “461 Ocean Boulevard”, considerados por muitos seu melhor disco a solo. Basta ouvir os primeiros acordes do enérgico “Motherless Children” para se perceber que a magia tinha voltado às mãos de Clapton. O guitarrista estava vivo e de boa saúde. O pior já tinha passado como mostram os temas sobre a dor e isolamento: as baladas “Give Me Strength” ou “Please Be With Me”. Mas no global, o som e o tom do disco são bastante positivos. Destaca-se aqui a vontade de explorar outras avenidas sónicas como o “reggae” (a versão de “I Shot the Sheriff” de Bob Marley ou “Get Ready”), o country (“Willie and the Hand Jive”) ou o Rock talhados para as estações FM, em plena ascensão nos E.U.A. e Europa (“Mainline Florida”).
No fundo, estão aqui todos os condimentos que seriam a sua “imagem marca” durante o resto das décadas de 70 e 80 e que o tornariam numa estrela global. Daqui para frente não faltariam certamente os discos de platina a adornar a sua sala nem os dólares a encher a sua carteira. No entanto, e tirando algumas raras excepções (algumas partes de “Journeyman de 1989 ou de “No Reason to Cry” de 1976), a carreira criativa de Eric Clapton (apesar do enorme sucesso comercial) não voltaria a chegar a este nível de concretização eficaz como em “461”. Um disco, que se escuta muito bem do início ao fim, sem grandes sobressaltos, cujo o som ainda se mantêm bastante “vigoroso” e “actual”. Uma verdadeira “obra de regeneração”.

18 março 2010

Radiohead - Amnesiac (2001)

Amnesiac foi lançado uns breves 8 meses após Kid A, sendo que ambos foram gravados no mesmo processo de criação (à excepção de "Life in a Glasshouse", única música gravada já após o lançamento do álbum anterior). Por essa altura, ainda toda a gente estava a tentar lidar com Kid A, a opinião pública (fãs e críticos, que naturalmente, vale o que vale...) estava completamente dividida, e os primeiros rumores eram de que tinha sido um mero devaneio e que Amnesiac seria, esse sim, o álbum a sério dos Radiohead de Ok Computer. Pois bem, se dúvidas houvesse relativamente à direcção escolhida pela banda, "Packt Like Sardines In A Crushd Tin Box", música de abertura deste álbum, acaba definitivamente com elas. Foi o demonstrar de uma forma clara que "there's no turning back", de uma forma bem simples, com uma batida electrónica, umas mescla de sons ambiente, zero guitarras e várias repetições da frase "I'm a reasonable man, Get off my case." Daqui arrancamos para uma excelente combinação de piano, cordas e voz em "Pyramid Song" (primeiro single a ser lançado desde 1998), que nos fala de um anjo de olhos pretos, de passado e futuro, e a mim me faz sentir num ambiente confortável, calmo, como se num sonho. 
"Pulk/Pull Revolving Doors" e "Hunting Bears" são os momentos mais abstratos do álbum, quiçá da inteira carreira dos Radiohead. Mas a meu ver, enquanto que a primeira é incómoda aos nossos sentidos, a segunda é um interessante exercício de minimalismo. Temos também no álbum uma versão alternativa de "Morning Bell", já presente em Kid A, "You and Whose Army?", em crescendo, e 2 músicas mais próximas de OK Computer - "Dollars & Cents" e "Knives Out". A terminar, os Radiohead nunca, mas nunca nos desapontam. "Like Spinning Plates" e "Life in a Glasshouse" formam como que um grand finale em duas partes, começando com um sentimento de termos entrando nalgum vortéx, em que tudo à nossa volta gira, para quando já nada esperamos entrar Yorke e a sua voz esplendorosa para nos tentar explicar um pouco o que é esse sentimento - Spinning Plates. Logo a seguir e ainda sem nos apercebermos bem o que foi aquilo, "Life in a Glasshouse" traz-nos um arranque calmo e suave em ritmo de free-jazz e leva-nos depois a um apoteose com trombone, clarinete e trompete a irromper com toda a sua magnitude.
Em resumo, este Amnesiac serviu para consolidar aquilo que Kid A trouxera: uns Radiohead inventivos e breakthrough (não consigo encontrar a palavra perfeita em português para traduzir isto) e que abriram portas para um mundo novo, o do pós-rock. Chega agora a melhor parte - a da audição. Carregando no play abaixo poderão recordar ou descobrir este excelente álbum.

Enjoy!

17 março 2010

Nirvana [UK] - The Story of Simon Simopath (1967)

Há muitos, muitos anos, ainda era eu um garoto imberbe, mesmo não tendo desenvolvido muito mais pilosidade desde então, deparei-me com uns discos esquisitos de uma banda que eu tanto apreciava. Estaríamos por volta de 1996. Nas minhas viagens de autocarro, seguidas de metro até à baixa lisbonense, a emoção era imensa para quem vivia numa espécie de redoma intocável como era a portela. As idas à Virgin às sextas eram míticas. Nunca me canso de apregoar que a Virgin tinha mais impacto do que a Fnac alguma vez o teve. Pela localização, pela quantidade e qualidade dos seus produtos. Muitos discos de exportação, juntando a um grande número de cassetes (sim VHS) de concertos que não se encontravam em lado algum, aliado ao facto de ter inúmeros livros de música e posters, coisa que já não era costume encontrar em Lisboa que vivia em estado comatoso em termos musicais. A fase pimba já tinha deixado as suas marcas na música nacional (morte a ti, Carlos Ribeiro). Enquadrando o tempo e espaço a este review vamos, então, partir para essa descoberta há cerca de 15 anos  em pleno Éden nos Restauradores. 
Ao correr a letra N à procura de discos de Nirvana de Kurt Cobain, vi umas capas que nunca tinha visto na vida e com os seguintes nomes: The Story of Simon Simopath, All of Us e Orange Blue. Seriam, decerto, "bootlegs" como os sobejamente conhecidos Outcesticides, compostos por demos ou músicas ao vivo. Não lhes liguei muito. Vivia um certo Cold Turkey em relação a Nirvana. Sentia falta deles mas tentava sair dessa fase da minha vida. Essa foi o meu primeiro contacto com esses Nirvana. Noutra incursão à loja de Richard Branson resolvi dar outra espreitadela e tal não foi o meu espanto quando reparei nas datas dos referidos discos. 1967, 1968 e 1996. Muito estranho para uma banda que surgiu no fim dos anos 80 e acabou a meio dos 90. Haveria outra banda chamada Nirvana? Pesquisei em revistas e artigos que guardara ao longo dos meus anos de vício em Nirvana e descobri que estes Nirvana ingleses dos anos 60 tinham processado os homónimos americanos após o lançamento de Nevermind. Ninguém saiu queimado deste caso e os velhinhos Nirvana acabaram por se juntar para gravar "Lithium" como jeito de tréguas. 
Continuei sem lhes dar muita atenção, a Britpop estava ao rubro e rapidamente me esqueci, relativamente, de ambos Nirvana. Até que um certo dia resolvi dar uma atenção devida aos originais britânicos e descobri dois grandes álbuns. Muito bons mesmo. All of Us (1968) e este Simon Simopath de 1967. 
The Story of Simon Simopath é um disco do seu tempo embora a sua audição nos dias de hoje é, por vezes, refrescante. Gravado para ser um álbum conceitual, Simon Simopath é, a exemplo de Sgt Pepper, uma tentativa de trazer o surreal e o barroco para a música, mas acabando por ser apenas uma colecção de grandes músicas alinhavadas mais por um espírito do que um conceito por si.
Após os dois primeiros álbuns, a banda de Patrick Campbell-Lyons e Alex Spyropoulos andou um pouco à deriva pelos meandros do jazz-rock e rock-experimental tendo um fim rápido, apenas tendo uma breve ressurreição nos anos 80. Mais que um disco essencial ou pérola perdida, Simon Simopath é mais uma boa obra dos anos 60 que merece ser ouvida aqui e ali...

Owen Pallett - Teatro Maria Matos - 11.03.2010


(fotos by Du, texto by Alex)

Owen Pallett @ Teatro Maria Matos, 11.03.2010

Vou começar a crónica deste concerto pela primeira parte. Só na altura descobri que iria haver uma primeira parte, e penso que no concerto do dia anterior tal não tinha ocorrido. Uma banda de nome Ava Infari. A grande maioria das pessoas não gosta das primeiras partes, mas eu por acaso nutro alguma curiosidade. Tento perceber o que fez com que esta banda tenha conseguido este slot, com a convicção de que o artista principal tenha tido algo a ver com aquilo. Pois bem, na passada 5ª feira esta minha ideia foi estilhaçada por um grande erro da casting de alguém (e não me pareceu ser do Pallett, que no seu concerto até gozou com a coisa) que decidiu colocar uma banda de metal doom gothic a abrir este concerto. Seria de chorar a rir, não fosse a total ridicularidade da coisa. 1/3 da sala levantou-se e saiu. Outros conversam a alta voz, ouviam iPods. Desconexão total. Uma tristeza (falarei sobre esse mundo paralelo que é o metal num post futuro).

Bem, vamos ao que interessa: Owen Pallett. Pois muito bem - foi um excelente concerto. Mais uma noite que a memória não esquecerá, pelas maravilhosas canções que nos remetem para um universo imaginário onde tudo pode acontecer. Já não é um one man show, uma vez que se faz acompanhar em vários momentos por Thomas Gill que ajuda (dentro da sua notória timidez) com voz e percussão. Mas é Pallett que controla tudo, o seu violino, a sua voz (voltando a iniciar a música quando não sai quando ele quer), o seu sampler e o seu pequeno órgão e com todas estas peças monta o puzzle que é cada uma das suas músicas. Tudo combinado em melodias pop únicas, com devida interacção com o público, partilhando o seu gosto pelo queijo português, sentindo-se bastante à vontade na cidade que segundo o próprio foi onde escreveu grande parte de "Heartland", o seu mais recente álbum, e naturalmente também o mais tocado. "Keep the Dog Quiet", "Flare Gun" e "This Lamb Sells Condos", com toda a sua intensidade, acompanharam-me desde que saí da sala até casa e no dia seguinte. O violino aparecia, depois juntava-se a voz e assim passei o dia, dividido entre o universo Pallettiano e o mundo real. E soube muito bem.  

16 março 2010

Ölga - Teatro Aberto - 13.03.2010


Por incrível que pareça, e apesar de seguir esta banda há já uns bons 6 anos, nunca tinha conseguido ir ver um concerto deles. Ia sempre seguindo o site, atento às (poucas) datas dos concertos (sintomático da aposta que (não) é feita nas bandas nacionais) e cada vez que aparecia uma oportunidade, acabava logo esmagada pela minha impossibilidade por algum motivo. Por isso, foi com grande ansiedade que esperei por este concerto, que teve como motivação adicional o facto de ser o lançamento do novo EP da banda, denominado "Samurai". E tenho a dizer que esteve à altura das minhas expectactivas, deram um concerto bastante competente, e que entusiasmou as 170 pessoas entre fãs e amigos que lá foram conhecer o novo registo, que no fundo representa a 2ª parte de uma trilogia, iniciada com o álbum do ano passado, "La Résistance". A evolução da banda de terrenos no pós-rock de início de carreira para um indie rock psicadélico actualmente tem sido bem cimentada e no palco estão bastante à vontade em qualquer tema, tendo inclusivamente deixado para o final uma música para dançar (não fosse o facto de haver cadeiras e assim seria, vontade não faltou) ao som de "Paul Simon", música virada para o ritmo do cantor que dá nome à música. "Take Us All", "Money" e "Elephants" também foram momentos altos da noite, com a devida intensidade e bem acompanhados pelo trabalho de projecção de Miguel Lopes, que providenciou um bom ingrediente para acompanhar o concerto. Deixou vontade para os ver novamente, assim que a oportunidade surgir!

15 março 2010

Yo La Tengo - Aula Magna - 14.03.2010

(fotos by Du, texto by Alex)

A vontade de fazer aqui estas análises do concerto leva-me a ir pensando no que escrever no dia seguinte sobre o mesmo. E a grande palavra que me veio à cabeça para definir este concerto e a própria banda foi versatilidade. Por um lado versatilidade dos elementos da banda, acaba uma música e troca tudo, o guitarrista (Ira Kaplan) passa para os teclados, a baterista (Georgia Hubley) passa para a guitarra e o baixista James McNew para a voz. Outra música, outra mudança. Todos tocam um pouco de cada instrumento, facto a que não será alheia a experiência acumulada ao longo dos 25 anos de carreira que já levam. Por outro lado, versatilidade no próprio som da banda, é impossível colocar-lhes um rótulo. Num concerto (e também num álbum) de Yo La Tengo temos momentos lo-fi, momentos de guitarras frenéticas, momentos acústicos, momentos dançaveis. E saltamos de um para outro com a maior naturalidade do mundo, porque realmente faz sentido para quem sabe tocar várias cordas. Foi uma noite também marcada pelo momento "No you won't..." frase proferida por McNew ao aperceber-se do que estava Kaplan a preparar, nada mais nada menos do que uma música tocada sentado na confortável cadeira da 1ª fila. São pequenos momentos como este que nos fazem lembrar dos concertos que assistimos!

O setlist foi mais focado no álbum mais recente, "Popular Songs", como seria de esperar, o que para mim foi uma boa opção dado que já conheço bem os últimos 3 álbuns e estou a descobrir pouco a pouco os mais antigos. O rock forte em "Nothing to Hide", as baladas "I'm on My Way" e "Avalon or Someone Very Similar" e a mais pop "Periodically Triple Or Double" que abriu o concerto, junto com a "Our Way to Fall" foram para mim os momentos mais altos. Se bem que aquela devastação de som, guitarras desafinadas, teclados que compõem "The Story of Yo La Tango" (não é gralha, é mesmo Tango), antes do primeiro encore foi algo de estonteante.

Deixo aqui a memória de um post altamont relacionado com esta banda. Algo para a posterioridade. Whatever that is...

14 março 2010

Broken Bells - Broken Bells (2009)

Broken Bells é o primeiro álbum homónimo da nova banda de James Mercer (The Shins).
Para quem estava a salivar por um novo álbum dos Shins, este trabalho vai certamente matar saudades.
No entanto, James Mercer soube inovar com este projecto paralelo. Broken Bells tem um flavour electrónico e experimental - Brian Eno como referência, segundo consta - que o distancia, na positiva, do indie pop inspirador dos Shins.
Em jeito de trivialidade inútil como gosto de fazer, Michael Moore, o brilhante documentarista, ficou fã da banda durante a sua recente hospitalização. Segundo o realizador, em entrevista no late night, o seu médico usou "Broken Bells" como banda sonora durante o operatório e isso ajudou muito na recuperação do sua apendicite.
Ainda estou refastelado no sofá a digerir este agradável "Broken Bells" e certamente voltarei a ele brevemente.

13 março 2010

Isto é Potente

Relacionado #48

Já está disponível para audição, embora sem vídeo oficial, o primeiro single do novo disco dos MGMT. Não se afastando muito do espírito do primeiro disco, Oracular Spectacular, a banda de Brooklyn soa mais madura e confiante. Um dos bons regressos previstos para este 2010. Aqui fica "Flash Delirium".

12 março 2010

Radiohead - Kid A (2000)

Ano 2000. Já tinha passado a possibilidade de o mundo acabar na mudança de milénio, e o pânico lançado pelo "montanha pariu um rato" bug Y2K. Já a população do mundo e especialmente a que habita os Estados Unidos da América pensava que tudo não tinha passado de uma grande esquema para alarmar o pessoal, levá-los a frenesim consumista de armazenamento de bens de primeira necessidade, quando, já o ano ia em Outubro, acontece o verdadeiro choque que abanou a Terra - o lançamento deste Kid A. Ninguém estava à espera de uma mudança tão radical de registo após OK Computer e como tal este álbum foi encarado como tendo apenas um objectivo - diminuir a sua base de fãs e com isso conseguir reduzir o desgaste causado pelo sucesso, as tours, as necessidades de promoção, com as quais Thom Yorke nunca lidou bem. Mas isto não passou de uma primeira reacção histérica, que eu próprio, posso admitir, também senti quando primeiro coloquei os ouvidos neste Kid A. É que na realidade este ábum faz todo o sentido e encaixa totalmente na evolução de uma banda que nunca foi de fazer mais do mesmo, mas sim de procurar caminhos diferentes para evoluir, experimentar, sem receios de que críticos e fãs deixassem de gostar deles. Mas esta não foi (mais uma vez) uma decisão consensual no seio da banda, e chegou mesmo a ameaçar que a mesma terminasse, uma vez que enquanto Yorke e Jonny Greenwood queriam ir por algo cada vez mais experimental, os restantes membros estavam mais virados para um seguimento simples de Ok Computer. No fundo, os Radiohead dão a ideia que precisam deste conflito interno para trazer ao de cima o melhor deles mesmo, e o processo de gravação de Kid A não foi diferente dos anteriores. O resultado, esse sim, é que foi diferente. Afinal de contas, o mundo também já estava bastante diferente.
 Este experimentalismo, inovação, está presente nas várias faixas do álbum. No ambiente sónico com várias vozes sampladas à volta da voz de Yorke em "Everything In Its Right Place", voz esta que foi totalmente transfigurada para "Kid A", a acompanhar uma melodia com aparência infantil. O baixo no ínicio de "The National Anthem", acompanhado com o som de um Ondes Martenot usado por Jonny Greenwood que desaguam numa forma de free-jazz bastante intenso. O exercício de "Treefingers", que mais não é do que o feedback da guitarra de Ed O'Brien trabalhado e organizado por Yorke no seu computador. O atirarem-se para fora de pé, mais concretamente ao campo da música electrónica com uma forte influência de uns Aphex Twin em "Idioteque", para depois terminar o álbum com a tranquilidade aparente de "Morning Bell" e "Motion Picture Soundtrack", esta última uma música que foi escrita para "Pablo Honey" e foi sendo sucessivamente adiada a sua presença em disco.
É um disco que a cada ano que passa me parece melhor, realmente inovador e que serviu para virar uma página na história da banda. E da história da música também.

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Aqui está o hype do momento - a nova música dos The National, mostrada anteontem ao vivo no Jimmy Fallon. Chama-se "Terrible Love" e é a primeira amostra de "High Violet", disco que irá sair em Maio próximo.

10 março 2010

Half of what I say is meaningless, but I say it just to reach you Someone-who-certainly-is-not-in-this-room(or-eventualy-is-but)

Peço desculpa ao André Sousa. Exaltei-me, por vezes sou um tipo emotivo.
No entanto a minha opinião em relação ao que me expressei mantém-se, e por não ser capaz de pertencer a algo com o qual não me identifico, deixo assim de escrever neste blog.
Qualquer rubrica pendente será deixada a cargo desta pessoa.


09 março 2010

Norberto é Lobo e é bom.

Queria fazer uma crítica ao último álbum dele mas não tenho categoria para fazê-lo, não tenho conhecimentos não domino a coisa não sei o que é um fá sustenido nem sei se existem fás sustenidos ou se isso foi apenas uma coisa que ouvi dizer por aí, o que sei é que o concerto de Norberto Lobo no último sábado na culturgest foi das coisinhas mais emocionantes que já presenciei e durante aquela hora e pouco senti o meu corpo entregue às probabilidades das coisas e é isso que se quer quando se entra numa sala de espectáculos ou uma sala de cinema, ou o que o valha, queremos deixar-nos ir e voar por cima de tudo o que para nós é memória e desejos de futuro e imaginarmos que aquele que toca está a tocar para ti.

Mudar de bina é o primeiro álbum dele a solo e Pata Lenta é o segundo, ele que antes já integrou e integra noutros projectos como os Munchen, os Norman, os Tigrala ou os Xamã, a primeira banda leva trema mas eu tremas não sei fazê-los. Ao ouvir Norberto penso em John Fahey e inevitavelmente em Paredes e em tudo o que é português e rural e penso em vídeos mudos de super-8 caseiros com os putos a darem voltas em triciclos e penso também em ervas daquelas altas a abanarem ao vento, mas estamos dentro do carro por isso não se ouve o vento mas pensa-se no vento.

E também no dia seguinte, penso em todos os dias seguintes.

E sendo assim deixo aqui um exemplo e um convite para o concerto na sexta-feira na zdb.


08 março 2010

Kasabian - West Ryder Pauper Lunatic Asylum (2009)

Após o êxito de singles como Club Foot, L.S.F. Cutt Off e Empire, estão de volta com um álbum que serve com um óptimo aperitivo para os festivais de verão.
Com a saída de Chris Karloff, teclista, guitarrista e compositor da maioria das músicas de Kasabian, aguardava-se com expectativa qual seria o rumo a seguir por esta banda inglesa. No álbum Empire, Karloff, chegou a escrever três músicas.
O disco começou a ser trabalhado em 2007, ano em que saíram dois singles, Fast Fuse e Thick As Thieves, que fazem parte do trabalho lançado em 2009.
Recomendo vivamente o presente álbum, nomeadamente as faixas “Underdog”, “Where Did All the Love Go?”, “Fast Fuse”, “Vlad the Impaler” e “Fire”.
Eleito como melhor álbum, pelo NME Awards no dia 24 de Fevereiro de 2010. Teremos oportunidade de ouvir os Kasabian no Optimus Alive no dia 8 de Julho de 2010.

Sem palavras


Tigrala from ivan goite on Vimeo.

07 março 2010

Palavras ao Ouvido#4 - Shakira - "Hips Don't Lie"



Afastou com precisão o dedo anelar do mindinho. Fez aquela pausa como se num segundo o seu cérebro alojasse um naufragado frágil. Tinha feito um bolo de chocolate na quinta-feira e lembrava-se de riscar o fundo da panela ao raspar o resto do creme. Tinha usado aquela mesma faca pois o resto da louça estava na máquina e não gostava de interromper as tarefas a meio. Não, não teria segundos pensamentos quanto ao que fazer. Num gesto fluído separou o anelar do resto do corpo: com isto uma chusma desordenada de sangue começou a brotar da ferida. O homem enorme tinha o grito preso nos olhos. Como o sangue não era asseado, não tinha maneiras, teve mesmo que interromper o seu pequeno projecto sociológico para ir buscar uns jornais velhos. Entre a maca, que era já mais uma esteira meio roída pelo Inverno, e a parede, havia muito pouco espaço. Ainda assim, ela conseguia rodopiar, como se dançasse pelo pequeno corredor que a levava do quarto à cozinha. Junto ao forno havia uma pilha de jornais velhos. Limpou de imediato o sangue da faca ao primeiro do topo. Agachada em frente ao forno apenas teve que pressionar o botão vermelho para acender a luz. No seu interior o frango ainda nem começava a estar corado pelo que tinha ainda algum tempo. Só faltava o molho que era muito fácil de fazer e pôr a mesa. De qualquer forma os convidados podiam ajudá-la a fazer isso caso se atrasasse um pouco. Tinha um set novo de pratos amarelos com flores em azul comprados no supermercado, mas que faziam as vezes de um serviço fino. Com pés leves passou aos saltinhos pela sala sempre atenta aos possíveis pinguinhos de sangue que pudessem cair e coagular no soalho de tacão. Não suportava que o sangue coagulasse, isso era o que podia diferenciar um bom dia de um mau dia. Reentrou no quarto e começou a limpar o sangue caído numa enorme poça junta à mão do enorme senhor. Só as contracções da tábua respiratória dele, chamada o peito, indicavam a dor como uma música secreta de músculos. Ele não era má pessoa, era apenas um analfabeto corporal. Pelo menos era o que ela pensava. Mesmo agora, já com apenas quatro dedos na mão esquerda, retorcia-se sem ritmo, como se não soubesse sofrer com estilo. Desfolhou o “Correio da Manhã” e com duas páginas limpou o sangue que começava a formar um carreiro. Junto à mesa onde estava o retrato da avó falecida há muito, o anelar decepado parecia um caracol. Pegou noutra página e leu distraidamente uma notícia sobre o começar da Primavera. Com ela enrolou o dedo e colocou-o na gaveta com carinho. Ele olhava-a com a expectativa de quem poderia ficar a qualquer momento com menos corpo. Ela pensava que ele dançava bem e que tudo o que acontecesse de agora em diante não iria pôr essa sua qualidade em risco. Mas ele tinha dito palavras que vinham de outro país, estrangeiras, e nelas estava acorrentada a vontade de dançar a dois. Não que não quisesse, não que o seu próprio corpo mentisse quanto à vaga ideia que se lhe havia formado naquela noite quanto a ser penetrada por aquele animal. Mas as palavras dele, sempre as palavras, tinham vindo a uma velocidade superior. Uma velocidade que se tivesse sido corporal tinha apenas desencadeado um abraço lento, daqueles com que se começa. Mas, “és muito bonita” tinha sido faca suficiente para aquele momento. E foi fatal. A sua saia branca com bolinhas pretas estava imaculada e deixava-o entrever o joelho. Ela tinha vontade de o ouvir falar agora. Irónico certamente que o deixasse falar naquele momento mas porque pensava que ele não pudesse já ser hipócrita. Sim, ela agora já não seria bonita, seria um ser medonho com um vestido belo. Uma deusa com uma faca brilhante a ponderar o que fazer com aqueles 100 kilos de carne negra. Tinha quase a certeza que ele choraria e pediria perdão, sem saber do quê. Por isso, ligou o rádio e foi com jazz que pegou novamente na faca. Garganta ou coração? Quinze segundos depois decidiu-se. Garganta. Porque o corpo não pecara, porque o coração só corria sem saber para onde. Sem mais, fez um corte limpo e ele esbracejou numa última vivacidade sem estilo. Animais a viver e a morrer: que desinteresse. Não se sentia culpada. Afinal tinha sido apenas um problema de comunicação. Como milhões de outros.

O gato amarelo lambia a faca que tinha entretanto caído ao chão e o dia avançava lentamente. Pensou se sairia naquela noite outra vez. Apetecia-lhe. Mas agora era tempo de se preparar para o almoço. Tinha um homem morto no quarto das visitas e embora não tivesse ouvido o alarme podia jurar que o frango estaria certamente já cozinhado.

05 março 2010

Seguramente Relacionado com o post anterior

E depois metem-me dois grande concertos no mesmo dia. A passada 6ª feira foi marcada por concertos de Bill Callahan (Festival Gente Sentada) e The Fiery Furnaces (Santiago Alquimista). O que é que aconteceu? Arrastei a díficil decisão de optar por um deles e quando dei por mim estavam os dois esgotados e fiquei a ver navios. Isto não se faz. Metam alguém a gerir a agenda a nível nacional para que isto não volte a acontecer, pelo bem da minha saúde. Para carpir mágoas, nada como deixar-me perder nos dois vídeos que aqui vos deixo. Bill Callahan com "Eid Ma Clack Shaw", a frase que diz tudo, e The Fiery Furnaces em registo Blogothèque.

Enjoy!



Concertos em Portugal

Aqui venho apresentar o meu manifesto sobre a situação em que se encontra a indústria de organização de concertos no nosso país. Acho que é um assunto onde claramente podemos inquirir: "Não há quem ponha mão nisto?"
Para começo de conversa, parece que estamos perante uma situação de oligopólio, no qual duas majors, Everything is New e Música no Coração, dominam o mercado a seu bel prazer, tirando alguns eventos mais apontados a nichos de mercado (Paredes Coura sendo o mais representativo) e tirando o supermercado aos fins de semana que se denomina de Rock in Rio. Aonde é que isto nos leva - a uma guerra entre as tais majors, que se mais não fazem do que preocupar-se única e exclusivamente em roubar público à outra, que tem como consequência a repetição até à exaustão de concertos por estas bandas. Evidence A - os concertos de xx e La Roux nos festivais e em nome próprio separados apenas por 2/3 meses. E o público que deseja concertos diferentes, novas bandas? "Que se lixem esses, eles não sabem o que querem, nós, a Nobreza da organização dos concertos em Portugal é que sabemos!" Pois bem, sinto poder falar em nome próprio e tenho a dizer o seguinte - Não brinquem comigo! O que eu quero é inovação, novidade e bandas de música a sério.
Senhores do Super Bock - The National já cá vieram 4 vezes nos últimos 3 anos. Cut Copy já cá vieram, John Butler Trio e Temper Trap idem. Palma's Gang? Nem vou comentar... 
Senhores do Optimus - Faith No More vieram cá o ano passado. Gossip agora é todos os anos? Gogol Bordello ainda há 2 anos. LCD Soundsystem e Pearl Jam maravilha, mas mesmo assim, cromos repetidos. Kasabian - repetidos.
Olhar para estes cartazes faz mesmo lembrar aquele sentimento de criança de abrir as carteirinhas dos cromos e serem todos repetidos, uma tristeza. Onde andam os Foals, os Fanfarlo, os Spoon, os Pavement reunidos, os Fleet Foxes, os Japandroids, os Girls, os Them Crooked Vultures, os Broken Social Scene (já cá vieram mas há muitos anos e em Coura, só podia), os Noah & The Whale, os Ra Ra Riot, os Black Kids, os Delta Spirit, o Bon Iver, o Beirut, os Akron Family, os Dinosaur Jr.?
Sou eu que estou mal, admito. Ao reler este post é a conclusão a que chego. No fundo não quero que estas bandas venham cá em festivais, que se lixem os festivais, quero concertos em nome próprio em locais amistosos como Aula Magna e Coliseu. Será que há espaço para uma produtora de concertos independente em Portugal, que me veja como um nicho de mercado e faça os concertos que eu quero, onde eu quero?

04 março 2010

Diabo na Cruz - São Jorge - 03.03.2010



Boa noite nós somos o diabo na cruz, diz o Jorge, também cruz, nas boas vindas ao São Jorge. Muita gente, sala quase esgotada, para ver o primeiro grande concerto em Lisboa.
O grupo é o Jorge Cruz, Bernardo Barata, B Fachada, João Gil e João Pinheiro, cada um deles já com trabalhos e vários anos de música. A música que fazem está entre o rock punk e o lore, folclore, tradição lusitana. Alguém classificou esta banda como "quinta do bill meets zeca afonso". Também é uma boa definição. Há várias definições, mas isso não é o que interessa. Interessa sim o som que resulta dali, músicos com passados e contextos musicais diferentes, com uma ideia mais ou menos definida, e com o firme pensamento de Há Meninas à Espera Vamos Lá Pôr Isto a Andar.
Já conhecia o disco, e já tinha visto ao vivo no Musicbox, mas o concerto de ontem superou tudo isso. Tocaram músicas novas, e também as do disco, donas ligeirinhas e afins, e mostraram que estão aí, chegaram.
Pelo que me pareceu ontem, este diabo pode ir longe, tem o potencial para se tornar um caso sério. Pegam na tradicionalidade lusitânica juntam-lhe guitarras frenéticas, umas teclas versáteis - às vezes fazia lembrar "Riders on the Storm", outras lembrava quase Daft Punk. A bateria é a convencional, mas depois tem um enorme bombo, rufo, cujo som faz lembrar tempos medievais.
E o som que do palco sai às vezes leva-nos a esses tempos, idade média, tiro com arco, bobos da corte..
Essa lusitanidade é muitas vezes transformada em puro rock, seattle anos 90, londres anos '70, '80, 2030...
O que me faz elevar o diabo na cruz a superbanda é não só a qualidade e a agradibilidade da música, mas também é a versatilidade, não se fecham num só conceito, e querem inovar. Mesmo que não inovem na música em geral - eu acho que sim, poucas coisas terei ouvido na vida que me soassem assim - inovam na sua música. No concerto de ontem percebi isso com duas ou três músicas novas.
Deixo, portanto, a recomendação de uma boa banda, um bom projecto, que pode vir a bem maior e deixar marca.

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Os Foals estão de volta! Depois do excelente "Antidotes", vão no dia 10 de Maio lançar "Total Love Forever", o seu segundo álbum e a partir de hoje está disponível uma primeira amostra, de nome "Spanish Sahara". Algo diferente do registo anterior, não deixa de me deixar ainda mais intrigado com o que aí vem... Ò senhores dos festivais, porque é que andamos a repetir ano após ano bandas que já cá vieram e ninguém se lembra destes? Cambada...

Será que os animais também têm dores de cabeça? (porque haveriam de ter, porque haveriam de não ter?)

02 março 2010

Agenda de Março

O mês de Março apresenta uma grande oferta de bons concertos, principalmente para os amantes da música alternativa, como nós. Nomes como Yo La Tengo, La Roux, Beach House ou Florence & the Machine são apenas algumas das opções em cartaz. Também Owen Pallett, amigo dos Arcade Fire e que antes se apresentava como Final Fantasy, vai subir 3 vezes ao palco este mês. Os franceses Nouvelle Vague também estão em destaque, com 5 concertos por nossas terras. Do lado lusitano, o mês começa praticamente com Manuel Cruz e B Fachada com o projecto Diabo na Cruz, mas também The Legendary Tigerman estará em digressão nacional. Seguem algumas das principais sugestões a não perder para Março.

Agenda:

3. Diabo na Cruz - Cinema S.Jorge, Lx
4. Adam Green - Santiago Alquimista, Lx
5. Diabo na Cruz - Passos Manuel, Porto
8. Joan Baez - Casa da Música, Porto
10. Joan Baez - Coliseu, Lx
10. The Cranberries - Campo Pequeno, Lx
10. Owen Pallett - Maria Matos, Lx
11. Owen Pallett - Maria Matos, Lx
12. Owen Pallett - C.C. Congressos, Aveiro
13. La Roux - Lux, Lx
13. Fischerspooner - Teatro Sá da Bandeira, Porto
14. Yo La Tengo - Aula Magna, Lx
15. Yo La Tengo - Casa da Música, Porto
16. Florence & the Machine - Aula Magna, Lx
17. Beach House - Lux, Lx
18. Beach House - C.C. Vila Flor, Guimarães
20. Sofa Surfers + Blasted Mechanism + outros - Casa da Música, Porto
22. Sweet Billy Pilgrim + Portico Quartet - Teatro S.Luiz, Lx
24. Nouvelle Vague- C.A.E., Guimarães
25. Nouvelle Vague - Teatro A.Gil Vicente, Coimbra
25. B Fachada - Galeria ZdB, Lx
25. The Legendary Tigerman - Teatro do Campo Alegre, Porto
26. Nouvelle Vague - Olga Cadaval, Sintra

The XX, La Roux e Simian Mobile Disco @ Optimus Alive!

The XX, La Roux e Simian Mobile Disco são as mais recentes confirmações para a quarta edição do festival Optimus Alive! Esta tarde, em Algés, a promotora do evento, a Everything is New, anunciou estes três projectos britânicos, todos a actuar no palco secundário, o palco Super Bock. O festival vai decorrer, como habitualmente, no Passeio Marítimo de Algés, nos dias 8, 9 e 10 de Julho.

O cartaz até à data:

8 Julho
Palco Optimus
Kasabian
Phoenix
Palco Super Bock
The XX
La Roux

9 Julho
Palco Super Bock
Gossip

10 Julho
Palco Optimus
Pearl Jam
LCD Soundsystem
Gogol Bordello
Palco Super Bock
Simian Mobile Disco

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Não há muitas bandas que tenham que esperar 10 anos para começar a ver o seu trabalho recompensado. Este é um desses casos, os Still Life Still são uma banda canadiana formada em 1999, numa altura em que os seus membros tinham a tenra idade de 13 anos. Uma brincadeira de amigos, natural da idade, chamem o que quiserem, mas para se estar 10 anos juntos é preciso algo mais forte. E em 2008 tiveram a sorte de cair nas boas graças de Kevin Drew, o grande mentor dos Broken Social Scene, que produziu o seu primeiro álbum, "Girls Come Too", lançado em Agosto do ano passado. Aqui fica uma boa amostra do álbum, de nome "Danse Cave".

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Esta entrou ouvido dentro durante o filme visto ontem. Um clássico já bastante utilizado em cinema e um dos grandes símbolos da geração Paz e Amor, aqui fica "Somebody to Love", dos Jefferson Airplane.

01 março 2010

Desrelacionado #4

Tommy Emmanuel, um dos melhores guitaristas da actualidade, metralhando notas com mestria.Go Tommy - Teraaaatatata!
(Ouve lá isto, Ico...)

iFrod Shuffle 01-03-10

Relacionado #47

Já se encontra disponível o segundo disco de originais de uma das bandas que melhor impressão me causou o ano passado, os britânicos Blood Red Shoes. "Light It Up" é o primeiro tema a ser extraído de Fire Like This.

Relacionado #46

Deixo-vos aqui com "Rivers of Babylon", cover dos Boney M pelos Texanos Sunset.



The Fiery Furnaces - Santiago Alquimista - 26.02.2010




(Fotos por Duarte Pinto Coelho)

Relacionado #45

Inspirados pelos Shins, Beach Boys e John Lennon, os Morning Benders, banda de Berkeley, lançam em 2010 o seu segundo disco, Big Echo. Deixo-vos este "Excuses", gravado em São Francisco, com um ambiente muito "Phil Spector".

O fahey faz-me lembrar tectos. sabem, quando estamos deitados na cama a olhar para o tecto, quando qualquer um serve, embalados por uma música triste.